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Nuno Veiga/ Lusa

Nuno Veiga/ Lusa

Doping, rivalidades e ajudas do público: as histórias da subida à Senhora da Graça

É a etapa mais famosa da Volta a Portugal. Bruno Vieira do Amaral conta as histórias de quem subiu ao Monte Farinha: as rivalidades, o doping e as ajudas do público.

Com 947 metros, o Monte Farinha, no sopé do qual se situa a vila de Mondim de Basto, é, desde tempos imemoriais, lugar de devoção religiosa. Lá no cimo, fica a Capela de Nossa Senhora da Graça, erigida no século XVIII, no lugar onde teriam existido pelos menos três construções anteriores que o tempo arruinou. Ao longo do ano, são várias as peregrinações ao chamado Alto da Senhora da Graça, a última das quais se realiza no primeiro domingo do mês de Setembro e é de todas a mais concorrida. Ao contrário da popular romaria de São Tiago, no final de Julho, esta é uma tradição recente, tendo sido realizada pela primeira vez em 1945 por iniciativa da juventude de Mondim de Basto em agradecimento pelo final da II Guerra Mundial. Quando bem gizadas, as celebrações arreigam-se nos hábitos do povo e, quando nelas se pensa, parece que existem desde sempre.

É o que acontece com a peregrinação laica ao Alto da Senhora da Graça no mês de Agosto, quando por lá passa a caravana da Volta a Portugal em bicicleta. Para quem acompanha o ciclismo, a subida ao Monte Farinha é indissociável da própria Volta. Na sua tese de doutoramento – Volta a Portugal em Bicicleta – Narrativas, Territórios e Identidades – Ana Santos, professora da Faculdade de Motricidade Humana, escreve que a “Volta tornou os lugares que visitou, os lugares por onde repetidamente passou, em lugares da Volta.” Mas se a Volta se apropriou da Senhora da Graça, é justo dizer-se que a Senhora da Graça dá outra graça à Volta. Mesmo sem bicicletas, o Monte Farinha há-de permanecer onde está, à espera dos fiéis peregrinos, dos fanáticos da natureza e dos amantes das caminhadas. Já para os aficionados do ciclismo, que ainda os há, uma Volta sem a Senhora da Graça é uma Volta amputada, rainha sem coroa, coroa sem jóia.

Contudo, a história da Senhora da Graça na Volta só se começou a escrever em 1978. Foi nesse ano que o pelotão experimentou pela primeira vez as dores de uma subida que chega a ter, em certos troços, 10,5% de inclinação. Se a Volta é o nosso “tourzinho”, como lhe chamava Neves de Sousa, a Senhora da Graça é o nosso Alpe d’Huez dos pequeninos: “Está ao nível das subidas de primeira categoria de uma Volta à França ou de uma Volta à Espanha. Só que tem a particularidade de ser uma subida muito bonita. Quando os ciclistas andam ali à volta já estão com os olhos nela, já a estão a ver muito antes de lá chegarem”, diz Marco Chagas, recordista português de triunfos na Volta e um dos cinco homens a ter chegado por duas vezes em primeiro à Senhora da Graça. No ano de estreia, o triunfo foi para João Costa, da Campinense, que dessa forma se tornou o primeiro homem a vencer a etapa da Senhora da Graça na Volta a Portugal.

“Está ao nível das subidas de primeira categoria de uma Volta à França ou de uma Volta à Espanha. Só que tem a particularidade de ser uma subida muito bonita. Quando os ciclistas andam ali à volta já estão com os olhos nela, já a estão a ver muito antes de lá chegarem”
Marco Chagas

O jornalista Neves de Sousa, que acompanhava a Volta para o Diário de Lisboa, descrevia assim a primeira vez num lugar que haveria de se tornar mítico: “Veio, então, a fantasmagórica ascensão para Mondim de Basto, inédita em «Voltas a Portugal». Um espectáculo de gelar os nervos mais descontraídos, como se tivesse sido possível, do pé para a mão, mudar a serra da Estrela (mais as Penhas e a Torre) e colocar tudo ali, entre nuvens e verduras, rochedos a pique e mais de vinte mil pessoas que em excursões organizadas alinhavam montanha acima dispostas a (como de costume) empurrar os seus admirados, desvirtuando a verdade da corrida e, também, criando falsos mitos e indesmentíveis à correcção desportiva.”

Embora se falasse de doping à boca pequena, a ajuda que todos criticavam era a do público aos seus ciclistas preferidos, com os célebres empurrões que “levavam ao colo” alguns atletas. Ao jornal A Bola, Adelino Teixeira, da equipa da Lousa, dava conta da sua revolta: “É de mais. Isto é atraiçoar a verdade da prova. Os ciclistas da Coelima foram levados ao colo pelo monte acima. Eu vinha na frente com o Firmino [Bernardino], estou convencido de que nos íamos isolar, mas eles foram ajudados pelos empurrões até à nossa roda.” Firmino Bernardino também estava indignado: “O Luís Teixeira veio na minha roda à custa de empurrões. Isto assim não tem piada nenhuma.”

Ainda tinha menos se se pensasse no esforço a que os ciclistas eram obrigados e que transparece da prosa de Neves de Sousa: “Foi de semear nos olhos imagens de agrura, de dor, de convulsivo choro, essa amálgama, envolto em brio e sacrifício, foi escrita pelos 25 sobreviventes. Houve quem precisasse de oxigénio (João Costa), quem terminasse aos arrancos (Luís Gregório), quem flutuasse numa poça de água (Luís Coelho). E, também, quem se arrastasse (desiludido, triste, quase anónimo) até ao seu carro de apoio e, estiraçado, peito arfando, para ali ficar uma boa meia hora, sem ânimo sequer para abrir os olhos, mas sorvendo o ar da montanha a plenos pulmões.”

Em 1979, Firmino Bernardino esteve novamente entre os primeiros na subida para a Senhora da Graça, mas nesse ano foi Marco Chagas a inscrever o seu nome no rol de vencedores da mítica etapa e da Volta, acabando no entanto por ser desclassificado por doping: “O piso era mau, áspero. Eu fui subindo e um colega meu [da equipa Lousa], o Firmino Bernardino, destacou-se, eu fiquei a controlar os adversários, mas ainda o fui apanhar.”

“Foi de semear nos olhos imagens de agrura, de dor, de convulsivo choro, essa amálgama, envolto em brio e sacrifício, foi escrita pelos 25 sobreviventes. Houve quem precisasse de oxigénio (João Costa), quem terminasse aos arrancos (Luís Gregório), quem flutuasse numa poça de água (Luís Coelho). E, também, quem se arrastasse (desiludido, triste, quase anónimo) até ao seu carro de apoio e, estiraçado, peito arfando, para ali ficar uma boa meia hora, sem ânimo sequer para abrir os olhos, mas sorvendo o ar da montanha a plenos pulmões.”
Excerto de uma reportagem do jornalista Neves de Sousa

Seis anos depois, com duas Voltas limpinhas já no bolso, o ciclista de Pontével ganhou pela segunda vez na Senhora da Graça: “Em 1985 estava a disputar a Volta com o Venceslau e estava a subir com ele e só consegui ganhar vantagem já quase no fim, nos últimos 300 metros, que são muito difíceis, aquilo parece que nunca mais acaba [ganhou uma vantagem de dois segundos a Venceslau Fernandes]. Não foi como na primeira subida em que fui à aventura, sem saber quando ia rebentar.”

Também essa etapa ficou marcada pelas ajudas do público, como relatava Neves de Sousa: “Excursões organizadas para o empurrão descarado e vergonhoso aos artistas da sua simpatia e, a par o antagónico safanão mal intencionado a atletas de outro símbolo pejaram a encosta, defraudando, totalmente, qualquer espelho desportivo de uma competição que se desejava sã e, moralmente, impecável.” N’A Bola, Vítor Serpa, sarcástico, falava do público em que alguns “tentavam recuperar o ritmo cardíaco. É que custa muito subir uma serra a empurrar ciclistas.” Aparentemente, segundo A Bola, o velho “Lau” teria sido o mais beneficiado. Marco Chagas confirma: “Foi uma tragédia, com muito empurrão. Por isso é que lhe disse que só consegui livrar-me dele já nos últimos metros.”

O ano seguinte marcou a estreia de um dos últimos heróis genuinamente populares do ciclismo português e também da Senhora da Graça, Joaquim Gomes. O actual director da Volta a Portugal recorda esse momento: “Era o meu primeiro ano como profissional, no Sporting Laranjina C e tinha como colega o Marco Chagas, que era o chefe de fila. Eu tinha 20 anos, portanto pode imaginar o que era para mim subir à Senhora da Graça, que já tinha adquirido aquele misticismo. Um bom desempenho lá era importante para ganhar a Volta.” Prova disso é que Marco Chagas chegou em segundo lugar, à frente dos seus adversários directos, e acabaria por conquistar a sua 4ª Volta a Portugal. Recorde que só seria batido pelo espanhol David Blanco em 2012.

Aparentemente, segundo A Bola, o velho “Lau” teria sido o mais beneficiado. Marco Chagas confirma: “Foi uma tragédia, com muito empurrão. Por isso é que lhe disse que só consegui livrar-me dele já nos últimos metros.”

Mais mítica a cada ano que passava, a Senhora da Graça continuava a ser forja de mitos e palco de rivalidades titânicas, como a de Joaquim Gomes e do brasileiro Cássio Freitas. Os dois, em disputa pela vitória na Volta de 89, vigiaram-se na etapa da Senhora da Graça: “Pela encosta acima, ora agora és tu, ora agora sou eu, Gomes e Cássio travam um dos mais apaixonantes duelos que já vimos em muitas etapas com términus nesta serrania”, garantia Neves de Sousa. Joaquim Gomes lembra que o “adversário era na altura um completo desconhecido para o pelotão e veio a revelar-se um dos melhores corredores estrangeiros que passou por Portugal.” (Cássio Freitas haveria de ganhar a Volta em 1992, ao serviço da Recer Boavista). A 51ª edição da prova foi também a última disputada em três semanas, duração idêntica à das maiores provas do calendário velocipédico internacional, como o Tour, a Vuelta e o Giro: “Digo-lhe que uma prova que se disputava em 21 dias e com temperaturas médias de 35 graus era bem mais exigente que o Tour com temperaturas mais amenas. Normalmente, a Senhora da Graça era já nos últimos dias e chegávamos lá todos física e animicamente de rastos”, sublinha o antigo ciclista antes de voltar às memórias do embate com Cássio: “Fiquei sozinho com ele, olhava para a cara dele e via-o com uma aparente facilidade e ia fazer aquele que seria o último ataque. Estava com algum receio porque o via tão bem mas ele já não me conseguiu acompanhar.” Quem aproveitou o despique luso-brasileiro foi o espanhol Santiago Portillo que assim se tornou o primeiro ciclista estrangeiro a vencer ali: “Portillo corta a meta e quase abafa com a falta de ar. Viriato aparece depois e fica-se, de olhos quase vítreos, siderado; despejam-lhe água sobre a cabeça, avia duas garrafas inteirinhas e só depois solta o primeiro suspiro”, contava Neves de Sousa.

A Volta, com as ambições dos ciclistas e a tensão acumulada de muitos dias de esforço, por vezes quase pegava fogo. Na véspera da etapa, outro dos candidatos à vitória final, Fernando Carvalho, que se sentia prejudicado por uma penalização de 30 segundos na subida da Serra da Estrela, ameaçou: “Basta falar com um «gang» de pessoas e dou cabo da corrida.” Ninguém deu cabo da corrida, mas Joaquim Gomes deu cabo dos adversários conquistando uma vantagem suficiente para arrebatar a camisola amarela a Cássio Freitas, a primeira vez que vestiu o símbolo da liderança na Volta. Não venceu, mas chegou lá acima como vencedor, com os pais à espera: “Eu sabia: o meu rico menino ia dar-me esta alegria!”, dizia emocionada a mãe do ciclista da Sicasal.

As ajudas do público, garante Gomes, já não eram como noutros tempos: “Nessa altura já não havia muito isso dos empurrões porque houve mudanças procedimentais e os ciclistas arriscavam-se a penalizações pecuniárias e desportivas. Não digo que não ocorressem, mas era mais com os ciclistas que vinham mais atrasados, não com os protagonistas.” E os protagonistas em 1990 foram o próprio Joaquim Gomes e Fernando Carvalho, que travaram um duelo épico que mereceu o seguinte título n’A Bola: “O Nicolau e o Trindade dos novos tempos continuam numa de intensa rivalidade”, relembrando os confrontos entre o benfiquista e o sportinguista nos anos 30, que ajudaram a popularizar os emblemas em todo o país. Mesmo com as regras mais apertadas, Gomes recorda que, na subida para a Senhora da Graça, “houve um adepto do Fernando Carvalho que vinha ao meu lado, parecia que me estava a ajudar e afinal estava a puxar-me para trás.” Para o afastar, o ciclista de Carnide deu-lhe uma cotovelada.

Na véspera da etapa, outro dos candidatos à vitória final, Fernando Carvalho, que se sentia prejudicado por uma penalização de 30 segundos na subida da Serra da Estrela, ameaçou: “Basta falar com um «gang» de pessoas e dou cabo da corrida.”

Foi um ano em que os incêndios transformaram a paisagem do Alvão em cinzas: “Uma romaria emocional subiu ontem um monte de cinzas em Mondim de Basto, uma sepultura da natureza verde reduzida pelo fogo à dimensão do Holocausto, das árvores e do chão resta o carvão denegrido em que somos forçados a viver e a competir”, escrevia Alves da Costa. Marco Chagas lembra-se das primeiras visitas à Senhora da Graça, quando “ainda não tinha havido incêndios, a subida toda estava rodeada de árvores”. Não foi assim naquele ano, curiosamente o último de Chagas como ciclista profissional: “Pois claro, isto é como tudo. Temos de saber retirar-nos a tempo antes que nos atirem fora pela porta do quintal. Só que, neste meu último ano como ciclista (e garanto que esse é o meu propósito mais firme) não darei espectáculo de falência ou de abdicação. Quero sair como entrei no ciclismo: de cabeça erguida e sempre respeitado, até pelos que nunca me aplaudiram com verdade”, declarava ao Diário de Lisboa.

E assim foi. Enquanto as atenções se centravam no duelo Gomes e Carvalho, o velhinho Marco Chagas, de 33 anos, chegava em 3º. Ao jornal A Bola falava em jeito de balanço e perspectivava o futuro: “Eu marquei uma época no ciclismo deste país e quem disser o contrário, é porque está a dizer mentiras. Entendo ser a hora de me dedicar aos meus, para deixar de ser um escravo da bicicleta. […] Não recebi ainda quaisquer convites para treinar ninguém, por coincidência o único convite que me dirigiram foi para integrar a Comunicação Social… e comentar ciclismo.” 27 anos depois, é como comentador que Marco Chagas continua a distinguir-se.

Dessa vez, Joaquim Gomes chegou em primeiro ao alto, mas tendo fraquejado nos metros finais não ganhou o tempo suficiente a Fernando Carvalho para ficar à vontade para o que faltava da prova. A Volta terminou com um contra-relógio na Maia e Carvalho, que corria pela Ruquita Feirense, venceu a etapa final e a Volta. Não foi caso único em que o conquistador da Senhora da Graça acabou por não ganhar a Volta. Aliás, só por cinco vezes quem ganhou a etapa levou a camisola amarela no final (Marco Chagas, 1985, Jorge Silva, 1991, Massimiliano Lelli, 1996, Zenon Jaskula, 1997, David Blanco, 2010).

“Eu era um trepador fabuloso, quer dizer, cada ciclista tem as suas características e a minha era de ser um excelente trepador e isso mexe com o público, chega-se ao coração do povo, que se alegra com as nossas vitórias e sofre com os nossos desaires. Veja, eu comecei num tempo em que já estavam a acabar as equipas de clube e a começar o investimento das grandes marcas. Chegar ao coração das pessoas assim é uma magia do ciclismo e claro que a Senhora da Graça teve importância”
Joaquim Gomes

Quando perguntamos a Marco Chagas se será ele o ciclista que os adeptos mais associam à Senhora da Graça, diz que “é possível”. “Houve também outros, o Joaquim Gomes, o Quintino Rodrigues, que acho que ganhou lá duas vezes [Quintino, João Cabreira, Carlos Moreira e Jose Luis Rebollo, além de Chagas, foram os únicos a ganhar por duas vezes na Senhora da Graça]. Por exemplo, as pessoas não me associam à Torre porque eu fiz treze voltas e em nenhuma houve uma chegada à Torre. Com a Senhora da Graça é diferente, faz parte da minha vida e também fará parte da vida das pessoas.”

Joaquim Gomes, desde os primeiros anos de carreiro um ídolo das multidões, também atribui uma parte da sua popularidade aos desempenhos na Senhora da Graça: “Eu era um trepador fabuloso, quer dizer, cada ciclista tem as suas características e a minha era de ser um excelente trepador e isso mexe com o público, chega-se ao coração do povo, que se alegra com as nossas vitórias e sofre com os nossos desaires. Veja, eu comecei num tempo em que já estavam a acabar as equipas de clube e a começar o investimento das grandes marcas. Chegar ao coração das pessoas assim é uma magia do ciclismo e claro que a Senhora da Graça teve importância”.

A Senhora da Graça tem qualquer coisa que outros lugares não têm, mesmo que hoje, como diz Marco Chagas, a “subida não seja tão dura”. “O piso é muito melhor e refizeram as curvas, faz menos diferenças do que já fez.” Joaquim Gomes é da mesma opinião e acrescenta: “Aquilo são oito quilómetros com um índice de dificuldade que não se compara à subida da Torre. Até há outras subidas, como a da Serra de São Macário, em São Pedro do Sul, que são mais difíceis.”

“Há tudo isto, mas o prestígio, o misticismo daquela subida, a notoriedade que dá à Volta e também ao município, justifica o investimento que a organização e o município de Mondim de Basto fazem”
Joaquim Gomes

Mesmo em termos logísticos, ter um final de etapa no alto do Monte Farinha é um grande desafio e obriga a um investimento avultado, como explica o actual director da prova: “Não conseguimos montar todo o suporte publicitário lá no cimo, há as questões de segurança que obrigam a um investimento enorme. Em termos de custos é o dobro de uma chegada normal. Veja, em 1997, quando disputei a prova com um polaco, o Zenon Jaskula, que tinha ficado em 3º no Tour nesse ano ou no ano anterior [foi 3º em 1993, atrás de Miguel Indurain e Toni Rominger], estavam 100 mil pessoas ali, e só há uma encosta, portanto, as pessoas têm de sair por onde vieram, imagine o que isto implica em termos de segurança.” Mas é difícil conceber uma Volta sem a Senhora da Graça: “Há tudo isto, mas o prestígio, o misticismo daquela subida, a notoriedade que dá à Volta e também ao município, justifica o investimento que a organização e o município de Mondim de Basto fazem”, diz Joaquim Gomes.

Todos os anos, repete-se o quadro descrito em 1989 pelo jornalista d’A Bola, João Alves da Costa: “Crianças sentadas em manilhas de esgotos, cilindros de betão, a Senhora da Graça como um… torrão de açúcar embebido em dor e suor, para os ciclistas, em festa e piquenique para os viandantes daquela procissão laica de milhares, dez quilómetros a pé numa procissão que não defraudou ninguém, antes o entusiasmou entre os bosques e as paredes de rocha”.

“Há seis, sete anos, já como director da Volta, tive oportunidade de conhecer a madrugada [antes da etapa]. Fiquei surpreendido com o arraial que se monta, até com crianças de colo, a noite toda em festa. Eu conhecia como corredor, de ver as garrafas de cerveja no chão, mas não conhecia a festa. Acho que não existe nada como isto em mais algum lugar do mundo”
Joaquim Gomes

Só depois de ter abandonado o selim é que Joaquim Gomes se apercebeu da dimensão do fenómeno Senhora da Graça: “Há seis, sete anos, já como director da Volta, tive oportunidade de conhecer a madrugada [antes da etapa]. Fiquei surpreendido com o arraial que se monta, até com crianças de colo, a noite toda em festa. Eu conhecia como corredor, de ver as garrafas de cerveja no chão, mas não conhecia a festa. Acho que não existe nada como isto em mais algum lugar do mundo”.

Seja um caso único no mundo ou não, a verdade é que a Senhora da Graça é um caso único no desporto em Portugal, ao qual só a final da Taça de Portugal no Jamor e alguns troços do Rally de Portugal poderão pedir meças. Este ano foi impossível à organização da Volta agendar a etapa da Senhora da Graça para o fim-de-semana, novidade que não foi recebida com agrado pelos fiéis: “Não imagina a quantidade de críticas que já recebi. Tenho de pedir desculpa mas este ano não deu”, justifica-se Joaquim Gomes. Este é um exemplo da popularidade da romaria velocipédica a Mondim de Basto. A primeira coisa que o orientador de tese disse à professora Ana Santos foi: “Se quer estudar a Volta tem de ir a Mondim”. Não há volta a dar, para se perceber a Volta tem mesmo de se ir a Mondim.

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