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Depressão. Os homens vivem em silêncio e demoram mais tempo a procurar ajuda /premium

Procuram menos ajuda e usam uma linguagem mais cinzenta. Os preconceitos de que um homem não pode chorar ou mostrar fraqueza têm um impacto real. Pedro Lima terá sido uma das vítimas.

A morte de Pedro Lima, no último sábado, apanhou os portugueses de surpresa. Nada fazia prever aquele desfecho, com a despedida inesperada de um ator muito conhecido no pequeno ecrã (e não só) a relançar o debate em torno da depressão e do suicídio — ao que tudo indica, Lima terá enviado mensagens de despedidas a amigos antes de ser encontrado sem vida na praia do Abano, no Guincho.

Ator Pedro Lima enviou mensagens de despedida a amigos

Poucas horas após a notícia, nas redes sociais começou a circular uma imagem — que garantidamente não é nova — que mostrava alguns rostos conhecidos do público em geral, onde Kurt Cobain surgia na companhia do ator Robin Williams e de Anthony Bourdain. A legenda da imagem que pretende alertar para a necessidade de não julgar alguém doente dizia qualquer coisa como: “É a isto que a depressão se assemelha”.

“Doença mental não é fraqueza de carácter”

Em 2019, mais de 700 mil pessoas residentes em Portugal apresentavam sintomas depressivos e cerca de 170 mil não tinham a quem recorrer em caso de problema pessoal grave, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) divulgados esta sexta-feira. De acordo com o Inquérito Nacional de Saúde 2019, 8% da população residente em Portugal com 15 ou mais anos (716 mil pessoas) registava sintomas depressivos, tal como noticiado pela Lusa. Dessas 716 mil pessoas, cerca de 60% apresentavam sintomas depressivos ligeiros e 40,2% manifestaram sintomas depressivos graves. Cerca de 70% das pessoas com sintomas depressivos eram mulheres.

Oito por cento da população apresentava sintomas depressivos em 2019

Embora a depressão seja mais prevalente nas mulheres do que nos homens, essa pode ser uma realidade enviesada porque eles procuram menos ajuda do que elas. “As mulheres estão mais à vontade para exprimir o seu sofrimento e isso deriva, muito provavelmente, de alguns estereótipos de género que existem na sociedade”, diz ao Observador David Neto, presidente do conselho de Especialidade de Psicologia Clínica e da Saúde da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP). As ideias culturalmente enraizadas de que um homem não pode chorar ou mostrar fraqueza podem ter um impacto real. Daí que haja também uma maior prevalência de consumos (álcool e drogas) nos homens. “Em parte, é mais aceitável um homem afogar as mágoas num copo do que procurar expressar o que sente”, continua Neto. Mas o simples de facto de não se abrir o jogo com outras pessoas (amigos ou familiares) pode ajudar a prolongar o sofrimento além do necessário — e há quem sofra uma vida inteira sem oportunidade de receber ajuda.

Tendo em conta a respetiva experiência profissional, David Neto faz uma observação empírica: é mais comum os homens procurarem ajuda quando há um pretexto associado à depressão, como ter dificuldades no trabalho. São queixas mais operacionais e centradas num problema, ainda que as diferenças entre género rapidamente sejam desconstruídas em ambiente de consultório. Também numa fase inicial os homens apresentam menos linguagem emocional. “Costumo dizer que as mulheres sentem-se tristes e envergonhadas, os homens sentem-se chateados. Eles têm o vocabulário e o reconhecimento das emoções, mas em termos de expressão parece mais aceitável usarem uma linguagem neutra ou cinzenta”, explica.

“As mulheres estão mais à vontade para exprimir o seu sofrimento e isso deriva, muito provavelmente, de alguns estereótipos de género que existem na sociedade.”
David Neto, presidente do conselho de Especialidade de Psicologia Clínica e da Saúde da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP)

O “estereótipo que se concretiza” pode traduzir a expetativa de um comportamento: enquanto a mulher com um problema vai falar com a amiga, o homem vai beber um copo com os amigos. Mas, insiste o psicólogo, isto esbate-se à segunda consulta. “O homem pode beneficiar tanto de ajuda como a mulher. Isto são só estereótipos superficiais e, no espaço de ajuda psicológica, as diferenças esbatem-se. No contexto de ajuda existe igual permissão para chorar.”

“Enquanto sociedade somos muito conservadores. [Há a ideia de que] o homem não chora e não deve mostrar as suas vivências emocionais. Há uma certa desconsideração que leva os homens a inibirem as emoções”, reforça Horácio Firmino, diretor de serviço de psiquiatria do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra. Nesse sentido, pode dar-se o caso de o homem viver em sofrimento e em silêncio. “A mulher procura mais e mais precocemente ajuda perante alguma dificuldade em lidar com as suas emoções. A nossa casuística mostra que a maioria das consultas são com mulheres”, confirma. Por norma, é a pressão da família ou quando se alcança um limite — em que há, por exemplo, desesperança ou uma visão negativa do futuro — que faz com que os homens procurem ajuda.

“O que é importante é aprendermos que a doença mental não é fraqueza de carácter”, diz Horácio Firmino. “Sem dúvida que há algum estigma, mas menos do que há 30 ou 40 anos, quando o psiquiatra era alguém que tratava a loucura. Digo a brincar que nunca tratei um louco, mas sim pessoas com problemas.”

É preciso lembrar: a depressão é uma perturbação caracterizada pela tristeza, pela falta de energia, desmotivação, incapacidade em sentir prazer e alterações no apetite e no sono — a pessoa pode ter dificuldade em adormecer como ser vítima de hipersonia, o que implica sonolência excessiva. Aquela que continua a ser descrita como a “doença invisível” persiste no tempo e chega a ter um impacto significativo na vida de uma pessoa, tanto na esfera pessoal como profissional — há pessoas deprimidas que conseguem trabalhar relativamente bem e outras cuja capacidade de memória ou de concentração é afetada. Os cenários não são lineares.

“Costumo dizer que as mulheres sentem-se tristes e envergonhadas, os homens sentem-se chateados. Eles têm o vocabulário e o reconhecimento das emoções, mas em termos de expressão parece mais aceitável usarem uma linguagem neutra ou cinzenta.”
David Neto, presidente do conselho de Especialidade de Psicologia Clínica e da Saúde da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP)

É ainda possível uma pessoa estar deprimida e não o saber, correndo o risco de minimizar o que está a sentir, lembra David Neto. Em Portugal, diz, existe um período médio de um ano entre o início da depressão e o ato de procurar ajuda profissional. A depressão, que pode ser sentida mais a nível psicológico ou de forma sintomática, revela sofrimento e vulnerabilidade, com a recuperação a ser não só o alívio do sofrimento, como uma forma de crescimento pessoal.

Horácio Firmino explica ainda que nos últimos anos assistiu-se ao desenvolvimento de medicamentos com menos efeitos secundários e esclarece que a psicoterapia e os fármacos são os tratamentos mais frequentes (mas não os únicos) — nos três primeiros meses do ano, foram vendidas mais de cinco milhões de embalagens de ansiolíticos e antidepressivos, segundo o Diário de Notícias, com Portugal a ser o quinto país da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) que mais consome estes medicamentos. “A depressão é uma doença e tem tratamento. Temos grandes armas para intervir e podemos melhorar a qualidade de vida das pessoas.”

Suicídio: há maior prevalência nos homens

“O ser homem e ter uma idade superior a 45 anos é um fator de risco acrescido para o suicídio”, diz Renata Benavente, membro da direção da Ordem dos Psicólogos Portugueses. O facto de haver homens que não procuram ajuda e não identificam os sintomas agrava a intensidade da depressão e isso pode “culminar na decisão de querer morrer”.

De acordo com uma nota publicada em abril no site da Ordem dos Psicólogos Portugueses, tendo em conta o impacto da pandemia na saúde mental, em Portugal cerca de 23% dos cidadãos já sofriam de perturbações da saúde mental. Em conjunto com a Irlanda do Norte, o país tem a mais elevada prevalência de doenças psiquiátricas na Europa, sendo que o grupo das perturbações de ansiedade é o que apresenta uma prevalência mais elevada (16,5%), seguido da depressão (7,9% do total das doenças mentais).

“Enquanto sociedade somos muito conservadores. [Há a ideia de que] o homem não chora e não deve mostrar as suas vivências emocionais. Há uma certa desconsideração que leva os homens a inibirem as emoções.”
Horácio Firmino, diretor de serviço de psiquiatria do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra

Segundo a Organização Mundial da Saúde, em todo o mundo mais de 264 milhões de pessoas de todas as idades sofrem de depressão e há mais mulheres afetadas do que homens. Todos os anos registam-se quase 800 mil suicídios — o que dá um caso a cada 40 segundos —, esta que é a segunda maior causa de morte entre pessoas dos 15 aos 29 anos. Em países com diferentes níveis de rendimento há casos de depressão que não são devidamente diagnosticados.

De acordo com a informação disponibilizada no Instituto Nacional de Estatística, cujos resultados estatísticos relativos a 2018 foram obtidos com base na informação do Sistema de Informação dos Certificados de Óbito disponível até 7 de janeiro de 2020, a taxa de mortalidade por lesões autoprovocadas intencionalmente (suicídio) é de 9,6 por 100 000 habitantes, sendo que há maior prevalência nos homens (15,1%) do que nas mulheres (4,7%).

“A grande maioria das pessoas que comete suicídios tem um quadro depressivo compatível com a depressão major”, que é a mais grave. Renata Benavente explica que existem diferentes tipos de depressão. Se na forma mais leve a depressão “significa que nos sentimos mais em baixo”, sem que isso impeça de continuarmos com a vida normal, na sua forma mais grave “pode ameaçar a nossa integridade física e fazer-nos ter vontade de desistir de viver”, tal como se lê na página “Encontre uma saída” da OPP dedicada à saúde mental.

Existem fatores ambientais e biológicos que podem influenciar o surgimento da depressão, como uma socialização negativa na infância ou a predisposição genética, respetivamente, explica David Neto, sendo que há três coisas típicas associadas à doença: visão negativa em relação ao próprio, visão negativa em relação ao futuro (falta de esperança) e visão negativa em relação ao mundo. O psicólogo considera que as críticas que terceiros fazem sobre pessoas deprimidas estão associadas a ideias preconcebidas que reforçam um estigma. “Posso ser feliz casado ou sozinho. Às vezes as pessoas são preconceituosas sem o saber. É como a questão dos filhos: existe a tirania dos filhos para as mulheres.”

Para David Neto em causa estão “guiões de vida que a nossa sociedade imagina como sendo importantes”, que são muitas vezes associados ao conceito de felicidade. “Revelam alguma aversão a irmos pela nossa cabeça e a seguir a vida por nós próprios. Às vezes as pessoas ficam presas nesses guiões de vida e o meio social reforça isso”, uma situação que as redes sociais podem ajudar a amplificar uma vez que “são arenas onde estas exigências e expetativas se traduzem”.

“A depressão é uma doença muito incapacitante e com grandes custos sociais. Continua a ser uma doença invisível. Há pessoas com dificuldades em assumir as suas fragilidades e que mantêm uma espécie de fachada, mostram-se funcionantes e ajustadas quando, por dentro, há um grande sofrimento e isso tem os seus custos”, esclarece Renata Benavente, da OPP. A situação descrita representa um peso acrescido quando se trata de uma figura pública, referindo-se à ideia distorcida de acharmos que conhecemos as celebridades porque as seguimos nas redes sociais ou lemos sobre elas nas revistas.

“A depressão é uma doença e tem tratamento. Temos grandes armas para intervir e podemos melhorar a qualidade de vida das pessoas.”
Horácio Firmino, diretor de serviço de psiquiatria do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra

“Às vezes parece que são da família mas não são. Não conhecemos as suas experiências passadas, as suas vulnerabilidades, e julgamos com conhecimento residual da vida dos outros e isso é injusto. Ainda que possamos pensar que aquela pessoa na nossa visão tem tudo, para ela isso pode não ser o suficiente”, continua Benavente, que destaca ainda o escrutínio intenso, a perda de privacidade e falta de liberdade destas pessoas, situações que funcionam como fatores de stress acrescidos.

Explicando que existem múltiplos fatores que podem levar ao suicídio, a psicóloga da OPP salienta que em 2020 ainda se ouvem pessoas a comentar estas situações como sendo atos de egoísmo ou até narcisistas e lembra que as coisas “não são assim tão simples”. “Uma pessoa antes de pedir ajuda também pode pensar nisto e esta ideia de que não se vai ter o apoio necessário pode inibir.”

Se ainda existem tabus, são maiores na fação masculina, confirma, para depois falar na cultura de felicidade presente na sociedade: “Temos de estar todos felizes, temos de estar todos bem e interpretar os problemas como desafios, oportunidades. Esta tentativa de contornar coisas menos boas — ou de usar discursos como ‘a felicidade está em nós’ — agrava o sentimento de incapacidade. A pessoa pensa que é ela que está mal e isto aumenta o desajustamento”.

“Às vezes parece que as celebridades são da família mas não são. Não conhecemos as suas experiências passadas, as suas vulnerabilidades, e julgamos com conhecimento residual da vida dos outros e isso é injusto. Ainda que possamos pensar que aquela pessoa na nossa visão tem tudo, para ela isso pode não ser o suficiente."
Renata Benavente, membro da direção da Ordem dos Psicólogos Portugueses

Como é que amigos e familiares podem ajudar?

Está estimado que a depressão pode acontecer em qualquer fase das nossas vidas e que é uma doença transversal, não obstante a existência de alguns fatores de risco, diz Renata Benavente. “Quando mais cedo for detetada, mais eficaz será a melhoria da pessoa.”

Segundo David Neto, há duas formas de ajudar alguém vítima de depressão: facilitar o encaminhamento para a ajuda profissional, sendo que os amigos e familiares podem ajudar a combater esse estigma e, ao mesmo tempo, estar presente para a pessoa doente e ter uma atitude construtiva que contraria a autocrítica de quem está deprimido.

Importante, refere, é não reforçar estigmas ou incorrer no erro de dizer coisas como “Ah, isso passa”, uma vez que estas são ideias invalidantes, e não fazer julgamentos como opinar “Tens tudo para ser feliz”. “Se a depressão tivesse que ver com a qualidade de vida, com a segurança e não passar fome, ninguém na Europa podia estar deprimido”, constata.

Como fica a saúde mental em tempos de quarentena e os conselhos para lidar com o impacto psicológico

Segundo a informação divulgada pela OPP, a pedido do Observador, a depressão é “o terceiro problema de saúde mais frequente nas consultas dos Cuidados de Saúde Primários, correspondendo a 7,6% do total de doentes atendidos. Portugal é também um dos países onde a depressão assume maior gravidade e em que o intervalo de tempo entre o aparecimento dos sintomas e o início do tratamento é mais elevado: apenas 37% das pessoas com depressão major teve uma consulta médica no primeiro ano da doença”.

Apesar da queixa recorrente de que existem poucos psicólogos nos Cuidados de Saúde Primários — por cada 100 000 utentes existem apenas cerca 2,5 psicólogos —, os tempos de pandemia fizeram com que surgissem várias linhas telefónicas de apoio, incluindo o serviço de aconselhamento psicológico no âmbito da linha SNS24, entre muitas outras, sem esquecer a SOS Voz Amiga, a mais antiga linha telefónica de prevenção do suicídio em Portugal.

David Neto lembra ainda que há vários casos de sucesso de homens que falam abertamente sobre dificuldades do foro mental e dá como exemplo Horta Osório, o CEO do banco britânico Lloyds, que em maio de 2018 escreveu um artigo no The Guardian para destacar as consequências humanas e económicas das doenças mentais — um problema que ele mesmo enfrentou quando começou a dirigir o banco em questão — com o título “É tempo de acabar com o tabu em torno da saúde mental no local de trabalho.” E na vida também.

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