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Para se ganhar uma visão penetrante sobre um assunto é necessário um delicado equilíbrio entre proximidade e distanciamento. Eça de Queirós e Miguel Esteves Cardoso (o da década de 1980) foram capazes de fazer retratos perspicazes, acutilantes e pertinentes dos portugueses porque nasceram e viveram cá mas também passaram períodos no estrangeiro que lhes permitiram olhar para as nossas idiossincrasias com novos olhos. Bill Bryson também está bem posicionado para escrever sobre as particularidades dos americanos porque nasceu em Des Moines, no Iowa, em 1955, mas mudou-se para a Grã-Bretanha em 1973 e aí tem vivido praticamente toda a vida, com excepção do período entre 1995 e 2003, em que residiu no New Hampshire.

Bill Bryson, foto de 2013

Os múltiplos talentos do Sr. Bryson

O intelecto de Bryson espraia-se pelas mais variadas áreas e, graças à prosa clara e acessível, ao sentido de humor e ao talento para condimentar a informação “pura e dura” com um anedotário mirabolante, consegue escrever livros iluminadores e de leitura irresistível.

Ficando-nos por títulos publicados em Portugal (quase todos pela Bertrand), há a contabilizar:

Crónicas de uma pequena ilha (publicado originalmente em 1996), que colige as impressões – frequentemente mordazes – de uma viagem de sete semanas pela Grã-Bretanha realizada na véspera do regresso de Bryson aos EUA, em 1995;

Breve história de quase tudo (2003), um concentrado de informação que ajuda a explicar o mundo a quem não tenha formação na área da física, química, geologia e biologia (apesar de o título dar a entender que o escopo cronológico irá do Big Bang aos nossos dias, o livro concentra-se nas descobertas científicas dos últimos 200 anos);

Shakespeare: Um mundo, um palco (2007), uma biografia que tem a rara honestidade de se cingir aos escassíssimos factos concretos conhecidos sobre o dramaturgo, em vez de enveredar pela especulação e pela fantasia;

Em casa: Breve história da vida privada (2010), que examina, numa perspectiva histórica, as várias divisões de uma casa, os dispositivos e particularidades que a caracterizam e a forma como as usamos;

Aquele Verão: América 1927, (2013), um relato do muito que se passou no ano de 1927 nos EUA (ver O Verão dos gloriosos malucos das máquinas voadoras);

Regresso à pequena ilha (2015), que faz, 20 anos depois, um exame (sempre temperado pela ironia), do que mudou na Grã-Bretanha desde Crónicas de uma pequena ilha.

A estes títulos junta-se, pela mão da Bertrand e com tradução de Daniela Carvalhal Garcia, Made in America (1994).

“Made in America”, de Bill Bryson (Bertrand)

Compreende-se que não tenha sido dada prioridade a esta obra, pois o livro tem por eixo central os contributos americanos para a língua inglesa, o que é explicitado no sub-título da edição americana, An informal history of the English language in the United States, e apenas vagamente aludido na apresentação da edição portuguesa A língua inglesa é um dos temas queridos a Bryson, que sobre ela já escreveu Mother tongue: The English language (1990) e Bryson’s dictionary of troublesome words (2002, versão revista de um livro de 1984), obras que não foram vertidas para português. Porém, Made in America é um híbrido que entrelaça habilmente a história dos EUA (entendida não só no sentido da Grande História como da pequena história quotidiana das pessoas comuns) com a história dos contributos da nação americana para o enriquecimento da língua inglesa.

“Desembarque dos Peregrinos”, por Michele Felice Cornè, c.1803-07: O desembarque dos Peregrinos em Plymouth Rock, em 1620, é um dos marcos da mitologia norte-americana

Chegam os europeus

É óbvio que Bryson não simpatiza com Cristóvão Colombo, que retrata como nunca tendo tido “uma ideia real de onde estava ou o que andava a fazer” e de reunir “uma quantidade desmedida de arrogância e incompetência”. Trata de assinalar a ironia de o “Almirante do Mar Oceano” ter tido de contentar-se em baptizar um país sul-americano, uma cidade no Ohio e o distrito federal onde se situa a capital americana, enquanto o florentino Amerigo Vespucci, sem nunca ter chefiado nenhuma expedição, acabou por dar o seu nome a todo o continente, graças a uma hábil estratégia de auto-promoção, um certo talento para inventar relatos aventurosos, muito descaramento e alguma sorte.

Parece certo que antes de Colombo e Vespucci já lá tinham andado os vikings, que praticavam um jogo tradicional com regras similares às de um jogo popular entre diversas tribos índias e que é um antepassado do lacrosse.

Quadro (c.1846-50) de George Catlin representando índios Choctaw entregues à prática de um jogo de equipa que haveria de evoluir para o lacrosse

A toponímia dos EUA é um assunto fascinante, devido à sobreposição dos contributos das línguas dos diversos povos que ocupavam originalmente o continente e dos que o exploraram ou colonizaram em diferentes fases da história (ver Esta estrada leva a Clintonville ou a Trump City?).

Os povos nativos possuíam uma extraordinária diversidade de línguas, muitas delas com uma fonética que deixava os recém-chegados embatucados, o que levou muitas vezes a que o nome indígena fosse seriamente distorcido ou descartado e substituído por um europeu. A Virginia, primeira possessão colonial inglesa no continente americano, terá sido assim baptizado por Walter Raleigh em homenagem a Isabel I, a “Rainha Virgem”, mas também há quem sugira que proveio de “Windgancon”, que terá sido o que os indígenas responderam quando os primeiros europeus lhes perguntaram como se chamava aquela terra, e que, em vez de uma resposta, era uma expressão de pasmo pela farpela dos visitantes: “Que roupas berrantes vocês usam”.

A palavra que hoje designa na política norte-americana as reuniões para pré-selecção de candidatos nas eleições primárias, designava originalmente um chefe tribal e começou por ser transcrita como “cawcawwassoughes” – foi preciso um violento desbaste para chegar ao actual “caucus”. Tratamento similar sofreu o nome indígena do mamífero Procyon loctor (guaxinim ou rato-lavadeiro em português), que passou de “raugroughcun” para “raccoon”.

Um caucus do Partido Democrático, em 2008, numa escola de Seattle, estado de Washington

Os primeiros colonos vindos das Ilhas Britânicas parecem ter tido uma atitude obtusa, pouco pragmática e aferrada às tradições do Velho Mundo, pelo que tiveram dificuldade em implantar-se e nem sequer teriam sido capazes de sobreviver sem a ajuda dos nativos. A Virginia só começaria a prosperar quando os colonos começaram a dedicar-se à plantação de tabaco, uma espécie do Novo Mundo que, defende Bryson acabou por ser baptizada com um nome do Velho Mundo: embora os índios da Virginia lhe chamassem “uppówoc”, “tobbaco” proveio do espanhol e português “tabaco”, que proviria, por sua vez, do árabe “tubbáq”, palavra que designa qualquer “erva de efeito euforizante”. Nem todos são desta opinião, pois há fontes que indicam que na língua Taino dos índios das Caraíbas, os cachimbos recebiam o nome de “tabago”.

Massasoit, líder da confederação Wanpanoag, partilha o cachimbo com John Carver, capitão do Mayflower

Independência

A “nação benfiquista” tem em comum com a nação americana um símbolo com uma águia e o lema “E pluribus unum”. Este último foi sugerido em 1776 por Pierre Eugène du Cimitiére, um nativo de Genebra que foi consultor do comité responsável pela concepção do Grande Selo dos EUA (nessa altura já tinha mudado o nome para Simitiere), e significa “De muitos, um”. A ideia seria representar a força da união das 13 colónias num único país e o lema evocará em muitos sentimentos de identidade, orgulho, heroísmo, solidariedade e determinação perante a adversidade, mas quer americanos quer benfiquistas têm poucos motivos para inchar o peito, pois a origem do lema é assaz prosaica: foi retirado de uma receita do poeta Virgílio (70-17 aC) para preparar moretum, uma pasta à base de ervas aromáticas (afim do pesto), e descreve a fusão das várias cores dos ingredientes numa só.

Assinatura da Constituição dos EUA, por Louis S. Glanzman, 1987

Bryson dá apreciável destaque à história da redacção e aprovação da Constituição e das emendas que ficaram conhecidas como Bill of Rights (1789). Uma das emendas tem sido repetidamente invocada pela National Rifle Association of America (NRA) e outros entusiastas das armas de fogo para justificar que qualquer cidadão possa ter em casa um arsenal de guerra, mas vale a pena ler o que consta efectivamente da emenda: “Sendo necessária a existência de uma milícia bem organizada para a segurança de um Estado livre, o direito de as pessoas usarem armas não será infringido”. Em 1789, as 13 colónias não possuíam um exército regular e tinham como adversário uma das maiores potências mundiais, pelo que a defesa do jovem país tinha de assentar numa milícia de cidadãos e o Governo Federal não teria, portanto, interesse em limitar a posse e uso individual de armas. Porém, transpor cegamente esta emenda para a sociedade americana do século XXI faz tanto sentido como esperar que as regras de circulação viária do século XVIII sejam aplicáveis ao trânsito das metrópoles modernas.

As polémicas em torno do direito dos cidadãos americanos a andarem armados e do culto americano pelas armas são antigas e costumam reacender-se de cada vez que ocorrem tragédias: cartoon de Frederick Burr Opper publicado na revista satírica Puck, pouco depois do assassinato a tiro do presidente James A. Garfield, em 1881

Nem todas as divergências entre britânicos e americanos tiveram a ver com poderio militar ou se resolveram pelas armas: também a língua se tornou num campo de batalha. Já antes da independência, em 1735, um visitante inglês se queixava do “inglês bárbaro” usado no lado de lá do Atlântico. O eminente lexicógrafo britânico Samuel Johnson (1709-1784), que via os revoltosos americanos como “uma raça de malfeitores [que] deviam estar gratos por qualquer coisa que lhes concedamos que não seja a forca”, reprovou o uso pelos americanos de quaisquer “palavras que não [tivessem] recebido a benção britânica” (Bryson).

Samuel Johnson (1709-1784), retratado por Joshua Reynolds, c. 1772

As críticas britânicas ao inglês americano, que tinham um tom invariavelmente paternalista, sobranceiro e snob, encontraram réplica apropriada num ensaio (anónimo) publicado na North American Review: “Quão deslavada seria a linguagem daquele que descrevesse as cataratas do Niagara em termos adequados às cachoeiras da Ponte de Londres, ou tentasse falar da majestade do Mississipi em termos feitos para o Tamisa?”. Muitos anos mais tarde, o escritor americano Rupert Hughes (1872-1956) manifestar-se-ia contra a ideia de que “a nossa língua é um mero empréstimo da língua inglesa, como uma chaleira de cobre que temos de manter bem areada e devolver sem uma mossa”. É tentador fazer um paralelismo com outra língua europeia dividida (ou unida?) pelo Atlântico – o português de Portugal e do Brasil – mas isso seria assunto para outro artigo.

“No spic inglis”

“Devemos recusar aos infelizes fugitivos das desgraças a hospitalidade que os selvagens das florestas e pradarias deram aos nossos antepassados quando chegaram a esta terra?”

Esta pergunta retórica não é de um activista pró-imigração indignado com as políticas de fecho de fronteiras, levantamento de muros e expulsão de quem não tenha nascido em solo norte-americano que fazem parte do ideário de Donald Trump, é de Thomas Jefferson (1743-1826). Mas havia também quem receasse que os imigrantes, com a sua “imoralidade sem limites”, pudessem transformar os EUA “numa massa dispersa, incoerente e heterogénea”. Estas palavras não foram proferidas por um dos supremacistas brancos que desfilaram o ano passado em Charlotesville, mas por… Thomas Jefferson, o que atesta que o debate sobre a emigração é quase tão antigo como os EUA e que mesmo os espíritos mais lúcidos da nação nem sempre souberam o que pensar do complexo fenómeno da imigração.

Thomas Jefferson, retrato presidencial oficial por Rembrandt Peale, 1800. Haverá quem estranhe o nome do pintor, mas tudo faz sentido se se souber que o pai era também pintor e que os irmãos de Rembrandt foram baptizados como Raphaelle, Rubens e Titian (a versão inglesa de Tiziano)

As reservas manifestadas contra os imigrantes não impediram, todavia, que eles afluíssem em massa aos EUA: 35 milhões entre 1815 e 1915, um valor cuja dimensão ganha maior significado quando se sabe que a população dos EUA não chegava a 3 milhões por altura da Guerra da Independência e era de pouco mais de 7 milhões em 1810 (ver Ainda há americanos na América?).

A “invasão” fez brotar no inglês americano uma miríade de designações insultuosas para os vários grupos étnicos, de “spics” para os italianos (talvez a partir de “no spic inglis”) a “dago” para espanhóis e portugueses (talvez a partir do nome próprio “Diego”).

Mulberry Street, o eixo da Little Italy de Nova Iorque, c. 1900

Mesmo um político de espírito tão aberto e internacionalista quanto Woodrow Wilson (presidente em 1913-21) se queixou em 1902 de que as vagas mais recentes de imigração eram constituídas por “multidões de homens das classes mais baixas do Sul de Itália e homens da pior índole da Hungria e da Polónia”, gente que, a seu ver, não possuía “qualquer iniciativa que denotasse uma inteligência viva”. Por aqui se vê que Donald Trump, ao classificar liminarmente os mexicanos como violadores e traficantes de droga, não inaugurou uma tendência, apenas recuou um século em termos de valores morais e da civilidade no relacionamento internacional.

O sonho suburbano da América dos anos 50: Todos vamos poder viver numa casa-modelo

O American Way of Life

A propósito da história da cadeia de fast food MacDonald’s, Bryson escreve que esta foi, “como muitos outros aspectos da moderna vida americana, um instrumento dos dois maiores fenómenos dos anos pós-guerra: o carro e os subúrbios. Juntos transformaram a nossa maneira de viver”.

O carro é um conceito indissociável da auto-estrada, que Bryson apresenta como uma criação americana, embora outros autores a atribuam à Alemanha de Hitler. Segundo Bryson, a ideia de Autobahn difundiu-se em sentido contrário: foi Fritz Todt, inspector geral das rodovias do III Reich, quem “estudou as auto-estradas americanas novinhas em folha e regressou à Alemanha entusiasmadíssimo”.

Intersecção das auto-estradas I-20 e I-35, em Fort Worth, Texas, década de 1950

O ponto de partida do sistema rodoviário americano era desconsolador: em 1919, uma coluna de camiões do Exército dos EUA gastou dois meses para ir de Camp Mead, no Maryland, a poucos quilómetros do Atlântico, até São Francisco, na costa do Pacífico. Os primeiros investimentos em auto-estradas da década de 1930, impulsionados pelo presidente Franklin Roosevelt, como forma de reanimar a economia mergulhada na Grande Depressão através de um programa de obras públicas, deram lugar, na década de 1950, a uma febre de construção que absorveu 75% do orçamento para transportes dos EUA (com apenas 1% a contemplar os transportes urbanos).

O principal dinamizador deste surto foi Dwight Eisenhower, que fizera parte do grupo de militares que comera poeira e patinhara na lama na travessia transcontinental de dois meses em 1919. Quando chegou a presidente, em 1953, nomeou uma comissão “para investigar as necessidades de meios de transporte”, que concluiu que a única resposta possível era uma rede de auto-estradas – conclusão a que não será alheio o facto de a comissão ter sido presidida por um membro do conselho de administração da General Motors.

A rede de auto-estradas inter-estaduais definida pelo Federal Aid Highway Act, promulgado em 1956 por Eisenhower

E assim de deu um passo decisivo para construir uma civilização assente no automóvel individual e a concomitante proliferação dos subúrbios (na acepção norte-americana do termo), dos motéis, dos restaurantes de beira de estrada e dos cinemas drive-in.

Bryson aborda os assuntos da economia americana e da sua dependência da publicidade e examina a evolução das atitudes face ao trabalho e ao lazer, realçando que os americanos “trabalham mais horas e mais dias do que os seus semelhantes em qualquer outro país do mundo desenvolvido”. Porém, “caso quase único entre as nações desenvolvidas, a América não utilizou nada dos seus ganhos de produtividade para investir em lazer adicional. Em vez disso, comprou bens de consumo”, o que “explica por que razão os americanos possuem casas recheadas de electrodomésticos para poupar trabalho e se sentem mais cansados do que nunca”.

A cozinha americana dos anos 50

Resta saber se estas considerações sobre a excepcionalidade do comportamento americano no que toca a trabalho, lazer e consumo ainda fazem sentido passados 24 anos. Este é um domínio em que o mundo mudou muito rapidamente e nada o comprova melhor do que o facto de a China não ser mencionada no livro uma única vez no âmbito da economia – em 1994, o Japão ainda era, aos olhos de Bryson, o grande rival económico dos EUA.

No domínio do comércio, Bryson dá particular atenção ao conceito de “centro comercial” (“shopping mall”), que resultou de uma perversão das ideias bem intencionadas de Victor Gruen, um vienense que se refugiou nos EUA após a anexação da Áustria pela Alemanha, em 1938. Também aqui ocorreram mudanças decisivas nos últimos 23 anos e o vocabulário inglês foi enriquecido com termos como “retail park” e “factory outlet”, que não tinham expressão ou sequer existência quando o livro foi publicado.

Um dos blocos do King of Prussia Mall, o maior centro comercial dos EUA, inaugurado em 1963

Por coincidência, o ano de publicação de Made in America coincidiu com o da fundação em Seattle de uma pequena livraria online registada como Cadabra e que uns meses depois mudaria de nome para Amazon. Seria preciso todo um novo capítulo para tratar as expressões que nasceram em torno do “e-commerce” ou “online shopping” e, já agora, também para “home banking”, “bitcoin”, “spyware”, “malware”, “phishing”, “identity theft” (no sentido cibernético do termo) e afins. Claro que estes são termos de uso universal, mas os EUA têm sido o país pioneiro no vocabulário informático e no “e-commerce”.

A perspectiva americanocêntrica

Nem só de carros e estradas se faz o American Way of Life: o avião também está intimamente associado à história dos EUA e Bryson dedica-lhe o capítulo “De Kitty Hawk ao Jumbo”. Nele, Bryson atribui aos irmãos Wright o papel de pioneiros solitários do primeiro voo de um aparelho mais-pesado-do-que-o-ar. É indiscutível que os Wright tiveram grande mérito ao fazer o seu Wright Flyer levantar do solo na praia de Kitty Hawk, na Carolina do Norte, a 17 de Dezembro de 1903, e que foram eles os primeiros a dotar um aeroplano com dispositivos de controlo de voo. Mas apresentar o seu feito como se tivesse surgido do nada é faltar à verdade.

O Wright Flyer foi desenvolvido a partir de vários planadores construídos pelos irmãos a partir de 1900, que foram obviamente inspirados nos planadores desenvolvidos por Octave Chanute na década de 1890 e colheram ensinamentos dos ensaios do malogrado Otto Lilienthal. Chanute desempenhou papel crucial no desenvolvimento do Wright Flyer, dispensando conselhos e encorajamento aos irmãos Wright.

Primeiro voo dos irmãos Wright, a 17 de Dezembro de 1903

Os primeiros voos do Wright Flyer foram saltos de gafanhoto: 37, 53, 61 e 260 metros a uma altitude máxima de seis metros, um feito similar ao realizado a 9 de Outubro de 1890 por Clément Ader (c. 50 metros). O ensaio de 20 de Setembro de 1904 já pode ser considerado, sem reservas, como um voo, pois o Wright Flyer II realizou um percurso em círculo, e a 5 de Outubro a demonstração foi ainda mais convincente, com o Wright Flyer III a manter-se no ar durante 38 minutos. Porém, os defensores da primazia do brasileiro Alberto Santos Dumont argumentam que estes voos foram realizados com a ajuda de uma rampa de lançamento (e de uma catapulta) e sem testemunhas ou certificação oficial, enquanto o voo de Dumont em Paris, a 23 de Outubro de 1906 – 60 metros –, foi o primeiro a não depender de qualquer auxílio à descolagem, a ser efectuado perante um grande número de testemunhas e a ser homologado oficialmente.

[Os irmãos Wright demonstram a sua “flying machine”. Ao contrário do que é indicado por quem colocou o filme no YouTube, não se trata do voo pioneiro de 1903 em Kitty Hawk, que não foi documentado em filme, mas de uma demonstração realizada em Le Mans, França, em 1908]

Este reparo poderá parecer um pequeno detalhe (não para os brasileiros, que vêem Santos Dumont como um injustiçado), mas acaba por espelhar um problema bem mais vasto: o domínio dos EUA e Grã-Bretanha no mundo dos media é tal que é quase sempre a sua versão dos acontecimentos que prevalece e acaba por ser assimilada pelo resto do mundo como verdade indiscutível.

O que ficou de fora do livro

Apesar de haver um capítulo sobre entretenimento e de a cultura juvenil ser abordada no capítulo “Bem vindos à era espacial”, Bryson contenta-se em registar a aparição do termo “rock’n’roll” e ignora quase completamente o luxuriante léxico associado ao universo do pop-rock, que seria assunto para justificar todo um livro: pense-se em termos como “soul”, “funk”, “disco”, “gospel”, “rap”, “hip hop”, “grunge” e centenas de outras designações de géneros e sub-géneros musicais, boa parte delas nascidas nos EUA.

Uma entre muitas possíveis representações do universo sempre em expansão do pop-rock e o seu cortejo de neologismos

A evolução tecnológica no domínio das comunicações ocorrida nos 24 anos passados desde a edição original de Made in America e inequivocamente liderada pelos EUA – por Silicon Valley, se quisermos ser mais precisos – justificaria uma edição revista (ou um livro à parte). O telefone móvel, a internet e as redes sociais não são meros dispositivos ou tecnologias, mudaram profundamente a forma como as pessoas interagem e falam e criaram um novo universo mental e linguístico. Numa edição revista de Made in America não poderiam faltar os verbos “to google”, “to unfriend” (“desamigar”, em contexto de Facebook) e os substantivos “post” (em contexto de Facebook), “tweet”, “app”, “spam”, “crowdsourcing”, “troll”, “sexting” ou “food porn”.

Embora Bryson dê cobertura aos contributos vindos da política americana, sobretudo no capítulo “Bombas e balelas: Política e guerra”, o século XXI, e em particular as presidências de George W. Bush e Donald Trump, trouxeram centenas de novos vocábulos ou de novas aplicações para velhos vocábulos.

A difícil relação de George W. Bush com a língua inglesa levou a que fosse cunhada a expressão “bushism” para designar as suas frases desajeitadas, os seus erros de sintaxe e os seus “neologismos” (como “they misunderestimated me”), mas os seus “contributos” não entraram no léxico corrente.

Trump, num dos seus destemperados tweets, parece ter querido introduzir o vocábulo “covfefe”, mas como apenas “o Presidente e um pequeno grupo de pessoas sabem precisamente o que significa” – como explicou Sean Spicer, que foi, durante alguns meses, director de comunicação da Casa Branca – é muito provável que a inovação não seja adoptada pelo resto dos anglo-falantes.

[Sean Spicer recusa-se a admitir que “covfefe” foi um erro]

Uma figura da administração Trump que trouxe um notável contributo para a língua inglesa foi a conselheira presidencial Kellyanne Conway, que, a 12 de Janeiro de 2017, cunhou a expressão “alternative facts” (”factos alternativos”) para designar as estimativas empoladas (e claramente desmentidas pelas imagens) feitas por Sean Spicer em relação ao número de pessoas presentes na tomada de posse de Donald Trump. “Alternative facts” tem boas hipóteses de se implantar, não no sentido que Conway lhe pretendia dar, mas no de “tentativa desesperada e ridícula para distorcer factos óbvios e comprovados”. Estará, pois, reservada a aplicações irónicas.

O seu uso encontrará rival de peso em “post-truth” (“pós-verdade”), que é um sinónimo aproximado, embora abarque o sentido de “isto é aquilo em que acredito e estou a marimbar-me para os factos” (ver Qual a palavra que dá mais pontos: Trump ou pós-verdade?). “Post-truth” tem a vantagem de ter sido escolhida como “palavra do ano” de 2016 pelos Dicionários Oxford, proeza que “alternative facts” terá dificuldade em igualar.

É inquietante que muitas dos contributos linguísticos da política americana dos últimos anos se prendam quase exclusivamente com a direita mais radical. Uma das aquisições foi “birthers”, substantivo colectivo que designa as pessoas que acreditam convictamente que Barack Obama não nasceu no Havai, mas no Quénia, na Indonésia, num satélite de Neptuno ou em qualquer outro local exterior ao território americano.

A divulgação pela Casa Branca da certidão de nascimento que atesta que Barack Hussein Obama nasceu no Kapi’olani Maternity & Gynecological Hospital de Honolulu, Havai, a 4 de Agosto de 1961, teve pouco ou nenhum efeito sobre as convicções de quem vive no mundo da “post-truth”

Uma inovação que veio para ficar é “alt-right” (“direita alternativa”). A expressão, cujo primeiro uso registado é em 2008, num discurso do filósofo Paul Gottfried, designa um sector mais radical da direita, que partilha, mais ou menos intensamente, crenças racistas, xenófobas, isolacionistas, anti-semitas, islamofóbicas, misóginas, homofóbicas e neo-nazis e vê no governo federal um inimigo ou, pelo menos, um monstro perdulário, corrupto e intrometido, que deverá ser manietado e privado da maior parte dos seus poderes. Não há aqui nada de substancialmente novo – na verdade, parte desta mundividência é tão velha quanto a humanidade –, não fosse estas correntes dispersas e nem sempre coincidentes terem ganho visibilidade e uma noção da sua força colectiva graças às redes sociais. Poderá pois, definir-se “alt-righter” como “um redneck com conta no Twitter e no Facebook e cuja fonte de informação é o website Breitbart News”.

Steve Bannon, figura proeminente da “alt-right”, ex-“Estratega-Chefe da Casa Branca” e ex-ideólogo-chefe do website Breitbart News

É oportuno referir que Paul Gottfried se apresenta a si mesmo como um “paleoconservative” (“paleoconservador”), uma das várias correntes dentro da “alt-right”. Os “paleoconservatives”, expressão que data da década de 1980 mas que tinha então escasso curso, surgem em oposição aos “neocons”, contracção de “neoconservatives”, expressão cunhada logo em 1973 mas cuja voga só cresceu visivelmente nos mandatos de George W. Bush, por este se ter rodeado de conselheiros e assessores professando tal crença.

Três eminentes “neocons”: da esquerda para a direita, Paul Wolfowitz, Donald Rumsfeld e George W. Bush, no Pentágono, em 2003, durante o anúncio de um suplemento orçamental de 74.000 milhões de dólares para gastos militares

Em termos muito simplistas, o que os separa é que os “neocons” são pelo capitalismo sem freio, pela abolição de barreiras aduaneiras, por uma política externa em que os EUA assumem o papel de GloboCop e pelo aumento da eficiência do Estado; os imigrantes são bem-vindos se vierem aumentar a capacidade produtiva da nação. Os “paleocons” desconfiam das grandes empresas multinacionais, são pelo proteccionismo aduaneiro, pelo isolacionismo e pela redução do papel do Estado; os imigrantes só contribuem para aumentar a criminalidade e dissolver a identidade americana.

Os “neocons” acreditam no “nation-building” (outro acréscimo fulcral ao vocabulário inglês), ou seja, que o optimismo e o poderio dos americanos são capazes de exterminar as tiranias e espalhar a democracia e a prosperidade pelos povos do mundo, mesmo que eles não o tenham pedido ou desejem. Os “paleocons” querem tapar a entrada da caverna com um pedregulho e fazer de conta de que não há mundo lá fora.

Por estes poucos exemplos se vê quantos contributos a política americana trouxe à língua inglesa nos últimos 24 anos.