Di Canio. “Eu e o Futre tínhamos a mesma pancada”

20 Agosto 2017110

Stronzo, vaffanculo, frucio, cazzo, bastardo: é isso mesmo, arranca o campeonato italiano e é todos contra a hexacampeã Juventus. Daí até ao Di Canio é um passo. Glorioso, claro.

Facto: é um génio da bola. Pormenor: nunca joga na seleção italiana.

Facto: empurra um árbitro inglês (com as duas mãos, com força e tudo, não é um menino como Ronaldo). Pormenor: é o vencedor de um prémio fair-play da FIFA.

Facto: é uma espécie de Dr Jekyll e Mr Hyde. Pormenor: chama-se Paolo di Canio.

Pretty much, é isto. Qual Cantona, qual quê, Di Canio é o miúdo mais irrequieto da sala. Ao telefone, até se parece com um menino de coro. É ouvi-lo a falar na desportiva de tudo e mais alguma coisa.

Heyyyyy, Paolo, tudo bem?
Boa tarde.

Estou a fazer um trabalho sobre o início do campeonato italiano e lembrei-me de ti.
I can’t pretend that isn’t flattering.

Lazio, Juventus, Nápoles e Milan: jogaste em quatro campeões.
É para veres [risos].

E foste campeão em todos?
Só no Milan, em 1996.

Com Futre?
Era o meu buddie.

Então?
Dividia o quarto com ele. Mamma mia, a lavagem cerebral que lhe quis fazer.

Sobre futebol?
No way, sobre música, cinema, livros. Impingia-o Pasolini, Pasolini, Pasolini e mais Pasolini. Eheheheh, grandes tempos. Eu e o Paulo tínhamos a mesma [qualquer coisa impercetível em italiano]

What?
Sorry, tínhamos a mesma crazyness.

Ahhhh, pancada.
Pan-ca-da.

Boa boa.
Pancada.

Qual era?
O número 10. Já viste bem, dois números 10 no mesmo quarto? O Milan tinha isso e muito mais.

Era o Milan do Capello?
Ya.

E que tal?
Duro.

É essa a alcunha do Capello.
Duro, o nosso fight.

Fight?
Uma vez, durante uma pré-época na China, eu não joguei mais uma vez o tempo todo e questionei-lhe. Estava pissed off.

E ele?
Respondeu-me que eu não conseguia dar equilíbrio tático à equipa.

E tu?
Equilíbrio tático? Os chineses nem sabem o que isso é.

E ele?
Ficou como eu.

E?
Acabámos por trocar uns valentes vaffanculo, à frente de toda a gente. Era novo, entendes?

Isso era pré-época. Como é que conviveram o resto do ano?
Not.

What?
No dia seguinte ou assim, assinei pelo Celtic.

Ahhhhh, o famoso Three Amigos com Cadete e Van Hooijdonk.
Amigos, amigos [como quem diz ‘olhe que não, olhe que não’]

Então?
O Cadete, sim, impecável. O Pierre, huummm. Um dia, durante um jogo, o Andreas Thom [internacional pela RDA e, depois, Alemanha] não me passa a bola num lance em que ficava isolado. Pedi ao tradutor para convocar uma reunião e questionei o Andreas. O Pierre, que era amigo dele, ficou do seu lado. O Jorge analisou o lance e concordou comigo.

E o treinador?
Pobre Tommy [Burns], eheheheheh. Era um gajo sensacional. Aparecia quase todos os dias em minha casa às cinco da tarde. Não falava italiano e eu não falava uma palavra de inglês. Nem eu nem a minha mulher, muito menos a minha filha. Entendíamo-nos por sinais. O Tommy ajudou-me bastante. Mesmo nos momentos mais críticos, ele abraçava-me com força e a birra passava.

Não ganhámos nada coletivamente [Celtic], mas o Jorge foi o melhor marcador e eu o melhor jogador do campeonato. Acontece que o Celtic prometeu renovar o meu contrato se eu jogasse bem. Fui eleito o melhor do ano, algo que é objetivo e não subjetivo, e o presidente disse-me que eu não servia. É muito simples, não jogo para mentirosos nem para traidores.

Só ficaste lá um ano, porquê?
Não ganhámos nada coletivamente, mas o Jorge foi o melhor marcador e eu o melhor jogador do campeonato. Acontece que o Celtic prometeu renovar o meu contrato se eu jogasse bem. Fui eleito o melhor do ano, algo que é objetivo e não subjetivo, e o presidente disse-me que eu não servia. É muito simples, não jogo para mentirosos nem para traidores.

E foste para?
Sheffield Wednesday.

E que tal?
Um bom primeiro ano, com golos, e baaaah

Baaaah?
Foi só um empurrãozinho.

A quem?
Onde vives?

Portugal.
Porra, empurrei um árbitro.

Ahhhhh, pois foi.
Ainda hoje me pergunto como é que ele caiu com aquele estrondo. Até foi cómico, sabes? Ele caiu com piada.

E depois?
Vou contar-te, aquilo foi um jogo com o Arsenal. Na jogada anterior, houve um brawl entre alguns de nós e disse ao Vieira para estar cool. What for? No momento seguinte, mais do mesmo. Fiquei pissed off. E fui expulso.

Segue-se o empurrãozinho?
Shit, fui suspenso por 11 jogos. Lá se foi um terço da época down the toilet. Foi um ato indesculpável, claro. Era preferível mandar-lhe para um sítio qualquer em vez do contacto físico.

Onze jogos de fora é duro, não?
Tough, tough, tough. Em dezembro, fui para o West Ham.

Disseram-me que o Alex Ferguson quis contratar-te duas vezes nesse período.
Certo.

E não foste?
O futebol não é dinheiro, é paixão. Nunca iria trair o West Ham.

Sempre fui um bom companheiro, mas nem hesito em avançar se sei que posso fazer a diferença. Nessa tarde, estávamos a perder 4-2 em casa com o Bradford aos 60-e-tal-minutos. Foi falta dentro da área e eu tinha falhado um penálti na semana anterior. Talvez – atenção, talvez – ele tenha pensado que era a sua vez de marcar o penálti. Só que não. Fui lá, tirei-lhe a bola das mãos e nem liguei à conversa dele, que ainda olhou para o banco à espera da interferência do treinador [Harry Redknapp, tio de Frank Lampard]. E foi golo. Comigo não há segredos. Se sinto que posso marcar, arrisco.

Vi um jogo em que deste trabalho ao clã Lampard/Redknapp.
Também eu, também eu, também revi o penálti há tempos. Que dia glorioso. Sempre fui um bom companheiro, mas nem hesito em avançar se sei que posso fazer a diferença. Nessa tarde, estávamos a perder 4-2 em casa com o Bradford aos 60-e-tal-minutos. Foi falta dentro da área e eu tinha falhado um penálti na semana anterior. Talvez – atenção, talvez – ele tenha pensado que era a sua vez de marcar o penálti. Só que não. Fui lá, tirei-lhe a bola das mãos e nem liguei à conversa dele, que ainda olhou para o banco à espera da interferência do treinador [Harry Redknapp, tio de Frank Lampard]. E foi golo. Comigo não há segredos. Se sinto que posso marcar, arrisco.

Houve outro caso assim na Lazio.
Aí foi pior, muuuuito pior. Então o Inzaghi [Simone, irmão do Filippo] queria marcar um penálti com 0-0 no jogo que marcava o meu regresso à Lazio, à minha Lazio, 16 anos depois? É preciso ter um tiny brain para se julgar mais que eu nessas circunstâncias.

À tua Lazio?
Foi lá que comecei a jogar, foi lá que me estreei na 1.ª divisão italiana, foi lá que me tornei conhecido. Foi lá tudo.

E os dérbis com a Roma?
Best of all. Marquei no primeiro e no último, estou feliz da vida.

Sempre com polémica.
No primeiro, até não.

Há uma fotografia tua a correr para a curva com o dedo em riste.
No segundo, o festejo foi muito mais falado em todo o mundo.

O da saudação?
Yup. O dérbi de Roma é um jogo muito nacionalista, há muita coisa lá pelo meio desde sempre. Com aquela saudação, rebentou a escala e passou de um dérbi italiano para um dérbi mundial.

Qual é a diferença entre o futebol italiano e o inglês?
O italiano é fechado e a equipa que marca o 1-0 acaba por matar o jogo. O inglês, não: é uma batalha intensa ao longo dos 90 minutos. Todos correm, saltam, pulam de um lado para o outro, faça chuva, sol e nevoeiro. Depois, a caminho do balneário, todos arrotam e peidam-se.

Whaaaaat?
Heyyy, é normal.

Whaaaaat?
Querias o quê, é a ressaca da dieta deles: cerveja com salsichas e feijões.

E tu?
Eu, nada.

Gianluca Vialli. Que craque. Estava acima de todos os outros. Estamos a falar de uma pessoa que nasceu num berço de ouro, que veio de uma família rica. Em Cremona, ele tem uma mansão com 40 quartos. No entanto, fazia sacrifícios como qualquer outro e nunca se queixou. Ver aquilo transformou-me como pessoa e como jogador. Ele era daqueles que ficavam 30/40 minutos a treinar remates enquanto os outros já estavam a tomar banho ou até a caminho de casa. Olhava para ele e dizia: “Fuck, podia viver no Mónaco e está ali a fazer remates para uma baliza deserta, debaixo de um temporal.”

Foste melhor jogador com cabelo ou calvo?
Eheheheh, boa pergunta. Rendi mais sem cabelo, se calhar. Sabes quem foi o melhor calvo que vi?

No idea.
Gianluca Vialli. Que craque. Estava acima de todos os outros. Estamos a falar de uma pessoa que nasceu num berço de ouro, que veio de uma família rica. Em Cremona, ele tem uma mansão com 40 quartos. No entanto, fazia sacrifícios como qualquer outro e nunca se queixou. Ver aquilo transformou-me como pessoa e como jogador. Ele era daqueles que ficavam 30/40 minutos a treinar remates enquanto os outros já estavam a tomar banho ou até a caminho de casa. Olhava para ele e dizia: “Fuck, podia viver no Mónaco e está ali a fazer remates para uma baliza deserta, debaixo de um temporal.”

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