Dinu Flamand, o “companheiro de armas” de Lobo Antunes

16 Abril 2017

O escritor português apresenta-o como "grande poeta". A propósito da edição de "Sombras e Falésias", conversámos com o romeno Dinu Flamand sobre Pessoa, o Brasil e o Conde Drácula.

Quando Dinu Flamand entregou a António Lobo Antunes uma tradução portuguesa do seu livro de poesia, Umbre şi Faleze, o escritor não perdeu tempo — “depois de cinco minutos de leitura”, telefonou a Manuel Fonseca, editor da Guerra & Paz, e disse-lhe, sem papas na língua, que tinha de o publicar em Portugal. Apesar de conhecer Flamand há mais de trinta anos, a chamada telefónica não foi motivada pela estreita amizade que une os dois escritores — é que Umbre şi Faleze é, para o autor português, o melhor livro do poeta romeno. É “Grande Poesia”.

Dinu Flamand é há muito tido como um dos mais importantes poetas romenos da atualidade. Nasceu a 24 de junho de 1947, na Transilvânia. “Homem da montanha” — como ele próprio se descreve –, licenciou-se em Filologia pela Universidade Babeș-Bolyai, em Cluj, e foi aí que fundou com alguns colegas a revista Echinox, que marcou várias gerações pelo seu espírito antidogmático. Terminado o curso, trabalhou em várias revistas, jornais e editoras antes de se exilar em Paris, numa altura em que a Roménia vivia sob o regime opressivo de Nicolae Ceaușescu. Fora do seu país, fez questão de denunciar a realidade romena, trabalhando como jornalista para vários órgãos de comunicação franceses.

Depois da morte de Ceaușescu, executado a 25 de dezembro de 1989, e da queda do regime comunista, o poeta pode finalmente regressar ao seu país. Reintegrou-se na vida literária da Roménia e, em 2011, recebeu o Prémio Nacional Mihai Eminescu, pelo conjunto da sua obra poética. Publicou o primeiro livro em Portugal, Haverá vida antes da morte?, em 2007 pela desaparecida Quasi. O segundo saiu este ano pela Guerra & Paz, com o título português Sombras e Falésias.

Flamand apresentou-no ao final da tarde do dia 6 de abril, na Bertrand do Picoas Plaza, na companhia do amigo Lobo Antunes. Antes disso, falámos por ele por email e em francês, por considerar que o seu português não é suficientemente bom — é apenas uma de muitas “pontes” com a sua língua-mãe, o romeno. Nas respostas que deu ao Observador, falou morte da mãe, uma dor profunda que o fez procurar Ulisses, da Transilvânia da sua infância, do seu amor pela poesia brasileira e Fernando Pessoa, um “ponto de viragem”, e até do Conde Drácula.

"Sombas e Falésias" foi apresentado no dia 6 de abril, na Bertrand do Picoas Plaza

Fala muito da sua mãe neste livro, principalmente no primeiro capítulo. António Lobo Antunes diz isso mesmo no prefácio — que este é um livro que gira em torno da sua mãe. Porquê?
Porque a morte da minha mãe aconteceu numa altura em que desapareceram outras pessoas da minha vida. Primeiro decidi evocar a figura de uma poetisa que foi espezinhada pelo antigo regime do meu país, uma mulher admirável que concebeu um conjunto de poemas com o título Os ateliês da morte. O título era impensável numa altura em que o otimismo industrial e bolchevique, mais corrosivo do que a própria ideologia, esmagava o nosso país. Mas, mais tarde, apercebi-me de que não podia escrever sobre o desaparecimento da minha mãe, apesar de lhe ter dedicado outros poemas em vida. Uma grande dor pessoal pode revelar-se incompatível com a literatura se a continuarmos a somatizar, a um ponto que chega a ser ilícita a tentativa de a “estilizar”. Perante uma dor profunda, a poesia torna-se indecente.

O segundo capítulo chama-se “Poemas para Ulisses”. Porque é que decidiu dedicar uma série de poemas a esta personagem mítica?
Para me poder aproximar dessa ausência provocada pela morte da minha mãe, tentei apropriar-me da experiência da descida de Ulisses aos Infernos. Através dele, tentei não só procurar a minha mãe no Além mas, especialmente, encontrar o tom e a justificação para dar voz à minha dor. É, talvez, um subterfúgio alexandrino, mas ajudou-me. Devia ter rejeitado os poemas dedicados ao fundador de uma certa Lisboa quando terminei o livro, mas não podia ser ingrato.

Na Odisseia, de Homero, Ulisses desce aos Infernos onde se encontra algumas pessoas que foram importantes na sua vida. Uma delas é a sua mãe, Anticlea.

Em Sombras e Falésias encontramos várias referências à cultura e literatura latina (não só no capítulo de Ulisses). Qual é a sua relação com a literatura e língua latinas?
Sempre tive orgulho de pertencer a esse mundo, de ser herdeiro da disseminação do pensamento e escrita latinas. Cada inscrição [latina] talhada com caracteres firmes, inscrita naquela linearidade imperial, em maiúsculas, emudece-me. A nossa língua [romena] tem mais de 66% de palavras latinas, na sua base lexical. Adoro ler, traduzir, visitar os escritores que expressam essa sensibilidade latina porque só ela consegue, nos seus melhores momentos, lidar com o impossível: estruturar sumptuosamente a emoção. Mesmo tendo sido um desastre na escola, consegui recuperar um pouco o tempo perdido quando consegui ler Horácio e Ovídio em latim. Também tentei aprender outras línguas neolatinas [que vêm do latim] para conseguir ler no original alguns dos grandes textos. Isto explica as minhas reticências em falar outras línguas que não o francês. Em relação às outras, sou uma espécie de intermediário que faz a ligação com a minha própria língua. Isso chega-me, porque me enriquece bastante.

Uma palavra com a qual nos deparamos várias vezes é “Transilvânia”, a região de onde é originário. Que recordações é que esta palavra lhe traz? Disse uma vez numa entrevista que tem uma obsessão com a Transilvânia, incluindo com o próprio nome. Porquê?
A “Transilvânia” é a província metafísica da minha pátria provincial. Traduzindo literalmente, significa um espaço que fica do outro lado… Da floresta. Até o nome nos convida a sonhar. Como pode ver, as “sombras” já habitavam o meu lugar de origem. Para qualquer pessoa que more ao lado da “boca do inferno”, aqui na costa do Atlântico, as florestas da Transilvânia escondem uma parte do inferno que é ainda mais infernal. Adoramos assustar-nos, e podemos contar com a poesia para isso!

No que diz respeito à região física em si, esta é de uma beleza ímpar. Pelo menos foi assim que ficou gravada nas minhas memórias de pequeno lavrador, que trabalhava a terra ao lado do pai e de outras pessoas humildes sem que os deuses tivessem dado sinal de que tinham reparado em nós.

O desfiladeiro de Borgo e a aldeia de Prundu Bârgăului são referidas na primeira parte do romance por Jonathan Harker, que descreve a sua viagem até ao castelo do misterioso Conde Drácula.

Para a maioria dos ocidentais, Transilvânia é sinónimo de vampiros, do Conde Drácula.
Em romeno, os vampiros chamam-se “strigoi”. São os “streghe” que aterrorizavam os antigos gregos, daí a sua presença na demonologia romana. O homem mantém os mesmos medos e raramente lhes modifica os nomes. Na fronteira ambígua entre a vida e a morte, a sombra e a luz, o ar e a presença do vazio, o fixar uma sombra, um poema com uma pilha de palavras, reduz a superstição que sugere, não só na Transilvânia, a morte de um cadáver que se supõe ainda vivo espetando-lhe uma estaca de madeira. Encaro esse costume como uma prática poética, provocada pela dor e pela incapacidade de compreender a morte.

O ritual e a superstição quase desapareceram na Transilvânia, mas a tradição mantém-se. Da mesma forma que, se fizer um inquérito sociológico em Côtes d’Armor, em França, ainda vai encontrar um rasto do morto-vivo Ankou. É um desses rituais para dominar a morte, proveniente de um tempo em que a sua existência não aparecia dissimulada, como nas nossas ascéticas sociedades ocidentais. A morte manifestava-se no espaço dos vivos. A relação com a morte não tinha nada a ver com esta mentalidade medíocre moderna, que adora assustar-se com romances negros ou filmes gore.

Por outro lado, até é caricato constatar que a Transilvânia, terra rica em lendas, foi invadida por um mito recriado no Reino Unido. Acho que, ao “beber” sangue, o terrível Conde Drácula procurava a fórmula da eterna juventude. Bram Stoker resvalou para qualquer coisa que ultrapassa largamente as ambições do romance gótico inglês. E fique a saber que o Drácula viveu na minha aldeia! Verdade! “Bârgău” ou “Burgo” é o nome da cadeia montanhosa onde fica Prundu Bârgăului, a minha aldeia, a única localidade mencionada no romance. E, como é óbvio, não tem nenhum castelo. Bram Stoker esqueceu-se de fazer uma viagem real pela minha terra. Todas as suas descrições são fantasia pura, mesmo que se tenha por vezes a impressão de identificarmos aquele local, aquela montanha, aquele rio da Transilvânia.

“O Drácula viveu na minha aldeia! Verdade! ‘Bargau’ ou ‘Burgo’ é o nome da cadeia montanhosa onde fica Prundu Bârgăului, a minha aldeia, a única localidade mencionada no romance.”
Dinu Flamand

O último capítulo chama-se “Três Poemas Brasileiros”. No primeiro poema, “Jardim Tropical”, faz um paralelismo entre o Brasil e a sua terra natal. O que é que encontrou de semelhante nos dois lugares?
[Em 2008] fui convidado para ir ao Brasil pela generosa fundação norte-americana Sacatar Foundation. Morei com diversos artistas e escritores de várias nacionalidades, numa bela “quinta” tropical. As mulheres da ilha de Itaparica [na Bahia], onde vivíamos, cozinhavam para nós com a alegria e o bom humor das coletividades antigas. Assisti, na minha infância, a momentos festivos ou de trabalho coletivo em que vários membros da família cozinhavam em conjunto, transmitindo a sensação de que a vida era boa graças àquela convivência. A movimentação das mulheres à volta das panelas, a sua alegria autêntica, provocavam em mim uma dor paradoxal porque a figura da minha mãe se materializava nos seus gestos, fazendo ressuscitar um cortejo de lembranças. Era, sei-o agora, a fase final do meu luto.

A descoberta desse mundo — as paisagens, os costumes que eu conhecia –, onde se inclui a minha pequena imersão no sincretismo religioso do Candomblé, tão presente na região da Bahia, provocou em mim medos e dores ancestrais. Apesar de todos esses aromas, cores, ritmos, costumes e crenças exóticas e excitantes, continuava à procura dessa passagem que Ulisses tinha atravessado em busca da sua mãe. Não sou atraído pelo irracional, no entanto, naquele momento, senti que devia chegar por todos os meios ao reencontro final com a minha mãe e com o nosso passado. O poema que surgiu em poucas horas fez-me sentir livre. Estou a explicar isto tudo para esclarecer que o que me interessava fazer não era uma comparação entre a minha Transilvânia e a vida em Itaparica. Sempre se tratou da mesma descida até ao limite, aquele onde a minha mãe continuava viva para mim.

Acrescentei, sem grande convicção, os outros dois poemas — os únicos que tinha escrito durante essa longa estadia [no Brasil] — porque partilham a mesma atmosfera. Para dizer a verdade, desejava ter escrito um livro de poemas sobre a minha nova experiência brasileira, mas não consegui livrar-me da minha velha obsessão. O meu passado perseguiu-me até Itaparica e, por isso, tinha de exorcizá-lo definitivamente sob o risco de não ser compreendido por mais ninguém.

"Sombras e Falésias" é o segundo livro do poeta romeno publicado em Portugal

“Os Poetas do Brasil” é uma homenagem a poetas brasileiros como Vinícius de Moraes ou Carlos Drummond de Andrade, que já traduziu para romeno. Como é que descobriu estes poetas?
Muito antes de sonhar com uma estadia no Brasil, recebi um presente inesperado — um livro de poemas de Carlos Drummond de Andrade com uma dedicatória do próprio. Tinha publicado numa revista romena a tradução de alguns dos seus poemas e tinha enviado essa revista para uma pequena editora. Imagino a sua surpresa: as minhas traduções tinham atravessado a famosa cortina de ferro e ele recebeu uma mensagem surpreendente. Nessa coletânea, inclui o poema “Congresso Internacional do Medo” para lhe mostrar que tinha compreendido a sua mensagem. Ele troçava do medo e eu sentia-me encorajado a não temer nenhum sistema. Penso que se estabeleceu uma bela cumplicidade entre nós. Quando ele meu deu a sua morada no Rio [de Janeiro] foi como um convite. Mais tarde, apareci em frente àquele apartamento com uma rosa na mão para assinalar a minha presença e a minha homenagem. Não sei se foi um milagre que me fez cruzar com alguns textos de poetas brasileiros modernos, mas a beleza de muitos dos seus poemas e a frescura particular que os caracteriza marcou-me.

“Desejava ter escrito um livro de poemas sobre a minha nova experiência brasileira, mas não consegui livrar-me da minha velha obsessão. O meu passado perseguiu-me até Itaparica e, por isso, tinha de exorcizá-lo definitivamente sob o risco de não ser compreendido por mais ninguém.”
Dinu Flamand

O que é que mais admira na poesia brasileira? No início do poema diz que “com três palavras apenas” conseguem invocar “um grande amor e cortar-nos a respiração”.
Creio que a grande poesia brasileira se define por uma simplicidade profundamente honesta. Para alguém como eu, obrigado durante muito tempo a complicar metaforicamente a mensagem devido à censura, a descoberta da liberdade luminosa desta poesia “tropical” foi uma verdadeira maravilha. Sabe, nas ditaduras comunistas é preciso ser-se mais inteligente do que a censura e, por isso, a poesia torna-se obscura, retrátil ou quase ilegível — invisível — para nossa defesa. É por isso que adoro a liberdade absoluta de Vinicius de Moraes, que “dança” com a tristeza.

Dinu Flamand junto à estátua do poeta Carlos Drummond de Andrade na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro

Em “Quinta Pitanga” fala dos gritos de um pavão, “os primeiros arpejos do Apocalipse”, do mar onde “espreita ao longe o medo”. Estava a anunciar uma tempestade brasileira? Já se viam os “relâmpagos” ao longe.
Por vezes havia tempestades assustadoras nesse “recôncavo” da Baía de Todos-os-Santos, mas também havia, nesse período, uma tensão internacional. Conseguia senti-la, mesmo entre a vegetação luxuriante, do mesmo modo que mantinha o diálogo com as minhas sombras. Não me vejo no papel de Cassandra, mas isso não me impede de dar voz às minhas ansiedades e medos de um modo pouco explícito. O que, aliás, é um privilégio da poesia. Hoje em dia, o horizonte está ainda mais sombrio, mas as Cassandras que ousarem anunciar a tragédia acabarão na mesma por ser violadas.

Cassandra é uma personagem da mitologia grega. Capaz de prever o futuro, tentou, em vão, alertar o seu pai, o Rei Príamo, e a sua restante família para as consequências da Guerra de Tróia. Os troianos perderam a guerra contra os gregos e a sua cidade, Tróia, acabou destruída.

Este livro é uma viagem por lugares que lhe dizem muito — a Roménia, o Brasil. Também fala de Itália e de França. É também uma viagem pela sua própria vida?
Não é fácil analisar a estrutura desta viagem, mas trata-se certamente de uma viagem. Tem os contornos, interiores e exteriores, da confusão que me mantém vivo. Reconstituo algumas paisagens, situações, contextos, externos e internos, que se apoderaram de mim em algum momento sem ter, contudo, a certeza de ter chegado a qualquer conclusão. Sabe, a poesia reclama o direito da fraqueza — não chega a conclusões. Vive no prolongamento, talvez em círculos. Na melhor das hipóteses, deve conseguir transmitir esse convite à viagem a cada um dos seus leitores.

Falámos da poesia brasileira, mas também tem feito traduções de poetas portugueses, nomeadamente Fernando Pessoa. Como é que descobriu a poesia portuguesa e, em especial, Pessoa?
Orgulho-me de poder dizer que cheguei, com a minha série de traduções de Pessoa para romeno, ao sexto volume, que verá a luz do dia dentro de poucas semanas. Conta com quase 500 textos da poesia ortónima que Pessoa escreveu em português, inglês e francês, e inclui a Mensagem. Já publiquei o Livro do Desassossego, grande parte dos textos esotéricos, as crónicas e artigos sobre Portugal, a correspondência com Ophélia, alguns dos textos mais importantes sobre literatura, uma antologia com a maior parte dos heterónimos, etc. E a aventura continua…

A descoberta de Fernando Pessoa constituiu um ponto de viragem na minha vida. Adoro como anula o determinismo e prova que somos nós que nos construímos a nós mesmos graças à vontade criadora de que dispomos. Traduzir Pessoa será sempre, para mim, uma assombrosa aprendizagem. Tenho a impressão de que ele poderia ter escrito diretamente em romeno. A Roménia poderia ter sido a sua “mátria”!

“Quando [Drummond de Andrade] meu deu a sua morada no Rio [de Janeiro] foi como um convite. Mais tarde, apareci em frente àquele apartamento com uma rosa na mão para assinalar a minha presença e a minha homenagem.”
Dinu Flamand

Como já referi, o prefácio de Sombras e Falésias foi escrito por António Lobo Antunes, de quem é amigo. Como é que se conheceram?
Outra boa fase da minha vida foi a do encontro com Lobo Antunes em Lahti, na Finlândia. Éramos muito jovens e, evidentemente, tomei de assalto o único português presente naquele festival internacional para o importunar com o meu entusiasmo. E, ao invés de afastar aquele sujeito suspeito, tomou a iniciativa de me recomendar para uma bolsa [da Fundação Calouste Gulbenkian, em 1985]. Quando cheguei a Lisboa, fiquei na casa dele durante semanas. Mais tarde, apercebi-me de que o meu perfil não se adaptava à sociedade ocidental, pelo que exerceu sobre mim uma suave pedagogia de iniciação. Ao mesmo tempo, e sendo ele psiquiatra, também tentou curar as minhas feridas de prisioneiro de Ceaușescu.

Enfim, devo ao meu médico e amigo Lobo Antunes um reconhecimento que só é igualado pela minha total admiração pela sua obra. Naquela época, estava a preparar uma antologia de poesia portuguesa de Pessoa e Al Berto, e ia recebendo conselhos de amigos do Lobo que, rapidamente, se tornaram também meus amigos: Assis Pacheco, Pedro Tamen, Cardoso Pires e até a Sophia de Mello [Breyner], que conheci nessa altura. Um dia retomarei esse projeto que foi eclipsado há muito pelo meu trabalho de tradução de Gamoneda, Neruda, Saba, Luzi, Beckett, Herberto Hélder, etc.

Dinu Flamand com Sophia de Mello Breyner em 1989, altura em que vivia em Lisboa

Isso aconteceu numa altura conturbada da sua vida. Pouco tempo depois teve a oportunidade de abandonar definitivamente a Roménia e fixar-se em França, onde trabalhou como jornalista. Como é que foram esses tempos para si?
O exílio é uma experiência inexplicável e única para cada pessoa que cruzou os seus limites. Posso dizer-lhe que, logo no início da minha vida parisiense, foram sobretudo os portugueses que me ajudaram, aqueles que já tinham passado por essa essa difícil adaptação ao exílio depois da fuga à ditadura. Posso agora revelar que fiquei gratuitamente alojado durante meses na Casa de Portugal, na Cidade Universitária, graças a um administrador extraordinário que depressa compreendeu a precariedade da minha situação. Foi graças às recomendações de alguns amigos lisboetas, que tinham falado a meu favor, que fui acolhido no seio de um grupo de expatriados portugueses em Paris e aceite para um doutoramento na Sorbonne sobre Mário de Sá-Carneiro pelo professor [José da Silva] Terra, apesar de não ter mais do que uma fotocópia do meu diploma de licenciatura. O documento oficial tinha sido confiscado pela polícia romena na altura em que um amigo português o tentava trazer de Bucareste. O professor Terra aceitou ser o orientador da minha tese depois de uma longa conversa sobre literatura portuguesa. Depois, e durante mais de vinte anos, fui jornalista na rádio France Internationale, em conjunto com outros jornalistas portugueses e brasileiros. Como vê, o meio lusófono sempre me protegeu.

Uma vez fora da Roménia, fez questão de denunciar o regime opressivo de Nicolae Ceaușescu. Por que é que sentiu que tinha de o fazer?
Estava cansado de ter medo. Tinha perdido o respeito por mim mesmo. Apesar da ameaça de represálias contra a minha família — os meus filhos, ainda menores, estavam impedidos de sair de Bucareste — e contra os que me eram mais próximos, resolvi falar livremente. Atacava constantemente o regime de Ceaușescu na BBC, na Freed Europe, na Deutsche Welle, na Voice of America e, naturalmente, na RFI. Pode imaginar as ameaças repetidas e crescentes que a minha família recebeu na Roménia. Felizmente, no final do ano [de 1989] o regime caiu. Pouco meses depois, a minha família pôde juntar-se a mim em Paris. Contudo, não me considero “politicamente ativo”. Enfureci-me e protestei em nome da liberdade, apenas. Sempre como escritor. Aceitei, há alguns anos, representar o meu país na Organização Internacional da Francofonia, pelo que continuo a ser um escritor diplomata.

“A poesia reclama o direito da fraqueza — não chega a conclusões. Vive no prolongamento, talvez em círculos.”
Dinu Flamand

Depois da queda do regime, pôde finalmente voltar à Roménia. Como é que foi esse reencontro?
Não voltei logo à Roménia porque a minha família precisava de se adaptar à sua nova vida em Paris e não tínhamos o direito de andar com as crianças de um lado para o outro. Por outro lado, a imagem cada vez mais confusa do meu país depois da “revolução”, com a “democratização” de um dia para o outro do antigo aparelho político, desgostava-me profundamente. De tal modo que caí numa depressão ainda mais profunda do que aquela que tinha atravessado antes da minha fuga para o Ocidente.

Entretanto, publiquei um novo e pequeno livro de poemas que foi muito bem recebido. Uma nova geração de leitores romenos pôde constatar que não era apenas um nome nas enciclopédias e histórias literárias. Continuava a escrever a minha poesia em romeno apesar de, na entrada da Wikipédia — escrita por quem? –, ser apresentado como um “poeta francês de origem romena”. Aproveitei para tirar da gaveta as minhas traduções de Pessoa, incluindo o número especial da revista Le 20-ème siècle, que devia ter sido lançada antes da minha partida por ocasião do centenário de Pessoa. Em 2002, José Augusto Seabra, que era cônsul de Portugal em Bucareste, propôs-me prefaciar a antologia Odes marítimas e outros poemas, onde reuni, pela primeira vez, os grandes poemas de Pessoa e os seus heterónimos. E o resto é história, como se costuma dizer.

António Lobo Antunes e Dinu Flamand conheceram-se há mais de 30 anos, na Finlândia

No prefácio, Lobo Antunes chama-lhe um “príncipe”, com um “sorriso que engole o mundo”. Um “grande poeta”. São grandes elogios. O que é que pensa deles?
A generosidade de Lobo Antunes está em harmonia com o seu imenso talento e esses traços convergem para o seu dom para a amizade, que forjou durante a Guerra de Angola. Um dia, disse-me que eu fazia parte dos seus companheiros de armas e, a partir daquele momento, senti uma enorme responsabilidade nas costas. Aqui entre nós: nunca vi ninguém que trabalhasse com tanta determinação em cada página escrita. Ele trabalha-a como se fosse a sua última oportunidade de criar alguma coisa essencial para salvar o mundo.

E uma última pergunta: haverá vida antes da morte?
Parece-me que sim… Mas essa vida deverá deixar as suas marcas no papel.

Texto de Rita Cipriano, fotografia de Henrique Casinhas. Fotografias de Dinu Flamand com Sophia de Mello Breyner e com a estátua de Drummond de Andrade cedidas pelo próprio.

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