Do rock à tecnologia: "Se não houver visão criativa dentro das empresas, elas estão condenadas” /premium

Teve uma banda de indie rock nos anos 90, passou pela Nike, pela Coca-Cola e foi responsável pelo marketing da Lyft (rival da Uber) antes de assumir a pasta na Dashlane. Entrevista a Joy Howard.

No dia em que a startup Dashlane comemorou o primeiro ano da sucursal lisboeta, Joy Howard tirou 40 minutos para falar com o Observador sobre segurança e privacidade online, criatividade e trabalho de equipa. A conversa com a nova responsável pelo marketing da aplicação decorreu no escritório da Rua Garrett, nova casa da Dashlane, em pleno coração de Lisboa. Com um percurso que inclui uma banda rock na mesma editora de PJ Harvey, uma passagem pela Escola de Negócios da Universidade da Carolina do Norte e experiência profissional na Coca-Cola e na Nike, a norte-americana de 50 anos gosta de “marcas que alteram a realidade social” e de “sonhar com novos patamares que ainda nem existem”.

Na Dashlane há cerca de um mês, Joy Howard defende uma abordagem criativa aos problemas dentro das empresas e garante que nem sempre o trabalho de equipa tira o melhor partido das ideias inovadoras. Antes de liderar o marketing da plataforma que o Washington Post apelidou de “Apple do jogo de passwords”, Joy liderou o da Lyft, aplicação rival da Uber nos EUA. Sobre o mais recente desafio — a aplicação Dashlane –, diz que não é apenas um software para gerir passwords, porque o “objetivo final” é o de “melhorar a navegação na net” em termos de liberdade, segurança e rapidez. E este percurso multifacetado de onde vem? “Sou muito curiosa e procuro explorar novas realidades. Nunca quis fazer apenas uma coisa na vida, sempre quis aprender mais e avançar. Por isso, tem sido natural dar passos que me abrem novas portas, para novas realidades.”

Antes de assumir o Marketing da Dashlane, Joy Howard foi CMO da Lyft, rival da Uber, durante 10 meses

Falemos um pouco sobre o seu percurso. É verdade que antes de trabalhar em marketing tocou na banda rock Seely?
É verdade. Aliás, a Dashlane tem muitos músicos entre os seus funcionários, a começar pelo CEO [Emmanuel Schalit]. Foi nos anos 90, fazíamos indie rock. Depois do fenómeno Nirvana, todas as grandes editoras discográficas queriam ter bandas indie rock no catálogo. Foi uma espécie de corrida ao ouro, o período pós-Nirvana. O som da minha banda era influenciado pelo som dos Kraftwerk e dos Stereolab, estávamos numa editora britânica chamada Too Pure, a mesma de PJ Harvey.

Essa fase artística influenciou o seu percurso futuro?
Em certa medida, sim, porque quando se está numa pequena editora temos de ser responsáveis pela contabilidade da banda, pelo marketing, pela gestão. Descobri, de repente, que tinha talento para a área dos negócios, algo em que nunca tinha pensado antes. E hoje tenho uma forte ligação à criatividade. Costumo dizer: podemos ter os melhores engenheiros e diretores financeiros, mas se não houver uma visão criativa dentro das empresas, elas estão condenadas.

A que tipo de visão criativa se refere?
Todas as pessoas são criativas e um bom líder precisa de saber trazer essa criatividade à superfície. Essa é a magia de um líder. Não se trata apenas de pedir aos funcionários que tenham novas soluções para velhos problemas, mas
também de sonhar com novos patamares que ainda nem existem. Isso requer imaginação e invenção. Foi isso que os fundadores da Dashlane trouxeram.

O seu percurso no marketing começou há cerca de duas décadas…
No início não era bem marketing, mas desenvolvimento de produto, na Johnson & Johnson. Depois, acabei por me aproximar do marketing. As empresas que têm excelentes ideias precisam também de uma visão sobre como fazer, como vender, como estar perto das pessoas. Gosto desta ideia de participar na construção de marcas que alteram a realidade social, que trazem novos valores, grandes mudanças.

"Portugal está a recuperar de um período de recessão. Foi uma fase terrível, obviamente, mas em certa medida foi uma bênção, porque também não tivemos anos extraordinários em termos de inovação tecnológica. Agora que as coisas estão novamente a evoluir, Lisboa está a acompanhar a mudança com nova energia"

Ser mulher dificultou o seu percurso?
Seria impossível, ao fim de duas décadas, não ter sido confrontada com desafios relacionados com isso. É um facto que as mulheres estão em minoria nos lugares de liderança das empresas, apesar de constituírem metade da população geral. A área tecnológica é onde há, de facto, muitos menos mulheres do que homens e no fundo isso também me atraiu.

Há uma apetência natural dos homens por estas áreas?
Não, penso que desde tenra idade eles são encorajados a interessarem-se por tecnologia, mas o mesmo não se passa com as mulheres. No fim, elas ficam sub- representadas em cursos de engenharia e acabam por não estar tão presentes no mercado de trabalho.

Está a pensar mudar-se para Lisboa?
Adorava. Se conseguir convencer a minha família, mudo-me. A cidade está a atravessar uma fase fantástica, faz-me lembrar Berlim há uma década. Sinto a mesma energia. Portugal está a recuperar de um período de recessão. Foi uma fase terrível, obviamente, mas em certa medida foi uma bênção, porque também não tivemos anos extraordinários em termos de inovação tecnológica. Agora que as coisas estão novamente a evoluir, Lisboa está a acompanhar a mudança com nova energia.

Para já, veio comemorar o primeiro ano dos escritórios da Dashlane.
Exatamente. A nossa equipa em Lisboa tem vindo a crescer muito depressa e penso que irá continuar. Achei que seria importante vir conhecer toda a gente pessoalmente. Aliás, vim pela primeira vez no início do verão e já temos muito mais pessoas a trabalhar connosco.

Quantas pessoas?
Penso que são quase 30, mas terei de confirmar. Temos uma equipa em Paris, onde trabalho, outra em Nova Iorque e outra em Lisboa. A empresa começou em Paris, depois cresceu e precisou de novas localizações.

"Lembremos a ideia original, quando a internet começou a ganhar protagonismo: seria uma autoestrada da informação e a experiência do utilizador seria ultrarrápida, onde quer que estivesse. De facto, foi uma autoestrada durante algum tempo, mas hoje percebemos que a experiência do utilizador é frustrante, está cheia de barreiras, é um constante pára-arranca"

À partida, pensaríamos que uma startup tecnológica não precisa de muitos funcionários, porque as operações são automáticas e os algoritmos tratam de tudo. No entanto, a Dashlane tem três escritórios e põe anúncios de emprego quase todas as semanas. Porquê?
O nosso produto é muito fácil de utilizar, mas, para que isso aconteça, a empresa tem de gerir algumas complicações. A aplicação tem um sematic engine, uma forma de inteligência artificial, mas para que tudo corra bem em diferentes ambientes, iOS, Windows, Android, etc., é preciso um sistema de engenharia complexo. Por isso, muitos dos nossos funcionários são programadores e engenheiros.

O software Dashlane é muitas vezes descrito como um gestor de passwords
Mas isso é apenas uma parte daquilo que fazemos. Em rigor, gerimos a identidade do utilizador e todas as credenciais, para que a experiência do utilizador seja mais livre e mais rápida.

O foco é a segurança?
Sim, com o objetivo final de melhorar a navegação na net. Lembremos a ideia original, quando a internet começou a ganhar protagonismo: seria uma autoestrada da informação e a experiência do utilizador seria ultrarrápida, onde
quer que estivesse. De facto, foi uma autoestrada durante algum tempo, mas hoje percebemos que a experiência do utilizador é frustrante, está cheia de barreiras, é um constante pára-arranca. Isso relaciona-se com a dificuldade em
navegar nos walled gardens dos gigantes da internet. É difícil entrar em cada aplicação e todos usamos centenas de aplicações diferentes.

A “experiência do utilizador” é a rapidez com que navegamos na internet?
Há dois conceitos. “UI”, que corresponde a “user interface” (interface do utilizador), e “UX”, que corresponde a “user experience” (experiência do utilizador). A “UX” é a forma como cada pessoa utiliza uma aplicação. Há uma
década, quando a Dashlane foi criada, já se percebia que a UX deveria caminhar para a eliminação de barreiras, mas já então era pontuada por atritos constantes, e hoje ainda mais.

"O ecossistema Apple e o ecossistema Google são os maiores, mas temos também o ecossistema Microsoft, o ecossistema Amazon, por aí fora. Desde que o utilizador se mantenha num só destes ecossistemas digitais, e faça tudo dentro deles, tudo bem. Só que, na realidade, cada utilizador passa no máximo 30% do seu tempo num só ecossistema. Nos restantes 70%, encontra muitas barreiras"

Quer dar um exemplo?
O atrito mais frequente é quando tentamos fazer login num site ou numa aplicação. Quase todas pedem um email e uma password. Depois de entrarmos, pedem-nos informações adicionais: a morada, o número de contribuinte, o número do cartão de crédito, etc. O que deveria ser uma experiência ultrarrápida transforma-se muitas vezes em frustração. O Dashlane foi criado para responder a estes problemas. De repente, assistimos à emergência dos gigantes da tecnologia, que praticamente operam em regime de monopólio e sobrevivem através da criação de walled gardens, ou seja, os seus próprios ecossistemas.

Por exemplo, a lógica de funcionamento do iPhone, que só permite aplicações autorizadas e exige um registo a cada utilizador, é um walled garden?
Exatamente. O ecossistema Apple e o ecossistema Google são os maiores, mas temos também o ecossistema Microsoft, o ecossistema Amazon, por aí fora. Desde que o utilizador se mantenha num só destes ecossistemas digitais, e faça tudo dentro deles, tudo bem. Só que, na realidade, cada utilizador passa no máximo 30% do seu tempo num só ecossistema. Nos restantes 70%, encontra muitas barreiras. É isso que nós resolvemos.

Como é que os gigantes da internet têm reagido ao Dashlane? No fundo, este software é uma negação desses ecossistemas.
Todos acabam por beneficiar se os utilizadores puderem navegar sem barreiras entre cada ecossistema digital. Há alguns anos, houve alguma resistência ao nosso trabalho, é verdade, mas a necessidade a que estamos a dar resposta é tão óbvia… Quando as pessoas começam a usar o Dashlane percebem que já não precisam de estar sempre a fornecer o email, a password, o número do cartão. Há quem tenha diferentes contas de email para fazer login e depois já não sabe qual é que escolheu. Outras vezes, o login pode ser feito com o Google ou com o Facebook, mas também não nos lembramos com qual deles o fizemos. Portanto, o Dashlane gere a password e todas as credenciais necessárias para utilizar um site ou uma aplicação.

Como descreve o êxito deste software?
O número de pessoas que começa a utilizar e que se mantém fiel faz prova do nosso êxito. Temos enormes taxas de retenção de clientes e de utilizadores frequentes. É o produto deste género mais bem sucedido do mercado

Quantos utilizadores têm?
Milhões no mundo, mas não divulgamos os números exatos.

"Há quem diga que o principal problema de segurança não são as passwords. A porta de entrada pode estar muito bem guardada, mas o acesso ilegítimo pela porta dos fundos das aplicações é que é preocupante. Faz sentido? É por isso que o nosso compromisso com a segurança se torna ainda mais importante"

As empresas são os vossos maiores clientes?
Na verdade, são os consumidores individuais, mas temos soluções diferentes para cada segmento.

O principal desafio será o de explicar aos utilizadores que a segurança “online” é um problema? Provavelmente, a maioria das pessoas está na web sem noção disso.
Admito que seja um desafio, mas a partir do momento em que explicamos que a experiência de utilização tem muito mais entraves do que nunca, as pessoas identificam imediatamente esse problema. O desafio é chamar a atenção para isto, sem dúvida. As pessoas estão cada vez mais informadas sobre as ameaças à segurança e à privacidade, mas pensam que não podem fazer nada. Têm receio, mas acham que não há nada a fazer. O Dashlane tem um método realmente eficaz, porque, além de estar sempre atualizado, não permite que a Apple ou a Google armazenem a password em primeira instância. O Dashlane fica com a password no primeiro login. Sempre que surge no ecrã um campo para preenchimento, o Dashlane sabe que informação deve lá estar.

Como é que os utilizadores podem estar seguros em relação ao vosso sistema? Até há pouco tempo, antes das revelações do informático Edward Snowden e do escândalo Facebook e Cambridge Analytica, a maioria das pessoas também confiava nos gigantes da net.
São preocupações legitimas, mas há aqui diferenças. Uma empresa como o Facebook assenta o modelo de negócio na recolha de dados pessoais do utilizador, que depois são vendidos de alguma forma. É assim que ganham dinheiro. A Apple tem um sistema idêntico, porque as aplicações que instalamos no iPhone também vendem dados pessoais. São empresas, na maior parte dos casos, totalmente dependentes dos nossos dados. O Dashlane não funciona assim. Temos um sistema de assinaturas, as pessoas pagam para utilizar o nosso produto, e em troca fornecemos um serviço que não depende de dados. Não usamos dados dos utilizadores, pelo contrário, o que fazemos é encriptar e proteger esses dados. É a chamada zero-knowledge architecture. Os dados a que temos acesso são encriptados e ficam alojados no dispositivo do utilizador.

Um hacker não consegue lá chegar?
Não consegue, só se tivesse capacidade para descodificar as inúmeras camadas de encriptação que usamos. A descentralização de dados e da identidade é um dos aspetos fulcrais para garantir a segurança de quem está na internet. Ter todos os dados centralizados, como muitas empresas fazem, é meio caminho para atrair problemas. Parte da lógica zero-knowledge architecture é a descentralização.

Há quem diga que o principal problema de segurança não são as passwords. A porta de entrada pode estar muito bem guardada, mas o acesso ilegítimo pela porta dos fundos das aplicações é que é preocupante. Faz sentido?
É por isso que o nosso compromisso com a segurança se torna ainda mais importante. É um compromisso escrito, que qualquer utilizador pode ler.

"Hoje fala-se muito de trabalho de equipa, e é de facto muito importante, mas há aspetos criativos que só podem ser desenvolvidos pela própria pessoa, dentro da sua mente, especialmente em áreas que pedem uma abordagem artística"

Para terminar, gostaríamos que comentasse duas citações suas que apareceram há alguns num artigo da Bloomberg. A primeira é: “Pensa os teus próximos passos para abrires portas e não para as fechares”.
Isso vem de duas características que tenho: sou muito curiosa e procuro explorar novas realidades. Nunca quis fazer apenas uma coisa na vida, sempre quis aprender mais e avançar. Por isso, tem sido natural dar passos que me
abrem novas portas, para novas realidades.

Segunda citação: “Desenvolver a criatividade em equipa pode ser tão benéfico quanto prejudicial.”
Hoje fala-se muito de trabalho de equipa, e é de facto muito importante, mas há aspetos criativos que só podem ser desenvolvidos pela própria pessoa, dentro da sua mente, especialmente em áreas que pedem uma abordagem artística. Aí, se formarmos equipa com alguém dotado de grande criatividade, o resultado melhora, mas se esse alguém tiver menos talento do que nós, o resultado é pior. O que muitas vezes torna uma ideia genial é a sua pureza original e nem sempre se consegue manter essa pureza num ambiente empresarial, porque todas as pessoas trazem um ponto de vista diferente à ideia. O trabalho de equipa permite fazer mais coisas, mas também pode reduzir o poder de uma ideia.

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