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"É fundamental não estar a fazer coisas ao bebé, mas sim a fazer coisas com o bebé" /premium

Cuidar de um recém-nascido é também tocar-lhe, trocar olhares com ele e brincar. Em entrevista ao Observador, a psicóloga e professora universitária Rita Antunes desmistifica o termo "vinculação".

A primeira relação que um bebé tem com a sua figura de referência dura uma vida inteira e serve de plataforma para que este explore o mundo com confiança e segurança. A vinculação de que tantos profissionais de saúde falam é essencial e dita as formas de socialização de uma criança. Explicar isto aos pais é parte do trabalho de Rita Antunes, psicóloga clínica e professora universitária, que, na última sexta-feira, dia 11 de janeiro, falou para uma plateia composta sobre “a importância do vínculo emocional no desenvolvimento do recém-nascido” no âmbito de um curso de neonatologia promovido pela rede CUF.

Finda a intervenção, Rita Antunes conversou com o Observador. Em menos de 30 minutos de entrevista, a psicóloga clínica explicou como é importante comunicar com um recém-nascido, seja através do olhar ou do toque, e como brincar é mesmo o melhor canal de comunicação com a infância: “Muitas vezes, a nossa preocupação em fazer tudo corretamente do ponto de vista dos procedimentos formais, de higiene, de cuidados, etc, é tão grande que nos esquecemos destas questões chave: do olhar, do sentir, do tocar, do despertar outro tipo de reação, do estar mas disponível… Ficamos todos muito cronometrados nesta angústia de fazer tudo bem.”

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Fala-se muito em vinculação. Do que se trata?
A vinculação é uma relação primária, estabelecida com a figura de referência do bebé. É uma relação consistente, não transitória, que se mantém ao longo da vida. Isso leva ao que chamamos de vinculação segura, o que é desejável — é a relação básica, primária, que estabelece o modelo de confiança que a criança terá, mais tarde, na forma como lida, vê e interage com o mundo exterior.

O que quer dizer com relação “não transitória”?
É no sentido de que fica para todo o sempre no próprio, não é uma fase. É um modelo que fica para sempre, outras pessoas depois entrarão [na vida do bebé], vão é seguir o mesmo modelo inicial de relação. É como se o bebé na relação primária aprendesse a forma de apreender e de se relacionar com o mundo exterior. Não é transitória nesse sentido, transita depois de pessoa em pessoa, mas o modelo é o mesmo — é uma relação de confiança.

Não há só uma figura de referência, mas há uma primeira figura de referência?
Sim, exatamente. Relativamente à figura primária de referência… estamos, de uma forma generalista, mais orientados para falar na figura materna, por todo o desenvolvimento físico, por todas as condições que foram criadas ao longo da gestação. A verdade é que, felizmente, ao longo dos últimos anos há cada vez mais orientações para a importância de outro elemento — falamos do pai. Então, há duas figuras de vinculação de referência importantíssimas — o pai e a mãe (é importante não descurar que há outras formas de família).

Estas duas figuras de vinculação de referência serão o canal condutor, de ajuda e de suporte, para a criança explorar o mundo e o exterior com confiança, com a noção do que é o limite entre nós e os outros e com todo o repertório de comunicação associado: o compreender o outro lado, o observar antes de responder, o poder gerir tempos de espera, o poder estar e percecionar o outro e, dessa forma, responder-lhe melhor. Tudo isto são modelos primários que levamos connosco e que, sendo mais seguros e consistentes, permitem-nos estabelecer relações mais saudáveis com o exterior. É importante haver um terceiro elemento, para que exista a mediação das diferentes forças, para que as relações sejam mais saudáveis.

"A verdade é que, felizmente, ao longo dos últimos anos há cada vez mais orientações para a importância de outro elemento — falamos do pai. Então, há duas figuras de vinculação de referência importantíssimas — o pai e a mãe (é importante não descurar que há outras formas de família)."

Também por uma questão de equilíbrio?
Exatamente.

A vinculação é inata, mas isso não deve servir para desresponsabilizar os pais tendo em conta a criação do vinculo…
O conceito inato parece que nos pode tirar retirar deste papel mais ativo de fazermos e de estarmos. A verdade é que o reportório existe, está amplamente documentado e, de facto, as ferramentas vêm com [o bebé]… mas se não forem usadas ou estimuladas, de nada servem.

A que ferramentas se refere?
Falo de todo o reportório de comunicação verbal e não verbal que o bebé traz. São as coisas práticas dos cinco sentidos: o olhar, o tato, o paladar, a audição, o olfato… todas estas questões. Nós vimos apetrechados de tudo isto. Não é ao acaso que uma das nossas definições enquanto ser humano remete para sermos um ser social, trazemos estes canais.

Rita Antunes é psicóloga há mais de 10 anos, além de professora.

A comunicação visual é um dos canais mais importantes?
É um dos canais mais imaturos inicialmente, mas que deve ser muito estimulado e muito investido. Não é ao acaso que se fala muito — mesmo na investigação — na dança do olhar, nas trocas do olhar. Estas questões são fundamentais para tudo aquilo que é o reportório de comunicação verbal que será adquirido muito mais tarde — para ter noção do eu e do outro, da importância de se estabelecer um diálogo, de haver tempos de intervenção e tempos de observação ou de audição. O olhar é fundamental desde o início.

Quando é que um recém-nascido começa a ter noção de que a pessoa que desapareceu do seu campo de visão continua a existir? Ao início, o que desaparece no campo de visão deixa de existir…
Por volta dos seis, oito meses existe a ansiedade de separação, mas também a angústia do estranho, que é um sinal muito saudável de uma vinculação segura, que implica distinguir a mãe do outro. Falo também da segurança ao nível das instituições educativas, no sentido em que são capazes de dizer “o bebé faz isto na sua presença mas, cinco minutos depois, está bem”. Isso significa que o bebé conseguiu regular-se na ausência da figura de referência, significa que é uma vinculação segura porque não ficou inconsolável o resto do tempo. Isso é também um dos pontos fulcrais para aquilo que no desenvolvimento será a aquisição da permanência do objeto — a aquisição total da permanência do objeto que é sabermos que haverá retorno mesmo na sua ausência.

"Por volta dos seis, oito meses existe a ansiedade de separação, mas também a angústia do estranho, que é um sinal muito saudável de uma vinculação segura, que implica distinguir a mãe do outro."

As rotinas são encaradas enquanto oportunidades para a criação de vínculos. Pode explicar?
Por excelência, nos primeiros dias do recém-nascido são maiores os períodos em que este está a dormir do que está ativo e disponível para a relação. As janelas de oportunidades para a interação inicial são, sem dúvida, as rotinas, que é quando a criança está mais disponível para interagir. Muitas vezes, a nossa preocupação em fazer tudo corretamente do ponto de vista dos procedimentos formais, de higiene, de cuidados, etc, é tão grande que nos esquecemos destas questões chave: do olhar, do sentir, do tocar, do despertar outro tipo de reação, do estar mas disponível… Ficamos todos muito cronometrados nesta angústia de fazer tudo bem. As rotinas também são importantes para podermos conhecer melhor o ritmo do nosso bebé e ajustarmo-nos a ele.

A vinculação segura poderá ser tão importante para o bebé como a criação de rotinas?
Sim, é fundamental. A rotina é um organizador externo por excelência, vai organizar o bebé também na relação com o mundo — e estando ele mais organizado, também estará mais disponível e mais harmonia existe no estabelecimento de uma vinculação segura. Algo sem rotinas e sem um padrão de seguimento e de aprendizagem é dificilmente seguro.

Às vezes, com tanto trabalho, criar uma vinculação é a última coisa em que pensamos. É importante que o profissional de saúde alerte os pais para esta lacuna?
É fundamental. As questões básicas não são básicas de simples, são a base de tudo. Se tivermos e construirmos uma boa base, uns bons alicerces, tudo o resto vai acontecendo com a mesma segurança e a mesma consistência — claro que com curvas e contracurvas do percurso do desenvolvimento. É fundamental irmos alertando os pais para a importância da disponibilidade, de não estar só por estar, de não estar a fazer coisas ao bebé, mas sim a fazer coisas com o bebé.

Brincar também é comunicar?
Exatamente. Brincar é o maior canal de comunicação com a infância.

É recomendável que os pais brinquem com os bebés?
Altamente recomendável, por excesso.

"Muitas vezes, a nossa preocupação em fazer tudo corretamente do ponto de vista dos procedimentos formais, de higiene, de cuidados, etc, é tão grande que nos esquecemos destas questões chave: do olhar, do sentir, do tocar, do despertar outro tipo de reação, do estar mas disponível... Ficamos todos muito cronometrados nesta angústia de fazer tudo bem."

Há bebés mais irritáveis do que outros e será, por ventura, mais difícil de comunicar e interagir com eles. Que conselhos dá aos pais que se encontram nesta situação?
Os bebés com um temperamento mais irritável estão menos disponíveis para estas interações. Por vezes, até têm padrões mais irregulares, o que faz com que seja mais difícil para os pais compreenderem e seguirem o ritmo do bebé. Acima de tudo, [aconselho] os pais a procurarem uma rede de suporte familiar — através dos familiares mais próximos –, que os ajude na logística e também que os permita descansar. Os pais também sofrem uma grande alteração nas suas próprias rotinas e daí advém um grande cansaço. Às vezes, é esse cansaço que os inibe de alguns movimentos mais pro-ativos nesta questão [da criação do vinculação]. De facto, existem bebés que são mais irritáveis, mesmo dentro de uma fratria, em que há diferentes filhos.

Também há mães que não conseguem desenvolver um laço afetivo com o bebé…
Enquanto profissionais de saúde, é muito importante encaminharmos uma situação destas para um acompanhamento especializado, além da rede de apoio familiar, para agirmos precocemente. Quando uma figura de vinculação não está disponível… haverá outras figuras. Podemos falar ou pensar noutras realidades e, efetivamente, todas as orientações são no sentido de haver figuras de referência para aquele bebé, figuras que lhe permitam vincular-se com determinada pessoa e criar um modelo interno de relação para o futuro que seja positivo e saudável.

Porque é que há mães que não gostam dos filhos?

A depressão pós-parto ainda é uma realidade muito presente?
É muito comum em termos de diagnóstico. Por vezes, existe apenas a fase do dito “blues pós-parto” [“baby blues”] e que é transitória. Quando isso vai além dos 2 ou 3 meses após o nascimento do bebé, e quando se vão encontrando outros sinais na relação e na disponibilidade da mãe com o bebé e com o mundo exterior, então, é nosso dever intervir de alguma forma, dependendo do nosso papel.

A longo prazo, qual o impacto numa criança que não usufrui de uma vinculação segura?
Aquilo que está mais reportado, e que é uma preocupação cada vez maior, remete para as alterações do comportamento e para as crescentes queixas de diagnósticos dessa natureza. Depois, também tudo o que tem que ver com a relação com o exterior, como existir padrões desajustados de relação que podem a levar a desvios de conduta. Obviamente, nada disto é causa-efeito. Estamos a falar de um aumento de probabilidade para… É preciso ter em conta a capacidade de resiliência do ser humano e de adaptação, o que pode mudar todo o ciclo destas variáveis. De facto, encontramos na mesma fratria irmãos que conseguiram, perante situações adversas, ter uma capacidade de adaptação mais positiva do que outros — isto tem que ver com resiliência, com a capacidade do próprio em se adaptar a situações adversas e de ultrapassar obstáculos. Agora, em termos da vinculação segura… o impacto é no desenvolvimento posterior e na relação com o mundo. As questões muito comuns são as perturbações de ansiedade, as perturbações do comportamento e maiores dificuldades de adaptação a novos contextos…

Muitas vezes diz-se que uma criança sem afeto é um adulto que não vai saber mostrar afeto. É verdade?
Isso encontra-se, efetivamente. Os padrões que tivemos na nossa infância são replicados mais tarde. Muitas vezes nos papéis de pais e de mães revemo-nos em algumas atitudes que já aconteceram connosco. Por vezes existem condutas mais direcionadas para a funcionalidade das tarefas e não tanto para a relação… Nessa perspetiva, existe muito a refletir. Primeiro somos gostados para depois aprendermos a gostar. É nesta base que nos vamos relacionar com o mundo. Claro que existirão muitas outras experiências que podem ser reparadoras, mal seria se isso não acontecesse, mas uma boa relação primária é meio caminho andado nesta relação com o mundo e tendo em conta a disponibilidade do nosso afeto para com o outro.

"Agora, [falar em] excesso de colo, excesso de mimo, quando é dado de uma forma consistente, não faz sentido."

Há algum momento em que há afeto a mais, em que há colo a mais?
Talvez uma generalização do conceito possa advir da preocupação de relações mais patológicas, menos saudáveis, que não permitem à criança explorar o mundo — a criança fica apenas naquela relação dual, de “eu é que sou o principal cuidador e capaz de prestar tudo o que precisas”. O excesso numa perspetiva de padrão não é saudável. Agora, [falar em] excesso de colo, excesso de mimo, quando é dado de uma forma consistente, não faz sentido.

Há sinais de alerta nesta questão da vinculação. Pode explicar?
A indiferenciação entre as figuras de referência e as restantes pessoas, mesmo perante desconhecidos. Aí, a criança não tem o limite interno, não consegue estabelecer esse limite na relação com o exterior. Isso pode colocá-la em risco.

Essa indiferenciação pode influenciar a forma como a criança vai lidar com o mundo?
Sim, e a forma como se vai expor ao outro.

Como é que se dá a volta a isto?
Trocando algumas opiniões. Por vezes existem chamadas de atenção que em algumas fases da vida nos deixam mais angustiados. Conversar com profissionais de saúde de referência, que melhor conhecem aquela família e aquela relação, e com os profissionais de educação pode ser uma boa forma de refletir sobre as nossas angústias, para percebermos o seu fundamento e para procurarmos, quando assim entendemos, respostas mais especializadas.

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