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bixpicture/iStockphoto

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Depressão. "Os portugueses choram e acumulam o mal-estar. Somos um povo resignado" /premium

Descontrolo no diagnóstico da depressão, prevalência de estados ansiosos e estigma. Em entrevista ao Observador, o psicoterapeuta Pedro Brás conversa sobre o estado da saúde mental em Portugal.

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A felicidade não é conforto, não é diversão ou ausência de estados de tristeza. A felicidade implica bem-estar emocional e paz interior, conceitos difíceis de concretizar, mas nos quais Pedro Brás, co-autor de diversos estudos sobre doenças mentais e fundador da clínica de psicoterapia “Clínica da Mente”, acredita. O autor do livro Feliz para Sempre (editora Planeta) defende, então, que a infelicidade tem um padrão que é possível ser quebrado.

Mais do que etapas a ultrapassar para alcançar a felicidade, Pedro Brás fala ao Observador sobre um “descontrolo total na atribuição e no diagnóstico de depressão” — que tem acontecido em Portugal nos últimos anos –, de como pais que pressionam podem criar crianças e adultos ansiosos e sobre uma “prevalência enorme de estados ansiosos”.

Em entrevista, o psicoterapeuta caracteriza ainda os portugueses como sendo um povo “resignado”, com dificuldades em reagir às adversidades: “Os portugueses choram e ficam a acumular o mal-estar. Há uma cultura de resignação. É um traço cultural que faz com que as pessoas caiam em estados mais depressivos”.

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“As pessoas confundem muito a felicidade com o conforto”

Como é que é possível ser-se feliz para sempre? Isso não é uma espécie de utopia?
A felicidade é um estado de quem se sente bem, bem com ele próprio, com vontade de viver a sua própria vida. Portanto, é alguém que está motivado. É possível sermos felizes para sempre. Infelizmente, todos dizemos que não há felicidade permanente, apenas felicidade momentânea. Quando as pessoas falam assim estão a referir-se ao conforto, à diversão ou mesmo à ausência de dor. Ora, a felicidade não é conforto. Isto é que é o grande paradoxo da sociedade. Andamos todos à procura de felicidade tentando encontrar o conforto.

Quais são as conceções erradas mais comuns sobre o que é a felicidade?
A principal conceção errada é a ideia de que se tivermos mais objetos — mais conforto — somos mais felizes. Isso não é verdade. Todos pensamos que se tivéssemos um carro novo éramos mais felizes, se a nossa casa fosse maior éramos mais felizes, se tivéssemos um sofá ou uma roupa de marca éramos mais felizes… e andamos em busca desses objetos. O conforto é temporário, varia com o tempo. Se eu achar que a minha felicidade é o estado em que estou confortável, então vou variar de estado. Às vezes as pessoas confundem também a felicidade com os momentos divertidos. Se eu acredito que a minha felicidade é estar contente ou a divertir-me, então vou perceber que a felicidade não é permanente. Há ainda pessoas que dizem que a felicidade é a ausência de emoções negativas. Ora isso não é possível para sempre. Uma emoção negativa — como a tristeza, a revolta ou o medo — também faz parte da vida que levamos. Portanto, também varia. Se anexarmos a nossa felicidade a esses estados voláteis, não vamos conseguir viver a nossa felicidade de forma permanente. Mas a felicidade não é isso, é ainda mais simples: é um estado em que me sinto bem comigo mesmo, com vontade em viver a minha vida.

"É possível sermos felizes para sempre. Infelizmente, todos nós dizemos que não há felicidade permanente, apenas felicidade momentânea. Quando as pessoas falam assim estão a referir-se ao conforto, à diversão ou mesmo à ausência de dor."

Esta conceção de felicidade é uma forma como encara o conceito enquanto psicoterapeuta ou é uma resposta frequente nesta área profissional?
Este conceito sobre a felicidade nasce da minha vida de psicoterapeuta. Ao longo dos anos só atendo pessoas que dizem que estão infelizes. As pessoas não estão bem com elas próprias e vêm à psicoterapia. Depois das milhares de pessoas que me passaram pela frente e que partilharam as suas histórias comigo, percebi que, para as pessoas se sentirem felizes, tinham que resolver determinadas questões. Este livro é uma compilação de todos os fatores que encontrei, na minha atividade como psicoterapeuta, que tornavam as pessoas infelizes.

Então, quais são os motivos mais comuns responsáveis pela infelicidade das pessoas?
Essa pergunta é muito boa, mas vamos pô-la ao contrário: “O que é que eu tenho de fazer para ser feliz?”. Aqui entram aquilo a que chamo os seis pilares da felicidade, que representam seis atitudes. O primeiro pilar é a saúde física: só sou feliz se tiver uma boa saúde física, se o corpo que transporta a minha pessoa for saudável, não me trouxer dor. A dor, a doença, é um grande fator da infelicidade das pessoas. O segundo ponto é a paz interior: só quem está em paz interior é que consegue ser feliz. Quando falo em paz interior falo num estado em que me sinto bem com os meus pensamentos e com os meus comportamentos, e em que me sinto motivado para viver a vida que tenho. Quando as pessoas não conseguem estar em paz interior, quando têm conflitos emocionais e conflitos com os seus próprios pensamentos, entram em doenças como a depressão, a ansiedade e os ataques de pânico. O terceiro pilar que as pessoas têm de ativar é a criação de objetivos: precisamos de ter bem presente porque é que vale a pena viver esta vida. Cada um de nós tem de perceber qual o nosso propósito de vida. Quem não tem os objetivos bem definidos não tem justificação para fazer nada e cai no marasmo, na procrastinação e não se é feliz no seu próprio estado de desmotivação. O quarto pilar consiste em perceber o caminho: só quem percebe a vida que tem, só quem percebe que, muitas vezes, o caminho é difícil é que consegue ser feliz. O quinto pilar é o amor próprio. Nós precisamos de amor e, normalmente, vamos buscar o amor aos outros. Só que, por vezes, os outros não nos amam como queríamos, não nos respeitam da forma que precisamos… Por último, só conseguimos ser felizes se conseguirmos comunicarmos bem com os outros. O ser humano é um animal de grupo, precisa de conviver com a sociedade. Se tivermos dificuldades nesta área criamos muitas resistências e dor.

"Nós precisamos de amor e, normalmente, vamos buscar o amor aos outros. Só que, por vezes, os outros não nos amam como queríamos, não nos respeitam da forma que precisamos..."

A ordem dos pilares é inflexível?
Sim. Tem de ser esta ordem. As pessoas podem definir as suas prioridades, mas eu acredito muito nesta ordem. Se tiver uma dor muito forte não me consigo concentrar em mais nada. Se não estiver bem comigo próprio, não consigo olhar para mim e gostar de mim, não consigo falar com os outros, não consigo olhar para os meus objetivos. Portanto, só consigo começar a viver se estiver em paz comigo próprio. O terceiro, os objetivos, e o quarto, o caminho, são muito importantes porque posso gostar muito de mim, posso comunicar muito com os outros, mas se não souber o que ando aqui a fazer, rapidamente me desligo. Desligo da vida e dos outros. Não consigo comunicar com os outros se não tiver amor próprio…

“As crianças perderam liberdade e ganharam mais responsabilidades”

A questão da paz interior parece algo muito pouco palpável. Que conselhos dá para se alcançar esse estado?
Infelizmente, de todos os pilares a serem ativados, o mais difícil é a paz interior. A falta de paz interior, como depressão ou ansiedade, é difícil de ultrapassar sem ajuda. O principal conselho que dou às pessoas passa por elas reconhecerem que não estão bem com elas próprias e pedirem ajuda. O grande problema da sociedade, e sobretudo dos portugueses, é que sofrem e não estão bem com eles próprios, mas não pedem ajuda.

Acha que isso acontece porque as pessoas não se apercebem de que não estão bem ou porque têm vergonha de procurar ajuda?
Percebem, mas na saúde mental há muito estigma. Ninguém gosta de ser catalogado ou que se saiba que vai ao psiquiatra ou ao psicólogo. Infelizmente, a sociedade alimenta este estigma… Acho que esse é o grande problema. As pessoas não pedem ajuda para não darem parte fraca.

A ansiedade, os ataques de pânico e até a depressão são cada vez mais frequentes?
Não sei se são mais frequentes, agora o que acontece é que, de uma forma mais frequente, fala-se nisso e há muitos profissionais preparados para ajudar as pessoas. Havendo mais comunicação, as pessoas mostram-se mais: há dez anos as pessoas não falavam nos ataques de pânico e toda a gente sofria com isso, só que não se falava tanto. Hoje em dia já há muita informação e está a ser cada vez mais fácil [falar sobre isso].

"Ninguém gosta de ser catalogado ou que se saiba que vai ao psiquiatra ou ao psicólogo. Infelizmente, a sociedade alimenta este estigma... Acho que esse é o grande problema. As pessoas não pedem ajuda para não darem parte fraca."

Acha que isso é circunstância da sociedade em que vivemos ou sempre existiu?
Os ataques de pânico são um distúrbio emocional, não têm que ver com o nosso estilo de vida, acontecem quando há uma má gestão emocional. É uma questão meramente mental. A depressão e a ansiedade estão relacionadas com o nosso estilo de vida, depende da forma como fomos educados: normalmente as pessoas ansiosas tiveram infâncias também elas stressantes. O stress que os outros nos colocam, como por exemplo na nossa formação, na adolescência ou na vida adulta, cria em nós estados de ansiedade muito graves. A depressão também é uma reação às experiências da vida. Hoje em dia há mais fatores depressores do que no passado. No passado não comunicávamos com ninguém, estávamos na aldeia e a vida era sempre a mesma coisa. Agora não, agora temos as redes sociais, temos mais dificuldades relacionais, a vida está muito mais rápida… isso pode criar mais depressões.

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O que podemos entender por stress na infância?
A ansiedade é uma doença psicológica extremamente generalizada na população — há uma prevalência enorme de estados ansiosos. Qual é o principal fator de stress das crianças que, depois, viram adultos ansiosos? É a pressão que os pais fazem. Os pais fazem muita pressão para os miúdos estudarem, para que não brinquem lá fora para não se sujarem… Por um lado, estamos a limitar as crianças na sua manifestação infantil de brincar lá fora, de se sujarem e de fazerem asneiras, por outro, estamos a pressioná-las excessivamente para cumprirem objetivos, para terem melhores notas nas escola. As crianças — desde os anos 1970 — perderam alguma liberdade e começaram a ter mais responsabilidades.

"A ansiedade é uma doença psicológica extremamente generalizada na população -- há uma prevalência enorme de estados ansiosos. Qual é o principal fator de stress das crianças que, depois, viram adultos ansiosos? É a pressão que os pais fazem."

“Somos pessoas que nos resignamos bastante. É cultural, um hábito que temos”

Os ataques de pânico, a ansiedade e a depressão podem ser tratados sem medicamentos?
A medicação tem sido até agora a forma mais comum para tratar estas dificuldades do foro psicológico. É mais comum porque, na ausência de melhores tratamentos, servem para aliviar a dor que as pessoas sentem. Só que a dor que as pessoas sentem não é uma dor causada pelo seu próprio corpo. Não há uma doença, não são bactérias. Então, estas drogas apenas aliviam os estados. Mas estamos a falar de uma dor causada pela mente, que cria um estado de choro, de tristeza. A medicação nunca é a solução, a solução é ajudar as pessoas, é compreender porque é que as pessoas estão naquele estado. As pessoas que entram em depressão não são as pessoas mais fracas. São as pessoas que viveram muita dor e muito sofrimento num determinado evento. Todos nós somos diferentes e sofremos com as coisas de forma diferente porque temos pensamentos diferentes. Ao sofrer estes eventos mais traumáticos e dolorosos, se não conseguirmos gerir essas emoções ou ultrapassar essas emoções… O que temos de fazer para ajudar as pessoas com depressão não é adormecê-las, é tentar compreendê-las e tentar acompanhá-las na mudança — esta não é uma mudança física. É como tratar uma cárie com um ben-u-ron — estou a resolver o problema da dor, mas não a cárie. A medicação pode ser precisa, mas tem de se atacar a causa.

"Em Portugal tem havido, nos últimos anos, um descontrolo total na atribuição e no diagnóstico de depressão e ansiedade."

Qual é o estado da saúde mental em Portugal?
Os números que existem estão maus. Os principais indicadores do estado de saúde é a venda de medicamentos. E se formos ver, Portugal gasta milhões e milhões de euros em medicação. Somos o segundo país do mundo, abaixo dos Estados Unidos da América, no consumo de ansiolíticos e antidepressivos per capita e isso deixa-nos alerta. Será que somos as pessoas mais ansiosas e depressivas do mundo? Não. O que é que acontece? Em Portugal tem havido, nos últimos anos, um descontrolo total na atribuição e no diagnóstico de depressão e ansiedade. Um exemplo: todos os velhinhos no lar tomam antidepressivos e ansiolíticos… Todas as crianças que agora se agitam na sala de aula levam com medicação para se acalmarem; todas as pessoas que têm uma dor de costas levam com ansiolíticos para relaxar os músculos. Para relaxar músculos existem outras medicações, não podem ser usados psicotrópicos que atuam no cérebro. Em Portugal está a haver um descontrolo nos diagnósticos médicos.

O outro problema é que todos estes medicamentos psicotrópicos têm efeitos secundários horríveis. As pessoas que começam a tomar medicação para a ansiedade têm, muitas vezes, pensamentos suicidas, mas isso faz parte das contraindicações destes medicamentos. A atribuição excessiva de medicação também potencia efeitos secundários que alimentam estes problemas. Há ainda outro fator que faz com que haja mais prevalência da depressão em Portugal: somos pessoas que nos resignamos bastante. É cultural. Estamos habituados ao fado, ao destino e às dificuldades. É um hábito que temos. Os espanhóis e os italianos, por exemplo, quando vêm uma política com a qual não concordam são capazes de sair à rua e partir as montras todas, isto é, conseguem reagir às pressões. Os portugueses não. Os portugueses choram e ficam a acumular o mal-estar. Há uma cultura de resignação, provavelmente por causa da ditadura muito repressora. E esta cultura faz com que as pessoas não expludam, não reajam às questões. Também é um traço cultural que faz com que as pessoas caiam mais em estados mais depressivos.

Comparativamente com outros países da Europa, os portugueses podem ter uma menor gestão emocional?
Não conheço muito bem os outros países nesta realidade cultural, não sou a pessoa mais indicada para fazer uma análise. Agora, de facto, somos um povo muito resignado. Passámos quatro anos de grande austeridade e fizemos duas manifestações pacíficas. O povo grego passou muitos anos de austeridade, mas os incêndios eram frequentes. Não estou a dizer que é bom provocar tumultos… É preciso reagir às coisas negativas? Sim, sem dúvida. Quando nos agridem, quando nos magoam temos que reagir, não podemos ficar com estas marcas, temos de ultrapassar estas experiências mais negativas que nos afetam o bem-estar. E, de facto, o povo português é um pouco mais resignado.

A psicoterapia pode ser uma das respostas para resolver este problema?
A psicoterapia é diferente da psicologia. Na psicologia os profissionais, os psicólogos, são pessoas que estudam o comportamento humano e que auxiliam as pessoas conversando com elas, mas não fazem uma intervenção na doença psicológica. Quem o faz são os psicoterapeutas. Claro que há uma tendência muito grande de os psicólogos serem psicoterapeutas. No Sistema Nacional de Saúde o que existe são psicólogos. Desses psicólogos, alguns são psicoterapeutas.

"Há ainda outro fator que faz com que haja mais prevalência da depressão em Portugal: somos pessoas que nos resignamos bastante. É cultural. Estamos habituados ao fado, ao destino e às dificuldades. É um hábito que temos." 

“Temos de dizer aos nossos filhos: ‘Eu quero que sejas feliz e não engenheiro'”

Associamos a felicidade a dinheiro, poder e respeito só por uma questão de conforto ou há fatores culturais associados a isto?
Tudo isso é muito importante. O respeito e o poder são valores que podemos valorizar, fazem parte da comunicação — quero que o outro me respeite, quero que o outro me considere bem, quero que o outro goste de mim e se o outro gostar de nós, significa que temos poder. Por isso gostamos de poder e de respeito. O dinheiro já é um meio para atingirmos determinados objetivos. Ninguém é feliz por ter muitas notas na mão, é feliz ao trocar o dinheiro — o dinheiro traz-nos conforto. As pessoas confundem muito a felicidade com o conforto, o dinheiro compra o conforto e as pessoas andam sempre a comprar conforto — mas o conforto não trás, de facto, a felicidade, cria-nos antes momentos de bem-estar.

Acha que é preciso haver uma redefinição de valores?
O livro vem também ajudar nesta redefinição, vem dizer às pessoas que há valores importantes para o nosso bem-estar. Agora, claro, a nossa sociedade [pede] para tirarmos um curso, por exemplo… Nesse sentido temos de dizer aos nossos filhos “Eu quero que sejas feliz e não engenheiro”. Aí temos todos que mudar, pais e filhos.

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