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Em Portugal, há várias décadas que se sabe quem são os alunos em risco de insucesso escolar: chumbos e estatuto socioeconómico têm andado sempre de mãos dadas

Em Portugal, há várias décadas que se sabe quem são os alunos em risco de insucesso escolar: chumbos e estatuto socioeconómico têm andado sempre de mãos dadas

Desigualdades. Quem são os alunos em risco e como alguns o conseguem superar /premium

Há jovens em abandono físico, outros em abandono emocional. São de famílias desestruturadas, pobres ou em que os pais simplesmente não acompanham. Entre esses, alguns conseguem superar a desigualdade.

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Este trabalho, que é publicado no último dia de aulas, foi preparado antes de a pandemia de Covid-19 ter levado ao encerramento das escolas. A questão das desigualdades na educação, porém, não só se manteve como pode ter sido amplificada pelo ensino à distância. O seu impacto na qualidade da aprendizagem e no percurso escolar dos alunos continua a ser uma das características do ensino em Portugal no retrato mais recente do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA). E voltou a ser determinante nos rankings nacionais das escolas, que serão conhecidos esta sexta-feira.

“Se eu fosse professor, tinha desistido de mim naquela altura.” As palavras de Nicomedes são duras e nem por um segundo tenta suavizar as más escolhas que fez no passado e que o levaram a chumbar mais do que uma vez. A culpa foi sua, apenas sua, assume. Antes dos 15 anos, já tinha acumulado duas retenções, mas a intervenção de um mediador foi quanto bastou para que mudasse de rumo e começasse a ter boas notas.

Hoje tem 18 anos e anda no equivalente ao 11.º ano. Os dois anos perdidos foram no 6.º e no 7.º ano, mas conta que o seu desinteresse pela escola começou cedo, logo na primária, quando tinha 7 anos. “Sempre tive um desinteresse total pela escola. Nas aulas não fazia nada, mesmo nada. Já era uma sorte eu levar um caderno ou um lápis”, conta o jovem, recordando o início da adolescência. Agora que conseguiu ter sucesso escolar, o seu objetivo é terminar o curso profissional de Comércio que está a fazer na Escola Profissional Bento Jesus Caraça, no Seixal. Sobre a ida para o ensino superior, pensará mais tarde.

Em Portugal, há várias décadas que se sabe quem são os alunos em risco de insucesso escolar: chumbos e estatuto socioeconómico têm andado sempre de mãos dadas. Quem nasce numa família carenciada tem três vezes mais hipóteses de ter um desempenho no limiar do aceitável, segundo o relatório PISA da OCDE, que traça o retrato dos alunos de 15 anos. Em contrapartida, 10% desses alunos conseguem ficar entre os 25% melhores do país — os chamados “resilientes”. Mas mesmo esses têm ambições mais baixas: 1 em cada 4 não conta acabar o curso superior, proporção que é de 1 em 30 entre os privilegiados.

Só 28% dos alunos do profissional têm a idade ideal para estudar. Chumbos explicam números

Stefano nunca chumbou. Mas também nunca gostou de estudar, confessa. Foi na transição do 2.º para 3.º ciclo, quando chegou à Escola Secundária da Amora, onde ainda anda, que as coisas pioraram. “Quando vim para esta escola, no 7.º ano, tive quatro negas e quatro faltas disciplinares no primeiro período. Foi a brincadeira que me levou a ter negativas, só brincava nas aulas”, conta o jovem de 17 anos, atualmente no 12.º ano, no Curso de Técnico de Turismo. Sobre a continuação dos estudos, já tem uma decisão tomada: “Acho que não vou à faculdade. Vou à tropa ou vou estudar na tropa. É uma coisa de que gosto, mas ainda vou ter de ver.”

Stefano Oliveira e Nicomedes Teixeira são exceção à regra: ambos conseguiram recuperar e fugir ao caminho de insucesso escolar.

Apesar de os números em Portugal serem cada vez melhores, em 2017/18 ainda houve um número significativo de estudantes do básico (5,1%) e do secundário (13,9%) que chumbaram, o que aumenta a probabilidade de voltar a ficar retido. Os chumbos acabam por levar ao abandono escolar precoce (uma taxa de 10,6% em 2019, a mais baixa de sempre), ou à escolha de uma via de ensino profissional. No final do 12.º ano, o ensino universitário raramente está no horizonte destes alunos.

"Eu não era um aluno problemático, mas também não era dos mais calmos. Ia constantemente para a rua, tinha faltas disciplinares, baldava-me às aulas… Depois apareceu o professor José Luís, teve umas conversas comigo e senti confiança nele. Começou a mostrar-me o outro lado da vida."
Nicomedes Teixeira, aluno do 2.º ano do curso profissional de Comércio

Esta é a realidade que Luís Mocho encontra todos os dias no agrupamento que dirige em Lisboa. Nas escolas Manuel da Maia, são poucos os alunos que terminam o 9.º ano com condições para seguir o ensino regular e as retenções no 7.º ano são as segundas mais altas do concelho. No dia a dia, lida com alunos de famílias desestruturadas e com crianças que não reconhecem figuras de autoridade. A assistente social da escola, ali colocada há 22 anos, conta que há pais de alunos problemáticos que já passaram pelos bancos da escola e, hoje, os filhos seguem os mesmos passos dos encarregados de educação, numa espécie de ciclo vicioso.

Também na Arrentela, o professor José Luís Lopes, mediador de Nicomedes, está habituado a lidar com situações complicadas de insucesso escolar. Cada caso tem contornos próprios, diz, mas são muitas as famílias em que filhos e pais andam em horários desencontrados, deixando os jovens entregues a si mesmos.

Insucesso não é fatalidade

Para Nicomedes e Stefano, o ponto de viragem e o início das boas notas está ligado ao dia em que conheceram na Secundária da Amora um mediador escolar da Associação EPIS — Empresários pela Inclusão Social, que, em parceria com o Ministério da Educação, desenvolve junto dos alunos um programa de capacitação para o sucesso escolar. O primeiro passo é sempre fazer um rastreio dos alunos que estão em risco e foi assim que chegaram a Nicomedes e Stefano, que foram acompanhados do 7.º ao 9.º ano. A mediação passa por um trabalho semanal, individualizado, que tenta motivar os jovens para a importância do conhecimento.

“Eu não era um aluno problemático, mas também não era dos mais calmos. Ia constantemente para a rua, tinha faltas disciplinares, baldava-me às aulas… Depois apareceu o professor José Luís, teve umas conversas comigo e senti confiança nele. Começou a mostrar-me o outro lado da vida. Ele dizia que a escola era importante. Eu já sabia isso, mas na adolescência não queremos saber. Ele ensinou-me as coisas que tinha de fazer, eu pus em prática e agora tive resultados”, lembra Nicomedes.

No princípio, Nico, como lhe chamam os amigos, não se reconhecia naquela nova pessoa e os professores estranhavam a mudança de comportamento. Conta que passou a tomar atenção nas aulas, deixou de se sentar ao fundo da sala de aula e passou a ficar mais perto do professor para apanhar a matéria. “Os professores ficaram todos admirados, os que tinham desistido de mim tiveram uma pequena esperança. Havia alguns que já se estavam mesmo nas tintas. Com a minha mudança, começaram a vir mais vezes ao meu lugar, ver se eu precisava de alguma coisa. Punham-me mais vezes a ir ao quadro. Quando as notas melhoraram, pensei ‘isto não sou eu’. Só estava habituado a ver negativas e, de repente, havia ali um quatro, um cinco. Senti satisfação e que podia ir um bocado mais além.”

“Nenhum dos meus irmãos fez o 9.º ano de forma regular e eu tinha o objetivo de conseguir fazê-lo, sem ter de ir para o ensino vocacional", conta Nicomedes

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR


A grande lição que aprendeu com o mediador foi a esforçar-se e a não perder tempo. “Eu ia à escola, mas não ia às aulas. O professor dizia-me: ‘Já que tens de ficar aqui, ao menos esforça-te o mínimo. O tempo passa rápido, quando deres por ti vais-te arrepender do que não aproveitaste.’” Antes de conhecer o professor, conta Nico, até pensava no futuro, mas era uma reflexão do momento, esquecida logo a seguir. “Ele foi importante em duas coisas: por ter ali alguém que me pedia justificações e por ser alguém que conversava comigo. Se hoje estou no 11.º ano foi graças ao professor.”

Com a mediadora Albertina Morgado, Stefano conta que aprendeu a estudar e a refletir. Para além disso, deu-lhe a motivação que lhe faltava para seguir em frente. “Não pensava no futuro, só no momento. Só queria brincadeira. A professora ajudou-me com o método de estudo e fez-me ver que era importante estudar. Não gostava, nem sabia estudar, mas, assim que comecei, as notas melhoraram e não tive mais faltas disciplinares. Faltava-me método de estudo e ambição. Agora tenho os dois. Se é para estar aqui na escola, para sair pelo menos com o 12.º ano, mais vale não perder tempo a chumbar anos.”

A melhoria de ambos foi grande e na expedição que a EPIS organiza todos os anos para os 50 alunos que mais melhoraram as suas notas houve lugar para Stefano (2017) e Nico (2018), o que lhes valeu conhecerem o Presidente da República.

As cicatrizes dos alunos

Nem Stefano nem Nico culpam o ambiente familiar pelas negativas que tiveram. Ambos chamam a si essa responsabilidade e Nico conta que ter dois irmãos mais velhos que abandonaram precocemente os estudos também o levaram a querer seguir um caminho diferente. Já a mãe sempre o pressionou para que estudasse.

“Nenhum dos meus irmãos fez o 9.º ano de forma regular e eu tinha o objetivo de conseguir fazê-lo, sem ter de ir para o ensino vocacional. Eles têm 22 e 24 anos, já trabalham e não se queixam de dinheiro. Recebem cerca de 800 euros, mas sei que já não vão ter a mesma qualidade de vida que eu posso ter no futuro.” Apesar de sentir que a sua ambição cresceu, o ensino superior ainda não é uma certeza. “Se der, vou. Para já, quero acabar o 12.º ano”, sublinha.

José Luís Lopes foi o mediador de Nico. Este ano letivo, no 1.º período, fez o rastreio dos alunos que precisam de ser acompanhados para fugir ao insucesso e, para já, acompanha 40 alunos na Escola Básica 2/3 Nun’Álvares, no Seixal. Durante essa triagem, viu muitos padrões, embora não goste de generalizar. “Uma das coisas que se vê no rastreio, por exemplo, é que raramente se lê em casa destes alunos”, conta.

PISA. Um terço dos alunos só lê se for obrigado — e quem não lê não consegue aprender

Não saber ler é o principal motivo para os alunos chumbarem logo no 2.º ano, uma bola de neve que dificilmente é travada. O PISA 2018, que se focou na leitura, mostra-nos que 22% dos alunos portugueses de 15 anos considera que ler é uma perda de tempo e um terço só lê se for obrigado. Para além disso, a diferença na competência de leitura entre um aluno favorecido e um desfavorecido é de 95 pontos de desempenho.

“Na escola onde estou há uma comunidade imigrante grande e a família típica é aquela em que a mãe apanha o comboio das 6 da manhã, que percorre 3 ou 4 empregos ao longo do dia. Claro que isto implica o não acompanhamento do aluno”, conta José Luís Lopes, enquanto recorda a história de um jovem de 18 anos que acompanha. “Está no 7.º ano, depois de ter ficado retido durante quatro anos no 5.º. São questões complexas que não têm uma solução rápida. A história pessoal é importante, deixa cicatrizes e são miúdos que vivem situações complicadas que, por vezes, não são compatíveis com as exigências da escola.”

“Na escola onde estou, há uma comunidade imigrante grande e a família típica é aquela em que a mãe apanha o comboio das 6 da manhã, que percorre 3 ou 4 empregos ao longo do dia. Claro que isto implica o não acompanhamento do aluno.”
Professor José Luís Lopes, mediador na Escola Básica 2/3 Nun’Álvares

O professor também acredita que há casos em que os jovens têm problemas de saúde mental, que não chegam sequer a ser diagnosticados, influenciando o seu percurso e o seu comportamento.

Albertina Morgado, que foi mediadora de Stefano na Secundária da Amora, onde hoje apoia 35 alunos, lembra que as questões culturais também são importantes quando se trata de escolas com grandes comunidades de imigrantes. Há alunos que não percebem por que motivo não podem falar alto na sala de aula, quando sempre falaram assim. “Depois têm faltas disciplinares e acham que é injusto. Na mesma turma pode haver sete nacionalidades, com culturas muito diferentes, e não é fácil gerir”, conta.

Para além disso, passam-lhe pelas mãos alunos que simplesmente não têm tempo para estudar e são os mediadores quem tem de convencer os pais. “As mães não estão em casa e muitos dos miúdos que acompanho têm de tomar conta dos irmãos mais novos, de fazer o jantar, de tratar da casa. Para além disso, há pais que não percebem como funciona o sistema, que não sabem que têm de justificar uma falta na caderneta”, conta, lembrando que depois são os jovens que ficam com faltas injustificadas no cadastro.

Com a mediadora Albertina Morgado, Stefano conta que aprendeu a estudar e a refletir

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Quando os pais falham (e a escola também)

Com 30 anos de ensino na bagagem, Luís Mocho chegou há poucos meses ao agrupamento de escolas Manuel da Maia, em Lisboa. Os problemas são muitos e o novo diretor do agrupamento acredita que nunca foram tomadas medidas profundas para resolvê-los naquelas quatro escolas que tanto recebem alunos de Campo de Ourique, com um estatuto socioeconómico mais alto, como dos bairros do Vale de Alcântara, historicamente associados ao tráfico de droga.

No concelho de Lisboa, é o segundo agrupamento com mais alunos retidos no 7.º ano, com quase metade (43%) a chumbar naquele ano de transição. Pior, só os 55% de chumbos do Agrupamento de Escolas Pintor Almada Negreiros. A média nacional anda nos 11%, segundo os mais recentes dados do Ministério da Educação, referentes a 2016/17. No 5.º ano, a fotografia não é mais bonita: no concelho, o agrupamento fica em terceiro lugar, com 36% de chumbos, quando a média nacional é de 6%.

Os alunos devem chumbar? É mais complicado do que parece

“Temos esta mescla de vivências que são muito difíceis de equilibrar. Há estudos que ligam o estatuto socioeconómico ao sucesso escolar e aqui temos isso bem presente. Mas temos um problema ainda maior: antes do sucesso escolar, temos de ter sucesso social e esse está a ser muito difícil de garantir.” Para começar, Luís Mocho quer uma intervenção diferente, fora da caixa, a partir do pré-escolar e criando uma forte ligação à família. No agrupamento — que tem 863 alunos e é TEIP (Território Educativo de Intervenção Prioritária) —, a oferta de ensino vai até ao 9.º ano, mas o professor conta que, no final, saem dali poucos alunos com condições para seguir um ensino secundário tradicional.

No agrupamento há situações sociais de todo o tipo: de abandono total, de miúdos institucionalizados porque os pais não conseguem tomar conta deles ou de abandono virtual

Universal Images Group via Getty

“Neste tipo de escolas há um grande distanciamento entre as famílias e a escola, e entre as famílias e os miúdos. Temos situações sociais de todo o tipo: de abandono total, de miúdos institucionalizados porque os pais não conseguem tomar conta deles ou de abandono virtual. Há miúdos que não estão em instituições, mas, se ligarmos aos pais, eles não têm tempo para cuidar destes assuntos. Alguns nem veem os filhos porque andam em horários contrários. Outros têm vidas tão desgraçadas que nem conseguem cuidar deles mesmos”, conta Luís Mocho. Este tipo de situação cria nos alunos uma situação de independência e autonomia muito precoce, mas má, já que não vem acompanhada de regras, defende o professor.

“Quando um miúdo não tem enquadramento familiar nem regras, chega à escola numa situação em que já pouco conseguimos fazer. Temos aqui duas situações, uma criança do pré-escolar e outra do 1.º ciclo, que não respeitam nada nem ninguém. A figura de autoridade de um adulto não lhes diz nada. Com 10 anos, chegam ao 5.º ano com um comportamento que retrata a sua vivência, de conflito permanente, de provocação e de resposta a essa provocação. Temos miúdos que ofendem os professores gratuitamente, chamam-lhes nomes nos corredores.” Só no 1.º período deste ano letivo, entre setembro e dezembro, Luís Mocho suspendeu 16 alunos de forma direta e uma aluna através de um processo disciplinar, aberto na sequência de uma agressão violenta a uma funcionária da escola.

Às vezes, conta, chamam-lhe insensível. “Miúdos de 13, 14, 15 anos que já deviam estar fora desta escola, a frequentar o ensino secundário, e que não sentem que um adulto é uma autoridade… Não é a escola que vai resolver isto. É um problema social.” Por isso, defende que o agrupamento precisa de olhar para o futuro e para aqueles que estão a entrar na escola agora. “O nosso projeto começa aí”, diz.

PISA. Só 10% dos alunos mais pobres conseguem chegar ao topo dos resultados em leitura

Como um dos objetivos é ter uma forte ligação aos pais, a escola entrou para o projeto Includ-ed, promovido pelo Ministério da Educação. Criado por um grupo de investigadores da Universidade de Barcelona, passa por implementar uma série de ações, que aproxima escola e família, acabando por influenciar o percurso académico dos alunos. O projeto piloto arrancou em Portugal em 2017-18 com 11 agrupamentos escolares e este ano foi alargado a mais 50.

No agrupamento Manuel da Maia, o programa vai começar na Escola Básica Santo Condestável e Luís Mocho espera poder alargá-lo a outras. “Se funcionar nas escolas básicas, quando os alunos chegarem ao 2.º ciclo já será um cenário diferente. Hoje temos demasiados alunos a portarem-se mal e uma quantidade enorme de pais que está contra o mundo, contra o sistema, talvez pela sua situação social, e que acham que a escola tem de resolver tudo”, diz.

Uma das professoras do agrupamento, que pede o anonimato, lembra o caso de um aluno do 1.º ciclo. “Passou o ano passado todo sem manuais escolares, apesar de já serem gratuitos. Este ano, tratei de tudo para que a mãe só tivesse de ir buscá-los à livraria e, mesmo assim, o miúdo continua sem ter manuais. Há um limite para o que podemos fazer quando as famílias não estão interessadas.”

“Temos situações aqui de pessoas que simplesmente não sabem ser pais. Massacram os filhos a toda a hora, ou dão-lhes muita liberdade sem quaisquer regras, ou fazem exatamente o contrário. Já tive um caso de um aluno a quem a mãe pregou dois estalos em frente a toda a gente.”
Luís Mocho, diretor do Agrupamento de Escolas Manuel da Maia

Se, na experiência e nas palavras de Luís Mocho, muitas famílias de classe baixa encaram a escola como o local onde depositam os filhos para poder ir trabalhar — e de onde esperam que eles venham mais bem educados e controlados no final do dia —, também nas classes sociais altas há quem entenda que é a escola que tem de controlar as suas crianças.

“Temos situações aqui de pessoas que simplesmente não sabem ser pais. Massacram os filhos a toda a hora, ou dão-lhes muita liberdade sem quaisquer regras, ou fazem exatamente o contrário. Já tive um caso de um aluno que esteve aqui no gabinete porque tinha feito um disparate e quando chegou lá fora a mãe pregou-lhe dois estalos em frente a toda a gente”, lamenta o diretor, que gostava de ter mais recursos. Um psicólogo, uma mediadora de conflitos e uma assistente social não são suficientes. “Neste território, precisávamos do triplo. Até a própria forma de brincar é conflituosa. Nunca tinha estado num ambiente assim. Já me disseram que há escolas piores, mas tenho dúvidas.”

Chumbar no secundário é regra e não exceção

Profissão: traficante de droga

Não foi uma nem duas vezes que Cláudia Rocha encontrou antigos alunos agora vestindo o papel de pais. Há 22 anos que trabalha na Escola Manuel da Maia como assistente social (agora técnica de política social) e o seu trabalho passa por promover a boa integração do aluno. Pela sua sala, o Gabinete de Apoio ao Aluno, passam muitos casos de absentismo e abandono escolar.

“Já encontro encarregados de educação que foram nossos alunos e, infelizmente, vemos que os filhos estão a seguir os passos da mãe ou do pai. Copiam o padrão. Quando têm dois, três filhos e todos seguem no mesmo sentido, acaba por ser desolador. Nós não desistimos, mas é lamentável. Nas reuniões, os pais dizem-nos que também eram assim, que eram péssimos a matemática, que faltavam às aulas… Devia ser o contrário, não cometer os mesmos erros que viram os pais cometer”, sublinha a assistente social.

Apesar de tudo, diz Cláudia Rocha, os problemas já foram piores, quando umas ruas abaixo da escola estava o Casal Ventoso, nos tempos em que era o hipermercado da droga de Lisboa. “Tínhamos muitos alunos com dificuldades porque as famílias estavam integradas no tráfico. Isso mantém-se e ainda há quem tenha o pai, a mãe, o tio presos. Também sentimos que há mais rusgas, na Quinta do Loureiro e na Quinta da Cabrinha, e já aconteceu os alunos não conseguirem subir para a escola porque estavam trancados no bairro. Tudo isso mexe muito com eles.”

“Já encontro encarregados de educação que foram nossos alunos e, infelizmente, os filhos estão a seguir os passos da mãe ou do pai. Copiam o padrão. Quando têm dois, três filhos e todos seguem no mesmo sentido, acaba por ser desolador. Nós não desistimos, mas é lamentável."
Cláudia Rocha, assistente social no Agrupamento de Escolas Manuel da Maia

A maior dificuldade para a assistente social continua a ser chegar aos encarregados de educação que, conta, têm cinco números de telefone e nenhum funciona ou moradas que já não existem quando enviam cartas registadas. “Alguns manifestam mesmo a sua incapacidade de conseguir que os filhos cumpram o dever de assiduidade”, detalha, dizendo que também é difícil conseguir chegar a estas crianças. “Para um número representativo destes alunos não há nem ideias nem atividades a que queiram aderir. Eles gostam da escola, chegam às 8 da manhã, mas não conseguimos levá-los para as aulas. Quando insistimos cinco, seis vezes e eles não vão, torna-se complicado. Não se pode agarrar um aluno pelo braço. E eles acham que se em casa podem fazer o que querem, na escola têm o mesmo poder. Chamar a atenção do encarregado de educação não serve de nada. Estamos a remar em sentidos diferentes.”

Apesar de, dentro da escola, Cláudia Rocha já não sentir a ligação ao tráfico de droga, acredita que no bairro ela ainda está lá, mesmo que mais ténue. O que vê, por vezes, é alunos que passam dificuldades financeiras chegarem à escola com tablets topo de gama. “Como é que acontece? São grandes quantias monetárias que não vêm do esforço do trabalho, vêm de algures. Embora não seja a postura da maioria, já há alguns alunos que, quando lhes perguntamos o que querem ser no futuro, respondem traficante ou desempregado.” Quando pergunta aos jovens se a consequência de poder ser preso vale a pena, os alunos sacodem os ombros. “Não pensam na consequência, já é natural”, conclui.

Aprender a viver com a mochila

“Os pais não são maus pais por opção, às vezes também precisam de ajuda”, diz Margarida Brandão, uma das coordenadoras da rede de mediadores EPIS. “Nós educamos de duas maneiras: ou repetimos o modelo que tivemos ou evitamos o modelo que tivemos”, acrescenta, sublinhando que a associação também trabalha com os encarregados de educação.

Apesar de concordar com a professora, Diogo Simões Pereira, diretor-geral da EPIS, defende que o trabalho feito com os pais ajuda, mas não faz milagres. “Com a experiência, aprendemos que, a partir do 2.º ciclo, temos de ensinar os miúdos a viverem com a mochila que têm. Todos os programas de formação parental têm resultados muito difusos. É mais importante levar os miúdos a acreditar que, se estudarem, conseguem ter mais resultados. Em alguns casos, parece que só estavam mesmo à espera de um sopro”, argumenta.

A partir do 2.º ciclo, o diretor-geral da Associação EPIS defende que é preciso ensinar os miúdos a viverem com a mochila que têm

Universal Images Group via Getty

Há questões familiares que, defende, são difíceis de quebrar, como nas comunidades ciganas, piscatórias e agrícolas. “Em Rabo de Peixe ou em Sesimbra, se os rapazes vão para a pesca com o pai, a seguir não vão à escola. Estas comunidades são muito fechadas no seu microcosmos e muito difíceis de abrir.”

Nicomedes, a caminho de conseguir o objetivo de terminar o 12.º ano, deixa um conselho a quem, como ele, se deixou enredar nas malhas do insucesso escolar. “Um conselho? Abram a pestana, não desistam. O tempo passa rápido e, quando forem adultos, arrependem-se das escolhas que fizeram. Se não tivesse aberto a pestana, estava em casa sem fazer nada, com o 6.º ano. Ia procurar emprego e não ia encontrar nada. Não sei se um dia vou chegar a um cargo grande ou não, mas essa possibilidade é muito mais real do que era há uns anos porque comecei a estudar.”

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