E se o Estado Islâmico estiver a desaparecer?

08 Junho 2016

O EI está a perder território, mas há quem ache que é cedo para cantar vitória. "A ideologia não se mata à bomba." Peritos admitem que EI pode fazer novo atentado na Europa para reverter queda.

É pouco provável que Abu Bakr al-Baghdadi, líder máximo e califa do Estado Islâmico, esteja ele onde estiver, se entretenha a passar o tempo a ler os livros de Mark Twain. Seja num palácio em Raqqa, numa casa discreta em Mossul, ou num esconderijo algures entre estas duas cidades, é difícil imaginar aquele homem de porte largo a folhear, por exemplo, a autobiografia daquele influente autor norte-americano. Mesmo assim, faça-se esse esforço e imagine-se o homem de barbas a sublinhar com um lápis mordido a já conhecidíssima citação do autor de bigode: “As notícias da minha morte foram grandemente exageradas”.

Não seria a primeira vez que os líderes do Estado Islâmico teriam oportunidade de o fazer. Em 2008, quando ainda era uma organização subsidiária da al-Qaeda, no Iraque, o Estado Islâmico esteve às portas da morte, empurrado pela operação “Despertar de Anbar”. Anbar é a região Oeste do Iraque, onde fica situada a cidade de Mossul, um dos bastiões daquele grupo. Na altura, liderados por Abu Omar al-Baghdadi, o grupo quase sucumbiu perante o avançar das tropas norte-americanas. Dos 15 mil membros do Estado Islâmico dessa altura, 2 400 morreram e 8 800 foram capturados. Praticamente só lhes restou a clandestinidade em Mossul. E, entre outras coisas, a clandestinidade é feita de uma coisa: a espera.

Abu Bakr al-Baghdadi, califa do Estado Islâmico, no célebre discurso na Grande Mesquita de Mossul, em julho de 2014

E, do ponto de vista do Estado Islâmico, a espera terá valido a pena. No início de 2011, pouco depois de a Primavera Árabe se alastrar um pouco por todo o Médio Oriente, começou a guerra na Síria. Abu Bakr al-Baghdadi, que tinha assumido o posto mais alto naquela organização um ano antes, mandou agentes para a Síria, que teria como missão estudar a situação naquele país, a fim de perceber se o califado tinha ali uma oportunidade de ouro para vingar.

Teve. A história é sobejamente conhecida. Em março de 2013, a cidade síria de Raqqa é conquistada ao regime de Bashar al-Assad por uma míriade de grupos da oposição, entre moderados e extremistas. Acabam por ser estes últimos a prevalecer em Raqqa, sob a égide da frente al-Nusra, entretanto fundada por Abu Muhammad al Julani, um dos agentes que al-Baghdadi enviou para a Síria em 2011. Os antigos aliados entraram em confronto aberto, com a al-Qaeda a tomar o lado da al-Nusra e, assim, cortando laços com o Estado Islâmico. Mas pouca diferença fez: foi al-Baghdadi quem levou a sua avante, conquistando Raqqa em janeiro de 2014. Ainda nesse ano, viriam a tomar Mossul, no Iraque, e várias cidades na Síria.

"Aos poucos, começamos a assistir à decadência do Estado Islâmico. Mais tarde ou mais cedo, eles vão perder Raqqa às mãos de alguém. Resta apenas saber quem é esse alguém."
Nick Wittney, antigo diretor da Agência Europeia de Defesa

Fizeram-no pela força das armas e de bombas. E também entraram pelas televisões do mundo inteiro, passando do aparente anonimato para um reconhecimento obscuro. Muito do que se veio a saber, ou a supor, surgia através da máquina de propaganda do próprio Estado Islâmico — são disso exemplo os vídeos de decapitações, entretanto praticamente banalizados. E não demoraram a chegar a outras coordenadas. Além de terem expandido a sua rede para a Nigéria (via Boko Haram, que jurou a bandeira do Estado Islâmico) e para a Líbia, os fiéis a al-Baghdadi levaram a cabo atentados em Paris e em Bruxelas.

Terá o Estado Islâmico uma morte anunciada?

Junho de 2016 está longe de ser 2008 — o Estado Islâmico continua a ocupar uma área superior a vários países, como é o caso de Portugal; é dono de um aparato militar que lhe permite, para já, combater e defender-se; e acredita-se que conta com uma rede de agentes dentro da Europa. Mas, a verdade inegável, é que o Estado Islâmico também já teve dias melhores. Neste momento, o exército iraquiano está às portas de Mossul e de Falluja. Enquanto isso, o exército de Bashar al-Assad recebeu o balão de oxigénio russo, que lhe permitiu recuperar alguma vantagem numa guerra que ia a seu desfavor. E enquanto lidera uma rede internacional de bombardeamentos aéreos ao Estado Islâmico (e também à al-Nusra), os EUA ajudam financeira e tecnicamente tropas dos curdos peshmerga.

Soldados curdos durante um combate contra o Estado Islâmico

A pergunta, embora recorrente, pode ser mais pertinente do que nunca: será este o início do fim do Estado Islâmico?

“Eles estão vetados ao fracasso desde que começaram”, diz ao Observador Nick Wittney, antigo diretor da Agência Europeia de Defesa e atual investigador sénior do European Council on Foreign Relations. “Eles não têm os recursos necessários [para durar], não têm amigos na região, não têm futuro na Líbia…”, diz, enumerando ao telefone, a partir de Inglaterra, algumas das fragilidades do Estado Islâmico. “Aos poucos, começamos a assistir à decadência do Estado Islâmico. Mais tarde ou mais cedo, eles vão perder Raqqa às mãos de alguém. Resta apenas saber quem é esse alguém. Mas pelo que vemos hoje, dou-lhes mais dois anos na Mesopotâmia e outros cinco na Líbia. Depois disso, vai ser complicado para eles”, garante o britânico.

Até porque já é complicado agora. Um dos traços distintivos — e também razão da sua cisão — entre Estado Islâmico e a al-Qaeda, é que o grupo atualmente liderado por al-Baghdadi acredita na fundação de um califado como forma de atingir o poder e combater os seus inimigos, ao invés de uma postura assente na sombra da clandestinidade. Assim, precisa de território. E é o território que o define, na sua versão atual. Por isso, Wittney é claro a identificar aquela que acredita ser a maior prioridade do Estado Islâmico neste momento: “Não perder em mais lado nenhum”. “Eles precisam de não deixar cair Falluja e não podem perder Raqqa. Quando isso acontecer, a obliteração total do califado estará perto”, acrescenta.

O “germe” da ideologia

Há quem discorde do aparente otimismo de Wittney. É o caso de Witse van de Berge, professor na Universidade de Leiden, na Holanda, e especialista no estudo do terrorismo. “Não me parece que isso [o fim do Estado Islâmico] possa acontecer a curto prazo”, diz ao Observador pelo telefone. “Isto porque vai levar algum tempo até ser arranjada uma alternativa política naquela região, que consiga pacificar sunitas no Iraque e na Síria. Enquanto isso não acontece, o Estado Islâmico conseguirá sobreviver de uma forma ou de outra”, garante o académico holandês. “Eu já fiz algumas entrevistas com árabes sunitas que viviam em territórios do Estado Islâmico. Eles diziam-me que não gostavam deles, mas depois também desconfiavam de qualquer outra alternativa. Não gostam dos xiitas porque, dizem eles, ‘violam as nossas mulheres e são criminosos’, desconfiam dos curdos porque dizem que não têm nada a ver com eles. E, para já, o Estado Islâmico é a única alternativa sunita que muitas destas pessoas têm.”

Para van de Berge, a experiência repressiva do Estado Islâmico não é mais do que uma continuação de hábitos antigos na região do Médio Oriente. “Muitas pessoas pensam assim. Os iraquianos e os sírios estão habituados a serem reprimidos e a serem presos por razões descabidas. De certa forma, peculiar, admito, o Estado Islâmico não é assim tão estranho quanto isso para estas pessoas”, explica. “O Estado Islâmico está a criar uma maneira de viver estável, mesmo que de forma negativa, dentro daquilo que é uma interpretação radical do Corão e da ideologia sunita”.

"É claro que a derrota do Estado Islâmico terá de ter sempre uma componente militar, como forma de garantir que eles desaparecerem fisicamente. Mas, depois disso, temos de nos assegurar de que descapacitamos esta ideologia. Temos de tirar os germes do solo."
Serge Stroobants, perito militar e representante europeu do Institute For Economics and Peace

E, quanto à ideologia, não há estratégia militar que sirva de antídoto. Abstrata mas omnipresente, a ideologia revela-se de difícil combate. “A ideologia não se mata à bomba”, atira o belga Serge Stroobants, perito militar e representante europeu do Institute For Economics and Peace. “O Estado Islâmico é fruto de uma ideologia. O problema é a ideologia, que resultou no Estado Islâmico, mas podia ter resultado em qualquer outra coisa. E ainda vai a tempo de resultar noutros grupos, noutras formas de terrorismo e de ataque. Para isso, basta uma janela de oportunidade, como foi a Síria”, garante. “É claro que a derrota do Estado Islâmico terá de ter sempre uma componente militar, como forma de garantir que eles desaparecem fisicamente”, concede. “Mas, depois disso, temos de nos assegurar de que descapacitamos esta ideologia. Temos de tirar os germes do solo.”

Felipe Pathé Duarte, professor universitário e autor do livro “Jihadismo Global – Das Palavras aos Actos”, corrobora essa ideia. Por e-mail, diz ao Observador que “atacar a estrutura é crucial”. “Mas, a longo prazo, de pouco servirá para bloquear células de dimensão reduzida. E aí é que está o problema. A doutrina vem antes e já está perfeitamente disseminada.”

Inclusive na Europa — e, como se viu em Paris e em Bruxelas, ela pode esconder-se na porta ao lado.

“Um idiota. É quanto basta para haver um novo atentado na Europa”

O Estado Islâmico, na sua atual definição, conseguiu dividir-se em dois. Por um lado, tem uma hierarquia definida, com líderes indiscutíveis, tanto no campo governativo como no âmbito militar, muitos deles vindos do partido Baath iraquiano, de Saddam Hussein. Por outro, há o lado subterrâneo, invisível, que já demonstrou a sua força na Europa. Stroobants define a primeira faceta como uma “insurgência” — que situa a nível regional — e a segunda como uma “organização terrorista”, que pode ter um alcance amplo. Divididos na sua vocação e também na sua essência, estes dois lados não deixam de fazer parte da mesma moeda. E, por isso, um pode compensar quando o outro está em risco.

Assim, coloca-se uma outra pergunta, esta de alcance mais repentino do que a que foi colocada anteriormente: poderá o Estado Islâmico preparar um novo atentado na Europa para compensar os golpes que tem sofrido no coração do califado?

Os atentados de 13 de novembro em Paris, reivindicados pelo Estado Islâmico, foram dos mais sangrentos da Europa. Morreram 130 pessoas.

“Poderá haver uma reação acossada”, escreve Pathé Duarte. “Haverá sempre a probabilidade de um atentado em solo europeu. Urge provar que ainda representam uma ameaça que pode condicionar o nosso quotidiano, criar disrupção social.” Stroobants concorda, afirmando que neste momento “existe um risco maior de haver um atentado”. Até porque a “dualidade” do Estado Islâmico torna-o possível: “Eles podem mudar-se de um combate para o outro com relativa facilidade”.

Witney, o antigo diretor da Agência Europeia de Defesa, argumenta que, na teoria, essa hipótese pode fazer sentido para o Estado Islâmico. “Eles sabem muito bem o impacto que os seus atentados têm causado”, explica. “No caso de Bruxelas, o aeroporto ainda não voltou ao funcionamento normal. E devido aos atentados, a França está a desviar-se lentamente para uma política externa que é potencialmente perigosa e a partir da qual o Estado Islâmico pode tirar proveitos.” Por isso, é perentório na resposta à pergunta “pode haver novos atentados?”. “Sim”, devolve.

Mas há um “mas”, acrescenta. “A maior parte das pessoas pode pensar que preparar e executar um atentado é tão simples quanto alugar uma cave, guardar umas quantas armas e explosivos e, depois, estala-se os dedos e faz um atentado”, ironiza. “Não há nada de mais errado. A verdade é que planear um atentado é bastante difícil, requer que muitos fatores se alinhem para tudo dar certo para o lado dos terroristas e não para o lado dos serviços secretos”, diz, referindo-se ao anúncio feito em março pela ministra da Administração Interna do Reino Unido, Theresa May, que disse que nos 18 meses anteriores tinham sido impedidos sete ataques em solo britânico.

"O terrorismo é isso: criar medo dentro de um grupo e tentar influenciar a opinião pública através de ataques descarados e quase aleatórios. O objetivo em si não é matar esta ou aquela pessoa em particular, mas garantir que todas as outras viram o que se passou."
Witse van der Berge, professor da Universidade de Leiden e especialista em terrorismo

De há cinco meses a esta parte, van de Berge tem feito um exercício com os seus alunos na Universidade de Leiden: divide a turma em dois, metendo “terroristas” para um lado e “contra-terroristas” para o outro. O que pode parecer um videojogo ao primeiro olhar é, de facto, um verdadeiro quebra-cabeças, garante. “Depois de lhes dar os dados e as ferramentas que têm ao seu dispor, os meus alunos acabam sempre por chegar ao mesmo ponto: os terroristas nunca ganham”, explica, salvaguardando que na vida real nem sempre é assim.

Mesmo que a estatística não seja favorável aos terroristas, o medo persiste. “E é precisamente isso que eles pretendem”, explica van der Berge. “Querem, e muitas vezes conseguem, criar medo dentro da sociedade. O terrorismo é isso: criar medo dentro de um grupo e tentar influenciar a opinião pública através de ataques descarados e quase aleatórios. O objetivo em si não é matar esta ou aquela pessoa em particular, mas garantir que todas as outras viram o que se passou”, argumenta. “É essa a parte que assusta, mesmo que a probabilidade diga que isso é difícil. Um idiota. É quanto bata para haver um novo atentado na Europa.”

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