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Nos homens, há entre 45 a 50 novos casos de cancro da mama anualmente, o que torna esta doença nos homens, por definição, uma doença rara

Getty Images

Nos homens, há entre 45 a 50 novos casos de cancro da mama anualmente, o que torna esta doença nos homens, por definição, uma doença rara

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Do diagnóstico mais tardio ao combate ao tabu: o cancro da mama também é uma doença (ainda que rara) dos homens /premium

Marco Paulo foi diagnosticado no fim do ano passado, a luta de Agostinho Branco começou há nove. O cancro da mama não é apenas uma doença que afeta as mulheres. Nos homens é rara e quase sempre tabu.

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Março de 2011. Agostinho Branco, na altura com 62 anos, estava a trabalhar numa empresa em Paços de Ferreira quando recebeu uma chamada. Esperava os resultados de uma biopsia que tinha feito três dias antes, depois de ter sentido “uma comichão no mamilo e detetado um nódulo”. Nessa altura, ficou desconfiado de que algo poderia não estar bem. A mulher de Agostinho, do outro lado da linha, trazia “daquelas notícias que ninguém gosta de receber”. “A minha esposa, a chorar, diz-me que tenho de ser tratado o urgente possível no IPO porque tenho cancro na mama”, conta Agostinho, hoje com 71 anos, ao Observador.

Como é “persistente”, continuou a trabalhar durante aquela tarde até chegar a sua hora de saída. “As pessoas olhavam para mim e perguntavam se estava bem. Dizia que sim, que era uma constipação. Mal chegou a hora de ir embora, peguei no carro e quando cheguei a casa, em Rio Tinto, perguntei à minha esposa se queria vir comigo à médica de família para ela me dizer, olhos nos olhos, o que é que tinha”, continua a recordar. Foi o último a ser atendido, para ouvir a confirmação que não queria: “Tinha mesmo um cancro na mama”.

A notícia mudou a vida de Agostinho, que faz parte dos cerca de 1% dos casos de cancro da mama diagnosticados por ano em homens. Ao contrário de muitos casos, talvez a grande maioria, Agostinho “sabia que o homem também pode ter cancro da mama” e não hesitou ir a um médico quando sentiu que algo estava mal. Hoje, depois de uma mastectomia radical — cirurgia para remover totalmente a mama –, com esvaziamento axilar, quatro sessões de quimioterapia, 25 sessões de radioterapia e cinco anos de hormonoterapia, está bem e é voluntário na Liga Portuguesa Contra o Cancro há oito anos. Agostinho luta para informar e alertar de que esta também é uma realidade que atinge os homens, ainda que a percentagem seja reduzida, e que a atenção e a prevenção são passos essenciais também a serem seguidos pelo sexo masculino. Que este tipo de cancro não é exclusivo das mulheres.

Agostinho Branco, de 71 anos, faz parte dos cerca de 1% dos casos de cancro da mama diagnosticados por ano em homens

Projecto Fotográfico “Sweet October” por Ana Bee

O tema voltou às notícias quando o cantor Marco Paulo anunciou há uma semana que também a ele lhe foi diagnosticado cancro da mama. Disse ter reparado que algo estava diferente no seu corpo, mas que não prestou tanta atenção logo no início. “Pensava que aquilo era uma coisa passageira, que não ia acontecer nada”, adiantou o cantor em entrevista à TVI, acrescentando que sempre teve a ideia de que o cancro da mama era algo que só atingia mulheres. Marco Paulo teve também de fazer uma cirurgia radical — retirou o peito direito pela axila — e já iniciou os tratamentos de quimioterapia.

O caso do cantor português, que há 20 anos já tinha enfrentado também um cancro no cólon, é semelhante à história de vários homens que não têm conhecimento de que o cancro da mama também os pode atingir. Esse desconhecimento leva muitas vezes a um diagnóstico tardio, quando o cancro está já numa fase mais avançada e complicada de tratar. As estatísticas refletem o quão pouco frequente é esta doença no sexo masculino, mas também mostram que ela é uma realidade e não deve ser ignorada: de acordo com a Liga Portuguesa Contra o Cancro, cerca de seis mil mulheres são diagnosticadas com cancro da mama anualmente, o que equivale a 11 novos casos por dia. Nos homens, há apenas entre 45 a 50 novos casos de cancro da mama por ano, apenas 1% em comparação com as mulheres. Por definição, ela é assim, nos homens, uma doença rara.

Este é o segundo cancro para Marco Paulo

TIAGOCOUTO/Observador

Mas porque é que este cancro atinge mais as mulheres do que os homens? E há diferenças nos fatores de risco e tratamento entre eles e elas? Como lidam os homens com o cancro da mama? Porque não há mais informação? O Observador falou com duas especialistas em oncologia e um sobrevivente de cancro da mama para perceber o que realmente acontece quando o cancro da mama é detetado num homem.

"Pensava que este era um assunto de senhoras. Nunca imaginei, nunca me passou pela cabeça que isto pudesse acontecer aos homens".
Marco Paulo, cantor

O problema do diagnóstico tardio: “A doença não é mais agressiva por aparecer no homem”

Agostinho Branco percebeu que algo estava errado quando sentiu uma comichão no mamilo e um nódulo e decidiu, por vontade própria, ir a um médico esclarecer a situação. Já Marco Paulo referiu que “sentia o tumor, o caroço”, mas só descobriu a doença numa consulta de rotina. Apesar de terem tido abordagens diferentes ao início do problema, os sintomas dos dois são dos mais comuns em casos de cancro da mama e semelhantes aos casos desta doença nas mulheres. “A maior parte das vezes é através de um nódulo na mama ou de uma escorrência através do mamilo. São as principais queixas. Também pode aparecer um nódulo debaixo do braço na axila, que às vezes as pessoas não sabem, mas é um prolongamento da glândula mamária”, explica ao Observador Fátima Cardoso, diretora da unidade clínica da mama no Centro Clínico Champalimaud. Entre outros sintomas estão alterações no tamanho, forma ou pele da mama, úlceras mamárias e erupção cutânea.

“Raramente o homem suspeita que o que esteja a aparecer na mama seja cancro, porque a população tem menos conhecimento. Acha que é uma ferida ou que é um nódulo que vai melhorar e o diagnóstico acaba por ser sempre mais tardio”.
Gabriela Sousa, diretora do Serviço de Oncologia Médica do IPO de Coimbra

Uma diferença entre homens e mulheres passa precisamente pelo diagnóstico. Não pela forma como é feito, mas pelo tempo de antecedência com que é feito. Gabriela Sousa, diretora do Serviço de Oncologia Médica do IPO de Coimbra, refere que, nos homens, “a maior parte dos casos são diagnosticados numa fase mais tardia” devido à falta de informação e conhecimento. “Raramente o homem suspeita que o que lhe esteja a aparecer na mama seja cancro, porque tem menos conhecimento. Acha que é uma ferida ou que é um nódulo que vai melhorar e o diagnóstico acaba por ser sempre mais tardio”, acrescenta a médica oncologista.

Fátima Cardoso é da mesma opinião e acrescenta que há o desconhecimento de que “o homem também tem mama, também tem glândula mamária e também pode ter cancro da mama”. “Por vezes, algum tipo de desconhecimento em alguns grupos de profissionais de saúde — que podem desvalorizar alguma queixa que os doentes possam ter — pode também levar a um diagnóstico tardio. Se se valorizar as queixas, rapidamente se chega a um diagnóstico”, sublinha a também coordenadora de um programa internacional de cancro da mama no homem, acrescentando que este diagnóstico é feito através de exames de imagem (a mamografia e a ecografia) e de uma biópsia para concluir se se trata de um tumor maligno.

O anúncio de Marco Paulo foi também, nas palavras do cantor português, “um alerta aos homens para se precaverem, tocarem no peito” e estarem atentos aos fatores de risco que, tanto em homens como mulheres, contribuem para o aumento da probabilidade do cancro da mama.

O historial familiar — cerca de 10% desta doença num homem está associada a alterações genéticas hereditárias — “é uma indicação para se ir procurar se na família não existe o gene do cancro da mama”. Mas há também que ter atenção a fatores hormonais relacionados com a obesidade, problemas hepáticos (como a cirrose) e ainda um fenómeno mais recente que também pode ter impacto: o uso de esteroides anabolizantes administrados, por exemplo, entre quem frequenta ginásios. “Este tipo de componentes hormonais podem, de alguma forma, alterar também a parte hormonal e adicionar um risco acrescido de cancro da mama, porque a maior parte dos tumores da mama no homem são hormono-dependentes, tal como nas mulheres”, acrescenta Gabriela Sousa.

De acordo com uma descrição feita pela CUF, que cita a American Cancer Society, são também considerados fatores de risco a exposição à radiação e ainda a Síndrome de Klinefelter, uma “doença congénita em que os homens apresentam um cromossoma X a mais”. Esta alteração, explica a CUF, “provoca problemas como testículos que não tenham descido para a bolsa escrotal ou ginecomastia (crescimento benigno da mama masculina)”.

“Felizmente, hoje em dia já se sabe mais sobre esta doença e aquilo que se sabe é que se se comparar homens com o mesmo subtipo de cancro da mama e o mesmo estádio com as mulheres, os prognósticos de sobrevivência são semelhantes. Claro que se for diagnosticado mais tardiamente, se estiver mais avançado, aí o prognóstico é mais reservado. Mas não é porque é num homem, é porque foi diagnosticado tardiamente. A doença não é mais agressiva por aparecer no homem.”
Fátima Cardoso, diretora da unidade clínica da mama no Centro Clínico Champalimaud

Os especialistas indicam ainda que, muitas vezes, existe a ideia de que o cancro da mama no homem é mais grave do que na mulher em estádios semelhantes. No entanto, trata-se de uma ideia incorreta que é alimentada pelo facto de existir um diagnóstico mais tardio nos homens e também pela diferença do tamanho da mama entre homens e mulheres. Isso faz com que possa provocar um desenvolvimento mais rápido do cancro no sexo masculino, uma vez que, “na mama do homem, sendo uma glândula pequena, o tumor que se venha a desenvolver ali acabe por poder estender-se mais rápido aos tecidos adjacentes, quer à pele quer ao músculo”.

“Felizmente, hoje em dia já se sabe mais sobre esta doença e aquilo que se sabe é que se se comparar homens com o mesmo subtipo de cancro da mama e o mesmo estádio com as mulheres, os prognósticos de sobrevivência são semelhantes. Claro que se for diagnosticado mais tardiamente, se estiver mais avançado, aí o prognóstico é mais reservado. Mas não é porque é num homem, é porque foi diagnosticado tardiamente. A doença não é mais agressiva por aparecer no homem”, esclarece Fátima Cardoso.

Tal como nas mulheres, quanto mais cedo for o diagnóstico maiores são as probabilidades de cura

ANNE-CHRISTINE POUJOULAT/AFP/Getty Images

No caso dos homens, o cancro da mama é mais frequente em idades avançadas, sendo a faixa etária acima dos 70 anos onde esta doença pode ser mais frequente. Quanto aos tratamentos, explicam as especialistas em oncologia, tudo é determinado pelo tipo de cancro e a fase em que a doença se encontra: “O tratamento mais importante, para além da cirurgia e da radioterapia, quando está indicado, é a chamada hormonoterapia, que vai combater os estímulos hormonais”.

O combate à ideia de que esta “é apenas uma doença de mulher”

Pela própria raridade da doença nos homens, a ideia que muitas vezes existe é que o cancro da mama só acontece às mulheres. Se Agostinho Branco não tinha essa noção e sabia que podia acontecer a qualquer um, Marco Paulo confessou na entrevista que deu à TVI que “pensava que este era um assunto de senhoras”. “Nunca imaginei, nunca me passou pela cabeça que isto pudesse acontecer aos homens”, explicou.

Mas, porque é que o cancro da mama é mais frequente nas mulheres do que nos homens? “A mama da mulher sofre muitíssimo mais influências hormonais ao longo da vida do que a mama do homem, nomeadamente desde logo pela exposição aos ciclos menstruais. Sempre que há um ciclo menstrual, há uma produção e um pico de hormonas que vai influenciar negativamente a mama e, como tal, a mama da mulher ao longo da sua vida experiencia múltiplas alterações hormonais”, responde Gabriela Sousa.

“Muitos sentem-se envergonhados porque acham que o cancro da mama é considerado apenas uma doença de mulher, até pela frequência. No entanto, não têm que se sentir nada envergonhados. A glândula mamária é um órgão que existe tanto em homens como em mulheres e a razão de terem cancro da mama não significa nem que tenham feito alguma coisa de errado nem que haja algo de errado ou menos masculino neles.”
Fátima Cardoso, diretora da unidade clínica da mama no Centro Clínico Champalimaud

Por existir o mito de que este é apenas um problema das mulheres, alguns homens que são diagnosticados com cancro da mama podem tender a esconder-se ainda mais do problema. “Muitos sentem-se envergonhados porque acham que o cancro da mama é considerado apenas uma doença de mulher, até pela frequência. No entanto, não têm que se sentir nada envergonhados. A glândula mamária é um órgão que existe tanto em homens como em mulheres e a razão de terem cancro da mama não significa nem que tenham feito alguma coisa de errado nem que haja algo de errado ou menos masculino neles”, clarifica Fátima Cardoso.

A médica oncologista acrescenta que também os homens, depois de tratamentos como a mastectomia radical e a radioterapia, “sentem-se constrangidos, sentem um embaraço de poderem fazer perguntas ou olhar para o que aconteceu”. Fátima Cardoso explica que houve também uma mudança de pensamento na própria comunidade médica quando abordava a parte estética depois deste tipo de tratamentos no homem. “Se nós pudermos fazer uma cirurgia que não deixe uma cicatriz tão marcante para um homem, isso é tão importante como para uma mulher”, acrescenta.

Um maior nível de alerta e de informação, sublinham as especialistas, é essencial: “Estarem atentos a qualquer sintoma e, tal como a mulher, aparecendo o sintoma não ignorá-lo, mas procurar rapidamente ajuda. Mais vale procurar e depois não ser nada, do que atrasar o diagnóstico”.

"Não queria que ninguém falasse para mim. Pensava que era uma questão de tempo, que já tinha acabado tudo. Para mim, ter cancro era estar condenado à morte. Cancro e morte eram a mesma coisa."
Agostinho Branco, sobrevivente de cancro da mama

Agostinho Branco admite ao Observador que nos primeiros tempos, depois de ter tido a notícia do cancro, só queria estar no seu “cantinho”. “Não queria que ninguém falasse para mim”, assume. Mas, muito mais do que a possibilidade de sentir algum tipo de vergonha, o que o assustava mais era o peso da doença. “Pensava que era uma questão de tempo, que já tinha acabado tudo. Para mim, ter cancro era estar condenado à morte. Cancro e morte eram a mesma coisa”, admite.

Na primeira vez que entrou no Instituto Português de Oncologia (IPO) do Porto, diz ter pensado que “estava a entrar dentro de um inferno”. Mas a visão que tinha também acabou por mudar com a experiência vivida. “Aquela fobia que tinha desapareceu. Porque eu não sabia o que era o cancro. Pensava que quem tivesse cancro morria e pronto. Estava errado”. Um ano depois do diagnóstico, Agostinho tornou-se voluntário e ainda hoje vai a congressos e formações sobre cancro e partilha o seu testemunho e experiência em escolas e universidades. Agora a vigilância, garante, “está sempre lá”.

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