Dylan, Brandon e a TV de sábado à tarde: quando vivíamos todos em "Beverly Hills 90210" /premium

Em Portugal era a "Febre em Beverly Hills" e era um conjunto de clichés que adorávamos ver. A propósito da morte de Luke "Dylan" Perry, Susana Romana recorda uma série clássica.

Comecemos esta homenagem da pior maneira possível: “Beverly Hills 90210” não era grande coisa como série. Eu sei, a nostalgia tem essa capacidade de dourar a pílula do nosso passado, de nos convencer que no nosso tempo é que era, que esta malta agora sabe lá o que é televisão (ou sequer o que é a vida, coitadinhos).

Estreado em Portugal com o peculiar nome “Febre em Beverly Hills” (no Brasil era ainda mais bizarro: “Barrados No Bairro”), picava o ponto em todos os clichés: os triângulos amorosos, as rivalidades entre amigos, os ricos contra os pobres, a droga, a descoberta da sexualidade, o humor ao de leve que estas agruras da adolescência são mesmo a doer. E mesmo assim foi importante nas nossas vidas, criou um “antes” e um “depois”, inspirou posters e recortes a forrar o dossier da escola. Caramba, eu até fiz a colecção de cromos da Paninni (actualmente à venda completa por 35 euros nos sites da especialidade, caso estejam interessados).

Como o nome – que é basicamente o código postal da zona onde se passa a acção – indica, a série passa-se na sempre fotogénica Califórnia. Ora da Califórnia para os subúrbios da linha de Sintra, onde cresci, vão tantas diferenças que nem sei por onde começar. A isto acresce que eu não tinha a idade dos protagonistas, finalistas de liceu com carro próprio, empregos em part time e vidas amorosas sumarentas. Eu tinha 11 ou 12 anos, acho que ainda colecionava Pinypons e nunca tinha sequer dado um beijo com língua.

[a abertura de “Beverly Hills 90210”:]

Aquelas ânsias e preocupações não eram as minhas – mas eu achava que sim. O “Beverly Hills 90210” marcou o tom que as séries juvenis têm há décadas: o de serem aspiracionais. Eu queria aqueles problemas, aqueles dramas. Como qualquer pré-adolescente, eu misturava uma profunda impreparação para o mundo real com uma pressa afoita por crescer. Acho que é por isso que todos olhamos para os pré-adolescente com condescendência: estão tão errados à cerca de tanta coisa. Mas é assim que tem que ser, porque só passar pelas experiências é que traz algum rigor científico a esta tarefa penosa (e interminável) que é crescer.

Por isso, antes de haver uns “Morangos Com Açúcar” ou até uns “Riscos” que se aproximassem minimamente de alguma ideia de portugalidade, tínhamos uns betos norte-americanos que nos entravam pela casa adentro aos sábados à tarde, via Canal 1 da RTP. A primeira questão óbvia, da qual não podemos fugir, é que todos víamos aquilo porque eles (e elas) eram giros. Muito giros. De fazer gastar a parca semanada numa Bravo em alemão, da qual não percebíamos uma única palavra, só por causa do poster das páginas centrais (uma instituição que, ao contrário do mito urbano, sobrevive por causa das pitas e não tanto por causa dos mecânicos que querem pujantes seios a decorar as suas oficinas).

O mundo dividia-se então entre quem preferia o Brandon e quem era da equipa do Dylan (nunca conheci nenhuma ave rara que preferisse o Steve ou o Brian). Um era mais certinho, outro era o rufia com bom coração. A fórmula é batida, mas repete-se porque continua certeira.

Eram essencialmente oito as personagens que se zangavam e reconciliavam em loop, anos a fio:

Os gémeos Brandon e Brenda Walsh (Jason Priestley e a famosamente insuportável Shannen Doherty) davam o mote. Ele muito bonzinho, uma espécie de bússola moral da série, mas mesmo assim sucumbindo ao vício do jogo, que toda a gente sabe que a roleta é uma questão muito relacionável para a pequenada. E ela com sede de popularidade e a missão de não passar uma imagem de pobretanas junto dos novos colegas ricos, resultando numa pseudo heroína à qual na verdade só queríamos dar estalos;

A némesis de Brenda era a loiríssima Kelly Taylor (Jennie Garth), uma mimada que na verdade se torna na personagem que mais muda ao longo da série, porque serem todos insuportáveis era dose;

O outro loiro bimbo e com uma vivenda à Ricardo Salgado e um carro à Ricardo Quaresma era Steve Sanders – o actor Ian Ziering é de tal modo o estereótipo do canastrão que acabou a protagonizar os filmes do “Sharknado”;

Depois havia aquela com ar de ser tia deles todos, a marrona tímida Andrea Zuckerman (Gabrielle Carteris), que aparentava ter 42 anos mas tinha supostamente 17;

E a Donna Martin (Tori Spelling), para sempre conhecida como “aquela que tinha o carisma de um frasco de feijão frade mas era filha do produtor e criador da série”;

O puto David Silver (Brian Austin Green), o saco de pancada que acabou por, com o passar das temporadas, se tornar no galã, que os outros actores tinham filmes maus para irem protagonizar e foram saindo da série;

E, claro, o Dylan McKay (Luke Perry), o bad boy incompreendido, o amor da vida da Brenda e provavelmente a única personagem tridimensional de toda a série.

As personagens e os intérpretes: Steve (Ian, Ziering), Kelly (Jennie, Garth), Donna (Tori Spelling), David (Brian Austin Green), Andrea (Gabrielle Carteris), Brandon (Jason Priestly), Brenda (Shannen Doherty), Dylan (Luke Perry)

O mundo dividia-se então entre quem preferia o Brandon e quem era da equipa do Dylan (nunca conheci nenhuma ave rara que preferisse o Steve ou o Brian). Um era mais certinho, outro era o rufia com bom coração. A fórmula é batida, mas repete-se porque continua certeira. E a verdade é que era o magnetismo das personagens e dos actores que lhes davam corpo que criava do fenómeno “Beverly Hills 90210”.

A história era pouco mais que telenovela bem feita – e devo admitir que me lembro de muito pouco da trama. Um casal de irmãos gémeos mudava-se para um bairro muito mais rico do que estava habituado. E depois ambos faziam amigos e inimigos no liceu, pronto. Nenhum episódio me ensinou nada assim tão memorável sobre a vida. Mas tenho que admitir: eu era mais fã do “Já Tocou” (no original, “Saved By The Bell), uma sitcom para um público semelhante que surgiu à boleia do sucesso da rapaziada de Beverly Hills. Isto é o equivalente televisivo de não beber Coca Cola, mas sim Pepsi.

Arrisco dizer que a maioria de nós não se lembrava de  “Beverly Hills 90210” até ter sido confrontado com a morte de Luke Perry, o tal bad boy, o Dylan das nossas memórias. Sempre que morre um símbolo da nossa juventude, somos confrontados em como envelhecemos, em como tudo isto é efémero.

Nós, os que crescemos com esta série, já há muito evoluímos para outros destinos televisivos, sejam eles mais “Breaking Bad” ou mais “Anatomia de Grey” (esta última não assim tão longe do mesmo território, versão “já temos uma carreira mas os problemas amorosos continuam semelhantes, irra”).

Arrisco dizer que a maioria de nós não se lembrava de  “Beverly Hills 90210” até ter sido confrontado com a morte de Luke Perry, o tal bad boy, o Dylan das nossas memórias. Sempre que morre um símbolo da nossa juventude, somos confrontados em como envelhecemos, em como tudo isto é efémero. Depois passa, claro, que a sanidade mental a isso obriga. Mas durante uns minutos pensamos que aquele tal estudante de liceu californiano tinha 52 anos e problemas cardiovasculares, e é um confronto com a realidade que não nos apetece fazer às nossas memórias, sempre tão enchidas de sacarose pela passagem do tempo.

[A cena em que Brandon conhece Dylan:]

Nas minhas redes sociais, Luke Perry foi sobretudo recordado por pessoas entre os 30 e os 45 anos, sensivelmente. De repente, uma série de posts com RIP e emoticons tristes invade o meu Instagram. A sua autora: a minha sobrinha de 13 anos. “Como raio é que a miúda conhece o Dylan?”. Na verdade, não conhece – mas sabe quem é Fred Andrews, a personagem que é o pai do protagonista da série teenager da Netflix “Riverdale”. Luke Perry continuou na vida dos adolescentes, porém numa série claramente superior a “Beverly Hills 90210”, lamento informar. Mas que só é possível por causa da sua pioneira, aquela que mostrou o apelo e o potencial dos dramas para esta franja de público. O legado continua, revisto e melhorado.

Susana Romana é argumentista e professora de escrita criativa

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