Poucos como ele foram tão importantes na composição musical para cinema — e menos ainda terão levado tantos espectadores da sétima arte a prestar atenção detalhada à música que se ouve nos filmes. Ennio Morricone morreu esta segunda-feira, aos 91 anos, e deixou um legado ímpar na música.

Recordamos aqui as suas principais composições cinematográficas mas também projetos paralelos, como o disco que gravou com o brasileiro Chico Buarque, o álbum que editou em conjunto com a portuguesa Dulce Pontes e as gravações em Roma com Chet Baker.

Morreu o compositor italiano Ennio Morricone, o maestro do cinema

Quando Morricone e Chet Baker gravaram juntos em Roma

Em 1962, a vida do famosíssimo trompetista e vocalista norte-americano de jazz Chet Baker estava de pernas para o ar: uns anos anos começara a consumir heroína (Baker dizia que tinha começado em 1957, havia quem dissesse que fizera mal as contas), a vida que levava em Itália era, digamos, agitada e no ano anterior, 1961, fora condenado a 16 anos de prisão no país (acabaria libertado em dezembro desse ano).

Apesar de tudo, foi uma época de intensa produção criativa para Chet Baker. Perto de um mês depois de ser libertado da prisão, deslocou-se aos estúdios da editora RCA (uma subsidiária do todo-poderoso grupo Sony Music) em Roma para gravar um álbum que seria editado nesse mesmo ano, com o título Chet Is Back!.

Por essa altura, Morricone era já uma figura proeminente da RCA e da indústria musical italiana, depois de ter aprimorado os dotes de orquestrador e arranjador musical na televisão e na rádio.

O disco Chet Is Back! teve como produtores creditados Daniel Baugmarten e Joshua Sherman, mas paralelamente foram lançados quatro singles em discos de vinil de 45 rotações, “Chetty’s Lullaby”, “So che ti perderò”, “Motivo su raggio di luna” e “Il mio domani”, que Chet Baker gravou com o apoio de Ennio Morricone, que delineou os arranjos das canções e conduziu os músicos. Estes quatro exemplares da pop orquestral que resultou da colaboração entre os dois acabaram por ser incluídos na versão revista e aumentada do disco Chet Is Back!, aquando do relançamento em 2003, como faixas bónus. Ora oiça:

“Por Um Punhado de Dólares”: quando Morricone foi “Dan Savio”

O filme tinha tudo para dar certo: um western spaghetti realizado por Sérgio Leone — que fora colega de Morricone no terceiro ano da escola primária, embora não se lembrasse quando os dois se reencontraram — e com o durão Clint Eastwood como protagonista. Seria o início da afirmação do género em todo o mundo.

Estávamos no ano de 1964 e Sérgio Leone preparava-se para uma sucessão de grandes filmes (e de grandes colaborações com Morricone), como “O Bom, O Mau e o Vilão” (1966) e “Aconteceu no Oeste” (1968). Já o maestro italiano fora contratado por Leone para assegurar a banda sonora do filme, que nas longas-metragens do cineasta tinham uma importância decisiva, contribuindo decisivamente para catapultar  a popularidade do género que impulsionou.

A composição da banda sonora e a colaboração entre os dois, aqui iniciada, teve pormenores caricatos: as limitações orçamentais ainda se faziam sentir e Morricone, sem dispor de todos os músicos de orquestra que tinha na cabeça, acabou por usar sons pouco expectáveis como tiros, vozes, guitarras elétricas e assobios na composição musical. Somou-se assim a falta de recurso ao assumidíssimo pendor de Morricone pelo experimentalismo nos universos clássicos e populares e o resultado foi este.

Outro dado curioso foi que “Por Um Punhado de Dólares” chegou aos cinemas italianos em 1964 mas só foi popularizado e divulgado na América três anos depois. Quer Leone quer Morricone decidiram adotar nomes que soassem americanos para promover o filme — e por isso Ennio passou a ser, por um breve período, Dan Savio.

A composição desta banda sonora por Morricone foi ainda importante historicamente por marcar o início de uma parceria de muitos anos com o músico e compositor italiano Alessandro Alessandroni.

No ano de “O Bom, o Mau e o Vilão”, música para Pasolini

Pode parecer impossível que no mesmo ano em que saiu o filme “O Bom, O Mau e o Vilão”, com banda sonora composta por Morricone, o músico, compositor, orquestrador, arranjador e maestro italiano tenha ainda conseguido compor a banda sonora para um outro filme — mas aconteceu, com “The Hawks and The Sparrows”, filme de 1966 de Pier Paolo Pasolini.

Na memória fica o filme, socialmente interventivo e tangente ao movimento neo-realista italiano que pretendia usar a arte para confrontar as desigualdades sociais e económicas, mas também a música de Morricone. Oiça-se “Scuola di ballo al sole”:

O som de coiote e o impacto da música de ‘O Bom, o Mau e o Vilão’

Foi um dos seus trabalhos mais marcantes e um dos que certamente será mais citado, nos obituários e nas memórias que se escreverem de Ennio Morricone. A estética da banda sonora de “O Bom, o Mau e o Vilão” não rompe com a que Morricone criara para o filme de Sérgio Leone dois anos antes, mas aprimora a fórmula. Com o filme, Leone ganhou projeção, o western spaghetti tornou-se um culto maior e a música de Morricone passou a ser encarada popularmente como ingrediente indispensável e indissociável do género.

A banda sonora está cheia de pérolas: do tema título, utilizado para cenas das três personagens principais do filme (mas com instrumentos distintos consoante a personagem) à balada “The Story of a Soldier”, passando, é claro, pela épica “A Ecstasy of Gold”, que conquistou o coração de meio mundo, inclusive dos Metallica, que gravaram a sua versão.

Como poucas bandas sonoras, a de “O Bom, o Mau e o Vilão” tornou-se indissociável do filme, as melodias tornaram-se conhecidas fora do grande ecrã e o sucesso foi total. Em entrevista ao The Guardian, Morricone chegou a abordar este trabalho assim: “Venho de um meio da música experimental, em que se misturava sons reais com sons musicais. Portanto, usava sons reais em parte para dar uma sensação de nostalgia que o filme tinha de transmitir. Também usei sons realistas de uma forma psicológica. Com ‘O Bom, o Mau e o Vilão’, usei sons de animais — como vocês dizem, o som do coiote — e o som do animal tornou-se o tema principal do filme. Não sei como é que tive essa ideia”.

No mesmo ano do filme, foi lançado o álbum (posteriormente reeditado em versão aumentada), que pode ouvir na íntegra aqui.

Aconteceu no Oeste“: mais uma banda sonora com Leone, mais um clássico

Dois anos depois de “O Bom, o Mau e o Vilão”, chegava às salas de cinema “Aconteceu no Oeste”, mais um filme de Sergio Leone — este com Henry Fonda no elenco — e mais um com banda sonora de Ennio Morricone.

Também considerada como uma das suas bandas sonoras mais emblemáticas e memoráveis, e mais uma que mistura com inovação o som de instrumentos musicais com sons de rua, a de “Aconteceu no Oeste” foi composta antes mesmo de a rodagem do filme começar. O objetivo foi que a própria música tocasse em fundo durante as filmagens, para que a relação entre o ambiente do filme e as cenas visuais e a banda sonora se estreitassem ainda mais, inspirando os atores.

Igualmente marcante foi, mais uma vez, a utilização da voz da cantora italiana Edda Dell’Orso como instrumento musical e melódico: em vez de cantar palavras, Dell’Orso usava a voz como nas bandas sonoras anteriores em que colaborara com Morricone (nos filmes anteriores de Sergio Leone mas também em “O Estrangeiro” de Visconti, entre muitos outros), como ferramenta para acrescentar um tom meio misterioso meio épico à banda sonora. Edda Dell’Orso, que tem hoje 85 anos, colaborou pela última vez com Morricone já esta década, na banda sonora do filme “A Melhor Oferta”, que chegou às salas de cinema em 2013.

O tom épico de “The Grand Massacre”, a ziguezagueante “Bad Orchestra” e a tensão de “Harmonica” e “The First Tavern” merecem atenção (e audição) máxima. O álbum com a totalidade das composições de Morricone para o filme, lançadas inicialmente em disco em 1972 (portanto, quatro anos depois do filme), pode ser revisitado aqui:

Chico Buarque a cantar em italiano com arranjos de Morricone? É verdade

Não existe samba-spaghetti, nem MPB-spaghetti, mas podia haver. Em 1970, durante o seu auto-exílio em Itália, Chico Buarque juntou-se a Morricone para gravar um disco com algumas das canções que gravara nos anos 1960 e não só adaptadas para italiano.

O disco não foi especialmente popular, nem Chico Buarque ficou convictamente fã do resultado da ligação entre os arranjos orquestrais de Morricone e as suas composições, mas há várias pérolas que merecem ser revisitadas e reavaliadas neste momento, como a melancólica “Samba E Amore” e uma “Sogno Di Un Carnavale”, esta última com espantosos coros femininos em italiano. As vozes foram requisitadas por Morricone, que chamou cantoras como Edda Dell’Orso, Mia Martini e Loredana Bertè.

No seu site oficial, Chico Buarque conta como aconteceu a colaboração: “O Ennio era vizinho do Sergio Bardotti, meu produtor e letrista lá na Itália. Moravam num condomínio suburbano de Roma. Foi o Sergio quem me levou a casa do Ennnio, que escreveu os arranjos”. O disco “era uma tentativa da RCA italiana de me vender lá” em Itália, contou Chico Buarque. Nada feito: “Não aconteceu nada com o disco, na verdade”.

Apesar de Chico Buarque não o considerar um dos seus álbuns mais conseguidos — e, escreve-se no seu site, “até há bem pouco tempo, nem mesmo Chico tinha um exemplar dele” —, o álbum foi reeditado em 2003 no Brasil.

Uma das curiosidades é que se o grosso do disco continha adaptações para italiano de canções já lançadas por Chico Buarque (com a letra traduzida para novo idioma com a ajuda de Sergio Bardotti), o álbum incluía à época três inéditos, que viriam a ser editados por Chico Buarque na sua versão em brasileiro apenas mais tarde — “Nicanor”, “Não Fala de Maria” e “Samba e Amor”. Estes inéditos foram, assim, revelados em primeira mão em língua italiana.

Até ser reeditado, as cópias disponíveis do disco eram tão poucas que cada uma valia uma pequena fortuna. Em entrevista ao jornal Globo, Morricone chegou a lembrar o álbum assim: “Foi uma experiência sensacional. Gosto muito daquele trabalho. Na época, foi considerado um disco de vanguarda, muito original. Estava repleto de ideias originais. Tanto que o público italiano não estava acostumado com aquelas ideias e o disco não teve o sucesso esperado. Olhando para trás, vejo que foi uma experiência bem à frente de seu tempo”.

Uma banda sonora com uma mãozinha de Joan Baez

Para o filme de 1971 “Sacco e Vanzetti”, de Giuliano Montaldo, Morricone criou mais uma banda sonora que merece revisitação.

Um dos dados curiosos deste trabalho de Ennio Morricone passou pela parceria com a norte-americana Joan Baez, uma das cantoras e compositoras mais importantes da história da música folk dos EUA.

O filme retratava os acontecimentos que culminaram no polémico julgamento e posterior execução de dois anarquistas, Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti, que foram condenados à morte pelo alegado homicídio de duas pessoas, uma das quais um guarda, num assalto à mão armada — um crime que suscitou dúvidas quanto ao envolvimento da dupla e ao justo tratamento dos suspeitos.

A banda sonora do filme, com o seu tom fúnebre e elegíaco (tristemente épico), capta bem a tensão e a dor relacionada com o julgamento e com os protestos sobre a forma como este foi conduzido. Mas são os temas não exclusivamente instrumentais, com arranjos de Morricone e cantados por Joan Baez — “La Ballata di Sacco e Vanzetti — version 1”, La Balata di Sacco e Vanzetti — version 2”, “La Ballata di Sacco e Vanzetti — version 3” e “Here’s to You”), que mais se destacam, até porque Baez escreveu as letras a pensar no caso da dupla que inspirou o filme.

Música para um filme de Terrence Malick — e a primeira nomeação para um Óscar

Em 1978 chegava às salas de cinema “Dias do Paraíso”, um filme de Terrence Malick — a sua segunda longa-metragem, depois de “Os Noivos Sangrentos” — com Richard Gere, Brooke Adams, Sam Shepard e Linda Manz no elenco.

Foi com a banda sonora de “Dias do Paraíso” que Ennio Morricone viu o seu reconhecimento nos Estados Unidos da América e em Hollywood acentuar-se, dado que foi com as composições para o filme que recebeu a sua primeira nomeação para um Óscar.

O trabalho foi acidentado: Morricone queixou-se mais tarde de que Terrence Malick tinha ideias muito precisas sobre a música que queria ouvir no filme, castrando-lhe a liberdade criativa e sugerindo-lhe até uso de instrumentos específicos para as composições. O italiano, porém, terá conseguido levar a sua avante: chegou a contar que fazia uma versão à sua maneira e outra como o cineasta sugeria — e Malick rendia-se à sua opção.

A banda sonora foi editada em disco com as composições integrais e dela destacam-se temas como “Days of Heaven” (tema título) e um tema country tocado e cantado por Doug Kershaw, intitulado “Swamp Dance”.

A música para o Mundial de 1978 (e a frustração com os intérpretes)

É um trabalho que fica até mais para efeitos de curiosidade: o músico e maestro italiano foi desafiado a compor o tema oficial para o Mundial de futebol de 1978, que foi disputado na Argentina e que a Seleção da casa venceu, com grandes contributos do goleador Mario Kempes e do capitão Daniel Passarella.

Morricone aceitou o desafio e o resultado final foi este tema, bem diferente das incursões pop de anos recentes como “Waka Waka (This Time For Africa)”.

O problema foi a interpretação que foi dada ao tema: se com a versão gravada Morricone, fã convicto da AS Roma, estava confortável, com a versão tocada não ficou nada impressionado, como explicou em 2015 em entrevista à revista Uncut: “Foi terrível… porque em vez de porem a música gravada a tocar antes dos jogos, como queria, tinham quatro tipos numa banda que andavam de estádio em estádio a tocar a música. Foi terrível”.

“Era Uma Vez na América”, com Morricone e para a despedida de Leone

Já não se via um filme de Sergio Leone há mais de dez anos — e até à sua morte, cinco anos depois, não se veria outro —, pelo que “Era Uma Vez na América” ganhou importância até pela simbologia.

O filme, com James Woods e Robert De Niro nos principais papéis, era sobre o submundo do crime organizado de Nova Iorque e sobre dois judeus e melhores amigos, David “Noodles” Aaronson e Maximilian “Max” Bercovicz, mas era também sobre muitas outras coisas: o peso que os traumas e os erros passados têm no presente, o confronto com a memória, a evolução de amizades antigas, a ganância, as facadas nas costas e a violência das ruas americanas.

Tal como aconteceu anteriormente em “Aconteceu no Oeste”, também neste caso boa parte da música que Ennio Morricone compôs para banda sonora foi gravada antes das rodagens e chegou a ser tocada em fundo durante a longa produção do filme. E tal como aconteceu anteriormente, também a voz de Edda Dell’Orso foi usada pelo mestre italiano como mais um instrumento musical e melódico.

De “A Missão” ao trabalho com Brian de Palma

Em 1986, dois anos depois de “Era uma Vez na América” chegar às salas de cinema, a música de Ennio Morricone voltaria a servir de banda sonora a um filme marcante, mas desta vez teria ainda mais impacto. Foi com “A Missão”, filme do britânico Roland Joffé com De Niro, Jeremy Irons e Liam Neeson (entre outros) no elenco, que venceu a prestigiada Palma de Ouro em Cannes e que recebeu um Óscar na categoria de Melhor Cinematografia.

Sendo um filme com um forte pendor religioso — narra episódios de um padre jesuíta que vai para a América do Sul no século XVIII, tentar converter ao cristianismo uma comunidade local —, as composições de Morricone mudaram muito, acentuando um tom litúrgico através dos coros (aproximando-se quase da música sacra) e usando guitarras espanholas para transportar o espectador para a América latina (oiça-se a composição “Brothers”, por exemplo).

Premiada, a banda sonora valeu a Morricone (que a compôs, arranjou e produziu e que ainda conduziu os instrumentistas e o coro) um Globo de Ouro para Melhor Banda Sonora Original e uma nomeação para um Óscar em categoria equivalente. Acabou por não vencer o Óscar, perdendo para a banda sonora que o pianista, teclista e compositor de jazz Herbie Hancock compôs para o filme “À Volta da Meia-Noite”, de Bertrand Tavernier. Ainda assim, o aprumo clássico da banda sonora de “A Missão” é ainda hoje aclamado, sendo considerada quase consensualmente uma das mais bandas sonoras mais inovadoras e memoráveis de Ennio Morricone.

Um ano depois de “A Missão”, em 1987, chegaria às salas de cinema mais um filme marcante que teve banda sonora de Morricone: “Os Intocáveis”, de Brian de Palma, que valeu ao italiano um prémio Grammy e que marcou o início da sua colaboração com o cineasta norte-americano. Voltariam a trabalhar juntos de seguida, no filme “Corações de Aço” (1989).

Do fim dos anos 80 com “Cinema Paraíso” às bandas sonoras dos anos 90

Outro dos filmes cuja banda sonora Ennio Morricone assinou foi “Cinema Paraíso”, de 1988. Para as composições musicais, desta vez, Ennio teve a ajuda do seu filho, Andrea, também ele maestro e compositor. Pode ouvi-las na íntegra aqui.

O tom melancólico e solene das composições foi aliás fator muito importante para a popularidade granjeada por um filme que venceu um Óscar na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeiro.

Foi uma ponta final da década de 1980 que manteve Ennio Morricone com o estatuto de autor ímpar de bandas sonoras (seria autor ainda de bandas sonoras de três filmes em 1989), que preservou na década seguinte, anos 1990, com composições para “Ata-me” de Pedro Almodóvar (1990), “Bugsy” de Barry Levinson (1991), “Lobo” de Mike Nichols (1994), e “A Lenda de 1900” de Giuseppe Tornatore e “Bulworth — Candidato em Perigo” de Warren Beatty, estes dois últimos de 1998.

Um disco com a portuguesa Dulce Pontes

Em 2003 foi revelado Focus, álbum que o maestro, compositor e orquestrador italiano Enio Morricone compôs e gravou com a cantora portuguesa Dulce Pontes. O disco continha canções de Morricone interpretadas por Dulce Ponte e originais que o músico italiano compôs especificamente para o álbum. Fazem parte do álbum temas como “Cinema Paradiso (Tema de Amor de Cinema Paradiso)”, “A Rose Among Thorns — from ‘The Mission'”, “Amália por Amor” e “The Ballad of Sacco and Vanzetti (Sacco E Vanzetti)”.

Os dois atuaram juntos em vários palcos europeus e no ano passado, no seu último concerto em Lisboa, Dulce Pontes juntou-se a Morricone e cantou “Abolição”, do filme “Queimada!”, que Gillo Pontecorvo realizou em 1968.

Esse foi um dos muitos álbuns paralelos ao cinema que Morricone editou em vida: por exemplo com a sua importante formação Gruppo di Improvvisazione di Nuova Consonanza, mas também discos ao vivo editados com o seu nome, como Ennio Morricone live (with Metropole Orchestra), Morricone dirige a Morricone e Cinema Concerto: Ennio Morricone at Santa Cecilia, entre vários outros.

Igualmente importante — e muito bem recebido por público e crítica — foi o disco Yo-Yo Ma Plays Ennio Morricone, um disco que incluía um conjunto de gravações de composições de Morricone para cinema interpretadas pelo violoncelista Yo-Yo Ma, pela Orquestra Sinfonietta de Roma e pela pianista Gilda Buttà, sob orientação de Morricone que funcionou como maestro, orquestrador e produtor musical.

A colaboração com Tarantino e o regresso à ribalta no grande ecrã

Apesar de ter assinado várias bandas sonoras para filmes nas décadas de 2000, poucas tiveram os elogios e o reconhecimento da que compôs para o filme “Maléna”, um drama cómico e romântico com Monica Belluci no elenco que chegou às salas de cinema logo em 2000.

O filme esteve longe, porém, de ser um blockbuster e as bandas sonoras dos filmes seguintes acabaram também prejudicadas pelo declínio no interesse em cinema europeu, que se vinha acentuando gradualmente nas décadas anteriores.

Foi por isso um regresso à ribalta quando a música de Morricone começou a ouvir-se nos filmes de Quentin Tarantino, realizador norte-americano interessado na história do género western mas que a recriou a seu gosto e cuja atenção à ligação entre a imagem e o som é por demais evidente.

Em “Sacanas Sem Lei”, de 2009, a música do compositor, maestro e orquestrador italiano foi amplamente usada no filme — aliás, Tarantino queria que Morricone compusesse a banda sonora, o que não aconteceu, tendo Tarantino usado oito temas  — tal como aconteceu depois, com “Django Libertado”, de 2012. Para este último filme, Morricone compôs aliás o tema “Ancora Qui”, cantado pela intérprete italiana Elisa.

Se anteriormente não o fizera, e alegadamente mostrara até reticências a aceitar o convite numa fase inicial, Morricone acedeu finalmente a compor uma banda sonora para um filme de Quentin Tarantino depois de “Django Libertado”, tendo composto música original para “Os Oito Odiados”. O filme chegou às salas de cinema em 2015 e em 2016 a banda sonora valeu a Morricone, então com 87 anos, o seu primeiro Óscar nas categorias principais de composição. Pode ouvi-la aqui: