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AFP/Getty Images

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Duelos de poder: As 13 lutas que fizeram a história

A história dos dois maiores partidos portugueses tem sido marcada por duelos internos, que deixam sequelas mais ou menos permanentes. Fomos revisitá-los.

Quando no final do mês de maio, o PS de António José Seguro saiu vencedor das eleições europeias com uma pouco entusiasmante percentagem de 31,4% dos votos, soou ao longe o apito que dava início à batalha socialista. “Há que refletir para garantir que a vitória não volte a saber a pouco”, dizia António Costa no rescaldo da corrida. Era o “estou em estado de choque” de outro António, o Guterres, nos tempos idos de 1991. E a história, soube-se nesse instante, ia repetir-se.

Nada inédito, de resto. O contar de espingardas tem sido comum à história dos dois maiores partidos da democracia portuguesa – PS e PSD – que, em momentos mais ou menos complicados da vida política nacional, entraram em erupção interna. Desta vez foi Costa quem montou o cerco e desafiou o adversário, obrigando Seguro a mobilizar os soldados e a pôr todo o aparelho a funcionar. A pouco mais de um mês do duelo final, que se disputará nas urnas das primárias socialistas, mesmo quem não assistiu na primeira fila aos duelos de outros tempos já percebeu que este é um jogo duro, de troca de acusações e golpes de bastidores. Uma luta que se joga cuidadosamente (ou impulsivamente) com todos os peões e não só com as duas torres que lideram o xadrez. Um deles, é certo, acabará por fazer o xeque-mate.

O Observador foi revisitar esses momentos, onde a disputa pelas cadeiras mais cobiçadas do Largo do Rato e da São Caetano à Lapa se aguçou. Escolhemos treze no total, mas outros tantos podiam ter sido também incluídos.

Sá Carneiro e os ‘inadiáveis’

Estávamos nos finais da década de 1970. Depois de ter sido escolhido como líder natural do Partido Popular Democrático (assim se chamava então o PSD) no pós-25 de Abril, Francisco Sá Carneiro teve de enfrentar várias vezes divisões fraturantes no partido. Aquela que foi porventura mais crítica ocorreu em 1977, numa altura em que o Fundo Monetário Internacional aterrava em Lisboa para preparar a sua primeira intervenção em Portugal e o governo minoritário de Mário Soares era frágil. Pediam-se consensos de governação mas Sá Carneiro e Soares não se entendiam.

Sá Carneiro, ao centro, com Freitas do Amaral, à esquerda, e Ribeiro-Telles, na altura das legislativas de dezembro de 1976

Alfredo Cunha

A tensão crescia e Sá Carneiro começava a ficar cada vez mais isolado na direção do partido, dizendo-se rodeado de conspiradores, quer soaristas quer eanistas – de quem também se afastava cada vez mais. O partido estava em crise, os deputados aprovavam no Parlamento a polémica Lei da Reforma Agrária à revelia do próprio líder e Sá Carneiro perdia a paciência.

“Alerto para a existência de esquerdistas inteligentes no PSD que não são mais do que submarinos do PS altamente anti-CDS e complexados esquerdisticamente”
Paulo Portas, com 15 anos

Na altura, um jovem de 15 anos chegou mesmo a escrever ao presidente do PSD em jeito de alerta para o estado em que o partido se encontrava – dizia que a Reforma Agrária era desastrosa e alertava para “a existência de esquerdistas inteligentes no PSD que não são mais do que submarinos do PS altamente anti-CDS e complexados esquerdisticamente”. O episódio, descrito na biografia de Marcelo Rebelo de Sousa, da autoria de Vítor Matos, lembra que esse jovem era nem mais nem menos do que Paulo Portas e o recado assentava que nem uma luva ao professor.

Em ruptura com as bases, Sá Carneiro opta assim, em finais de 1977, por se demitir da presidência do partido e por suspender a atividade de deputado, rumando a Paris.

Regressaria um ano depois para travar o primeiro grande duelo da história do PSD. A liderança estava agora a cargo de António de Sousa Franco, que dirigia a ala anti-sá-carneirista do partido, uma ala que defendia uma maior socialização da economia e o diálogo com o Partido Socialista. Era a ala dos “condicionais”, depois formalmente chamada de grupo das ‘Opções Inadiáveis’, do qual faziam parte nomes sonantes, como os fundadores Pinto Balsemão e Magalhães Mota, assim como Jorge Miranda, Guilherme d’Oliveira Martins, Marques Mendes, Rui Machete e até Marcelo Rebelo de Sousa, que se dividia entre a oposição radical ao presidente do partido e uma postura de conciliador, tentando traçar as pontes que já se sabiam impossíveis entre Sá Carneiro, Mário Soares e o Presidente Ramalho Eanes. Dos 73 deputados do PSD, 45 subscrevem o documento das “Opções Inadiáveis”.

Mas os ‘Inadiáveis’, que não tinham conseguido organizar-se no Congresso de Vale Formoso, em janeiro de 1978, também não o fizeram no do Hotel Roma, em julho do mesmo ano, e o partido volta a eleger Sá Carneiro em apoteose. Os condicionais saem derrotados desta batalha mas mantêm uma importante margem de manobra, já que dominam o grupo parlamentar do PSD – mas só até março de 1979, quando 37 deputados do PSD passam a independentes, ficando o PSD de Sá Carneiro reduzido a uma bancada de 36 parlamentares.

Para Marcelo, como se lembra na biografia escrita por Vítor Matos, o afastamento de Sá Carneiro naquela época tinha sido “inteligente”, uma vez que, quando voltasse a Lisboa, as bases do partido iriam seguramente reconfirmá-lo na liderança. “É o único presidente possível do PSD”, dizia Marcelo. Na altura era, de facto, e foi o que se verificou. Mas não sem antes deixar marcas no partido, com uma divisão profunda que levaria Sousa Franco a abandonar o PSD.

Soares e Zenha (não) há quem os detenha

A primeira grande disputa no seio do partido socialista ocorreu pouco depois, em 1980, e teve por base uma polémica desavença entre dois ‘irmãos’ de longa data. Mário Soares e Salgado Zenha conheciam-se desde o final da década de 1940, tinham sido ambos, na juventude, militantes do clandestino PCP e tinham fundado juntos o PS em 1973. Zenha só não tinha integrado o governo de Soares em 1976 por ser, na óptica do então primeiro-ministro, a “consciência moral” do partido – ficara por isso com a liderança da bancada parlamentar. Tinham até um slogan arrojado e encorajador: “Soares e Zenha não há quem os detenha”. Mas houve.

“Fiquei muito magoado com o Zenha. Fiquei sentido, surpreendido e irritado. É verdade. Foi o único caso, dada a natureza das nossas fraternais relações, que me deixou marcas”
Mário Soares, na biografia 'Mário Soares - uma vida'

Em 1980, nas vésperas das presidenciais que reconduziriam Ramalho Eanes, uma polémica em torno do apoio ou não à candidatura do general quebra a velha amizade. Eanes tinha manifestado alguma proximidade ideológica à Aliança Democrática então no Governo (com o PSD de Sá Carneiro, o CDS de Freitas do Amaral e o PPM de Ribeiro-Telles) mas isso não impedira Salgado Zenha, enquanto líder parlamentar, de conduzir o PS a declarar o apoio a um segundo mandato do Presidente da República. Mas Mário Soares é que era o secretário-geral do partido e, perante aquilo que considerou ser uma “traição”, declarou frontalmente numa reunião da Comissão Nacional que retirava o seu apoio a Eanes. Foi o suficiente para instalar a divisão entre as duas alas. E o necessário para Soares se afastar por alguns meses do partido.

O partido dividiu-se. Almeida Santos e Manuel Alegre ficaram ao lado de Mário Soares, mas já António Guterres e Jorge Sampaio, assim como Vítor Constâncio e António Arnaut, estavam juntos com Salgado Zenha.

Soares regressaria em 1981, refeito da “traição” e preparado para demolir a oposição interna. A proposta era radical: queria extinguir o Secretariado, que tinha ficado entregue a Constâncio, criando em seu lugar uma Comissão Permanente que seria formada longe dos críticos. No Congresso desse ano, no Coliseu de Lisboa, Mário Soares vinga e a sua moção – intitulada, note-se, “Um Novo Rumo para o PS” – que defendia uma coligação governativa PS/PSD, esmaga a dos adversários. O grupo oposicionista passou então a ser conhecido como o “ex-Secretariado”.

Este duelo de titãs terminaria com um xeque-mate, depois de um processo disciplinar movido por Soares ter convidado o então líder parlamentar a apresentar a demissão. Mas os feridos em combate não hastearam a bandeira branca e, aos poucos, o seu exército reorganizou-se. A sede? O famoso sótão da casa de Guterres em Algés, onde, diz quem sabe, cabiam 40 pessoas.

Soares e Zenha cumprimentam-se à entrada para os estúdios da RTP onde iria haver debate para as presidenciais, em janeiro de 1986

LUSA

A cisão era profunda mas Soares tinha os ventos a seu favor, levando o PS a vitórias eleitorais consecutivas. Foi o que sucedeu quando o governo de coligação da AD, então liderado por Pinto Balsemão, caiu e foram convocadas legislativas antecipadas para abril de 1983. Essas eleições dariam a vitória aos socialistas (Soares formaria depois o governo de Bloco Central com o social-democrata Mota Pinto), mas nas suas listas não constava nenhum nome do clã do ex-Secretariado. E só quando, em 1986, Mário Soares se candidata às presidenciais, sagrando-se vencedor depois de uma luta renhida com o centrista Freitas do Amaral (e onde Salgado Zenha também era candidato, apoiado por Ramalho Eanes), é que o ex-líder do Secretariado, Vítor Constâncio, consegue reaver a liderança do partido. Mas aí já Soares estava longe, no alto de Belém.

O Citroen de Cavaco chega e vence

No partido do lado, que por esta altura já se chamava PSD e não PPD, disputava-se em 1985 aquele que viria a ser o primeiro grande duelo dos sociais-democratas: Cavaco Silva sagrou-se vencedor na Figueira da Foz, derrotando João Salgueiro – o balsemista. O motivo da disputa também estaria relacionado com os apoios a candidatos à Presidência da República. Só mudavam as figuras.

Inicialmente, Cavaco não era sequer candidato. Tinha sido ministro das Finanças do governo de Sá Carneiro e há quatro anos que estava afastado de lugares de direção do partido. João Salgueiro, que representava a continuidade depois da saída de Balsemão e dos conturbados tempos da liderança colegial, a quatro, que deram depois origem à liderança de Carlos da Mota Pinto, era dado como o vencedor antecipado.

“Vamos ter este homem dez anos como primeiro-ministro e dez anos como Presidente da República...” - “Ó Marcelo, você está perturbado”

A ‘Nova Esperança’ de Marcelo Rebelo de Sousa, da qual também fazia parte Santana Lopes e José Miguel Júdice, já se tinha oposto ao sá-carneirismo e há muito que ameaçava entrar na corrida. Na biografia do professor, Vítor Matos recorda como, nas vésperas de partir para a Figueira no seu Volvo metalizado, Marcelo tinha dito aos filhos que podia voltar como líder, ou pelo menos tinha deixado escapar que se poderia candidatar – se não ganhasse, pelo menos marcava terreno. O professor tinha conversado dias antes com Cavaco que, sem grande alarido, tinha mostrado vontade de estar presente no Congresso. Mas apenas isso.

Cavaco não foi de Volvo, foi de Citroen. Alegadamente, para fazer a rodagem. Mas venceu. O Volvo, de todo o modo, decidiu não avançar. Certo é que “Cavaco chegou, viu e venceu”, como se lia dias depois nas páginas do jornal Tempo.

Picasa

Não é que a vitória tenha sido esmagadora – Cavaco quedou-se pelos 52%, apenas 57 votos a mais do que Salgueiro -, mas foi surpreendente. Em causa neste duelo estavam duas linhas antagónicas sobre o apoio ao candidato presidencial das eleições do ano seguinte.

Cavaco queria apoiar a candidatura de Freitas do Amaral (CDS) e, num discurso que o jornal Dia descreveu como “brilhante e incisivo”, justificou a sua escolha. Seria mais ou menos assim: se Freitas do Amaral perdesse, havia o risco de avançar com a constituição de uma força política nova que iria “destruir” o PSD; e se Mário Soares ganhasse, o PSD seria “espezinhado pela onda vitoriosa dos socialistas”. Ou seja, o lema era “ele [Freitas do Amaral] para Belém e o nosso líder [que é como quem diz, Cavaco] para primeiro-ministro”. O discurso foi muito aplaudido pela grande maioria dos congressistas.

Mas não por Salgueiro, que rejeitava alianças com o CDS e defendia que, a um ano das presidenciais, o partido ainda não tinha esgotado as possibilidade de alinhar numa estratégia própria, quer fosse pelo apoio de um independente, quer fosse pela viabilização da candidatura de um militante do PSD – nesse sentido disse que o discurso de Cavaco tinha sido “de derrota e capitulação”.

“Parecia que o Congresso (da Figueira) ia apostar nas máquinas de jogo, mas acabou por se verificar que apostou contra os jogos da máquina”
jornal Dia, maio 1985

Mas seria de vitória. O mesmo jornal, na edição de 21 de maio de 1985, viria a sintetizar o duelo: “parecia que o Congresso ia apostar nas máquinas de jogo, mas acabou por se verificar que apostou contra os jogos da máquina”.

Terminado o Congresso que abriu portas ao cavaquismo, Marcelo Rebelo de Sousa, cuja ala lisboeta também tinha andado à bulha com a ala de Cavaco naqueles três dias de maio na Figueira, vaticinou num exasperado telefonema à companheira: “Vamos ter este homem dez anos como primeiro-ministro e dez anos como Presidente da República…” – “Ó Marcelo, você está perturbado”, responderia Rita Amaral Cabral. Perturbado ou não, a profecia revelar-se-ia acertada.

Cavaco venceria a eleições desse ano, mas com um governo frágil que, sem maioria absoluta, viria a cair dois anos depois. Convocadas eleições antecipadas para julho de 1987, Cavaco volta a vencer e o PSD torna-se o primeiro partido a conseguir maioria absoluta depois do 25 de abril. E quatro anos depois repetia a proeza, impedindo o PS de chegar à fasquia dos 30%.

O “choque” e a “traição” de Guterres

“Estou em estado de choque”. Esta foi a frase que ficou do desaire eleitoral socialista de 1991, proferida por António Guterres frente a uma plateia de jornalistas sedentos depois de Jorge Sampaio ter admitido a derrota, percebendo que os socialistas nem sequer tinham chegado aos 30% nas urnas e que o PSD de Cavaco reforçara a sua maioria absoluta. Guterres já começara a contar cabeças e a reorganizar o exército, com Jorge Coelho ao seu lado a controlar a máquina partidária. O objetivo era impedir a reeleição de Jorge Sampaio, que estava na liderança do partido desde 1989.

António Guterres derrota Jorge Sampaio no Congresso de 1992

Depois de ter ajudado a empurrar Sampaio para a liderança pós-Constâncio e de ter partilhado com Sampaio as famosas reuniões do sótão nos tempos do ex-secretariado da década de 80, chegava agora altura de o defrontar, frente a frente.

"Chegava de novo a hora de chafurdar na lama, num jogo que se sabia que não seria particularmente elegante"
Biografia de 'Jorge Coelho, o Todo-Poderoso', de Fernando Esteves

Na biografia de ‘Mário Soares – Uma Vida’, o autor Joaquim Vieira recorda uma entrevista de Sampaio onde ele fala do dia em que, “nas cerimónias do 10 de junho de 1991 [a escassos meses das legislativas], em Tomar, o doutor Soares, na frente de várias pessoas, me dá no fundo uma rabecada porque eu não fazia oposição suficiente”. E Soares chegou a confirmar – “Sampaio não fazia a oposição agressiva, contundente e destrutiva que poderia ter feito”. Soares falava de Sampaio como poderia ter falado nos mesmos termos sobre Constâncio – nenhum era para ele suficientemente bom para vincar as diferenças entre PS e PSD.

Guterres não era “o melhor do mundo”, diria Soares, mas era “o melhor possível”.

O duelo entre Guterres e Sampaio foi talvez o mais sangrento na história dos socialistas – talvez por ter sido também aquele onde as diferenças ideológicas foram maiores. A partir daí quase todas as sucessões foram mais ou menos concertadas dentro da mesma corrente socialista – até hoje. Num dos capítulos do livro ‘Jorge Coelho, o Todo-Poderoso’, Fernando Esteves recorda como, depois das disputas dos soaristas, dos gamistas (Jaime Gama tinha desafiado tanto Constâncio como Sampaio) e dos sampaístas, chegava “de novo a hora de chafurdar na lama, num jogo que se sabia que não seria particularmente elegante. O maior resistente venceria. As clivagens internas eram mais visíveis do que nunca”.

Chegava a hora, segundo descreve o mesmo autor, de os guterristas entrarem em cena, depois de intensos meses de preparativos no terreno, que lhes valeriam a acusação de traição, por alegadamente terem começado a contar espingardas antes do desaire nas urnas, vociferada na altura por António Costa, sampaísta de gema, numa entrevista ao jornal Público.

A campanha foi intensa e disputada no terreno, de norte a sul do país durante cerca de dois meses, mas Sampaio estava fragilizado pela derrota eleitoral enquanto Guterres estava fresco e pronto para a guerra.

Duelo entre Guterres e Sampaio foi talvez o mais sangrento na história dos socialistas - o mais premeditado e o de maiores diferenças ideológicas.

A consagração de Guterres chega no Congresso de fevereiro de 1992, com a máquina já toda oleada em torno da “vontade de transformar” (que serviu de nome à moção apresentada). Nomes como Almeida Santos, Jorge Coelho, José Sócrates e até o novato António José Seguro, então líder da juventude socialista, estavam alinhados com a ruptura personificada no guterrismo. E a vitória foi clara.

Na altura, como hoje, depois de Guterres ter anunciado que avançaria, só havia uma certeza: a de que o partido socialista sairia daquele duelo mais dividido do que nunca.

Nogueira Vs. ‘o sulista’ em direto do Coliseu

Aquele que foi apelidado de ‘o’ Congresso dos Congressos teve lugar em 1995, vestido de laranja. Estava superado o tabu de Cavaco, que tinha estado meses a fio sem desbloquear o impasse – recandidata-se ou não se recandidata? As presidenciais de 1996 estavam no horizonte e o ainda primeiro-ministro decide não se recandidatar à liderança do PSD. Tinham sido dez anos de liderança cavaquista, no partido e no governo (como Marcelo antecipara), que chegavam agora ao fim.

Quem se seguia? Quem iria dar o corpo às balas? É que o nome que dali surgisse seria também o nome que defrontaria Guterres nas eleições legislativas desse ano (1995). O duelo prometia ser duro, com todos os desafios que a sucessão de Cavaco colocaria ao vencedor. De um lado estava Fernando Nogueira, ministro dos governos de Cavaco e número dois do líder no partido, do outro estava José Manuel Durão Barroso, o ainda jovem ministro dos Negócios Estrangeiros que, apesar de Cavaco nunca o ter chegado a admitir, muitos viam como o seu favorito. Entre os dois estava Pedro Santana Lopes, o eterno “rebelde” já então apelidado de “enfant terrible” (jovem terrível).

Nogueira era o preferido do aparelho partidário, Barroso o favorito da opinião pública e Santana o favorito dos que queriam uma mudança radical pós-cavaquismo. Se a eleição fosse por diretas (votada por todos os militantes e não apenas pelos delegados, no Congresso) Barroso teria saído muito provavelmente vencedor. Santana não chegaria a ir a votos, e Barroso perderia por uma diferença de 33 cruzes. Era o braço de Fernando Nogueira que se levantaria no ringue, vencedor.

Fernando Nogueira sucede a Cavaco Silva na liderança do PSD

O tiki taka foi evidente, e a luta foi renhida até ao fim. A batalha final travou-se no Coliseu dos Recreios, em fevereiro de 1995, naquele que terá sido um dos mais “apaixonantes” congressos da história, por ter sido transmitido quase integralmente na televisão, com as recém-nascidas SIC e TVI a queimarem os primeiros cartuchos. Diz quem assistiu que era como estar a ver um jogo de futebol na televisão, mas durante três dias sem parar. O que não deixa de ser curiosa comparação porque houve na altura um telejornal (o das 20h de domingo, da SIC) que se esqueceu mesmo de noticiar o empate do Benfica na Luz frente ao União de Leiria, tal era a excitação jornalística perante o reality show político.

"Se ganhar Durão Barroso (...) ganhou um eixo sulista, elitista e liberal"
Luís Filipe Menezes

“Na reta final do Congresso a temperatura subia, subia, subia. Até aí a contenção verbal e a elevação das intervenções tinha sido a tónica dominante, mas qualquer pequena fagulha podia incendiar o Coliseu”, escrevia o Jornal de Notícias a 20 de fevereiro. A fagulha chamar-se-ia Luís Filipe Menezes, na altura vice-presidente do partido e acérrimo apoiante de Nogueira. É que foi o seu discurso, não o de Durão, não o de Nogueira, que ficou na memória de todos.

“Se ganhar Durão Barroso (…), ganhou um eixo sulista, elitista e liberal” diria Menezes, lançando a bomba e dando início a uma vaga de apupos, vaias e assobios que levariam à interrupção dos trabalhos. Tinha subido ao palco para explicar aos barrosistas as virtudes de Nogueira e havia até quem dissesse que estava a fazer um dos seus melhores discursos de sempre, mas acabara a atacar metade do país e isso saiu-lhe caro. Saiu do Coliseu a chorar e sem o cargo de vice-presidente.

“Pelo caminho deixou um vice-presidente e até à hora das votações ainda não tinha a certeza se ganhava”

O Correio da Manhã escreveria que a vitória de Nogueira tinha sido “sofrida”, mas, ainda assim, “os delegados apostaram na solidez”, ou no “seguidismo”, como diriam os opositores. Nogueira era a continuação de Cavaco, não sendo Cavaco. Barroso, derrotado por pouco, diria na noite de encerramento do Congresso que “não esquece nem nunca esqueceria os que acreditaram nele”. Viriam a valer-lhe para uma próxima candidatura.

No fim do duelo, baixaram-se as armas. E sem grandes feridas por sarar, Cavaco, que se tinha mantido equidistante e abstido de votar, felicitou e elogiou um e outro combatente. Barroso perdia por pouco o tão mediático duelo no Coliseu, mas o batalhão cor-de-laranja estava agora concentrado noutro alvo – António Guterres, aquele que dali a uns meses iria ensombrar o estado de alma social-democrata.

Marcelo frente a Santana. E por fim, Durão

Nogueira tinha vencido no partido mas viria a perder nas urnas, em outubro desse ano, nas eleições que deram vitória a António Guterres. O fraco resultado dos sociais-democratas provocaria a sua demissão. Ao mesmo tempo, em janeiro de 1996, Cavaco perdia também a corrida presidencial para Jorge Sampaio. Ou seja, enquanto o país parecia dizer que queria respirar da onda laranja, Guterres abria um novo ciclo socialista e deixava o PSD a deprimir-se nos bastidores.

Neste contexto, quem queria dar agora o corpo às balas e assumir a liderança do partido da oposição? Barroso podia ser um dos nomes preferidos do partido mas preferia guardar-se para melhores dias para não morrer na praia, como seria expectável que acontecesse a todos os líderes pós-cavaco, pelo menos enquanto durasse o estado de graça de Guterres. Foi Marcelo Rebelo de Sousa quem avançou, curiosamente conquistado por um telefonema do ex-líder da JSD, Pedro Passos Coelho.

Seria difícil ao professor dizer que não se o seduzissem ou desafiassem, confessa na biografia assinada por Vítor Matos.

Mas um mês antes de disputar, no Congresso de Santa Maria da Feira, a liderança com Pedro Santana Lopes, o professor tinha dito categoricamente ao jornal Público que “não, não e não!”, não avançava “nem que Cristo descesse à Terra”. Acabou por descer, depois de Marcelo se assegurar de que o partido estava coeso e de que conseguia a maioria de dois terços dos votos na sua moção. Ainda assim, desafiou Santana para um duelo, que foi disputado no palco do Europarque numa troca de galhardetes entre os dois velhos aliados da ‘Nova Esperança’. Santana diria que “não gostava de falsas unidades” e apresentaria uma moção, que foi esmagada pela de Marcelo. Nessa altura o então presidente do Sporting recuava e não ia a votos. Marcelo vencia e tornava-se líder do PSD.

Marcelo é eleito em Congresso em 1996

Os anos seguintes foram de relativa calma para Marcelo Rebelo de Sousa, que liderava o partido da oposição. Se tinha opositores internos, nenhum avançaria nos congressos seguintes. Santana permanecia como o eterno ‘outsider’ do poder instituído, mas não ia a votos (“Se você, Marcelo, precisar de colaboração sem abrir a boca, isso eu não lhe empresto”, diria em 1996). E Barroso pairava, movimentava-se, mas não assumia expressamente a candidatura à liderança. Argumento: o doutoramento que estava a fazer nos Estados Unidos.

Em 1999, Marcelo cede à pressão do caso Moderna e entra em ruptura com o líder do CDS, Paulo Portas, quebrando a reedição do projeto da Aliança Democrática. Apesar de muitos dizerem que podia dar a volta, para concorrer a primeiro-ministro, Marcelo decide afastar-se da liderança do partido, deixando a cadeira vazia.

Durão Barroso vence, por fim, em 1999

Durão Barroso voltava por esta altura dos EUA e, sem duelos ou disputas, é escolhido em Coimbra para ocupar o lugar. O lema era a “mudança”. “Não há sá-carneirismo sem Sá Carneiro, nem cavaquismo sem Cavaco”, diria no discurso de encerramento do Congresso. Era, dizia, o início do barrosismo com Barroso, o próprio. Mas seria o próprio Cavaco a não deixar os rótulos de ambos descolarem-se. Como lembra um artigo do Público de 1999, à saída do Congresso no pavilhão da Académica, uma senhora conseguira furar a barreira de segurança e, enfiando a cabeça no vidro aberto do carro de Cavaco Silva, gritara “eu sou a maior cavaquista do mundo” – ao que Cavaco responderia: “agora não, agora é barrosista”.

Santana Lopes vai pela primeira vez a votos para tentar derrotar Barroso.

Derrotado nas legislativas desse ano pela reeleição de Guterres, Durão Barroso volta a travar nova luta com os do costume – Marcelo e Santana, desta vez em Viseu, no ano de 2000. Ao fim de três ameaças, é a primeira vez que Santana vai efectivamente a votos, depois de defender uma alteração aos estatutos para permitir a realização de eleições diretas para líder. Mas acabou por ser Durão Barroso, que era contrário a esta ideia, o nome vencedor.

Prova de Viseu superada por Barroso, o resto já se sabe. Uma vitória laranja nas autárquicas nos finais de 2001 levaria à demissão de Guterres da chefia do Governo e obrigaria Sampaio a convocar eleições antecipadas. Durão Barroso chegava ao governo nessas eleições de 2002, mas sem maioria absoluta, obrigando-o a recorrer a uma coligação com o CDS de Paulo Portas – o mesmo que afastara Marcelo Rebelo de Sousa três anos antes e abrira indiretamente caminho à era Barroso. Daí em diante a liderança de Durão Barroso, simultaneamente no Governo e no partido, centra-se em “recuperar os estragos e o tempo perdido”, como diria num conclave no Coliseu que o viria a reeleger. E sem grande oposição interna.

No PS, Sócrates conquista a máquina

Sem a mesma fúria dos duelos de outrora, já que a luta foi bastante mais desequilibrada, José Sócrates conquista o Largo do Rato vencendo sem grande dificuldade Manuel Alegre e João Soares.

José Sócrates sucede a Ferro Rodrigues, depois de deixar cair Manuel Alegre e João Soares

Paulo Coutinho

Depois da demissão de Eduardo Ferro Rodrigues, em jeito de protesto pela não convocação de eleições após a saída de Barroso para Bruxelas, Jorge Coelho e António Vitorino eram apontados como os nomes mais fortes para a sucessão. Até o jovem António José Seguro, na altura líder da bancada parlamentar, se podia ter posto em bicos de pés e avançado com uma inscrição para o combate. Vontade nao lhe faltava e seria preciso Jorge Coelho, peso pesado da máquina partidária, telefonar a Seguro para travar as suas intenções.

Entretanto já o ex-ministro do Ambiente de Guterres tinha a máquina toda trabalhada. A luta de Sócrates, nessa altura, mais do que um duelo – a dois ou a três – travou-se nos bastidores, conseguindo que os nomes pesados do partido não só não avançassem como o apoiassem. Só o outro jovem da geração Guterres, Seguro, preferiu ficar à margem – não o apoiou mas também não avançou.

No Congresso que o elegeu, a luta dos votos para a direção foi disputada com Manuel Alegre e João Soares, mas os alegristas e os soaristas não foram suficientes e Sócrates chegou à liderança do partido em setembro de 2004 com o apoio de cerca de 80% dos eleitores em Congresso.

Mendes, Menezes e Manuela, as lutas pela sucessão

Derrotado nas urnas por José Sócrates, o PSD voltava a precisar de um novo líder. O duelo que se segue é entre Luís Marques Mendes e Luís Filipe Menezes, mas é o primeiro quem conquista a cadeira com uma votação confortável no Congresso (497 votos contra os 381 de Menezes).

“Não lhe adianta estar à frente de uma instituição de que não tem nenhuma capacidade de conduzir politicamente”
Pacheco Pereira, sobre Marques Mendes

Marques Mendes manteve-se como líder do PSD, na oposição ao governo, até 2007, mas não sem enfrentar uma intensa oposição interna. Em 2006, no Congresso social-democrata na Póvoa do Varzim, muitos diziam que Mendes não se aguentaria e que, caso a proposta que defendia de alteração dos estatutos para a realização de eleições diretas não fosse aprovada, devia demitir-se. “Não lhe adianta estar à frente de uma instituição de que não tem nenhuma capacidade de conduzir politicamente”, diria Pacheco Pereira na Quadratura do Círculo. Das duas uma: ou Marques Mendes conseguia aprovar as diretas e era reeleito, com a liderança legitimada, ou talvez saísse. Foi reeleito.

“Para mim chega, basta. É chegada a hora de ver os críticos de sempre nessa batalha pelo voto dos militantes"
Luís Filipe Menezes

Menezes leva a melhor em setembro de 2007, derrotando Marques Mendes nas segundas diretas da história do partido. “Ganhar tudo em 2009”, ano de legislativas, autárquicas e europeias, era o lema do então presidente da Câmara de Gaia.

Mas não chegaria até lá. Uma forte e crescente oposição interna – de Aguiar-Branco a Ferreira Leite, passando por Santana Lopes ou Passos Coelho – empurrava-o todos os dias para fora do barco. Até que caiu. “Para mim chega, basta”, disse, antes de atirar a toalha ao chão. “É chegada a hora de ver os críticos de sempre nessa batalha pelo voto dos militantes. Que tenham coragem em nome do PSD. Todos aqueles que durante estes meses indiciaram que poderiam ser bons líderes, bons candidatos a primeiros-ministros, está na altura de mostrarem que são carismáticos, mobilizadores, que têm ideias e que conseguem convencer as bases dos PSD, os portugueses”, disse no momento em que apresentava a demissão.

Luís Filipe Menezes bate Marques Mendes em 2007

2008. Nova vaga na São Caetano à Lapa. Seria preenchida por Manuela Ferreira Leite, eleita em diretas com 37,6% dos votos, à frente de Passos Coelho, que quase lhe pisava os calcanhares (com 31,7%), que por sua vez quase era apanhado por Santana Lopes (que conseguia 29,8% da votação). O despique foi cerrado, mas venceu a mais experiente, que queria ver o PSD regressar às suas origens da matriz social-democrata. Mas o desaire eleitoral de 2009, voltava a deixar a cadeira vazia.

Com Sócrates reeleito primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho é o escolhido, em abril de 2010, para liderar o PSD e a oposição ao governo minoritário de José Sócrates. A disputa aqui foi entre Passos, José Pedro Aguiar-Branco e Paulo Rangel. Mas neste duelo não houve feridas de guerra, nem tão pouco derrotados. Passos vence largamente e integra depois as duas outras alas nas suas listas de candidatos, e até de ministros.

Assis antes de Costa, ganha Seguro

No Rato, outra cadeira vazia. Com a queda do governo de Sócrates em 2011, o partido teria de se reorganizar para preparar o contra-ataque. Foi finalmente António José Seguro quem se chegou à frente, desafiado por Francisco Assis. A disputa até foi picante mas na hora de pôr a cruz Seguro conquistaria o partido sem dificuldades, com uma percentagem de votos superior a 67%.

"Já travei muito combates na minha vida política, já ganhei e já perdi. Hoje perdi, e digo sempre que é preferível perder para um camarada de partido do que perder em eleições exteriores"
Francisco Assis

Assis, que na altura representaria talvez a ala mais afecta à continuidade socrástica e que era assumidamente próximo de António Costa, assumiu a derrota com fair-play e mostrou-se disponível para participar na vida do PS de António José Seguro. Não havia por isso um grande knock-out. Como se veio a ver, Francisco Assis seria depois o cabeça-de-lista do PS às europeias de 2014 e, perante as circunstâncias, quando António Costa decide avançar contra Seguro, viria a manifestar o apoio público ao ainda líder do partido.

Mais ou menos pacíficas, mais ou menos sangrentas, as lutas pelas cadeiras deixadas vazias no Largo do Rato e na São Caetano marcaram, como se vê, a longa história dos partidos políticos portugueses. O palco das disputas por excelência era o Congresso, onde a palavra proferida no palanque era usada como arma de arremesso. Este ano, as primárias socialistas de setembro serão inéditas, sendo a primeira vez que não só militantes como simpatizantes são chamados a escolher o vencedor,que será candidato a primeiro-ministro. À semelhança de Barroso, António Costa esperou para avançar e, como Guterres, só avançou quando sabia que causaria estragos. Hoje como antes, contam-se espingardas e alinham-se as tropas. O resto, é esperar para ver qual o braço que se vai erguer no ringue.

Reveja nesta cronologia interativa as treze maiores lutas de poder da história dos partidos:

 

*artigo atualizado dia 10 de setembro

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