Índice

    Índice

A ópera passou boa parte da sua história voltada para o passado, mas o compositor norte-americano John Adams (n. 1947) tem contrariado essa tendência com uma produção cuja matéria-prima são os eventos do nosso tempo – ou eventos suficientemente próximos para lançar uma sombra sobre o nosso tempo. Após óperas sobre as relações entre a China e os EUA (Nixon in China) e terrorismo e conflito israelo-palestiniano (The death of Klinghoffer), Adams estreou em 2005 uma ópera sobre a entrada da Humanidade na Era Atómica. Em 2018, o ano em que, devido à ameaça das alterações climáticas e da intenção dos EUA de denunciar os acordos sobre armas nucleares com a Rússia, os ponteiros do Relógio do Juízo Final, que medem o risco de uma catástrofe global, foram colocados, a apenas dois minutos da meia-noite (o ponto de maior risco desde a criação do conceito de Relógio do Juízo Final, em 1947), surge a primeira versão em CD de Doctor Atomic, dirigida pelo próprio compositor.

Curso do Relógio do Juízo Final, 1947-2018: o risco de catástrofe global é tanto maior quanto mais próximo de zero estiver o relógio

A ópera fora do seu tempo

Quando a ópera começou a dar os primeiros passos, recorreu sobretudo à mitologia clássica greco-romana e os protagonistas das primeiras décadas de ópera foram figuras como Orfeu, Ulisses, Jasão ou Dafne (ver Música para amansar feras: A origem da ópera). Em meados do século XVII os libretos começaram também a acolher personagens da história da Antiguidade Clássica – L’incoronazione di Poppea, de Monteverdi, sobre a ascensão de Popeia Sabina a esposa do imperador Nero, foi pioneira nesse domínio. Na viragem dos séculos XVII-XVIII, os libretos passaram a ter também inspiração em romances de cavalaria (é o caso de Rinaldo e Amadigi de Gaula, de Handel, ou de Orlando furioso, de Vivaldi) e o âmbito cronológico da ópera inspirada (muito livremente) em factos históricos avançou até à Idade Média (Riccardo Primo, de Handel, Bajazet, de Vivaldi). Na segunda metade do século XVIII, a ópera entrou, no que à música diz respeito, no período Clássico, mas os libretos continuaram presos ao passado – tome-se o caso de Mozart, cuja derradeira ópera, La clemenza di Tito (1791), tem por cenário a Roma de Tito Vespasiano. Na duas primeiras décadas do século XIX, Rossini ainda compôs óperas sobre o imperador persa Ciro (Ciro in Babilonia), o imperador romano Aureliano (Aureliano in Palmira) e a princesa assíria Semíramis (Semiramide).

[“T’abbraccio, ti stringo”, de Ciro in Babilonia, de Rossini, pela contralto Ewa Podles (Ciro) e direcção de Davide Livermore, no Festival Rossini de Pesaro, 2012. Não se estranhe ver Podles como “mulher barbuda”, pois Rossini concebeu muitos papéis heróicos masculinos das suas óperas para contraltos femininos]

Ao longo do século XIX, o desfasamento entre o tempo dos eventos históricos aludidos no libretos e a actualidade foi reduzindo-se, o que custou a Verdi atritos com a censura, que, quando havia eventos históricos em jogo, tentava impor aos libretos o maior afastamento cronológico e geográfico possível. A estética musical sofreu uma revolução na viragem dos séculos XIX-XX, mas a Antiguidade Clássica resistiu a deixar os palcos: em 1914 estreou a Cleopâtre, de Massenet, sobre o destino trágico de Cleópatra e Marco António, tema retomado na Antony and Cleopatra de Barber, 52 anos depois.

[Cena da morte de Marco António, na Cleopâtre de Massenet, por Beatrice Uria-Monzon (Cleópatra), Jean-François Lapointe (António) e Orquestra da Ópera de Marselha, com direcção de Lawrence Foster e encenação de Charles Roubaud, Ópera de Marselha, 2013]

As óperas CNN

A estreia, em 1987, de Nixon in China, de John Adams, é um momento de irrupção da actualidade geopolítica na torre de marfim da ópera. Nixon in China tem por assunto a histórica visita de Estado do presidente dos EUA Richard Nixon à República Popular da China de Mao Tse-Tung, em Fevereiro de 1972 e tem como protagonistas, além dos dois líderes, as respectivas esposas (Pat Nixon e Chiang Ch’ing), Chou En-lai e Henry Kissinger.

Mao Tse-Tung e Nixon, Fevereiro de 1972

Adams (n. 1947), iniciara carreira na área da música minimal-repetitiva, com obras como Common tones in simple times (1979), Harmonium (1980), Grand pianola music (1982) e Shaker loops (1983), mas começou a incorporar influências de Wagner e do tardo-romantismo (Mahler, Zemlinsky, o Schoenberg dos primeiros tempos), dando origem a composições que, embora retendo do minimalismo a pulsação obsessiva, exibiam uma sofisticação, variedade de texturas e colorido e uma riqueza de invenção que as afastavam claramente do despojamento (ou avareza) da escola minimal-repetitiva. Harmonielehre, de 1985, é um marco nessa inflexão, confirmada em Nixon in China e nas obras subsequentes.

[Excerto de Nixon in China captado no ensaio geral da produção da Met Opera de 2011, com direcção de John Adams e encenação de Peter Sellars]

A ópera seguinte de Adams foi The death of Klinghoffer (1991), cujo assunto é o sequestro, em 1985, do navio de cruzeiro Achille Lauro por terroristas da OLP. A operação resultou no assassinato a sangue-frio pelos terroristas de Leon Klinghoffer, um abastado judeu norte-americano de 69 anos que festejava o 36.º aniversário de casamento e estava confinado a uma cadeira de rodas.

[Trailer da produção de 2014 de The death of Klinghoffer na Metropolitan Opera de Nova Iorque. A transmissão directa desta produção à escala global, em vídeo e audio – no âmbito da série Met Opera Live in HD – foi cancelada após uma polémica envolvendo a alegada natureza anti-semita da ópera]

Seguiu-se I was looking at the ceiling and then I saw the sky (1995), que põe em música (mais ligeira e “fácil” do que usual em Adams) as reacções de várias testemunhas do terramoto de Los Angeles de 1994, e que o compositor classificou não como “ópera”, mas como “song play”.

[Trailer de I was looking at the ceiling and then I saw the sky, na produção do Théâtre du Chatelet, em Paris, em 2013]

A designação “CNN opera” entrou em voga por esta altura para referir óperas que extraíam o seu assunto dos telejornais, mas embora Adams seja o compositor mais imediatamente associado com o género, este não começou com Nixon in China mas com X: The life and times of Malcolm X, de Anthony Davis, sobre o controverso activista afro-americano Malcolm X, assassinado em 1965, que estreou em Filadélfia em 1985. Em 1995, estreou Harvey Milk, de Stewart Wallace, sobre o activista dos direitos gay, assassinado em 1978, mas nem esta nem a ópera de Davis produziram impacto mediático que se aproximasse do das óperas de Adams.

Quem estivesse a par do trajecto de Adams, poderia ser levado a crer que El niño, surgida em 2000, seria sobre alterações climáticas, mas nesta sua quarta ópera o compositor desviou-se das anteriores não só da linha temática como na forma: é uma ópera-oratória sobre a Natividade, que enriquece a narrativa bíblica com poesia de autores espanhóis e latino-americanos.

[Trailer de El niño, na produção do Théâtre du Chatelet, em Paris, em 2000, com direcção de Kent Nagano]

https://youtu.be/58vR-uNgkU4

Em 2005, Adams regressou à “ópera de actualidade” com Doctor Atomic, centrada nos dias que precederam a detonação do primeiro engenho nuclear da história, em Alamogordo, no deserto do Novo México, a 16 de Julho de 1945.

[Diferentes perspectivas da explosão nuclear de 16 de Julho de 1945]

Uma carta que mudou a história

A génese do Projecto Manhattan, que levou à construção das primeiras bombas atómicas, é usualmente atribuído a uma carta que Albert Einstein enviou a 2 de Agosto de 1939 a Franklin Roosevelt, Presidente dos EUA, alertando-o para o facto de a descoberta da fissão nuclear, anunciada em Dezembro de 1938 pelos químicos alemães Otto Hahn e Fritz Strassmann e cujos fundamentos teóricos tinham sido explicados em Fevereiro de 1939 pelos físicos austríacos Lise Meitner e Otto Frisch (sobrinho de Meitner), abrir caminho para a construção de engenhos explosivos de potência inaudita. A carta advertia que a Alemanha nazi poderia tentar desenvolver este novo tipo de arma e sugeria que os EUA se lhe tentassem antecipar, conselho que Roosevelt acolheu prontamente.

Lise Meitner e Otto Hahn no laboratório, 1913

Na verdade, não foi Einstein o autor desta carta decisiva – limitou-se a assiná-la, a pedido do físico húngaro Leo Szilard, que a redigiu, assessorado pelos seus colegas Edward Teller e Eugene Wigner. Szilard, que colaborara com Einstein em 1926-30, já tinha considerado, em 1933, a possibilidade de aproveitar a energia libertada pela fissão nuclear, quer para produção de energia eléctrica quer para a construção de armas de destruição maciça e as investigações subsequentes que levou a cabo em parceria com o físico Enrico Fermi indicaram que o urânio seria o elemento mais apropriado como matéria físsil. Quando, em Junho de 1939, Szilard se encontrou com Einstein para lhe falar da possibilidade de as descobertas mais recentes da física indicarem a possibilidade do fabrico de bombas atómicas, Einstein admitiu que tal ideia, embora plausível, nunca lhe tinha passado pela cabeça.

O Projecto Manhattan, que foi liderado pelos EUA, com contributos da Grã-Bretanha e do Canadá, começou de forma modesta, mas transformou-se rapidamente numa gigantesca engrenagem, que, no seu apogeu, envolveu 130.000 pessoas e teve um custo total de 2.000 milhões de dólares (22.000 milhões a preços de hoje). Era coordenada a partir do Laboratório Nacional de Los Alamos, no Novo México, chefiado por Robert Oppenheimer, e tinha como principais centros os laboratórios de Oak Ridge, no Tennessee, e Argonne, no Illinois.

O Reactor de Grafite X-10, no Laboratório Nacional de Oak Ridge, uma das peças cruciais do Projecto Manhattan, c. 1943

Toda esta formidável concatenação de recursos humanos e materiais de pouco teria servido se o projecto não contasse com os maiores físicos da época – boa parte deles, por ironia, vindos da parte do mundo controlada pelas potências do Eixo.

Os cérebros do Projecto Manhattan

Albert Einstein, Leo Szilard e Hans Bethe tinham em comum a ascendência judaica e terem fugido da Alemanha quando Hitler chegou ao poder. Szilard nascera em 1898 em Budapeste, de pai e mãe judeus, com o nome de Leó Spitz, mas dois anos depois a família adoptou o nome húngaro de Szilárd. Leó Szilárd obteve cidadania alemã em 1930, mas em 1933 mudou-se para a Grã-Bretanha (onde o seu nome perdeu os acentos), aconselhando os familiares e amigos a fazer o mesmo; em 1938 radicou-se nos EUA.

A equipa que desenvolveu o reactor nuclear da Universidade de Chicago, 1946: Leo Szilard é o primeiro a contar da direita na 2.ª fila (de bata de laboratório), Enrico Fermi é o primeiro a contar da esquerda na 1.ª fila

Hans Bethe nascera em 1906 em Estrasburgo, na Alsácia (que então fazia parte da Alemanha) e tinha mãe judia; em 1933, as leis raciais nazis levaram a que fosse despedido da Universidade de Tübingen, mas não tardou a encontrar novo posto na Universidade de Manchester, antes de assentar em Cornell em 1935.

Cartão de identificação de Hans Bethe no Laboratório de Los Alamos

Albert Einstein nascera em 1879 em Ulm, na Alemanha, mas viveu durante quase 20 anos na Suíça e obteve cidadania suíça, antes de, em 1914, se mudar para Berlim, onde foi eleito membro da Academia das Ciências da Prússia e presidente da Sociedade Alemã de Física. A subida ao poder de Hitler coincidiu com uma visita sua aos EUA e, prudentemente, optou por não regressar à Europa.

Os consultores de Szilard na carta de 1939 a Roosevelt, Edward Teller (uma das personagens de Doctor Atomic) e Eugene Wigner, tinham, como Szilard, nascido em Budapeste em família judaicas e feito carreira em universidades alemãs – o nome do primeiro era Ede Teller, o do segundo Jeno Pál Wigner, tendo sido anglicizados quando se mudaram para os EUA, em 1934 (Wigner) e 1935 (Teller).

Cartão de identificação de Edward Teller no Laboratório de Los Alamos

Emilio Segrè e Enrico Fermi abandonaram ambos Itália em 1938, em resultado da promulgação de leis anti-semitas pelo governo de Mussolini: Segrè, nascido em 1905, porque era judeu, Fermi porque se casara com uma judia.

Os “rapazes da Via Panisperna”, c. 1934: da esquerda para a direita, Oscar D’Agostino, Emilio Segrè, Edoardo Amalfi, Franco Rasetti e Enrico Fermi. O nome do grupo provém da rua onde se situava o seu local de trabalho, o Instituto de Física da Universidade de Roma

Stanisław Ulam nascera em 1909 em Lemberg, então na Galícia, uma província do Império Austro-Húngaro, mas que no final da I Guerra Mundial, se tornaria parte da Polónia, com o nome de Lwów (após ter sido englobada na URSS, é desde 1991 território ucraniano, com o nome de Lviv). Ulam, nascido numa família judaica, desenvolveu actividade em várias universidades europeias e americanas e a 20 de Agosto de 1939, por iniciativa do pai e do tio, embarcou, com o seu primo Adam, de Gdynia, na Polónia, rumo aos EUA – alguns dias depois, a Alemanha invadiu a Polónia e passados dois anos toda a família de Ulam perecera na perseguição aos judeus polacos movida pelos nazis.

O dinamarquês Niels Bohr, nascido em 1885 em Copenhaga, de mãe judia, juntou-se tardiamente à equipa do Projecto Manhattan, já que a Alemanha só ocupou a Dinamarca em 1940 e administrou o país com mão relativamente leve (quando comparado com a brutalidade empregue a Leste).

Em 1939 Bohr já tinha discutido publicamente a possibilidade de construção de uma bomba atómica usando urânio, pelo que não é de estranhar que em 1941 tenha recebido a visita do físico Werner Heisenberg, que dirigia o programa atómico alemão (o Uranprojekt), possivelmente com o intuito de induzi-lo a colaborar no seu projecto.

Werner Heisenberg e Niels Bohr, num encontro por ocasião de uma conferência em Copenhaga, em 1934

O encontro com Bohr revelou-se infrutífero para Heisenberg e o Uranprojekt foi sendo retardado por vários contratempos e pelo relativo desinteresse da liderança nazi (ver Vale tudo, até tirar olhos: A história do Ministério da Guerra Sem Cavalheirismos). Em 1943, a crescente sanha anti-semita de Hitler levou a que ordenasse às forças de ocupação nazis na Dinamarca que prendessem e deportassem os judeus do país, mas a notícia espalhou-se antes de a acção ser levada a cabo, permitindo que boa parte dos judeus dinamarqueses conseguisse fugir para a Suécia, com a ajuda da resistência dinamarquesa. Bohr foi um dos primeiros a escapar e, após uma escala na Grã-Bretanha, acabou por também se instalar nos EUA e colaborar com a equipa de Los Alamos.

Da esquerda para a direita: Niels Bohr, James Franck, Albert Einstein e Isidor Isaac Rabi, c.1954

O director do Laboratório de Los Alamos e, por conseguinte, da “componente científica” do Projecto Manhattan era J. Robert Oppenheimer (1904-1967), que nascera no seio de uma abastada família judia ashkenazi em Nova Iorque e que, após ter estudado em Cambridge e Göttingen, onde se doutorou com apenas 23 anos.

Após uma breve passagem pela Universidade de Leiden, na Holanda (onde deu aulas em holandês, língua que desconhecia poucas semanas antes), e pelo Instituto Federal de Tecnologia da Suíça, em Zurique, tornou-se professor de física na Universidade da Califórnia, em Berkeley.

Após muitos anos de alheamento do mundo – só se apercebeu do crash de Wall Street, em Outubro de 1929, seis meses depois, numa conversa casual – Oppenheimer ganhou consciência política e demonstrou afinidade por ideais socialistas e comunistas, tendência que se terá acentuado após, em 1936, se ter envolvido sentimentalmente com Jean Tatlock, que escrevia para o Western Worker, órgão do Partido Comunista Americano. Em 1939, após uma ruptura com Tatlock, Oppenheimer conheceu Katherine “Kitty” Puening (outra personagem de Doctor Atomic), nascida na Alemanha em 1910, emigrada para os EUA com a família em 1913, ex-membro do Partido Comunista Americano e cujo segundo marido fora morto na Guerra Civil Espanhola, quando lutava ao lado dos Republicanos.

Kitty Oppenheimer

No Verão de 1940, Kitty aceitou o convite de Oppenheimer para visitar o seu rancho no Novo México e, poucos meses depois, ao descobrir que estava grávida, divorciou-se do seu terceiro marido e casou-se com Oppenheimer – o que não impediu que este reatasse a relação com Tatlock.

Cartão de identificação de Oppenheimer no Laboratório de Los Alamos

Apesar das conexões comunistas e do apreço por ideais de esquerda, Oppenheimer foi escolhido em Setembro de 1942 pelo general Leslie Groves (outra das personagens de Doctor Atomic) para chefiar o Laboratório Nacional de Los Alamos.

Leslie Groves (à esquerda) e Robert Oppenheimer

Groves (1896-1970), que era engenheiro militar e supervisionara a construção do imponente edifício do Pentágono, em Washington D.C., acabara de ser nomeado para dirigir o Projecto Manhattan – para desilusão sua, pois esperava ser destacado para um posto na frente de combate. Após uma conversa com Oppenheimer, Groves ficou convencido de que a amplitude do conhecimento daquele, aliada à capacidade de gestão e determinação implacável, o tornavam na pessoa certa para dirigir a componente científica do Projecto Manhattan, apesar de haver físicos nucleares mais credenciados do que ele (e com perfis “mais limpos”, i.e., sem vínculos a comunistas). O tempo viria a confirmar a justeza da avaliação de Groves.

Robert Oppenheimer (à esquerda) e Leslie Groves inspeccionam o local do teste Trinity, dois meses após a explosão, em Setembro de 1945

Apreensão e angústia em Alamogordo

Em 1944, com o processo de produção da bomba atómica bem encaminhado, Oppenheimer começou a estudar a forma de testá-la. Nunca fora tentado nada de semelhante e as incógnitas eram muitas, pelo que houve quem sugerisse a possibilidade de fazer um teste em pequena escala, mas Oppenheimer optou por um teste à escala real, apesar da apreensão de Groves, que, em caso de fiasco, teria de explicar aos seus superiores como dissipara numa fracção de segundo plutónio que custara 1000 milhões de dólares a obter.

Após a análise de oito locais possíveis para o teste a escolha recaiu no campo de tiro de Alamogordo, situado no deserto com o sugestivo nome de Jornada del Muerto, no Novo México. Oppenheimer, que, ao contrário de muitos cientistas, possuía também sólida cultura na área das Humanidades, atribuiu ao teste atómico o nome de código de Trinity, evocando a natureza trina do deus cristão e colhendo inspiração num poema de John Donne (1572-1631) cuja primeira linha é “Batter my heart, three person’d God”.

A base construída no deserto para o teste Trinity

As incertezas quanto ao sucesso da detonação levaram a que se considerasse a possibilidade de realizar o teste dentro de um contentor que, no caso de a explosão ser apenas parcial, impediria que o precioso plutónio fosse dispersado. O contentor, que recebeu o nome de código de “Jumbo”, chegou a ser levado para Alamogordo, mas o monstro com paredes de aço de 35 centímetros de espessura e 120 toneladas de peso acabou por não ser usado, pois o processo de produção de plutónio estava finalmente a funcionar a todo o vapor e concluiu-se que mesmo em caso de fiasco, rapidamente se disporia de material para construir uma segunda bomba.

“Jumbo”, o contentor para o teste nuclear, no campo de tiro de Alamogordo, Maio de 1945

Foi decidido que o teste seria realizado no alto de uma torre de aço de 30 metros de altura, sem dispositivos de contenção. A bomba atómica, referida, na equipa, como “The Gadget”, era uma bomba de plutónio, ou seja similar à que seria detonada em Nagasaki (“Fat Man”), enquanto a bomba de Hiroshima (“Little Boy”) seria de urânio. Estimava-se que a sua explosão libertaria uma energia equivalente à detonação de alguns milhares de toneladas de TNT (kilotoneladas), embora as estimativas dos cientistas divergissem amplamente, entre Oppenheimer, que, inusitadamente, fez uma previsão de apenas 0.3 kilotoneladas, e Edward Teller, que apostou nas 45 kilotoneladas. Hans Bethe apontou para 8 kilotoneladas, o que correspondia ao valor apurado teoricamente por Emilio Segrè, mas quem acabaria por se aproximar mais do resultado real foi o físico Isidor Isaac Rabi (mais um judeu, nascido em Rymanów, na Galícia, em 1898, e que emigrara com a família para os EUA três anos depois): indicou 18 kilotoneladas e as medições apuraram que a detonação de “The Gadget” equivaleu a 22 kilotoneladas.

A torre de teste, Julho de 1945

Nos dias que antecederam o teste várias apreensões pairavam no ar e Enrico Fermi, num momento de humor negro, sugeriu que a energia libertada poderia incendiar a atmosfera da região ou até, numa reacção incontrolável, de todo o planeta, mas a preocupação que mais pesava sobre a equipa era a contrária: que nada acontecesse.

“The Gadget”, na torre de teste, 15 de Julho de 1945

Por um lado, os cientistas pretendiam ter tempo seco e boa visibilidade, para poderem efectuar todas as medições e registos do evento, mas as previsões meteorológicas só garantiam essas condições a partir de 18 de Julho, mas o presidente Harry Truman, que sucedera a Roosevelt, falecido a 12 de Abril e iria iniciar uma reunião decisiva com Churchill e Stalin em Potsdam, a 16 de Julho, precisava de saber se os EUA tinham ou não conseguido construir uma bomba atómica operacional, o que tornou imperativo que o teste fosse realizado quanto antes. Após ter sido informado dos resultados do teste, Truman confidenciou a Stalin que os EUA tinham desenvolvido uma nova arma de grande poder destrutivo, mas não forneceu detalhes sobre a sua natureza. O ultimato ao Japão saído da Conferência de Potsdam tinha um tom ameaçador, mas não fazia menção a “novas armas”. Porém, alguns dos cientistas que participaram directamente no teste Trinity estavam conscientes de que a Humanidade entrara numa nova era – o tremendo clarão da explosão evocou em Oppenheimer um verso do texto sagrado hindu Bhagavad Gita: “Agora tornei-me na Morte, o Destruidor de Mundos”.

O local do teste, após a detonação

“O brilho de mil sóis”

A encomenda a John Adams de uma ópera sobre Robert Oppenheimer partiu de Pamela Rosenberg, directora da San Francisco Opera. Adams começou a trabalhar com Alice Goodman, que fora a libretista de Nixon in China e The death of Klinghoffer, mas esta acabou por abandonar o projecto, por divergências com os termos da encomenda, pelo que o libreto acabou por ser confiado a Peter Sellars, que tinha sido o encenador de Nixon in China e The death of Klinghoffer (e voltou a ser o libretista de óperas posteriores de Adams, como A flowering tree, de 2006, e Girls of the Golden West, de 2017).

[Abertura de Doctor Atomic pela BBC Symphony Orchestra, com direcção de John Adams (Nonesuch)]

Na verdade, Sellars actuou menos como escritor do que que como “compilador”, criando o libreto a partir de fragmentos de relatórios e documentos oficiais do Projecto Manhattan (entretanto desclassificados), da carta Einstein/Szilard e de poemas de autores que Oppenheimer e a esposa tinham em apreço: John Donne, Charles Baudelaire, Muriel Rukeyser e o Bhagavad Gita. Adams terá certamente apreciado a inclusão de Donne, já que em “Negative love”, o I andamento da sua sinfonia coral Harmonium (1981), já recorrera a um soneto do poeta inglês.

[“Batter my heart”, um dos momentos-charneira de Doctor Atomic, sobre texto de John Donne. Com Gerald Finley (Oppenheimer) e a BBC Symphony Orchestra, com direcção de John Adams (Nonesuch)]

Para lá de Oppenheimer e Kitty, as personagens de Doctor Atomic incluem o general Leslie Graves, o físico Edward Teller e dois membros cruciais da equipa do teste Trinity – o físico Robert Wilson, responsável pelas medições dos efeitos da explosão, e Frank Hubbard, responsável pelos meteorologistas – e Pasqualita, a empregada doméstica dos Oppenheimer, a quem é confiado o texto de uma canção de embalar dos índios Tewa, cujas terras ancestrais são os desertos do Novo México.

[“In the north, the cloud-flower blossoms”, canção de embalar por Jennifer Johnston (Pasqualita) e a BBC Symphony Orchestra, com direcção de John Adams (Nonesuch)]

O libreto reparte-se por dois actos, o I tendo lugar um mês antes do teste, o II nas horas que antecedem o teste. Adams/Sellars exploram habilmente as tensões que pairam no ar antes da detonação: as desconfianças de Graves em relação às simpatias esquerdistas de alguns cientistas do Projecto Manhattan, a apreensão perante as previsões meteorológicas desfavoráveis, os receios dos cientistas sobre o que poderá acontecer se a bomba não explodir ou se a sua explosão for bem mais devastadora do que o previsto, a discussão sobre se se deverá lançar um aviso ao Japão antes lançar um ataque atómico e as inquietações dos cientistas sobre as consequências civilizacionais e as implicações morais deste avanço tecnológico.

[“What the hell is wrong with the weather?”, um momento em que a meteorologia parece conspirar contra a realização do teste. Por Aubrey Allicock (Leslie Groves), Gerald Finley (Oppenheimer), Marcus Farnsworth (Frank Hubbard) e a BBC Symphony Orchestra, com direcção de John Adams (Nonesuch)]

Adams recorre pontualmente à electrónica para criar uma atmosfera industrial e inquietante e cria agitação com golpes brutais de percussão e cordas e metais adstringentes. Todavia, como numa aberta entre nuvens de tempestade, a meio do I acto a atmosfera ominosa e tensa dá lugar a uma cena de amor entre Oppenheimer e Kitty, envolta em música de extraordinária beleza, serenidade e sensualidade.

[“Am I in your light?”, por Julia Bullock (Kitty Oppenheimer) e a BBC Symphony Orchestra, com direcção de John Adams (Nonesuch)]

Na III cena do II acto sobrepõem-se diferentes perspectivas: Groves planeia ver-se livre de alguns “cientistas de duvidosa discrição e incerta lealdade”, enquanto Oppenheimer está mergulhado em profundas meditações existenciais, Kitty expressa a sua inquietação e Pasqualita recorda lendas do seu povo.

[“This program has been plagued from the start”, por Aubrey Allicock (Leslie Groves) e a BBC Symphony Orchestra, com direcção de John Adams (Nonesuch)]

O acto encerra com o tremendo coro “At the sight of this”, uma espécie de Dies irae atómico sobre texto extraído do Bhagavad Gita:

“À vista disto, a tua estupenda forma 
Cheia de bocas e olhos, pés, coxas e ventres 
Terríveis são as tuas presas, oh Senhor
Todos os mundos ficam, como eu, paralisados de terror
À vista de ti, Vishnu, omnipresente,
[…] Toda a minha paz se dissipa e o meu coração inquieta-se”.

[“At the sight of this”, pelos BBC Singers e a BBC Symphony Orchestra, com direcção de John Adams (Nonesuch)]

Na IV e derradeira cena o negrume adensa-se e a tensão cresce, culminando na angustiante cavalgada mecânica de “Countdown”. Depois há um clarão com “o brilho de mil sóis” e na calma ominosa que se instala uma voz feminina japonesa suplica por água para si e para as suas crianças e pede ajuda para encontrar o marido – numa antevisão dos horrores de Hiroshima e Nagasaki.

[“Countdown”, o fecho de Doctor Atomic, pelos BBC Singers e a BBC Symphony Orchestra, com direcção de John Adams (Nonesuch)]

“Doctor Atomic” em CD e DVD

Doctor Atomic estreou a 1 de Outubro de 2005 na San Francisco Opera e teve estreia europeia na Nederlandse Opera, de Amesterdão, em 2007. Após uma nova produção em Chicago em 2007, chegou no ano seguinte à Metropolitan Opera de Nova Iorque, numa versão revista, e em 2009 à National Opera de Londres, num trajecto invulgar para uma ópera contemporânea, em que à estreia se segue frequentemente o olvido. Porém, Adams é – com toda a justiça – um dos compositores vivos de ópera mais credenciados, o que explica que a ópera seja agora contemplada com uma edição em CD, pela Nonesuch.

A edição em disco de “Doctor Atomic”

A direcção é do próprio compositor e conta com Gerald Finley como J. Robert Oppenheimer (papel que desempenhou na estreia e nas subsequentes produções da ópera), Julia Bullock (Kitty Oppenheimer), Aubrey Allicock (General Leslie Groves), Brindley Sherratt (Edward Teller), Andrew Staples (Robert Wilson), Jennifer Johnston (Pasqualita), os BBC Singers e a BBC Symphony Orchestra. A interpretação é irrepreensível e a gravação, realizada em 2017 em Londres, tem excelente qualidade sonora.

Esta é a primeira aparição de Doctor Atomic em CD, mas a ópera já fora editada por duas vezes em DVD. A primeira a surgir foi a produção de 2007 na Nederlandse Opera, com direcção de Lawrence Renes e encenação de Peter Sellars, editada em 2008 pela Opus Arte.

“Doctor Atomic” em DVD

O elenco volta a ter Gerald Finley como J. Robert Oppenheimer, na companhia de Jessica Rivera (Kitty Oppenheimer), Eric Owens (General Leslie Groves), Richard Paul Fink (Edward Teller), Thomas Glenn (Robert Wilson), Ellen Rabiner (Pasqualita), o Coro da Nederlandse Opera e a Orquestra Filarmónica Holandesa.

[“At the sight of this”, pelo Coro da Nederlandse Opera e a Orquestra Filarmónica Holandesa, com direcção de Lawrence Renes]

Em 2011 foi lançado um registo da produção de 2008 na Metropolitan Opera de Nova Iorque, com direcção de Alan Gilbert e encenação de Sellars, com Gerald Finley (J. Robert Oppenheimer), Sasha Cooke (Kitty Oppenheimer), Eric Owens (General Leslie Groves), Richard Paul Fink (Edward Teller), Thomas Glenn (Robert Wilson), Meredith Arwady (Pasqualita) e The Metropolitan Opera Chorus & Orchestra.

O DVD, editada pela a Sony Classical, obteve o Grammy Award para Melhor Gravação de Ópera

[“Am I in your light?”, por Sasha Cooke (Kitty Oppenheimer), Gerald Finley (J. Robert Oppenheimer) e The Metropolitan Opera Chorus & Orchestra, com direcção de Alan Gilbert]

Para quem não tenha disposição para escutar/ver uma ópera de 160 minutos de duração, existe a Dr. Atomic Symphony, um arranjo de trechos instrumentais da ópera realizado em 2007 por Adams e estreado nesse ano nos BBC Proms sob a direcção do compositor. Esta versão “compacta” foi gravada em 2008 pela Saint Louis Symphony, com direcção de David Robertson, e editada em CD em 2009 pela Nonesuch.

A edição com a gravação dirigida por David Robertson

Em qualquer dos formatos, Doctor Atomic é uma ópera que é indispensável conhecer, por motivos puramente musicais – Adams é um dos grandes mestres do nosso tempo – e também porque mostra como as ondas de choque do teste realizado no Novo México a 16 de Julho de 1945 continuam a propagar-se 73 anos depois e como as inquietações expressas pelos protagonistas continuam a pairar sobre as nossas cabeças.