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FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

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Domingos Soares Franco chegou à 40.ª colheita: "2020 é um ano para esquecer. Até a vindima foi feita a medo" /premium

Dos estudos nos EUA, para onde levou a samarra, à devoção pelos vinhos do "novo mundo". Domingos Soares Franco, da José Maria da Fonseca, assinala quatro décadas de carreira em plena pandemia.

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A adversidade dos tempos que correm inicia a conversa que vai durar 1h25 minutos. 2020 não está a ser fácil para ninguém, incluindo para Domingos Soares Franco: o ano em que celebra a 40.ª colheita começou com um acidente na Suíça, enquanto esquiava, e ficou marcado por uma pandemia inédita. Ao Observador, o enólogo e vice-presidente da produtora José Maria da Fonseca garante que nunca viveu uma fase assim e fala da estranheza que foi fazer uma vindima com regras acrescidas de segurança.

Domingos Soares Franco — que na verdade se apresenta como “fermentador” dado que tirou o curso de Ciências da Fermentação na Califórnia — é a sexta geração aos comandos da empresa cuja origem remonta ao século XIX. Ao fim de quatro décadas a ditar o rumo de rótulos muito conhecidos do público em geral — dos famosos Periquita e Lancers aos topos de gama chamados Coleção Privada — está gradualmente a passar a pasta a quem fica. Mas não sem antes recordar como chegou até aqui: peripécias de uma vida cheia que são partilhadas numa sala de reuniões do Centro Fernando Soares Franco, inaugurado em 2001.

Sentado do outro lado da mesa, a uma distância de segurança apropriada, Domingos Soares Franco abre o baú das memórias. Atrás dele, durante toda a conversa, está um quadro pintado por um primo que mostra a árvore genealógica da família produtora, a começar por José Maria da Fonseca.

O quadro pintado pelo primo Martin Avillez

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

“Enfim, é um ano completamente para esquecer”

Em setembro completou a 40.ª vindima. Imagino que nunca tenha assistido a uma crise destas.
Não, nunca assisti a uma pandemia/crise destas. Este ano, a vindima de 2020 foi toda feita a medo. Não temos pessoal suficiente durante a vindima para fazer dois turnos, para que possam trabalhar em espelho. O desemprego disparou mas, pelos vistos, não disparou aqui. Fizemos a vindima com a equipa que temos, com todas as medidas de segurança e mais algumas. Foi medida a temperatura a qualquer pessoa que entrasse nas instalações, fez-se um inquérito por onde é que andou…

É uma grande transformação social…
Exatamente, uma transformação social. Toda a gente de máscaras, mesmo os tratoristas. Depois arranjou-se uma casa de banho à parte para quem viesse de fora entregar uva, para ver se não havia contaminações internas. Graças a Deus a vindima passou, não houve nada cá em casa — nem aqui, nem no campo. Nós vindimamos sobretudo à máquina, mas há casos em que a máquina não consegue passar. Os topos de gama, por exemplo, são vindimados à mão — este ano, devido às condições climatéricas, acabámos por não os fazer.

Então, vindimaram de máscara?
Sim. Só quando os trabalhadores almoçavam é que tiravam a máscara — tivemos de fechar um pouco os olhos ao distanciamento social durante o almoço porque era impossível. Nós bem podíamos pô-los separados, mas era a gente voltar as costas e… lá estavam eles outra vez à conversa.

Da colheita de 2020 não se fizeram quaisquer topos de gama? 2020 está mesmo a ser um ano desafiante.
É um ano para esquecer sob todos os aspetos. Ao nível da saúde tive um desastre enorme na Suíça, enquanto esquiava, vieram para cima de mim numa prancha de snowboard e parti sete costelas, estive em hospitais lá e cá… isto em janeiro. O meu 2020 começou assim, depois foi a pandemia, a seguir foi a vindima e lá veio outra vez a pandemia. Enfim, é um ano completamente para esquecer. Mas eu não fiz topos de gama porque o ano climático foi muito atípico.

"É um ano para esquecer sob todos os aspetos. Ao nível da saúde tive um desastre enorme na Suíça, enquanto esquiava, vieram para cima de mim numa prancha de snowboard e parti sete costelas, tive em hospitais lá e cá... isto em janeiro. O meu 2020 começou assim."

Além disso há a questão financeira da pandemia…
Nós por acaso aí temos tido “sorte” porque quase conseguimos recuperar os números do ano passado.

Tiveram quebras significativas nas vendas?
Tivemos em alguns mercados, mas houve outros lá fora que dispararam. Olhando não mercado a mercado, mas à exportação e ao mercado interno… as coisas estão mais ou menos. Não nos podemos queixar. No meio disto tudo tivemos sorte.

Que mercados é que baixaram e que mercados subiram?
Baixaram mercados como a Alemanha, a França, a Bélgica, por razões óbvias, e a Angola — nunca fomos grandes em Angola e ainda bem; o país já tinha problemas e agora o mercado foi ainda mais penalizado. Também na África do Sul estávamos a vender alguma coisa. Aliás, há muitos anos que estamos lá e, agora que nos preparávamos para arrancar, eles pura e simplesmente proibiram venda de álcool em qualquer lado — lá as adegas pura e simplesmente fecharam. Mercados que não sofreram? Tudo quanto são monopólios. A Suécia disparou, a Noruega disparou, os mercados do Canadá onde existem monopólios — o país é todo ele um monopólio, mas dentro disso há vários monopólios — subiram. O Brasil subiu, tem vindo a subir bastante.

África do Sul volta a proibir venda de bebidas alcoólicas face a aumento de casos de Covid-19

O Brasil continua a ser um mercado importante para a JMF?
Neste momento é o maior mercado. A seguir vem a Suécia.

Há cerca de 100 anos houve uma crise profunda no Brasil, que era o principal mercado da JMF…
O meu avô construiu aquele mercado no início do século passado e meteu os ovos todos debaixo da mesma galinha. Chegámos a exportar 90% para o Brasil. O Getúlio Vargas faz um golpe de Estado e pára a importação de vinho. Nós ainda tentámos vender uva como uva de mesa. Mas, na altura, exportar uva de barco daqui para lá… nem imagino em que condições chegavam a fruta. Nada disso funcionou, foi uma queda grande. Mas depois com o meu tio António — aquele ali [aponta para um quadro pendurado na parede que mostra o primeiro enólogo da família, o seu tio e padrinho] —, que se formou em Montpellier, no sul de França, na zona dos rosés, faz o primeiro rosé em Portugal, o Faísca.

Como foram esses tempos?
O meu tio António fez o Faísca, vinho que se tornou muito popular na Feira Popular da altura, era [beber] o Faísca com cachorros. Mais tarde aparecem outros rosés, como o Mateus. O meu tio, com base nos seus conhecimentos, faz o Lancers. Foi o Lancers que nos fez levantar outra vez a cabeça. Tínhamos uma parceria com os americanos. Lembro-me do meu pai ao telefone às três da manhã lá em casa, a ligar para a América ou a receber telefonemas. Aquilo era aos gritos porque as ligações eram muito más. Gritava-se muito, falava-se muito alto, mas ninguém estava zangado. Antes pelo contrário, o meu pai estava radiante. “TOU? SIM”, alto e em inglês. De cada vez que tocava o telefone era mais uns quantos contentores para os Estados Unidos. Aí levantámos a cabeça: chegámos a exportar para os EUA um milhão e meio de caixas.

Em 1985, o meu irmão pensa, e bem, que os rosés à antiga atingiram o seu pico e vão começar a cair. Conseguimos convencer os americanos na altura a comprar o resto. Éramos donos de 51% destas instalações, e eles [Heublein] compraram os 51%. Nós com esse dinheiro, além de pagar as dívidas aos bancos que tínhamos por causa do 25 de abril, fomos comprar terrenos aqui na região, começámos a plantar vinhas e em 1996 os americanos batem à porta, querem vende-nos isto [recompra na totalidade por parte da JMF].

Domingos Soares Franco posa diante de dois retratos: à esquerda está o pai, Fernando Soares Franco, e o tio, António Soares Franco

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

“Ao princípio pensei que ia de férias. De repente realizei que ia sem volta e aí começou a dar-me um… boom!”

Como foi chegar à Califórnia para depois estudar em Davis?
Eu sempre quis enologia e viticultura. Quando era miúdo não se chamava assim, mas sempre quis alguma coisa relacionada com vinhos e com vinhas, a minha família sempre esteve condicionada por isso.

Foi influência da família?
Nada de pressões, nada. Mas as conversas em casa sempre foram à volta do vinho e das vinhas. Quando era miúdo achei piada e depois fui sempre enveredando por esses caminhos. Lembro-me, a certa altura, que os meus pais mandaram-me fazer um teste psicotécnico para ver o que é que eu deveria estudar: deu agricultura e arquitetura. Coisas parecidas, não é? Disse que arquitetura nunca, não queria trabalhar dentro de casa, mas sim na rua. Enveredei pelo lado agrícola. Acabei o liceu em Setúbal em 1974 já com aquelas peripécias todas do 25 de abril. Depois quis prosseguir vinhos, enologia e viticultura. Só se estudava isso em França e na Alemanha. Eu não falava alemão mas, se tivesse de falar, ia aprender. Mas fomos os dois a França, eu e o meu pai. Fizemos Montpellier, Bordéus e Dijon. As três faculdades obrigavam-me a andar dois anos para trás, dois anos de liceu por causa do francês. Não estava para aí voltado, ia atrasar-me os planos de vida em dois anos.

Não tentou estudar em Portugal?
Ainda tentei entrar para Agronomia em Lisboa, mas fui rejeitado. Não me deixaram entrar, nem sequer entregar os papéis porque o meu pai era quem era — era um dono de empresa, a minha entrada foi logo barrada. Isto em 1975. Fiquei sem saber para onde é que ia: não havia Espanha, nem Itália. Um dia, lá em casa dos meus pais, estávamos a jantar com um norte-americano que trabalhava para a empresa que era nossa sócia [a propósito do Lancers]. A meio do jantar ele pergunta-me: “Então e tu Domingos, o que vais fazer?”. Respondi que não sabia, mas que queria estudar enologia e viticultura e que não conseguia fazê-lo na Europa. Ele olha para mim e diz-me assim: “Tens um sítio extraordinário… Califórnia, Davis, a melhor faculdade no mundo. Se quiseres estou ao teu dispor para o que for necessário”. Lembro-me que os meus pais fixaram os olhos em mim à espera da minha resposta. Pensei ali durante um minuto, voltei-me para o americano e disse: “Quando é que eu lá posso estar?”. Isto foi em agosto de 1975 e em outubro já lá estava.

Os meus pais também queriam ver-me a mim e ao meu irmão daqui para fora (o meu irmão já era casado), queriam ser eles a fechar a luz do aeroporto. Queriam que refizéssemos a nossa vida lá fora. Deram-nos um livrinho pequeno — ainda o tenho lá em casa — com os nomes, as moradas e os números de telefone dos grandes amigos do meu pai espalhados por este mundo. O meu pai entregou um a mim e ao meu irmão e disse-nos: “Se nos perdermos, daqui para a frente isto é o nosso elo de ligação”. Levei isso e tirei fotografias a Camarate [onde vivia] porque na altura eu ia de vez…

"No dia em que soube que não entrei em David entrei em parafuso. Fui para a rua gritar, berrar e chorar. Estavam 40 graus negativos na rua. Ligo para o meu irmão e digo-lhe que no dia a seguir regresso a Portugal, que não estava ali a fazer nada. Ele pede-me para ter calma e vai ao colégio ter comigo mesmo debaixo de um nevão monstro." 

Não havia data para voltar?
Nada, zero. Fiz a mala e meti tudo dentro de um baú. O baú foi de barco, levei a mala comigo, levei botas à Alentejana e uma samarra. Lembro-me perfeitamente.

O uso da samarra deu-lhe uma alcunha…
Foi “Fox” [“raposa” em inglês], mas isso mais tarde… Cheguei aos EUA, a Nova Iorque, e tinha lá um americano à minha espera que me levou para casa do outro americano [amigo dos pais] no Connecticut. Ao princípio pensei que ia de férias. De repente realizei que ia sem volta e aí começou a dar-me um… boom! Comecei a ir-me abaixo.

Estava completamente sozinho?
Sim, completamente. Só conhecia esse americano, a mulher e o filho adotado que era mais ou menos da mesma idade [18 anos]. Fui para casa do americano. Ao lado dele havia um colégio muito bom onde o filho estava a estudar e ele meteu-me lá (as aulas tinham começado há meses). Ia passar os fins de semana a casa dos americanos e durante a semana estava no colégio — quando o meu irmão lá chega passo a ir a casa dele aos fins de semana.

Estava a viver no campo, o colégio era no meio de uma floresta linda e o meu irmão vivia na cidade. Não estava habituado ao frio de lá, aos 5 e aos 10 graus negativos, e opto por usar as minhas botas caneleiras, a samarra e o boné, como se estivesse no Alentejo. A malta toda olhava para mim. A vida continuou. Entrei nos EUA com o visto de turista e saí daqui com autorização militar. Nem me lembrei que o visto de turista era de três meses: aos três meses e um dia após ter chegado batem-me à porta, era a imigração. Pedi que não me mandassem para Portugal porque aí era preso. Foram extraordinários para comigo: “Amanhã mete-se no autocarro, vai a Nova Iorque aos Serviços de imigração”. Fui e fui parar à 5ª Avenida… na altura tive de ficar num hotel e paguei 100 dólares para dormir, uma fortuna! Mas acabou por ficar tudo resolvido.

Como é que se passa daí para a Universidade da Califórnia em Davis?
Chega a abril do ano seguinte e inscrevo-me para Davis. Davis pede-me para traduzir as notas portuguesas para o sistema norte-americano. Faço uma regra 3 simples. Aqui tinha acabado o liceu com 12 ou com 13 e a regras 3 simples, não me apercebi, deu 9. Ou seja, fui riscado, não consegui entrar. No dia em que soube disso entrei em parafuso. Fui para a rua gritar, berrar e chorar. Estavam 40 graus negativos na rua. Ligo para o meu irmão e digo-lhe que no dia a seguir regresso a Portugal, que não estava ali a fazer nada. Ele pede-me para ter calma e vai ao colégio ter comigo mesmo debaixo de um nevão monstro. Lá me acalmei… No dia seguinte, o meu professor e advisor [“conselheiro”] diz que vai tentar pôr-me noutra faculdade da Califórnia que não é de vinhos — uma faculdade bem mais pequena e que ainda tem as inscrições abertas. Aceitam-me porque aí já dou as notas corretas. Fui para lá, para a Califórnia. Entretanto, o meu irmão foi-se embora para Portugal. Estive lá dois anos.

Na altura faziam-se festas e bebiam-se Cocas-colas... Lembro-me perfeitamente de odiar as bebidas deles. Depois descobriram que eu tinha idade [para comprar álcool] e passei a ir, pelo meio da floresta, ao lado oposto da faculdade onde havia uma loja de vinhos. Era o único que podia comprar. [Além disso] não tinha nada para fazer, então, estudava Física, Química e Matemática aos fins de semana. Tumba, tumba, tumba! Entrei no quadro de honra da faculdade onde estive dois anos. Depois inscrevi-me para Davis e fui logo aceite. Em 1977 entrei e acabei o curso em 1980. Quando fui para Davis já tinha todas as matemáticas e químicas feitas, tudo o que eram cadeiras obrigatórias.

Foi a chegada a Davis que o fez mergulhar outra vez no mundo dos vinhos?
Sim, foi aí.

Onde é que estava no Julgamento de Paris, em 1976 [prova cega em que os vinhos californianos sagraram-se vencedores face aos franceses; a história é contada no filme “Duelo de Castas”?
Estava lá, nos EUA. Na altura foi muito polémico. Lembro-me que os franceses entraram em guerra com os americanos de tal maneira que havia um francês que quis entrar em viticultura e enologia em Davis e não conseguiu, eles pura e simplesmente barraram-no.

Na sequência dessa prova cega?
Sim. O francês desgraçado… Eu acabei o curso e passei a ir lá anualmente a um congresso que eles organizam e, três ou quatro anos depois de ter terminado os estudos, encontrei o francês que só agora é que estava a acabar o curso. [risos] Os franceses ao entrarem em guerra direta fizeram subir o preço dos vinhos californianos, a qualidade também.

Na faculdade onde esteve dois anos que curso é que tirou?
Um curso qualquer que se arranjou para eu poder estudar durante dois anos. A faculdade era sobretudo de gestão — era onde na altura Stanford ia buscar alunos para as pós-graduações. Era um curso mais para o lado das matemáticas, das físicas e das químicas do que para gestão. Nunca gostei de gestão.

Domingos Soares Franco é a sexta geração da família à frente da José Maria da Fonseca

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“Agarrei-me muito aos EUA, agarrei-me muito à inovação”

Como é que estudar nos Estados Unidos moldou a forma como vê os vinhos? O Domingos diz que é “novo-mundista”… [de “novo mundo”, expressão referente a países como Austrália, Nova Zelândia e África do Sul]
Eu mudei tanto, tanto, na Califórnia a minha maneira de ser que houve um dia cá em casa — a certa altura, enquanto estudava, passei a vir cá todos os verões — que os meus pais disseram-me: “Dentro de casa tiras o chapéu, à mesa comes com o garfo e com a faca, na sala metes os pés no chão”. Para ver o que eu mudei! Agarrei-me muito aos EUA, agarrei-me muito à inovação. Na altura, na Europa não havia inovação nenhuma, nem ao nível da tecnologia, nem na maneira de pensar: o antigo é que era bom. Nos EUA o consumidor quer isto é isto que vamos fazer. É uma maneira de pensar completamente diferente. Na altura é que se começou a descobrir a tecnologia de ponta… tudo isso fez com que me tornasse “novo-mundista”. Eu visitava França e o vinho era impecável, mas era mais do mesmo, uma mão cheia de nada.

O que é que significa ser-se apologista do “novo mundo” nos vinhos?
É pensar naquilo que conseguimos fazer, mostrar aquilo que valemos e conseguir atingir o consumidor tendo em conta o palato dele na altura e tentar provocar a onda da moda…

Cavalgar um pouco as tendências?
Exatamente. Na altura as novas modas nasciam na Califórnia e na Austrália. Foi isso que fui buscar. Lembro-me do primeiro vinho branco que fiz cá, era um vinho muito aromático. Lançámos e tivemos de recolher tudo: as pessoas pensavam que eu tinha usado extrato de banana porque cheirava tanto, tanto, a banana. Não usei nada, simplesmente apliquei os meus conhecimentos e consegui um vinho altamente frutado. Depois tivemos de recolher para aí 5 mil garrafas porque não se conseguia vender.

Como enólogo responsável pelos vinhos da JMF, que produz em diferentes regiões do país, os vinhos que daqui saem são também na ótica do “novo mundo”? A casa tem muitos anos de história, qual é o equilíbrio que se faz?
O meu pai sempre me disse e sempre me ensinou a olhar em frente, a inovar e a nunca esquecer as raízes. A manter a tradição naquilo que se puder manter.

Considerando as marcas da JMF, o que é tradicional e o que é “novo mundo”?
Estamos a falar, por exemplo, de Periquita (tradição)… Inovação pode ser um Coleção Privada, um Hexagon, um J… os topos de gama.

O Domingos conta que quando chegou a Portugal era considerado uma espécie de “traidor da pátria” por ter estudado precisamente nos Estados Unidos…
Exatamente. Fui o primeiro enólogo português a estudar nos EUA. A seguir a mim começaram a entrar para lá vários portugueses, eu nunca apanhei nenhum.

Qual foi o maior choque que sentiu ao regressar a Portugal?
Ui! Era aplicar cá o que aprendi lá. Não havia dinheiro, ainda não tínhamos entrado na União Europeia. A maquinaria ainda não existia em Portugal. Lembro-me da primeira prensa pneumática que trouxe — coisa que hoje em dia toda a gente tem. Fui à Alemanha a uma feira, comprei a prensa e trouxe-a. Quando aquilo cá chegou perguntaram-me: “O que é isto?”. O resultado foi excecional. Depois comprei uma segunda prensa e os alemães perguntaram se eu queria ser o importador/distribuidor em Portugal… Respondi que fazia vinhos.

Como é que foi recebido pelos pares?
Demorou tempo. Eu tinha tudo mais ou menos escalonado na minha cabeça. Lembro-me de o meu irmão me perguntar, quando cheguei em 1980, “Quando é que consegues fazer um grande vinho?”. Disse que precisava de uns 20 anos e foi mesmo daí a 20 anos.

Daí a 20 anos nasce que vinho?
Foi em 2000, foi o Hexagon. Venho da América e começo a olhar à volta em duas vertentes: viticultura e enologia. Em viticultura comecei a provar os vinhos das várias vinhas que tínhamos e comecei a arrancar algumas, havia castas que o meu pai tinha plantado que não interessavam nada (como Riesling, Merlot, Pinot Noir…). Arrancámos isso tudo e começámos a plantar castas novas. Foi um trabalho muito moroso e de experimentação. Escolhi deixar envelhecer durante 12 anos as vinhas de determinadas castas; acima de uma certa categoria, não faço vinhos com vinhas com menos de 12 anos para que a uva tenha a qualidade mínima.

"O centro devia ser mais fácil de se trabalhar e não tão grande — é grande demais, tem um hectare. Foi onde nós gastámos 90% do dinheiro em tecnologia, na altura tudo o que existia no mundo estava ali, de tal maneira que tivemos duas visitas de Bruxelas por causa do dinheiro. Os tipos que vieram cá ver não acreditavam que eu não andasse de helicóptero e que o meu irmão não andasse de jato. Como é que se gasta 13 milhões de dólares americanos numa adega?" 

Já veio para cá com projetos a médio e a longo prazo?
Sempre a longo prazo! Não médio. Os professores incutiram a palavra paciência na minha cabeça e é isso que tenho tido durante a minha vida toda para ter a certeza que as coisas correm bem. Mais tarde começámos a trabalhar com clones em parceria com o professor Antero Martins do ISA. Em 1983-1984 comecei a construir a minha equipa de enologia.. ainda tenho as mesmas pessoas. Uns saíram, outros entraram, mas os dois principais mantém-se. Chegámos a ser cinco enólogos e hoje em dia somos quatro.

Distribuem-se pelas diferentes regiões do país?
Cada um é responsável por uma certa região e, aqui no centro de vinificação [Centro Fernando Soares Franco], cada um é responsável por castas tanto para o BSE [entrada de gama] como para os Coleção Privada [topo de gama]. Ou seja, cada um tem de pensar pequeno e tem de pensar grande; tem de pensar na gama que vai ser entregue ao consumidor do dia a dia…[e nos topos de gama].

Qual é o vinho que tem maior produção e menor produção daqui na José Maria da Fonseca?
O vinho com mais produção, nos tintos, é o Periquita e o Periquita Reserva. Estamos a falar talvez à volta de 4 milhões de litros. Os de menor produção são os Coleção Privada que, no fundo, são quase vinhos de garagem. Às vezes chegam aos 1.000.

Hoje em dia tenho tanta confiança na equipa de enologia que já estou a começar a passar a pasta. Atualmente intervenho muito pouco em enologia. Tenho um problema de fígado, há dois anos o médico disse-me para parar de beber temporariamente, eu parei. Só em último caso é que sou chamado para a sala de provas e se tenho de meter o vinho à boca… lavo, lavo, lavo para ter a certeza que não me entra nada, mas isso é temporário. Tenho absoluta confiança neles.

“Às vezes faço as coisas antes do seu tempo”

É uma pergunta cliché, mas importante: em 40 anos de carreira, o que é que faria de diferente?
De diferente fazia o centro de vinificação: tem erros, há 20 anos não tinha. Assim que acabou a construção comecei logo a detetar erros…

O teste psicotécnico apontava para arquitetura…
[risos] Se calhar devia ter ido para arquiteto. Mas o centro devia ser mais fácil de se trabalhar e não tão grande — é grande demais, tem um hectare. Foi onde nós gastámos 90% do dinheiro em tecnologia, na altura tudo o que existia no mundo estava ali, de tal maneira que tivemos duas visitas de Bruxelas por causa do dinheiro. Os tipos que vieram cá ver não acreditavam que eu não andasse de helicóptero e que o meu irmão não andasse de jato. Como é que se gasta 13 milhões de dólares americanos numa adega? Bem, perceberam quando cá chegaram. Não há luxos, a adega não tem paredes de lado, tem um telhado… mais nada. Gastámos tudo em novas tecnologias: do que nós pedimos, 90% foi aplicado em nova tecnologia e o resto no telhado, nas infraestruturas.

O que é que lhe deu mais gozo fazer ao longo destes 40 anos?
Os topos de gama… Isto é como um chef de cozinha que sabe o que quer: tem de ir à praça escolher os ingredientes. Aqui é a mesma coisa. Tenho na minha cabeça o que quero e depois tenho de escolher como lá chego.

E isso passa por experimentação?
Muita experimentação, passa por muita prática. Foi daí que nasceram os Coleção Privada, para mostrar ao consumidor o que se conseguia fazer na altura só com monocastas, o que cada casta dava aqui na região — os vinhos são monocastas e não são, ou seja, são lotes de terrenos diferentes. Vamos lançar agora, por exemplo, um Malbec, a vinha já tem mais de 12 anos. Era para ter sido lançado há dois ou três anos, mas achei que ainda era cedo. Vamos lançar um Cabernet Sauvignon de duas vinhas no extremo da serra… vamos lançar um Riesling, a uva não é daqui, é de lá de cima, do planalto transmontano, de uma vinha do nosso diretor de enologia (andava há anos atrás dela). Um que vinho me deu muito gozo, e que na altura o mercado não percebeu o conceito, foi o Alambre Ice. Às vezes faço as coisas antes do seu tempo. Atualmente temos até vinho sem álcool, é um nicho de mercado que está cada vez maior.

"Hoje em dia já tenho pouca intervenção. Venho às reuniões: entro mudo e saio calado, como o meu pai fazia. O meu pai disse que na altura em que ainda temos a cabecinha fresca é quando começamos a sair."

Como é que foi crescer numa família há tanto tempo dedicada ao vinho? Como é que é trabalhar com a família?
É facílimo trabalhar com a família. O meu irmão começou no final dos anos 1970 a trabalhar cá em casa. Eu juntei-me em 1980. Quando o meu pai fez 65 anos disse-nos: “Amanhã reformo-me. Venho às reuniões, estou calado, mas reformo-me. Agora, são vocês os dois a levar isto para a frente”. O meu irmão na parte dos números e eu na produção. Discutimos, mas discussões boas, sempre a pensar na empresa, sempre nos demos muito bem. Agora, entra a sétima geração. Já comecei há mais tempo a passar a pasta na parte de enologia, estou a entregá-la ao meu filho que já está cá a trabalhar connosco há uns anos (também trabalha cá o meu sobrinho, com que me dou lindamente, e a minha sobrinha Sofia). Não foi tão fácil, mas não é difícil, mas agora estamos a falar de uma geração diferente, de uma maneira de pensar diferente. Tive que me readaptar à maneira de pensar deles, mas eles tiveram de vir beber algo a mim… Está-se a tornar bastante fácil, de tal maneira que hoje em dia já tenho pouca intervenção. Venho às reuniões: entro mudo e saio calado, como o meu pai fazia. O meu pai disse que na altura em que ainda temos a cabecinha fresca é quando começamos a sair.

Já li que o seu irmão fazia o dinheiro e que o Domingos o gastava…
[risos] Ele ficava doido comigo, doido. Houve um dia que disse isso na televisão… passou-se! “Então é verdade, é alguma mentira? Tu ganhavas o dinheiro e eu ia a seguir para uma feira gastá-lo” [chegou a dizê-lo ao irmão]. Isto era na altura em que havia dinheiro “fácil” por causa da União Europeia, por causa da CEE.

Provou vinho desde cedo?
Sim, desde cedo.

Lembra-se do primeiro vinho que provou?
Moscatel.

Tinha que idade?
Que idade tinha? Já andava. [risos]

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