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Aos 34 anos, o humorista divide-se entre um blogue, crónicas, vídeos no YouTube e está a escrever o seu quarto livro

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Aos 34 anos, o humorista divide-se entre um blogue, crónicas, vídeos no YouTube e está a escrever o seu quarto livro

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Diogo Faro: "Somos todos hipócritas, é impossível sermos coerentes ao longo de toda a vida" /premium

Com uma digressão suspensa e um quarto livro a caminho, o humorista fala-nos de tudo: da pandemia e das tatuagens, de ódios e heróis, da infância, dos sonhos, de feminismo e de política.

Esta entrevista esteve marcada para o dia 10 de março, vésperas do regresso de Diogo Faro ao Porto para apresentar “Lugar Estranho”, o seu espetáculo de stand up. A pandemia mudou-lhe os planos, mas não lhe tirou humor, as convicções e a vontade de lutar por um mundo melhor.

“Agora está a comer as plantas. Que chato, nunca está quieto.” A conversa é interrompida pelas ordens de Diogo ao seu mais recente gato. Vive sozinho em Lisboa, a cidade onde nasceu e aparentemente é feliz, a ler um livro numa esplanada ou a beber cervejas com os amigos ao fim da tarde.

Cresceu numa família de artistas e entre os corredores do teatro decidiu que queria ser clarinetista. Influenciado pelo avós, cujo prato favorito tem tatuado no corpo, acabou por estudar marketing e publicidade, mas criou o blogue “Sensivelmente Idiota” e tudo mudou. Graças ao apoio familiar, deu-se ao luxo de se despedir em 2013 e dedicar-se inteiramente à comédia. “Estou constantemente a pensar sobre aquilo que sou, que quero ser ou o que deixei de ser, mas uma coisa é certa: sei que não gosto muito de trabalhar e não sou super ambicioso.”

Entre os vídeos no YouTube, as crónicas e os livros, dava nas vistas a falar sobre o que estava errado no mundo com sarcasmo e ironia. As conversas indetermináveis com as amigas tonaram-no feminista e, consequentemente, o seu humor ficou mais político e ativista. Com uma alma boémia e uma imagem que deixa poucos indiferente, Diogo colecionou ódios, ameaças e sustos na rua, mas nada que o fizesse abrandar. “Não sou nenhum herói, defendo coisas básicas.”

Não tem poupanças nem tenciona mudar o mundo, apenas quer fazer os outros pensar sobre o racismo, a homofobia ou a igualdade de género. Usa as redes sociais para se fazer ouvir e considera-se um otimista, apesar de lhe restar pouca esperança na humanidade. Aos 34 anos, Diogo Faro procura a coerência e a melhor versão de si mesmo, ainda que tropece em alguns clichés e estereótipos sociais.

Rejeita rótulos redutores e tem no chef Anthony Bourdain um herói. Garante que o tempo livre o dinheiro para viajar são os seus maiores luxos e confessa que até gostava de ser vegan, mas não imagina a vida sem queijo. Sonha em ter um programa sobre viagens na televisão, mas enquanto não encontra o ângulo perfeito, escreve o seu quarto livro, a ser lançado no próximo ano, e sobe ao palco do Cinema São Jorge, em Lisboa, no próximo dia 15 de agosto.

"Claro que gasto dinheiro em copos e gosto de viajar, por isso aceito que me critiquem e me digam que sou da 'esquerda caviar'"

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Com uma mãe cantora lírica, um pai maestro e um curso de clarinete no conservatório, podíamos estar agora a falar do seu novo álbum?
Percebo a questão. O meu avó materno tinha uma paixão enorme por música, apesar de ter sido economista a vida toda. Foi músico amador quase desde que nasceu e passou-nos isso. Não dava muito para fugir, ganhei esse gosto enquanto criança e fiz o conservatório todo, mas depois, por preocupações financeiras dos meus avós, houve uma certa pressão soft para que não me tornasse músico profissional, que, no fundo era o que eu queria ser, clarinetista. Como sou muito chegado aos meus avós, acatei um bocado a preocupação deles, que me diziam para tirar um curso superior primeiro e depois voltar à música. Acabei por pôr a música um bocadinho de lado e deixei essa componente profissional para trás, com alguma pena, confesso. Não guardo nenhum rancor, não me arrependo nada, fiz outro caminho, continuo ligado à arte e à música, apesar de não praticar regularmente.

Ainda toca clarinete?
Sei tocar e não sou péssimo, foram tantos anos a estudar a fundo… O clarinete surge muito por influência do meu avô, que é de Palmela e está ligado aos “Loureiros”, uma banda filarmónica de lá. Comecei a aprender música com ele com 7 ou 8 anos. Tinha um primo afastado que tocava clarinete, queria experimentar e tocar como ele. Adorei o som e a versatilidade, apaixonei-me pelo instrumento.

Nascendo numa família de artistas, a educação e a infância foram necessariamente mais livres?
Sim. Cresci no meio artístico, frequentei muito o teatro S. Carlos, onde fiz presenças como figurante de ópera quando era criança e jovem, fiz uma peça no Maria Matos e depois acabei por estudar no conservatório. Esta ligação e sensibilidade às artes quando estamos no meio é normal. Todos os dias quando chegava a casa das aulas, a minha mãe estava a cantar ou a dar aulas de canto, aquilo era perfeitamente normal para mim. Mesmo quando os meus pais se separaram e a minha mãe se casou com um pianista, entrava em casa e ele estava a tocar. Talvez porque são músicos os meus pais podem ser mais livres, e na verdade são, comparados com muita gente. Na altura não percebia isso, agora vejo que tinha uns pais que na maioria dos assuntos tinham uma mente muito mais aberta do que os pais dos meus amigos, mais convencionais, mas não quer dizer que a minha educação tenha sido melhor do que a dos outros. Em algumas coisas foi diferente, um bocadinho fora do normal, sem tantos estereótipos sociais, mas não foi tudo perfeito. Os meus pais também tiveram os seus estereótipos e eu continuo a ter os meus. É isso que quero continuar a tentar combater.

É verdade que tatuou ervilhas com ovos escalfados e uma buganvília em homenagem aos seus avós?
Sim. Temos uma família muito próxima e os meus avós maternos são muito importantes para mim, felizmente ainda são vivos. Já tinha várias tatuagens e queria fazer uma sobre eles, mas não queria assim uma coisa super lamechas, como tatuar os nomes ou as caras deles, então tatuei um prato que o meu avó adora e me faz sempre lembrar dele e uma flor que a minha avó adora.

Como é que eles veem o seu trabalho?
Sempre com um misto de bastante orgulho e bastante preocupação pela instabilidade. Continuam a perguntar-me se tenho trabalho e se tenho dinheiro para pagar a renda, principalmente agora que o trabalho diminuiu. Por outro lado, sinto que têm muito orgulho essencialmente de me verem feliz, a fazer as coisas que quero e a ter alguns reconhecimento profissional. E pronto, desde que pague as contas está tudo bem.

"Não tenho grandes pretensões, não são os meus posts, o meu espetáculo nem o meu livro que vão mudar o mundo, mas que seja convite, pelo menos, à reflexão."

Apesar dessas referências na música clássica, temos uma ideia de si boémia, de uma vida sem regras. Identifica-se com este rótulo?
Sim, um bocado, é assim que gosto de estar na vida. Isto pode ser um bocado pretensioso de se dizer, mas é a verdade. Estou constantemente a pensar sobre aquilo que sou, que quero ser ou o que deixei de ser, mas uma coisa é certa: sei que não gosto muito de trabalhar e não sou super ambicioso. Acho que isto está muito instituído na nossa sociedade, por questões políticas e por influência do neoliberalismo dos Estados Unidos da América e do Reino Unido. Temos todos que trabalhar muito, ser muito bons, ganhar cada vez mais dinheiro para comprarmos cada vez mais coisas. Não me identifico nada com isso. Não ambiciono ser o melhor comediante do país, não ambiciono ser rico, mas depois gosto muito do outro lado, que é ser um bocado boémio. Gosto de sair à noite, gosto de passar tardes inteiras a beber cerveja com os meus amigos numa esplanada. Ter essa liberdade é o maior luxo que conquistei com o meu trabalho, essa coisa de ter dinheiro suficiente para pagar as contas e não querer trabalhar muito. Às vezes recuso trabalhos porque não me apetece trabalhar, não vivo para trabalhar. Infelizmente, muita gente tem que trabalhar muitas horas para poder sobreviver, mas também temos outras pessoas em que vemos que isto é mesmo cultural. Elas não precisam de trabalhar assim tanto, nem de ganhar assim tanto, mas querem e passam horas e horas a trabalhar em vez de apreciarem outras coisas na vida, como estar só sossegado numa esplanada a ler um livro. O maior luxo que o meu trabalho me tem dado é tempo, trabalho mesmo poucas horas por dia e, além de trabalhar nas coisas que quero, não me apetece trabalhar muito mais do que isso.

As tatuagens, as unhas pintadas e o risco preto nos olhos fazem parte da sua imagem. Há pessoas que não lhe ficam indiferentes, tem algum propósito?
Acho que isso não devia ser nada importante. Sou assim e, sinceramente, não tem nada de especial. Há montes de pessoas tatuadas e o pintar as unhas começou numa espécie de campanha que lançámos no movimento “Não é Normal” para quebrar estereótipos de género. Pintei as unhas e honestamente curti e fui deixando estar. Acho que isso não tem mesmo nada de mais, mas também é engraçado porque é um marcar de posição, é um banalizar do homem com unhas pintadas. Há muitos homens que já faziam isso, isto só cria impacto porque tenho X seguidores no Instagram. Mais uma vez, não estou a ser nada disruptivo, estou a fazer uma coisa normalíssima. Para algumas pessoas pode ser algo provocatório, do género “lá está ele a armar-se”, mas também recebi mensagens de mães a dizerem que os filhos tinham as unhas pintadas à Diogo Faro. Se aparecer no Instagram com as unhas pintadas faz com que esteja a quebrar estereótipos de algumas pessoas, ótimo, mas não faço isso com nenhuma pretensão. A minha imagem é assim, posso dar-me ao luxo de ser assim. Quem trabalha num banco ou num escritório de advogados não pode usar as camisas que eu uso, estar todo tatuado ou pintar as unhas. É mais um pequeno luxo ao qual eu me posso dar.

"Há pessoas que me fazem questão de dizer muitas vezes que 'antes é que eu tinha graça', agora sou 'apenas um ativista'"

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Marketing e publicidade era a sua vida antes da comédia?
Sim, mas não me via a fazer aquilo no futuro. O facto de defender posições socioeconómicas de esquerda, onde as pessoas merecem ser bem pagas, ter dignidade e não trabalhar mil horas, esperando que tenham uma vida decente e que outras não estejam a enriquecer desmesuradamente à conta delas, faz com que me afaste um bocado da realidade que tinha quando estudava marketing. Penso que não ia gostar muito de voltar hoje em dia, mas pode acontecer. Se isto da comédia não correr bem, vou ter que voltar para um agência de publicidade, embora não seja uma coisa que me apeteça.

Como toma a decisão de se despedir para se dedicar ao humor?
A minha vida é feita de pequenos luxos, por isso não gosto nada de empolar as coisas que tenho feito. Comecei por escrever um blogue, o Sensivelmente Idiota, as coisas começaram a crescer, fiz stand up e gostei. Pensei que se calhar era fixe ser comediante, no fundo, acho tem que ver com o facto de ter crescido em palco como músico e como ator em pequenas coisas. Decidi que devia tentar seguir a comédia, mas só pude tentar porque tenho uma família que não me deixava passar fome se as coisas corressem mal, que não me deixava viver na rua se as coisas dessem para o torto. Por isso, é mais um pequeno luxo ao qual muita gente não se pode dar. De repente, despedi-me do trabalho para um capricho de ir ser comediante. Por acaso correu bem, estava a viver com a minha mãe e passado um ano consegui sair e pagar as minhas próprias contas. Não fui nada corajoso, estava cheio de redes de proteção.

Quando percebe que tinha jeito para fazer rir os outros?
Não consigo identificar um momento específico. Sempre gostei muito de escrever e uma coisa que influenciou muito a minha decisão foi o facto de trabalhar 12 ou 14 horas por dia. Não queria isso para a minha vida, especialmente a ganhar o que ganhava, que nem sequer era nada de especial. Chegava a casa todo partido, não tinha tempo para estar com os meus amigos, para ler um livro. Gostava do que fazia, tinha a ver com criatividade, mas não queria trabalhar tantas horas para o resto da minha vida.

"Não estou muito otimista, mas continuo a acreditar nas pessoas. Há muito mais gente boa do que má, há mais pessoas do lado dos direitos humanos do que do lado dos fascistas e desta extrema direita que está a crescer no mundo inteiro."

Disse numa entrevista que tinha finalmente encontrado o seu tom e o seu tipo de humor. Qual é?
Não sei bem, acho que essa parte fica mais para quem o vê. Há pessoas que me fazem questão de dizer muitas vezes que “antes é que eu tinha graça”, agora sou “apenas um ativista”. Outras dizem que agora tenho muito mais piada porque estou focado em determinados assuntos. Tento melhorar de ano para ano, já não me revejo no que fiz há um ano, muito menos no que fazia há 8 anos, quando comecei. Se calhar faço um humor mais político. Quem não acha graça diz só que sou um ativista, outros percebem que, apesar dessa parte, tento escrever sempre as coisas com humor. Uso o sarcasmo e a ironia para nos conseguirmos rir daquilo que está errado, mas não tenho uma caixinha para colocar o meu humor.

O Diogo Faro comediante é diferente do Diogo Faro que vai beber cervejas para uma esplanada com amigos?
Não há diferença, é a mesma pessoa. Quando estou com os meus amigos também discutimos política e a sociedade ou estamos só a dizer merda como qualquer grupo de amigos saudável. Não faço essa distinção entre a personagem de Instagram ou de palco e a minha própria personalidade. O que digo na esplanada com os meus amigos são também as minhas opiniões públicas. Claro que publicamente posso ser um bocado mais resguardado, como toda a gente, não tenho que dizer tudo no Instagram ou nos meus espetáculos como digo aos meus amigos, mas fundamentalmente sou a mesma pessoa, com os meus valores.

O uso das redes sociais para fazer humor é recorrente em si, não tem receio que isso canse as pessoas?
Sim, já pensei nisso, às vezes podia não falar tanto. Acho que as redes sociais têm coisas muito boas, apesar de todas as más que conhecemos. Percebo que haja esse risco e acontece, sei perfeitamente que há pessoas que se cansam de mim e simplesmente deixam de me seguir, deixam de querer ver as minhas coisas e garantem nunca mais ir ver um espetáculo meu. Isso faz parte e é um bocado por fases. Sei que isto não é para sempre, há alturas em que estou em estado de graça, que as coisas me saem bem e as pessoas gostam imenso dos meus textos, depois há momentos em que não me sai nada de jeito e as pessoas estão todos fartas de mim. Isto não vai durar para sempre, não sei até que ponto é que vou conseguir fazer uma carreira na comédia para sempre, tenho que ter consciência disso, que as pessoas se podem fartar, mas vivo bem com isso. Vou tentando melhorar enquanto comediante e enquanto cidadão, sabendo que um dia as pessoas se podem fartar. Não posso estar a fazer o meu trabalho sempre a pensar nisso.

Em 2019 fez um apelo às mulheres que o seguiam para partilharem episódios de assédio, abusos ou violações. Disso resultou o movimento “Não é normal”. É aí que nasce o seu ativismo?
Também. Gosto sempre de referir que o facto de me tornar feminista foi mérito das minhas amigas, que sempre tiveram paciência ao longo dos anos para me explicarem o que era o feminismo e a igualdade de género. Não que eu fosse machista ou contra a igualdade de género, mas não tinha o nível empático suficiente para perceber o que é ser mulher no dia a dia, das pequenas coisas às grandes coisas. Nós homens vivemos numa pequena bolha muitas vezes, sem querer e sem maldade. As minhas amigas educaram-me e depois de várias conversas, tive interesse de ler livros, ver documentários, informar-me e perceber aquilo tudo.

Pode-se dizer que há um humor feito antes e depois deste movimento?
O meu público cresceu muito, se muita gente gostou da ideia, outros criticaram o facto de me estar a apropriar da luta das mulheres, o que não é de todo verdade. Só quero juntar-me, não quero tirar a voz a ninguém. Tudo isto fez com que sentisse uma maior responsabilidade em aprender mais, estudar mais e saber mais. Cada vez que estudamos mais sobre feminismo, aprendemos sobre o resto, os direitos LGTB, a crise ambiental, a política. As lutas e os direitos humanos estão todos ligados. A responsabilidade de ter um maior público e as críticas que me foram apontadas fizeram com que estudasse mais sobre feminismo e igualdade género.

Como é que as questões sociais se podem transformar em matéria de humor?
Acaba por ser um desafio. Estamos muito habituados ao humor popular, da mesa do café, que é um humor homofóbico, sexista e racista, muito instituído. Em espetáculos de stand up ainda há muito disto. Não tenho nada contra, simplesmente comecei a não achar graça nenhuma a isso. Acho muito mais desafiante como artista ir para outro lado, ou seja, em vez de fazer piadas homofóbicas, gozar com o homofóbico, em vez de fazer piadas machistas, gozar com os machistas. Para fazer isso, tenho de estar bem informado, tenho de conhecer bem os assuntos, os comportamentos, conseguir ver as coisas por outro ângulo que eu próprio não estava habituado a ver e que muito do público também não estará. Isto não faz de mim alguém espetacular ou diferente, simplesmente há menos gente a fazer isto.

Esse envolvimento com causas e lutas como o racismo, a xenofobia, a homofobia ou o feminismo não poderá ser entendido como aproveitamento mediático, uma vez que são assuntos que estão na ordem do dia?
Claro, e percebo isso perfeitamente. Quando fiz o “Não é normal” não foi uma cena que se andava a falar todos os dias e não foi do nada. Já escrevi muitas vezes sobre os direitos LGBT porque sim, não foi por algum caso em concreto. Há aqui uma construção grande, mas quem de repente apanha um post meu isolado pode pensar que estou a surfar a onda. Se olharem para trás, não é propriamente novo estar a falar disto. Agora tenho mais visibilidade, mais seguidores nas redes e as coisas chegam a mais pessoas, mas há anos que escrevo sobre estes assuntos, agora posso é escrever de maneira diferente, tento informar-me mais. Quem me conhece sabe que sou assim.

"Temos todos que trabalhar muito, ser muito bons, ganhar cada vez mais dinheiro para comprarmos cada vez mais coisas. Não me identifico nada com isso"

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Quando entra na esfera política, fá-lo de uma forma consciente?
Sim, não tenho pejo nenhum em assumir que sou de esquerda, por acaso não sou de nenhum partido, não me identifico unicamente com nenhum. Não sou filiado nem pretendo ser, quero ser um comediante livre e poder criticar os partidos de esquerda quando tiver que o fazer, sem ter qualquer responsabilidade de estar associado a algum partido. Nos valores básicos identifico-me mais com os partidos de esquerda, ou pelo menos com os ideais de esquerda, depois depende um bocado do partido e das pessoas que estão à frente dele.

Ao mencionar determinados políticos ou partidos, ao dar-lhes resposta, não está também a dar-lhes alguma importância?
Sim, mas os partidos têm importância e por vezes defendem coisas escabrosas. Não acredito que não falar das coisas as faça desaparecer. Temos que desmascarar esses partidos, falar dos seus programas ridículos com mais ou menos humor.

A sessão fotográfica desta entrevista reflete o conceito de esquerda caviar. Fale-me dele.
É uma crítica apontada à esquerda que acho descabida. Ser de esquerda não é defender a redistribuição da pobreza, mas sim da riqueza. Quem tem este tipo de pensamento acha que por ser de esquerda, e defender uma maior equidade e justiça social, tem que ser pobre e não pode ter um smartphone ou viajar. Claro que gasto dinheiro em copos e gosto de viajar, por isso aceito que me critiquem e me digam que sou da “esquerda caviar”. Somos todos hipócritas, é impossível sermos coerentes ao longo de toda a vida e em todos os aspetos, vamos sempre falhar. Por exemplo, não consigo ser vegan para já, sei que isso é uma coisa que faz bastante mal ao planeta, mas não consigo imaginar viver sem comer queijo. Acho que é mesmo muito difícil sermos coerentes com tudo.

Essa postura perante o humor e a vida no geral fez com que colecionasse bastantes ódios. Como lida com isso?
Já me habituei. Claro que há dias em que não é fixe, levo massacres gigantes nas redes socais. Ameaças como: “sei bem onde é que vives, qualquer dia vou-te apanhar”. Se isto se é agradável? Não é. A maior parte destas ameaças são inofensivas, mas também sei que não estou completamente a salvo, nem eu nem qualquer outra pessoa que possa ser alvo da extrema direita mais agressiva. Já me ameaçaram na rua, disseram que me queriam matar. Foi a primeira vez que me assustei a sério, mas não tenho medo, não vou andar com medo, não vou deixar de fazer o meu trabalho por causa disso. Enfim, espero que nunca me aconteça nada.

Nunca ponderou desistir?
Não, nunca quis parar. Não posso, não faz sentido deixarmos de defender os nossos valores. Ainda por cima não sou nenhum herói, defendo coisas básicas. As coisas que defendo deviam ser só normais, porque é apenas todas as pessoas poderem ser o que quiserem. Sei que é muito ingénuo da minha parte dizer isto de uma forma tão simples, mas acredito que isto é algo muito simples.

"Já me ameaçaram na rua, disseram-me que me queriam matar. Foi a primeira vez que me assustei a sério, mas não tenho medo, não vou andar com medo, não vou deixar de fazer o meu trabalho por causa disso. Enfim, espero que nunca me aconteça nada."

Em 2019 é impedido de entrar no Irão por ser comediante. Como é que tudo aconteceu?
Fui nabo, não devia ter dito que era comediante. Estava distraído, não pensei. Por acaso já tenho alguma experiência a viajar e já devia ter calculado que não devia ter escrito a minha profissão. Sabia que os jornalistas, os militares e polícias de outros países não podiam entrar. Fui burro, não há aqui grande história para contar. Fiquei triste porque estava entusiasmado, ia passar lá três semanas de mochila às costas, sozinho, e de repente fiquei no aeroporto durante 10 horas. Foram bastante antipáticos comigo e não me deram respostas sobre nada. Tenho muita pena de não ter conseguido entrar, espero um dia conseguir.

Gosta de viajar sozinho?
Adoro. Quem puder, acho que é uma experiência que vale mesmo a pena, nem que seja uma vez. Também gosto muito de ir com amigos, mas adoro fazer pelo menos uma viagem grande sozinho por ano. E não é nada aquela coisa de “descobrir o meu eu interior”, é simplesmente estar na minha. Há sempre desafios, um desconforto em tomar todas as decisões, acho isso muito enriquecedor.

Já está a pensar na próxima?
Curiosamente antes disto tudo acontecer, tinha planeado acabar a minha tour do espetáculo “Lugar Estranho” e se conseguisse juntar um dinheiro decente, queria passar um mês e meio ou dois meses a viajar pela China, Coreia e Japão. Tinha mesmo decidido que este ano ia para aquela zona. O plano saiu furado e não sei mesmo qual será a próxima, mas não adianta muito fazer grandes planos para já. Confesso que já sinto alguma falta de viajar, mas há coisas piores, tento relativizar. Há pessoas a passar tão mal, seja pela doença em si ou pelo desemprego, que nem sequer me sinto no direito de me queixar que tenho saudades de ir viajar.

"A maior parte destas ameaças são inofensivas, mas também sei que não estou completamente a salvo, nem eu nem qualquer outra pessoa que possa ser alvo da extrema direita mais agressiva"

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Como viveu o período de confinamento? Como manteve a sanidade mental?
Vivo sozinho e gosto, tenho sempre com que me entreter entre livros e Netflix. No início fazia muitas chamadas aos meus amigos pelo Zoom, depois também me fartava. Fui-me entretendo, ia às compras para os meus avós, alguns vizinhos e para o meu pai, mas não foi agradável. Normalmente já passo algum tempo sozinho, acordo, trabalho em casa, vou a um café e quase todos os dias ao fim da tarde costumo estar com amigos. Sou muito de estar com amigos e com a família e essa parte fez-me falta. Não estava deprimido, claro que houve noites e dias mais tristes, em que já me estava a pesar o confinamento e o estar fechado, mas consegui trabalhar, adiantar o livro que estou a escrever. Quando tudo começou a abrir, encontrei-me com amigos e ficávamos a dois metros uns dos outros, numa roda ridícula na rua, cada um com uma cerveja na mão. Eram pequenas alegrias, pequenas vitórias.

Tem esperança que a humanidade se torne melhor depois disto tudo?
Não, tem-se visto que não. Vamos todos para casa, vamos todos ser solidários, vamos todos bater palmas à varanda pelo SNS, vamos todos fazer pão. Isso é tudo muito giro, mas depois as coisas mudam, chegam uma data de problemas outra vez e não há solidariedade nenhuma. Vemos a quantidade de ódio que está nas redes sociais, nos cafés e na rua, vemos um senhor matar um cidadão português negro e a dizer coisas horríveis, vemos como a desigualdade económica está a aumentar no mundo todo, como os poderes económicos continuam a vinga e a florescer, a esmagar completamente a classe média e a classe baixa. Não estou muito otimista, mas continuo a acreditar nas pessoas. Há muito mais gente boa do que má, há mais pessoas do lado dos direitos humanos do que do lado dos fascistas e desta extrema direita que está a crescer no mundo inteiro.

Aprendeu alguma coisas com esta pandemia?
Acho que não. Tenho muitas falhas e é isso que vou tentando corrigir, por isso é que quero ler mais, ver mais documentários e falar com mais pessoas. Vou morrer sem ser coerente e nem procuro a coerência total, mas se puder ir evoluindo um bocadinho, tanto melhor. Nem sempre feminista, não nasci assim. Há muitos anos que mudei nesse sentido, mas é um processo.

O que ainda é capaz de o surpreender?
Confesso que estou um bocado cético. Vejo tanto ódio em relação a uma pessoa transgénero ou em relação a um casal de homens e isso devia surpreender-me porque não faz sentido nenhum as pessoas odiarem a vida romântica e sexual das outras, mas tenho visto tanto que já não me surpreende. Temos de continuar a puxar as pessoas para o outro lado, a tentar através do humor, do jornalismo, da música e da política que elas percebam que não há nada de mal em ser gay, bi ou transexual. Não estou muito otimista, mas por outro lado quero continuar a lutar para que o mundo seja um bocadinho mais justo e a sociedade mais equilibrada.

Fale-me do livro que está a escrever.
Será lançado no próximo ano. Fala da minha visão sobre mundo e do meu lado mais ou menos cómico de tudo isto que venho a falar nos últimos anos, da desigualdade económica à de género. É um livro completamente diferente dos outros dois, é um conjunto de ensaios sobre todas estas questões, que explicam como é a visão de um homem branco, heterossexual. Não tenho grandes pretensões, não são os meus posts, o meu espetáculo nem o meu livro que vão mudar o mundo, mas que seja convite, pelo menos, à reflexão. Não sou político nem filósofo, mas tento escrever sobre estas coisas.

"Isto não vai durar para sempre, não sei até que ponto é que vou conseguir fazer uma carreira na comédia para sempre, tenho que ter consciência disso, que as pessoas se podem fartar, mas vivo bem com isso."

Já disse que uma das suas ambições é ter um programa sobre viagens na televisão. Mantém-se?
Sim, adorava, não posso dizer que não. Não tem a ver com mediatismo, mas com algo que me preencheria. Não seria um programa de humor, com um guião de piadas feitas, tinha que ser um programa leve. No entanto, existem muitos ângulos de programas sobre viagens, teria que encontrar uma coisa diferente e para já não tenho esse ângulo. É difícil, mas espero conseguir.

Já passou pelo “Curto Circuito” e pelo “5 para a Meia Noite”. A televisão é um objetivo?
Não penso em fazer humor em nenhum meio especifico. Como não tenho grandes objetivos de carreira, vou fazendo as coisas consoante elas surgem. Não ando a planear nada, nem gosto de trabalhar, apesar de adorar o que faço.

O espetáculo “Lugar Estranho” vai regressar? Em que moldes?
Neste momento está suspenso, não sei bem em que condições poderá voltar. É estranho fazer stand up com o público de máscara. Não vemos as pessoas a rir, podemos ouvir, mas há muitas partes do espetáculo em que estou em palco e a plateia pode não estar à gargalhada, mas vejo a cara, sinto uma energia. Ainda não pensei bem se fará sentido fazer de máscara ou não. Quero voltar, até porque há pessoas que compraram bilhetes e quero cumprir. Para já vou fazer um espetáculo, uma espécie de palestra, no Festival Política, dia 15 de agosto, no São Jorge.

Aparentemente consegue viver bem do humor em Portugal.
Não digo que seja fácil viver da arte em Portugal, faltam muitos apoios a muitas famílias. Ou se é famoso e se começa a ganhar dinheiro com novelas, por exemplo, ou para muita gente não é fácil viver da arte. A arte é tão importante para a sociedade e para o país que devia ser mais valorizada. O meu caso é mais tranquilo, agora estou com menos rendimento e com menos trabalho, o que é normal, mas não me posso queixar.

Tem poupanças?
Não. [Risos]

Agora entendo a preocupação dos seus avós.
Pois, é isso. Ganhava dinheiro e ia logo viajar ou jantar fora com os amigos. Claro que não vou passar fome agora, mas não tenho nenhuma poupança que me deixe descansado muito tempo. Posso dizer que não quero muito trabalhar, mas efetivamente tenho que trabalhar.

Além dos seus avós, quem são os seus heróis?
Um deles é o Anthony Bourdain, aliás, o único retrato que tenho em casa. Uma parte dele era bastante livre, apesar de sabermos que sofria de uma grave depressão e acabou por se suicidar. Conseguiu fazer coisas incríveis, gosto da maneira como ele pensava, viajava, falava com as pessoas, via o mundo. Não é que concordasse com todas as visões dele, mas concordava com boa parte delas, admirava a sua postura perante o mundo, toda a sua rebeldia, contra sistema e irreverência em algumas coisas. Há muitas coisas nele que me inspiram, principalmente a forma como ele viajava e via o mundo.

Partilha os seus dotes culinários?
Gosto de cozinhar, de fazer coisas diferentes todos os dias e por acaso as coisas saem-me bem, como umas ervilhas com ovos. Mas às vezes vejo pessoas a cozinhar tão bem que acho ofensivo dizer que sei cozinhar.

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