Duelo no Carpool: demos boleia aos finalistas mais votados do Festival e eles cantaram no carro

Peu Madureira e Cláudia Pascoal foram os mais votados das semifinais. À boleia do Carpool do Observador, contaram-nos as suas histórias e... cantarolaram as suas músicas preferidas.

O que os separa não é pouco. Peu (diminutivo de Pedro) Madureira é casado, tem 31 anos e tem dois filhos; Cláudia Pascoal diz que é “uma miúda de 24”. Ele é historiador, tem apreço pela tradição e é fadista até quando não canta fado; ela já cantou em português e inglês, do jazz à pop, e diz que “muda de carreira de meio em meio ano e de cabelo de semana em semana”, porque se cansa facilmente das coisas. Os dois, contudo, têm algo que os une: com a desistência de Diogo Piçarra, são os finalistas da edição deste ano do Festival da Canção que somaram mais votos nas semifinais, distribuídos por júri e público.

O Observador desafiou-os para uma entrevista cantada sobre rodas. A primeira, com Peu Madureira, acompanhou o concorrente no seu trajeto de Lisboa para Guimarães — onde este domingo, dia 4, se ficará a saber o nome do sucessor de Salvador Sobral enquanto representante de Portugal no Festival Eurovisão da Canção (que Portugal ganhou em 2017). Nenhum se assume como grande favorito, mas um e outro admitem a “responsabilidade” de terem sido os mais votados . No momento de encontrar consensos, há algo em que se encontram a meio caminho: ganhe quem ganhar, Portugal tem boas possibilidades de ganhar novamente a Eurovisão, na Altice Arena, em maio.

A final: os adversários, os favoritos e os nervos

Peu Madureira já está nervoso: se pudesse, conta ao Observador, “saía do carro” em plena entrevista e ia dar um passeio por Campo de Ourique, que culminaria numa pastelaria, por certo para acalmar o estômago. Já Cláudia Pascoal, depois de iniciar viagem com o Observador na Rua Francisco Agra, em Guimarães, diz que os ensaios a têm ajudado a não sentir nervos: “Se calhar mais no dia é que vou sentir”.

Peu Madureira: “Não estou nada a ser o género tontinho, que diz “ai, somos todos iguais”. É que pode mesmo haver surpresas”

Foi o concorrente mais votado na primeira semifinal, entre júri e público foi o que obteve mais votos. Isso acrescenta-lhe responsabilidade para a final?
Ui, então não acrescenta? Uma das coisas de que tenho mais medo na vida é desiludir as pessoas. E então acho que o mínimo que posso fazer pelos portugueses que votaram em mim é cantar bem no próximo domingo. E isso claro que traz alguma responsabilidade, também querer honrar o convite que o Diogo [Diogo Clemente, compositor da música] me fez… Tenho um bocadinho os nervos à flor da pele.

Preparou um espectáculo diferente daquele que apresentou na semifinal?
Eu não sou nada assim. Eu não penso nada em grandes mise en scenes, não sou nada teatral, não é propriamente aquilo que eu sou. Eu gosto de cantar com o coração. E muitas vezes aquilo que eu faço nasce do momento e daquilo que eu estou a sentir ou até dos nervos que eu estou a sentir. E portanto, [a ideia] é cantar com o coração.

E os nervos neste momento já existem?
Ah sim, se eu pudesse saía agora do carro e ia aqui dar um passeio, comer uns bolos numa pastelaria, que estou nuns nervos.

Não sei se se assume como um dos favoritos pela questão da votação.
Não, de todo. Nós fomos divididos em duas semifinais, eu sei lá se o último concorrente da segunda semifinal não teve mais votos do que eu? Não faço ideia, mas acho que agora estamos todos no mesmo patamar. Fomos escolhidos pelos portugueses. Claro que eu sinto o peso daqueles votos e quero honrá-los, mas acho que estamos todos no mesmo pé de igualdade.

Olhando para o que foi a pontuação dos restantes concorrentes, sente que alguns são adversários “especiais”, de peso, na final?
Acho que o festival é recheado de surpresas, não é? Não estou nada a ser o género tontinho, que diz “ai, somos todos iguais”. É que pode mesmo haver surpresas. Todas as interpretações podem ser muito meritórias e diferentes, os nervos acabam às vezes por nos tolher. Se calhar agora estamos mais à vontade para cantar. Todos são adversários de peso.

Que familiares é que terá a apoiá-lo?
Você não pode imaginar, a minha família é uma verdadeira família lapa, não se desune, parecemos uma massa. Os meus irmãos organizaram um autocarro com 51 pessoas e portanto vão lá estar todos a apoiar-me, vão sair de Lisboa no domingo às 10h, levam farnel, levam tudo e mais um par de botas, vão fazer duas paragens e chegam a Guimarães ao fim da tarde para assistir ao espetáculo. Para mim a coisa mais extraordinário é que acaba o espetáculo e voltam no mesmo dia. Coitados, preparam-se para chegar a Lisboa às 6h e isso é uma coisa que eu não posso deixar de agradecer para quem entra nos trabalhos às 9h.

[“Na terça-feira, tenho de voltar ao meu trabalho”. Veja no vídeo a entrevista e os temas cantarolados por Peu Madureira no Carpool do Observador]

Cláudia Pascoal: “Se eu me enterrar ao máximo acho que as pessoas não vão votar em mim”

Um site internacional especialista na Eurovisão (Wiwibloggs) previu a vitória da Cláudia nesta final. Isso traz responsabilidade?
Acrescentou nervosismo. A notícia é óptima, fiquei super contente mas todos os meus amigos e amigos dos amigos enviaram aquela notícia a dizer-me: “Bora Cláudia, está ganho!”. E eu dizia-lhes: não é bem assim. Mas agora não me posso mesmo enganar — antes podia enganar-me só um bocadinho, agora já não posso mesmo, agora tem de ser 100%.

Tem estado em ensaios no Pavilhão Multiusos de Guimarães, onde decorre a final. Como foi pisar pela primeira vez aquele palco?
É um senhor palco, é um palco que intimida, que tem aros e luzes por todo o lado e é de uma dimensão inacreditável. Senti-me um bocadinho intimidada. Estamos a falar de passar de um estúdio [da RTP] para um Multiusos que é dos maiores de Portugal. Intimidou um bocadinho mas torna a coisa muito mais realista e entusiasmante.

Tirou o curso de ourivesaria, depois tirou licenciatura em Artes Plásticas e depois mestrado em Produção e Realização em Audiovisual (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Além da previsão do site de que falávamos, foi uma das mais votadas das semi-finais…
Sim. Sempre pus imensa pressão sobre mim, acho que sou assim, é personalidade, isso faz-me também ser melhor e agora quero mesmo que a música corra a 100%… Falta tão pouco tempo! Mas pronto, ainda tenho ensaios até lá, [acredito que] a cena vai correr bem.

Além da Cláudia e do Diogo Piçarra, que desistiu, os concorrentes mais votados foram o Peu Madureira, o Janeiro e a Catarina Miranda [ficaram os quatro destacados a nível de pontos]. Sente que são os seus principais concorrentes?
São os mais votados, então penso que serão também os preferidos nesta final. Mas é esperar para ver. Não sinto grande pressão com esta final, sinto a pressão só de fazer jus à música e tentar não me emocionar em palco novamente, é o meu grande objetivo [sorri]. De resto, fico genuinamente feliz por qualquer um que ganhe.

Quando acabou a sua semifinal, o Diogo Piçarra disse que sentia que o vencedor já estava escolhido porque os portugueses já tinham ouvido as canções todas, já as conheciam. Concorda?
Acho que não. Não sei. Claro que já há favoritos e as pessoas já ouviram as músicas, já viram: gosto mais daquele ou do outro. Mas também vale muito a interpretação e a performance que vamos fazer agora no domingo. Se eu me enterrar ao máximo acho que as pessoas não vão votar em mim. Isto serve para qualquer outro. Mas acredito que já existem favoritos, isso percebe-se bem pelas redes sociais.

Que outras canções presentes nesta edição é que considera que têm algo a ver consigo, que também poderia cantar?
Todas as músicas são diferentes. Se fosse um concurso em que todas as músicas seriam pop ou jazz… mas não, aqui há vários estilos. Há várias músicas que eu acho que me sentiria confortável a cantar. Talvez a do Janeiro, também é uma música calma, muito melodiosa, se calhar apropriar-se-ia de forma correta à minha voz. E gosto da vibe. A da Capicua tinha um power ‘fixe’, gostava também de cantar essa música. Sentir-me-ia confortável a cantar todas elas em geral.

Quem é que terá em Guimarães a apoiá-la no domingo?
Trago os meus pais, o meu irmão, trago os meus padrinhos, os meus tios. Isto de ser pertinho dá muito jeito, vem a minha família toda do Porto, vem toda a gente. E vêm, claro, os amigos que trago do “The Voice”, que me vêm apoiar. Carinho não me vai faltar.

Já está a contar as horas para a final, já sente esse nervoso miudinho ou ele só chega no dia?
Se calhar mais no dia é que o vou sentir. Eu senti-o antes de vir para Guimarães, quando estava no Porto, aí senti. “Como é que será o palco? Como é que será tudo?”. Agora, depois de ver como é que é, de ver o ambiente, que é super bom, super acolhedor, está a ser uma experiência super positiva e acho que agora é desfrutar deste processo e não me preocupar muito com isso.

[“Quando a Isaura me convidou, atirei-me para o chão, comecei a chorar”. Veja no vídeo a entrevista e os temas cantarolados por Cláudia Pascoal no Carpool do Observador]

O Festival da Canção: o que mais os marcou e o pós-Salvador Sobral

Seja pela diferença de idades (Peu Madureira tem 31 anos, Cláudia Pascoal 24) ou pela personalidade (ele, historiador, é mais apegado à tradição), as escolhas dos dois concorrentes, quando desafiados a eleger temas do Festival da Canção que os marcaram, são muito diferentes. Peu elogia “A Desfolhada”, de Simone de Oliveira e “A Tourada”, de Fernando Tordo. E canta “Amor de Água Fresca”, da cantora Dina. Mais a norte, Cláudia ensaia uma versão de “Todas as Ruas do Amor”, dos Flor-de-Lis, que venceram o festival em 2009. Foi uma das primeiras músicas que aprendeu a tocar, revela, em pleno centro histórico de Guimarães.

Peu Madureira: “O Salvador fez um tão bom trabalho que seria um crime cantar por cima dele”

O Festival da Canção tem tido algum reconhecimento acrescido este ano, depois da vitória de Salvador Sobral na Eurovisão, no ano passado. Isso foi mais um aliciante para participar?
Por acaso eu não pensei em nada disso. É a primeira vez que me perguntam isso. Quando me fizeram o convite… Quando os bons amigos nos fazem bons convites eu digo logo que sim. Às vezes um bocadinho sem pensar e portanto nem pensei nisso. Claro que este Festival da Canção é diferente dos outros. O Salvador e o outros concorrentes fizeram um grande trabalho. Ser herdeiro de uma vitória tão bonita e da vitória do Salvador e poder ser continuador do festival da canção e da história do festival é uma coisa muito boa.

Acompanhou o festival no ano passado?
Por acaso acompanhei. Lembro-me de estar a ver sem grande expectativa. De estar a  ver os concorrentes. Sabia que o Salvador ia participar e a Luísa tinha uma música e por isso acompanhei, sim. A primeira semifinal e depois tudo o resto.

Recorda-se de canções que tenha gostado?
Gostava imenso da que veio a seguir ai Salvador, uma que tinha dois cantores líricos e uma cantora [os Viva la Vida]. Gostava muito dessa música, muito forte, tinha um refrão fortíssimo, era épica.

"Há músicas muito marcantes. A "Desfolhada" da Simone de Oliveira, a "Tourada", "E Depois do Adeus"... Mesmo na minha idade... qualquer um de nós sabe o "Amor de Água Fresca", da Dina. Ou mesmo a música da Lúcia Moniz, da Anabela, "Quando cai a noite da cidade".
Peu Madureira

Como é que seria a “Amar pelos Dois” se cantada pelo timbre do Peu?
[Ri-se] Ai, seria uma grande bosta.

Uma versão um pouco mais afadistada, talvez…
Talvez, talvez. O Salvador fez um tão bom trabalho que acho que seria um crime cantar por cima dele, ou tentar cantar alguma coisa que ele cante. Não quero nada, que horror.

Peu Madureira Foi o concorrente mais votado na primeira semifinal, entre júri e público foi o que obteve mais votos (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O festival tem uma história longa e tem uma grande importância naquilo que é o percurso musical dos compositores e dos intérpretes. Dentro das canções que marcaram a história do Festival da Canção, tem alguma ou algumas de eleição?
Acho que há músicas muito marcantes. A “Desfolhada” da Simone de Oliveira é muito marcante, a “Tourada”, “E Depois do Adeus”… Quando falamos de músicas do Festival da Canção falamos de músicas que marcaram os portugueses, não é? Mesmo na minha idade… qualquer um de nós sabe o “Amor de Água Fresca”, da Dina. Ou mesmo a música da Lúcia Moniz, da Anabela, “Quando cai a noite da cidade”…

Que voltou a participar.
Sim, voltou a participar, achei imensa graça. Eu que vi a Anabela cantar essa música, em directo, na televisão, tem muita graça pensar que agora estou a participar ao lado dela num festival.

[“O Diogo Piçarra era um concorrente de peso. Tenho a maior das penas”. Veja no vídeo o best of do Carpool com Peu Madureira]

Cláudia Pascoal: “Até votei noutra música apesar de eu achar que o Salvador iria ganhar”

Depois da vitória de Portugal na Eurovisão, no ano passado, este Festival está a ser olhado de forma diferente?
Completamente. Aliás, não só estou muito contente por estar no Festival da Canção como estou muito contente por estar no Festival da Canção este ano, depois da nossa vitória [na Eurovisão]. É muito óbvio que o Festival da Canção ganhou uma nova dimensão, uma nova atenção do público, portanto estou felizérrima. É uma palavra? [Ri-se] Estou felizérrima de estar a participar nesta edição porque acho que é diferente e acho que vai ficar de alguma forma marcada na História de Portugal.

Da edição passada, houve algumas canções de que tivesse gostado muito ou a “Amar pelos Dois” foi…?
A “Amar pelos Dois”, lembro-me perfeitamente [de a ouvir na semi-final], estava em casa da minha tia Isabel e do meu tio Jorge e estamos todos a ver o festival da canção. Quando o Salvador acabou de cantar eu disse: está ganho, Portugal vai ganhar este ano. E os meus tios disseram: o quê?? É muito estranha esta música, não é nada do festival. Porque na altura havia um bocado essa coisa, havia “a música do festival”. E eu dizia que não, não. Acho que a do Salvador houve aquela cena: primeiro estranha-se depois entranha-se. Acho que foi assim para os portugueses. Para mim foi imediato, por acaso. Até votei noutra música apesar de eu achar que o Salvador iria ganhar. Votei no Pedro Gonçalves porque ele é meu amigo portanto votei várias vezes no Pedro Gonçalves porque estava super contente por ele também! Desculpa Pedro.

Um site internacional especialista na Eurovisão (Wiwibloggs) previu a vitória da Cláudia nesta final (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O festival acabou por ganhar algum reconhecimento que terá perdido um pouco durante alguns anos. Portugal inclusivamente não participou em três edições. Dentro da história do Festival da Canção, há algum canção de que goste especialmente?
Há algumas que ficaram. “A Flor De Lis”, por exemplo fartei-me de cantar. Foi das primeiras músicas que aprendi na guitarra, aliás.

[“A Cláudia Pascoal é uma miúda que muda de carreira de meio em meio ano e muda de cabelo de semana em semana”. Veja no vídeo o best of do Carpool com Cláudia Pascoal]

As semi-finais. Como tudo começou e como foi o interior dos ensaios

Peu Madureira estava “a enfardar pastéis de nata” na Manteigaria do Chiado quando Diogo Clemente lhe ligou com um convite: queria que o fadista de 31 anos cantasse “Só Por Ela” no Festival do Canção. Ele acedeu. A reação de Cláudia Pascoal, quando viu no seu Facebook uma mensagem de Isaura, foi muito efusiva, recorda a cantora em Guimarães: ” Atirei-me para o chão, chamei pela minha mãe e comecei bué a chorar”. Ao Observador, o concorrente mais votado desta edição (teve 22 pontos, 12 dados pelo público e 10 pelo júri) fala ainda do erro de contagem de votos e da desistência de Diogo Piçarra.

Peu Madureira: “O Diogo Piçarra era um concorrente de peso. É óbvio que não foi um plágio”

Como é que surgiu o convite para cantar o tema “Só por Ela”? Já conhecia o Diogo Clemente?
Já, já. Nós temos uma amiga em comum e eu cantei no casamento dela. E foi aí que nos conhecemos e foi aí que começou a nossa amizade. Ele depois convidou-me para participar no festival Caixa Alfama, onde fiz, com amigos e outros fadistas, um segmento num dos palcos de lá com um projeto chamado Urbanos, que tem pessoas da cidade, anónimas, que gostam de cantar. Foi assim que tive a primeira experiência de trabalho com o Diogo.

Lembra-se do dia em que ele o convidou?
Lembro-me perfeitamente. Foi em dezembro, no princípio de dezembro. Ele telefonou-me, estava eu a enfardar pastéis de nata na Manteigaria no chiado. O Diogo não é propriamente uma pessoa que me ligue todos os dias. Perguntou-me se eu queria ser o intérprete da música dele no Festival da Canção, disse que tinha feito uma música para a minha voz, que tinha pensado muito em mim e na minha voz quando a estava a fazer.

Relacionou-se logo com a letra da canção?
Sim, foi instantâneo porque fala sobre o amor. O amor nem sempre tem lados só felizes. O amor tem muitas matizes. Somos feitos de dias cinzentos, de saudades, qualquer português poderá identificar-se com isso.

Uma ideia que passou muito foi a de proximidade entre todos, de uma grande comunidade entre os concorrentes. Foi mesmo assim, nos ensaios?
Foi mesmo assim. Mas foi difícil estabelecer esse companheirismo porque nós estamos muito segmentados nos horários que estamos a fazer de ensaios. E nós por defeito de profissão não podemos, ou eu, pelo menos, não podia estar presente em todos os ensaios. Acabava sempre por assistir mais aos anteriores a mim e ao seguinte, não tanto aos outros. Mas tive uma agradável surpresa porque depois nos ensaios gerais criou-se um clima de grande companheirismo e de proximidade entre todos os intérpretes. Até tenho saudades de rever os intérpretes da minha gala, os que eu conheci.

Fez amigos?
Ficámos todos amigos. Já conhecia, por exemplo, a Joana Espadinha, cantámos juntos em alguns sítios e por isso já a conhecia, gosto muito dela. A Joana Barra Vaz é um amor, anda sempre com um cházinho de perpétua roxa que forneceu a todos os cantores, é uma mãezinha amorosa que tomou conta de mim, cantou antes de mim por isso estava sempre muito perto. E tenho saudades do resto dos concorrentes, também.

Tem o curso de História da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Foi ainda professor de História numa escola do quinto e sexto ano (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Um dos finalistas, o Diogo Piçarra, que tinha sido o mais votado, desistiu depois de algumas semelhanças entre o seu tema e um tema datado dos anos 70. O Peu sentiu que perdeu ali um adversário?
Eu no Festival da Canção não tenho ideia de que haja adversários, somos todos concorrentes, é óbvio, mas não acredito que haja adversários. Na música não há inimigos para mim. O Diogo Piçarra era um concorrente de peso mas era sobretudo uma pessoa de quem eu gostava e que gostava de ouvir cantar. Tenho a maior das penas que ele não participe nesta edição. Já escrevemos sobre isso, já partilhámos o que pensávamos, não tenho qualquer dúvida que é óbvio que não foi um plágio, uma pessoa com a identidade dele… Ele é uma pessoa muito íntegra, muito honesta. Eu não tenho o prazer de o conhecer na intimidade, só o conheci porque ele é muito amigo do Diogo [Clemente] e também da Carolina [Carolina Deslandes, namorada de Diogo Clemente] e portanto o máximo que trocámos foi duas palavras. Mas acredito piamente em todas as pessoas que acreditam nele e na palavra dele, sobretudo na palavra dele. Eu acredito que realmente a música tem destes acontecimentos fortuitos que não controlamos.

Presumo que tenha assistido também à segunda semifinal do festival. Acha que o nível de qualidade na segunda excedeu a primeira, foi semelhante ou foi inferior?
Acho que até estiveram taco a taco. A ideia que tive foi que estiveram bastante taco a taco, em termos da qualidade dos temas apresentados. Eu confio muito na escolha que foi feita pela RTP.

Na sua semifinal houve um problema com a contagem de votos, que depois foi corrigido no dia seguinte. Os concorrentes foram informados desse erro ou acabaram por saber posteriormente? 
Nem me lembro bem… mas fiquei muito triste, é uma situação muito chata, muito delicada. Eu vi a Beatriz ficar muito feliz com a passagem e custou-me horrores pensar que ela não vinha agora connosco. São momentos menos felizes mas errar é humano e isto acontece. É assim. Quem nunca errou que atire a primeira pedra. Acho que é difícil. Nem tenho o contacto dela mas penso muito nisso. Nela e na Mallu [Magalhães, autora do tema].

Cláudia Pascoal: “Sou notoriamente conhecida por ser uma chorona”

Como surgiu o convite da Isaura para cantar esta canção, “O Jardim”?
Foi super altamente e foi da forma mais básica possível, ela mandou-me mensagem pelo Facebook e lembro-me perfeitamente de olhar para o meu telemóvel, para as notificações, e tinha uma mensagem da Isaura. E eu pensei: ah, era fixe se fosse mesmo “a Isaura”. E abro e é mesmo. Fico: ó meu deus, [espero] que ela me fale do Festival da Canção. E ela: ah, não sei quê, Cláudia, estou interessada… e eu: não acredito! Atirei-me para o chão, chamei pela minha mãe e comecei bué a chorar, mesmo. Ela não me tinha dito: olha, quero-te. Foi só algo como: vamos conversar. Mas eu já estava com um feeling que ia correr super bem e comecei bué a chorar mesmo. Mas eu sou notoriamente conhecida por ser uma chorona, dado que me emociono sempre em palco. Na vida real também me emociono por coisas parvas, tipo esta.

Na semifinal não pensei muito no resultado. Pensava: deixa ver se eu não desafino, se está tudo bem... tinha preocupações ridículas, se o meu vestido não mostra nada, se o meu cabelo não está demasiado parvo...
Cláudia Pascoal

Também chorou quando cantou o tema na semifinal. A Isaura escreveu o tema inspirada pela saudade que tinha de uma avó, que já morreu. A letra trouxe-lhe memórias [de perda]?
Claro, toda a gente já perdeu alguém. Eu também já perdi, infelizmente, e lembrei-me das pessoas que aqui não estão que eu adoro, inclusive as minhas avós. Também pensei num amigo meu do secundário que também partiu e partiu exactamente naquela semana. Portanto, estava já muito frágil, quando pisei aquele palco depois vieram todas as emoções, é a adrenalina do palco, o nervosismo, foi tudo. É impossível não me emocionar com aquela música, quanto mais num palco de Festival da Canção.

Quando acabou de cantar, sentiu que já tinha um pé na final? Teve essa confiança?
Não, nada. Eu só pensava: pronto, deixa ver se eu não desafino, se está tudo bem… tinha preocupações ridículas, se o meu vestido não mostra nada, se o meu cabelo não está demasiado parvo… Não pensei muito no resultado que aquilo iria ter. Mas depois quando percebi que a cena estava a ser bem pontuada é que pensei: não acredito que vamos à final e vamos bem pontuados. Fiquei mesmo muito contente e isso mostrou-se bem pela minha reação com a Isaura [quando soube o resultado], estamos as duas abraçadas.

Houve algum dos concorrentes da sua semifinal com quem tenha criado amizade?
Completamente, sim. Infelizmente não passou, fiquei muito triste porque era das minhas músicas favoritas. Era a canção da Capicua, cantada pela Tamin. Foi inacreditável e ficámos amigas — se nos seguimos nas redes sociais é porque somos amigas. Ela foi uma querida, mandou-me uma mensagem muito acolhedora e muito amorosa. Essas pessoas ficam sempre. Acredito mesmo que mais tarde irei trabalhar com ela, espero eu e é bom saber que foi aqui que começou tudo, num Festival da Canção.

O ADN dos entrevistados: quem são, o que ouvem, o que fizeram

Quem tira o fado a Peu Madureira, tira-lhe tudo. O seu carro, diz a sorrir, está sempre sintonizado na rádio Amália — excepto quando é a mulher que o conduz. O filho de dois anos já reconhece o género: diz logo que está a ouvir a música do pai. Cláudia Pascoal, por sua vez, não veio do Renascentismo mas podia: entre cantigas, revelações e momentos que exigiram a intervenção do GPS, fala do seu percurso eclético: “Tirei ourivesaria, depois tirei licenciatura em Artes Plásticas e depois tirei mestrado em Produção e Realização em Audiovisual”. O festival, diz mesmo a fechar, fê-la assentar e descobrir que tem mesmo vocação é para as canções.

Peu Madureira: “Sou historiador e trabalho agora numa leiloeira”

Para quem o está a agora a descobrir através do festival, quem é o Peu Madureira?
Eu chamo-me Pedro Madureira mas toda a gente me chama Peu Madureira. Tenho 31 anos, nasci em Lisboa, sou casado, tenho dois filhos, um rapaz e uma rapariga, ele tem dois anos e ela tem 1 mês, sou fadista e sou historiador.

Historiador?
Sim. Tenho o curso de História da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Ainda fui professor de História numa escola do quinto e sexto ano. Adorei ser professor, foi uma coisa muito gira na minha vida, saí logo do curso e fui ser professor. E depois fiz o meu mestrado em História dos Descobrimentos e da Expansão Portuguesa, são uns palavrões gigantes… e trabalho agora numa leiloeira onde faço peritagem e avaliação de obras de arte. Sobretudo na área do mobiliário.

Com que idade é que o fado, e a música, entrou na sua vida?
A minha família sempre foi muito muito musical. Já tive amigos a gozarem com isso. A minha família sem música era nada. Nós todos cantamos, uns com mais jeito do que outros. Desde pequenino que estou habituado a cantar. A minha avó fazia um coro que era o coro dos primos. Para todas as festas. E cantava o fado. A minha mãe também cantava o fado. O meu irmão é um compositor. Sempre vivemos envolvidos no fado.

"A minha mãe morreu há oito meses e portanto antes de entrar no palco peço sempre que me ajude nestes momentos. É difícil, é sempre uma prova dura da nossa vida. Peço sempre que ela me ajude a fazer uma coisa bonita, até porque a minha mãe cantava muito bem.
Peu Madureira

Há algum fado de que goste especialmente, dentro desse repertório imenso do fado?
Eu gosto muito de imensos fados. Gosto muito dos fados tradicionais portugueses, não sei escolher um, mas há muitos que marcaram a minha vida. Há um de que gosto muito que é o “Perseguição”, que tem um poema do D. António de Bragança chamado “Minhas Penas”. Gosto muito da “Rosa Enjeitada”, que era cantada pela Maria Teresa de Noronha. Da “Tendinha”, da Hermínia Silva. Há muitos.

É um frequentador assíduo de casas de fado?
Fui muito frequentador, hoje em dia já não sou tanto. Desde que me casei e fui pai de dois filhos, é mais difícil. Hoje já não consigo tanto ir aos fados, porque a vida de pai não se coaduna muitas vezes com os horários fadistas, por isso tive que fazer algumas escolhas e agora tenho cantado menos em casas de fados. Mas sempre que posso, vou. Até porque os fadistas têm sempre esta coisa de ir aos fados e de viver de noite.

Cantar na casa de fados é muito diferente de cantar num Multiusos ou tenta que a proximidade se continue a sentir através da música?
Eu quando canto tento que a letra e a história que eu estou a contar seja perceptível para todos, que as pessoas encontrem no meu canto uma mensagem, uma história. Pode ser uma história mundana, pode ser uma tragédia de amor, de saudades, o que for… mas eu tento muito, quando estou numa casa de fado se calhar é mais fácil passar isso do que num palco. Mas esse é o desejo de qualquer artista, de qualquer actor ou cantor, é pôr-se por inteiro naquele papel e tentar contar uma coisa.

Na música que ouve no dia a dia, o fado é omnipresente ou há espaço para…
Há espaço para muito mais coisas, mas a minha mulher goza imenso comigo. Quando eu ando no carro, está invariavelmente na rádio Amália. Quando ela chega, muda para outros postos. Mas o meu filho é que tem imensa graça, quando estamos à procura de postos, passamos pela rádio Amália e ele diz “música do pai”. Mas sim, sou muito permeável a outras influências, com amigos e os meus pais, que sempre ouviram outros tipos de música.

Quer dar algum exemplo?
Gosto muito de jazz, de música romântica dos anos 40 italiana, os meus pais ouviam muito. O meu pai é muito fã de música francesa, Edith Piaf, Charles Aznavour, o Jacques Brel. A minha casa sempre foi um repositório de canções. Há uma música que eu gosto, acho que do Frank Sinatra: chama-se “All of Me”. É uma daquelas músicas que eu canto no banho.

Tem cuidados com a voz? Ou superstições?
Não sou um homem supersticioso. A minha mãe morreu há oito meses e portanto antes de entrar no palco peço sempre que me ajude nestes momentos porque é difícil, é sempre uma prova dura da nossa vida. Não tenho superstições mas antes de entrar no palco peço sempre que me ajude a fazer uma coisa bonita, até porque a minha mãe cantava muito bem. E pronto, peço-lhe ajuda.

É religioso?
Sou.

E a música é também uma relação de fé? Ou são duas coisas profundamente divergentes?
Acredito muito na parábola dos talentos, que Deus nos confiou um talento para nós usarmos, para o bem dos outros, e aquilo que fiz e faço, durante muitos anos na minha vida, foi cantar em coros de igreja, foi aí que eu aprendi. A beleza da harmonia, das vozes, de cantar em coro. A beleza de nos respeitarmos um ao outro nas vozes que cada um tem, descobrir a grande harmonia que isso pode trazer ao mundo. Nesses coros eu sou confrontado com momentos de grande harmonia e momentos de grande tristeza. Canto muitas vezes em baptizados mas também em imensos enterros. E pensar que a nossa voz pode ser um bálsamo para a alma de alguém que está magoado, cansado, triste, que sente a falta de alguém, é a melhor coisa que podemos fazer por alguém. A minha voz é um instrumento. É um talento, mas é um instrumento para que se possa fazer o bem no mundo.

Quais são os seus compositores de referência na música portuguesa?
O meu compositor referência é o meu irmão João. É uma pessoa extraordinária, as coisas que compõe são de uma beleza muito grande. São coisas muito belas, são lugares de beleza, são coisas diferentes, são coisas que nos fazem viajar.

Cláudia Pascoal: “A Luísa Sobral foi a única pessoa [do júri] que me intimidou”

Para as pessoas que não a conhecem, agora no Festival e também pela participação no The Voice, quem é a Cláudia Pascoal?
É uma miúda de 24 anos que é de Gondomar, São Pedro da Cova para ser mais concreto. É uma miúda que muda de carreira de meio em meio ano e muda de cabelo de semana em semana. Fosto imenso de mudar, canso-me facilmente das coisas mas empenho-me sempre a 100% em todas elas. Agora estou-me a empenhar 100% na música e acho que esta é a carreira que vai ficar, acho que encontrei o meu lugar. Portanto, a Cláudia Pascoal… canta.

Qual foi a última cor de cabelo que teve?
Antes desta? Roxo. Pintei o cabelo para o meu último concerto que foi no Plano B, no Porto, pintei de roxo.

Como dizia, ganhou bastante notoriedade no programa “The Voice”. Pergunto-lhe se essa experiência ajudou a gerir os nervos no Festival?
Completamente. Todas as experiências que tive televisivas ajudam-nos a crescer à frente de uma câmara e o “The Voice” é o “curso superior, mestrado e doutoramento” disso tudo. São meses em que estamos envolvidos nessa dinâmica de câmaras e holofotes em geral. Então chego aqui, ainda por cima, tão perto — acabei de sair do “The Voice” em dezembro… É um conforto. Chego aqui e já sei mais ou menos o que é que vai acontecer. Não é igual, de todo, a escala de nervosismo é acima da média aqui no Festival da Canção, não tem nada a ver. Mas claro que ajuda imenso.

"Admiro imenso a Luísa Sobral. Do júri, foi a única pessoa que me intimidou, no sentido em que adorava saber o que é que ela pensava sobre mim e as minhas músicas. Gosto mesmo do trabalho do trabalho dela, é uma pessoa que admiro e de quem faço covers."
Cláudia Pascoal

Curiosamente no programa “The Voice” a primeira impressão que a Cláudia deu foi tão boa como a primeira impressão que deu agora no Festival da Canção, os quatro jurados do programa elogiaram-na logo muito. Do júri deste festival, havia algum que a Cláudia temesse um bocadinho a mais a reação ou tivesse curiosidade de saber o que achava da sua canção?
Eu admiro todos eles mas gosto imenso da Luísa Sobral, mesmo. Mas gosto e admiro imenso todos eles. A Ana Markl, adoro a Ana, adoro, adoro. Acho a Ana das pessoas mais engraçadas do mundo e a Luísa Sobral eu admiro imenso e foi a única pessoa que me intimidou, no sentido em que adorava saber o que é que ela pensava sobre mim e as minhas músicas. Gosto mesmo do trabalho do trabalho dela, é uma pessoa que admiro e de quem faço covers, por isso, fazia todo o sentido saber o que é que ela achou. Fiquei sem saber o que é que ela achou mas pronto, vou pensar para mim que ela adorou, para eu dormir descansada à noite.

Costuma tocar um instrumento inusitado [ukulele]. Fá-lo há muito tempo?
Sim. Eu comprei-o pela primeira vez de uma marca assim muito ‘foleireca’, para o levar ao ‘Ídolos’. Peço desculpa à marca, mas é ‘foleireca’. E fi-lo porque adoro uma série que é a “How met your mother”, que também é uma das séries favoritas da Isaura, foi logo telepatia, vê? Lá há uma versão do tema que levei aos ‘Ídolos’, que na altura era o “La Vie En Rose” em inglês. Comprei o ukulele só para tocar essa música. E depois nunca mais deixei, comecei a dar concertos assim na brincadeira mas sempre com o ukulele e comecei a compor com ele. Agora, é o meu instrumento base em todas as músicas que componho.

O que é que gostava mais de ouvir enquanto crescia o que é que ficou mais desses tempos?
Eu ouço de tudo um bocadinho. Àquela pergunta “qual foi a música que mudou a tua vida?” tenho uma resposta: foi a “Take Five” do Dave Brubeck. Eu achei aquilo genial. Eu nem ouvia muito jazz mas quando ouvi aquilo eu disse: “Opá é isto que eu quero fazer”. Mas há vários artistas que eu admiro e que me relaciono quando componho. Portugueses, adoro o David Fonseca, acho que é super fora. Depois gosto também de coisas super diferentes, Luísa Sobral… gosto de imensas coisas.

Há pouco falávamos da importância da música na sua vida. Quais é que são os outros hobbies da Cláudia?
Eu tenho três cursos. Tirei ourivesaria, depois tirei licenciatura em Artes Plásticas e depois tirei mestrado em Produção e Realização em Audiovisual. Fui trabalhar para a SIC Radical, apresentei também um bocadinho do Curto Circuito, o CC Allstars, depois fui para a música. Este é o meu caminho, tive sempre vertentes muito diferentes mas acho que vou estancar por aqui, acho que vou ficar pela música. Acho que é o universo com que me identifico mais e me dá mais prazer.

As mensagens do público, a Eurovisão e o que vem a seguir

Quando faltavam ainda alguns quilómetros para se assustar com uma confusão no tráfego, que ocorreu uns metros à frente do carro do Observador (o momento pode ser visto no vídeo do best of da entrevista), Peu Madureira explica que está concentrado na final e que planos de futuro… só tem para terça-feira. “Tenho de voltar ao meu trabalho, das 9h às 18h”, ri-se. Cláudia Pascoal, a conhecer melhor Guimarães de carro (o tempo chuvoso não tem permitido grandes aventuras), vai mais longe: “Acho que pensar nisso dá azar”.

Peu Madureira: “Não tenho ido ao Facebook porque, se calhar um bocado nabamente, queria proteger-me”

Teve oportunidade de ver a versão que o Salvador Sobral e o Júio Resende fizeram da canção da Francisca Cortesão/Afonso Cabral, finalista e cantada no festival pela Joana Barra Vaz?
Não tive oportunidade de ver porque tenho um trabalho bastante cansativo e quando chego a casa é a mil à hora. Dar banhos, papas, jantares, pôr [as crianças] a arrotar, levantar. Além do mais, abstive-me de ir à internet. Acho que pode ser um lugar muito bom e um lugar muito mau. Não tenho ido ao Facebook, não tenho visitado nada. Porque, se calhar um bocado nabamente, queria proteger-me.

E fora das redes sociais, da internet. No dia a dia, na rua, tem tido reacções das pessoas?
No colégio dos meus filhos, as pessoas são muito simpáticas, os outros pais, os professores, os auxiliares. No meu trabalho também, toda a gente me apoia. Na rua, aconteceu duas vezes. Uma pessoa atravessou a rua para dizer que tinha gostado muito e outra também, mas mais nada do que isso. Coisa que me deixou muito contente, prefiro uma vida low profile do que estar na boca do mundo.

Sente que nesta edição podemos repetir o feito de 2017: ganhar a Eurovisão?
Eu acho que sim. Eu acho que nós os portugueses temos uma coisa extraordinária, que é um património de músicas muito variado. No festival poucas são as músicas que se assemelham. Há muitos estilos, o nosso folclore e a música tradicional é muito variada, [muda muito] de região para região, de interpretação para interpretação. Somos uma boa amostra daquilo que se faz no mundo. E outra coisa, que já experimentei por ser fadista e por ter cantado lá fora, é que qando cantamos muitas vezes parece que as pessoas dos outros países percebem aquilo que nós dizemos. Dizem que a música é internacional, e estaremos num plano tão bom como noutro país, mas estamos num óptimo plano agora. E é uma honra para Portugal receber a Eurovisão.

"Espero na terça feira voltar ao meu trabalho, tenho de voltar, das nove às seis. Mas ganhar seria um caminho de grande amor. Os portugueses gostam da pessoa que vai representá-los [à Eurovisão]. Para quem ganhar será um tempo de grande reconhecimento, de coisas boas, de perceber que nos amam, que gostam das coisas que fazemos."
Peu Madureira

Relativamente à sua carreira fora do Festival da Canção, tem alguma ideia do que virá a seguir?
Quero concentrar-me para a final, mas não faço ideia o que será o futuro. Eu espero na terça feira voltar ao meu trabalho, tenho de voltar, das nove às seis.

Mas se ganhar o festival…
Nem pensei nisso, eu por norma não faço antevisões daquilo que não sei o que é. Devem ser meses trabalhosos porque deve ter de se ensaiar, acho que a pessoa que ganhe terá de ensaiar, tem de se habituar a esta máquina que às vezes pode ser um bocadinho difícil. Mas sobretudo, acho que vai ser um caminho de grande amor. Sendo representante dos portugueses, os portugueses gostam da pessoa que vai. E portanto também é um tempo de grande reconhecimento, de coisas boas, de perceber que nos amam, que gostam das coisas que fazemos.

Cláudia Pascoal: “Gosto sempre de pensar que as coisas vão correr muito mal”

Tem sentido muito apoio pela internet e presencialmente? Como é que tem sido a recetividade das pessoas?
Tem sido super positivo, as pessoas que se dirigem a mim diretamente só trazem mensagens muito, muito positivas. Aliás, no fim da semifinal, fui dormir eram para aí 4 horas da manhã e quando acordei tinha mais de mil mensagens, só no Instagram — fora Facebook e de outros [meios]. Só tenho a agradecer todo o apoio e todo o carinho de toda a gente, que tem sido inacreditável. Há pessoas que não gostam mas essas não me dizem nada nem me mandam mensagens, portanto, eu durmo descansada.

Acha que as possibilidades de Portugal voltar a ganhar a Eurovisão são fortes?
Acho que são mesmo muito fortes. Acho que este ano temos músicas muito diferentes em estilos muito diferentes, com intérpretes muito diferentes e com personalidades muito definidas e acho que qualquer um que ganhe vai trazer algo de único para o palco da Eurovisão. E espero mesmo que Portugal ganhe.

Já pensou como é que serão os próximos meses se vencer o Festival da Canção?
Eu agora estou a tentar aproveitar ao máximo este fim de semana, vou dar o meu máximo, que tudo corra bem. Eu ainda não pensei sequer na minha segunda-feira, não sei se vou para o Porto, se vou para Lisboa, ainda estou a pensar na minha vida. Portanto, não, nem pensei sequer se possibilidade acontecer. Nem quero pensar. Acho que isso dá azar sabes? Gosto sempre de pensar que as coisas vão correr muito mal, pelo menos se correrem mal eu já estava preparada e se correrem bem, vai-me saber ainda melhor.

Mesmo se na final acabasse por não o resultado que pretende, acha que a notoriedade entretanto alcançada já será importante para trilhar o percurso que quer na música?
Eu acho que o Festival da Canção é quase uma montra para mostrar novos talentos. Temos aqui nomes já conhecidos mas também nomes que não são assim tão conhecidos e que estão a revelar uma grande capacidade musical e um grande talento. Acho que o festival de certa maneira me vai ajudar a lançar as minhas músicas.

Tem intenção de gravar um disco. Pelo que sei até tem um disco já composto ou em vias de o estar…
Há dois anos, quando lancei [a canção] “Ocasionalidade” no Dia dos Namorados, com o Pedro Gonçalves, também participante do The Voice e Festival da Canção, gravei muito rapidamente num mês cinco músicas que pretendia lançar num EP. Mas a minha mania de perfecionismo fez-me não lançar nada porque para mim não estava 100%, não estava bom, bom, bom. E não achei que era o momento, eu sou muito de sentir os momentos. Como depois comecei outra projeto de originais, de jazz em inglês, e começámos a dar concertos, pus esse projeto [anterior] de parte. É um projeto [a solo] em português e agora estou com ideias de lançar novamente algo em português. Sigo um bocado os timings da vida.

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