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Sally Hayden/SOPA Images/LightRocket via Getty Images

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Ébola. Um ano depois, o surto continua por controlar. Porquê? /premium

A vacina travou o aumento explosivo de casos, os tratamentos têm reduzido a mortalidade, mas a desconfiança e os ataques a médicos e clínicas comprometem a resposta. Já morreram mais de 2.000 pessoas.

Com uma vacina que parece funcionar em 98% dos casos, outra que promete bons resultados, dois tratamentos que reduzem a taxa de mortalidade para cerca de 30% (como revelado no dia 12 de agosto) e muito conhecimento adquirido no último grande surto de ébola, a República Democrática do Congo tem, aparentemente, melhores condições para controlar a disseminação da doença que alguma vez outro Estado teve. Mas os esforços de combate ao segundo maior surto de ébola de que há registo estão comprometidos pela presença de milícias nas zonas afetadas, pela desconfiança da população e pelos ataques constantes aos centros médicos e aos profissionais de saúde.

Como se transmite o vírus?

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Os primeiros casos de ébola num novo surto estão muitas vezes relacionados com o consumo de animais infetados com o vírus, como morcegos ou macacos. A transmissão de humano para humano acontece, depois, pelos fluídos corporais da pessoa infetada (sangue, saliva, suor, urina, sémen, leite materno, fezes ou vomitado) ou por objetos que tenham estado em contacto com estes fluídos. A transmissão só acontece depois de aparecerem os primeiros sintomas, mas quem sobrevive à doença pode manter o vírus no organismo durante vários meses, como, por exemplo, no sémen, podendo infetar as pessoas com quem tenham contacto.

CDC

O surto de ébola, que atinge as províncias de Ituri, Kivu do Norte e Kivu do Sul, no leste da República Democrática do Congo, foi declarado no dia 1 de agosto de 2018, mas suspeita-se que o vírus andasse a matar pessoas no país vários meses antes. Na altura, como agora, havia muitos casos de pessoas infetadas que não chegavam a ser conhecidos e muitas pessoas morreram sem nunca terem recorrido a um profissional de saúde. Como o vírus se transmite pelo contacto com fluídos corporais contaminados, como sangue, urina ou vomitado, é fácil que quem trata dos doentes ou prepara os mortos para as celebrações fúnebres entre em contacto com o vírus. É por isso que, por cada caso detetado, se procura também analisar os familiares e pessoas com quem se cruzaram nos últimos dias. Por vezes, até as pessoas com quem estiveram estes potenciais doentes — uma rede de contactos que se torna difícil de seguir. O ideal seria vacinar todas estas pessoas, mas isso ainda está longe da realidade.

Mais de um ano depois de o surto ter começado, matando já mais de 2.000 pessoas na República Democrática do Congo, foram dois casos (que resultaram em mortes) na cidade de Goma que provocaram as maiores mudanças estratégicas. Goma é a maior cidade da província de Kivu do Norte, com cerca de dois milhões de habitantes, e localiza-se na fronteira com o Ruanda. A primeira morte nesta cidade congolesa aconteceu no dia 16 de julho, e foi um dos principais motivos para que a Organização Mundial de Saúde declarasse o surto como uma Emergência de Saúde Pública de Interesse Internacional, na tentativa de reforçar os meios — sobretudo financeiros — para combater a doença. A segunda morte aconteceu no dia 31 de julho e fez com que, um dia depois, o vizinho Ruanda anunciasse o encerramento das fronteiras (que foram abertas no dia seguinte). Desde aí que, pontualmente, o Ruanda recusa a entrada de pessoas vindas do país vizinho, com receio que sejam residentes nas zonas afetadas.

“Um ano depois do início do surto, certamente que não esperávamos que ainda estivesse a decorrer.”
Michelle Gayer, diretora da Emergência de Saúde no Comité de Socorro Internacional

“Um ano depois do início do surto, certamente que não esperávamos que ainda estivesse a decorrer”, diz Michelle Gayer, diretora da Emergência de Saúde do Comité de Socorro Internacional (IRC), uma organização humanitária que tem 70 centros médicos na República Democrática do Congo para responder ao surto. “Está a matar mais pessoas do que devia, apesar da vacinação e tratamentos.” Outro ponto estranho é que este surto tem atingido mais mulheres do que surtos anteriores — 67% das pessoas infetadas são mulheres e 18 a 20% têm menos de 18 anos —, diz a médica citada pela Scientific American. A OMS destaca ainda que um em cada três casos é relativo a crianças.

Este surto apanhou, sem dúvida, os profissionais de saúde de surpresa. Trish Newport, dos Médicos Sem Fronteiras (MSF), conta que mal tiveram tempo de celebrar o fim do surto de ébola anterior — um verdadeiro caso de sucesso. Nesse surto usou-se a vacina contra o ébola pela primeira vez e foi possível ter a situação controlada em menos de três meses, conta a diretora adjunta do programa de combate ao ébola na República Democrática do Congo.

“Ingenuamente, pensei que, com esta vacina excelente, o mundo nunca mais teria de enfrentar um grande surto de ébola outra vez”, diz a enfermeira. “Tal como aconteceu tantas vezes na minha vida de ajudante humanitária, estava muito errada.” No dia 24 de julho, tinha sido declarado o fim do surto na região oeste — com 54 casos e 33 mortes; uma semana depois, declarava-se um novo surto na região este (o que está ativo há mais de um ano).

O surto nasceu no meio de conflitos armados

O primeiro surto de ébola, na República Democrática do Congo e no mundo, foi registado em 1976. Depois disso, muitos outros se registaram na África ocidental e central, onde a dificuldade no acesso aos serviços de saúde de qualidade comprometem o combate à doença. Esta é, porém, a primeira vez que um surto de ébola tem de enfrentar um outro tipo de problemas: está a acontecer numa área de conflito armado ativo. Só este ano, e até ao início de agosto, foram registados 198 ataques a centros de tratamento e a profissionais de saúde, sete pessoas morreram e 58 ficaram feridas, referiu a BBC.

Um médico camaronês a trabalhar para a OMS foi morto durante um evento num hospital universitário em Butembo e outros dois profissionais de saúde que trabalhavam no combate ao ébola foram mortos em casa, em Beni. Isto faz com que muitos prefiram não dizer aos vizinhos que fazem parte das equipas que combatem esta doença. Mas de todos os profissionais no terreno, aqueles que têm o trabalho mais arriscado são os que pertencem ao pessoal encarregue de sepultar os corpos das pessoas que se suspeita terem morrido de ébola, porque têm de retirar os corpos às famílias, impedindo-os de realizarem os rituais fúnebres — e isso é essencial, por causa do risco de ficarem infetados —, contou o jornal The New York Times.

Foram criados locais, nas áreas afetadas, onde as pessoas podem lavar as mãos. Um profissional de saúde aproveita para medir a temperatura de um jovem — PAMELA TULIZO/AFP/Getty Images

PAMELA TULIZO/AFP/Getty Images

A violência e insegurança sobre os profissionais de saúde e pessoal envolvido no combate ao surto tem sido tal que, em março, os Médicos Sem Fronteiras abandonaram as clínicas de Katwa e Butembo depois de estas terem sido invandidas e incendiadas, revelou também o The New York Times. Os doentes que se encontravam nestes locais, e que sobreviveram aos ataques, fugiram, levando consigo a doença para o meio da população. Sem profissionais de saúde nos locais a tratar os doentes e a identificar todos os potenciais contactos, o surto cresceu descontroladamente.

“Nunca vimos nada como isto”, diz Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS). “Aconteceu numa zona de guerra crónica e somou-se a umas eleições que politizaram toda a situação. As milícias estão constantemente a interromper as operações e, quando isso acontece, o vírus aproveita a boleia.”

Os ataques à população, por parte das milícias armadas continuaram em agosto, o que motivou protestos por parte dos cidadãos contra a violência a que são sujeitos. De cada vez que há conflitos ou manifestações, a resposta no combate ao ébola fica comprometida e o número de casos nas semanas que se seguem tende a aumentar nessas localidades. É o caso de Beni, palco frequente dos ataques, e o local que regista mais casos novos de ébola todas as semanas desde meados de junho — Beni tem também o maior número de casos confirmados desde o início do surto, 661.

A população não confia nas ações do Governo

Beni, uma cidade de cerca de 850 mil habitantes na província de Kivu do Norte, viu arder uma das suas clínicas. Neste caso, foi um ataque da população revoltada com a decisão do governo congolês de não permitir que as eleições de dezembro de 2018 pudessem decorrer nas regiões afetadas pelo ébola, por causa do risco de contágio em locais onde se junta muita gente. Mas a população interpretou esta medida de outra maneira: uma forma de o governo impedir que esta área, um reduto da oposição, pudesse contribuir para uma mudança significativa na liderança nacional.

A pouco menos de 100 quilómetros do Uganda, a cidade de Beni já foi palco de duas vagas de disseminação do vírus, só neste surto. Mas esta não é a maior preocupação da população. Pelo menos desde 2013, a cidade de Beni e arredores é alvo de massacres aparentemente conduzidos pelo grupo extremista islâmico Forças Democráticas Aliadas (FDA, com origem no Uganda, mas que se espalhou ao país vizinho). No último grande ataque, em setembro de 2018, a população lamentou que a comunidade internacional estivesse mais preocupada em combater o ébola do que o grupo terrorista. Mas os ataques têm continuado, os mais recentes levaram a suspensão temporária das equipas de combate ao ébola na região, reportou a OMS.

Piores do que as cerca de 800 mortes associadas a estes ataques terroristas são as conclusões do projeto The Congo Research Group: há uma influência do governo central nos massacres e não apenas do FDA e de outras milícias e grupos armados. Com a confiança da população em níveis mínimos — apenas 2% diz confiar no governo, segundo o jornal The New York Times —, o surto de ébola foi visto como mais uma estratégia do poder central para dominar a região. “Em termos científicos, não acredito que seja possível termos estas mortes em Beni e, depois, a doença, sem que os dois estejam relacionados”, diz Crispin Mbindule Mitondo, um membro da assembleia nacional numa rádio local.

A possibilidade de nova vacina levou à demissão do ministro da Saúde

A crença na teoria da conspiração de que o ébola é mais uma forma de o governo tentar subjugar aquela região só faz aumentar a desconfiança no poder político, nas forças armadas e, por arrasto, nos profissionais de saúde que chegaram à região para tentar tratar uma doença que tem sintomas que se podem confundir com os de outras e de que a maior parte da população nunca tinha ouvido falar. A isto junta-se o facto de as equipas de combate ao ébola quererem vacinar pessoas que estão aparentemente saudáveis e de retirarem os mortos às famílias para lhes fazerem um enterro seguro. Além disso, como a taxa de mortalidade é alta, as pessoas acham que morrem porque são internadas nos centros de tratamento. A verdade é que a taxa de contaminação nas instalações médicas é muito alta.

Neste contexto de desconfiança, onde já tinha sido suficientemente difícil fazer com que as pessoas aceitassem uma vacina contra o ébola (a da farmacêutica Merck), Oly Ilunga Kalenga, então ministro da Saúde da República Democrática do Congo, mostrou-se contra a introdução de uma segunda vacina (a da Johnson & Johnson) que, além do mais, usaria os congoleses como cobaias de um ensaio clínico. Essa é uma das principais dificuldades no desenvolvimento de uma vacina contra o ébola: os ensaios clínicos têm de ser feitos durante um surto, com pessoas que estão em risco de serem infetadas.

“Estamos na presença de uma situação muito, muito perigosa. Temos pessoas que não querem discutir [os planos que têm] com o governo.”
Oly Ilunga Kalenga, antigo ministro da Saúde da República Democrática do Congo

“Estamos na presença de uma situação muito, muito perigosa. Temos pessoas que não querem discutir [os planos que têm] com o governo. Pessoas que não têm respeito pela ética. E que estão preparadas para introduzir uma nova vacina e para criar novos problemas de comunicação e de confiança com a comunidade”, disse Oly Ilunga Kalenga, ao StatNews. “Por isso tomei a decisão de dizer que não. Não vamos iniciar uma discussão outra vez.”

A verdade é que, poucos dias depois, a 22 de junho, o ministro da Saúde acabaria por se demitir. Na carta de demissão, citada pela BBC, Oly Ilunga Kalenga critica o facto de o Presidente Félix Tshisekedi o ter destituído de diretor da equipa de resposta contra o ébola e ter colocado a chefiar esta equipa um comité diretamente sob a supervisão do próprio Presidente. O mesmo comité que o antigo ministro acusa de ter interferido no seu trabalho nos últimos meses. Oly Ilunga Kalenga diz também ter recebido muito pressão internacional para aprovar o ensaio clínico com a nova vacina.

A chefiar o comité que agora toma conta da resposta na República Democrática do Congo está Jean-Jacques Muyembe-Tamfum, o virologista que viu o primeiro doente de ébola em 1976. Muyembe, de 77 anos, é diretor do Instituto Nacional de Investigação Biomédica, em Kinshasa (capital do país), e em abril deste ano divulgou uma análise crítica da atuação do então ministro da Saúde. Agora, promete ter a situação controlada no espaço de três a quatro meses. “É ambicioso. Mas acho que conseguimos chegar lá”, diz à Science Magazine.

Os profissionais de saúde tentam identificar quem pode ter estado em contacto com o vírus para poder vacinar essas pessoas — C Wenga/Anadolu Agency via Getty Images

C Wenga/Anadolu Agency via Getty Images

A vacina usada não chega para todas as pessoas

Corre um rumor, nas zonas afetadas pelo ébola, que os profissionais de saúde nos centros de tratamento injetam as pessoas com substâncias mortíferas, referiu a Nature. É por isso que muitas pessoas rejeitam ser vacinadas ou sequer ir aos hospitais para receber tratamento. Diallo Abdourahamane, coordenador da vacinação contra o ébola pela Organização Mundial de Saúde, conta a história de um homem que foi morto pelos vizinhos depois de ter sido vacinado, acusado de ajudar a trazer a doença para aquela área.

A partir daí, a equipa da OMS começou a apresentar locais alternativos para a vacinação das pessoas, como localidades próximas, longe do olhar dos vizinhos para garantirem que ficavam em segurança. Este é mais um exemplo de que a estratégia de prevenção e segurança tem de ser adaptada à realidade local. Michelle Gayer, diretora no Comité de Socorro Internacional (IRC), dá mais um exemplo: é difícil explicar às pessoas que devem lavar as mãos para evitar o contágio, quando muitas delas nem sequer têm água potável para beber. Além disso, os centros de tratamento devem ser desenhados de forma a não afastar as crianças com pneumonia ou as mulheres grávidas, por terem medo de serem infetadas com ébola. A República Democrática do Congo é recordista no número de casos e mortes de malária, o que deixa claro que as restantes doenças na região não podem ser negligenciadas.

Durante o surto de 2014, que atingiu a Guiné-Conacri, Serra Leoa e Libéria, as questões sociais já tinham sido apontadas como uma das maiores dificuldades no combate à doença — as pessoas não entendiam por que não podiam lavar os mortos e realizar os rituais fúnebres, como sempre tinham feito. Pior, os corpos dos mortos eram levados pelos profissionais de saúde nos fatos de proteção brancos, o que só aumentava a desconfiança das pessoas.

A rede de contactos de um único caso

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O segundo caso de ébola em Goma foi o de um mineiro que foi passar o fim de semana a casa com a mulher e os 10 filhos. Ele acabou por morrer, a mulher e a filha de um ano ficaram doentes e estão a recuperar. Só para este caso foram identificados 800 contactos diretos e indiretos e, no espaço de uma semana, já só faltava vacinar cinco dessas pessoas.

Reuters

Durante os surtos, é pedido às pessoas para irem ao médico sempre que apresentem sinais, para se perceber se é ébola ou não — a larga maioria dos casos, não é, mas as pessoas ficam em isolamento até que haja certezas. Quando os testes vêm positivos, procuram-se as pessoas com quem os doentes estiveram em contacto e, se possível, o círculo mais alargado de pessoas que indiretamente possam ter estado em contacto com o vírus. É um trabalho moroso e incompleto — só cerca de 60% dos contactos são identificados, referiu a Science Magazine —, e significa que os contactos infetados que escapam a este controlo acabam por transmitir o vírus a outras pessoas.

Mas o caso é ainda mais grave: cerca de metade do casos de ébola que chegam aos centros de tratamento nas zonas afetadas não faz parte de nenhuma rede de contactos previamente identificado, o que mostra que há muitos mais casos e doentes (e, consequentemente, de contactos) do que aqueles que os profissionais de saúde chegam a ter conhecimento. “Há muita transmissão que não está a ser vista, mas ninguém sabe quanto”, diz Ella Watson-Stryker, uma cientista social dos Médicos Sem Fronteiras, citada pela revista The New Yorker.

Mas mesmo quando os contactos estão identificados e as pessoas são vacinas, pode ser difícil acompanhá-las durante o período de incubação do vírus — desde a infeção até aparecerem os primeiros sintomas, e a pessoa perceber que está doente, podem passar 21 dias. Foi o que aconteceu com a pessoa que levou o vírus para uma nova região, o Kivu do Sul, confirmados a 15 de agosto: a mulher tinha sido identificada como um contacto de um doente em Beni, tinha sido vacinada, mas como não estava sob vigilância conseguiu viajar para Mwenga, no Kivu do Sul, passando por Goma, sem ser detetada. Nas três semanas seguintes foram confirmados seis casos em Mwenga, dos quais três resultaram em mortes.

“Há muita transmissão que não está a ser vista, mas ninguém sabe quanto.”
Ella Watson-Stryker, uma cientista social dos Médicos Sem Fronteiras

Apesar das dificuldades encontradas em identificar as pessoas com quem os doentes tenham estado em contacto, as equipas de vacinação tinham distribuído 170 mil vacinas até 1 de agosto — incluindo a médicos, enfermeiros e outros profissionais que possam estar em contacto com o vírus.

A vacina da Merck, testada no último surto de ébola, ainda não teve aprovação para entrar no mercado, por isso está a ser distribuída de forma gratuita e compassiva na República Democrática do Congo — ou seja, apesar de ainda não estar aprovada pelas agências do medicamento, pode ser distribuída mediante um protocolo específico, porque a doença tem uma taxa de mortalidade elevada e não existe uma alternativa melhor. O governo da República Democrática do Congo também aprovou outros medicamentos de uso compassivo para tratar os doentes — 1.300 pessoas receberam este tipo de tratamentos até dia 1 de agosto, segundo a OMS.

Aplicada no terreno, a vacina mostrou-se eficaz na prevenção da mortalidade de 97,5% das pessoas vacinadas, referiu a Scientific American. As pessoas que são infetadas depois de vacinadas, mesmo que adoeçam, têm uma maior probabilidade de sobrevivência. Já os tratamentos experimentais, em ensaios clínicos no país, conseguiram uma redução da taxa de mortalidade de até 29%, em vez dos 67% registados de forma geral neste surto, conforme revelado esta segunda-feira pelo Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos.

O maior problema é, de facto, a vacina não chegar para todos — só nas regiões afetadas vivem cerca de 10 milhões de pessoas. A Merck diz que tem doses suficientes para 500 mil pessoas e que está a produzir mais, mas as vacinas demoram um ano a ser fabricadas, noticiou o jornal Los Angeles Times. Nos próximos seis a 18 meses podem ser produzidas vacinas suficientes para mais 1,3 milhões de pessoas, assegura a Gavi – Aliança para as Vacinas, citada pelo Health Policy Watch.

Mesmo sem ser possível vacinar todas as pessoas, nem sequer todas as pessoas que potencialmente contactaram com doentes, a vacina foi provavelmente a razão de a disseminação do vírus não ter sido mais explosiva, refere Daniel Bausch, que coordena a equipa de Apoio Rápido em Saúde Pública do Reino Unido, citado pela Science Magazine. Mas as doses asseguradas pela Merck são claramente insuficientes para conter o surto, garantem os profissionais de saúde no terreno.

Foi esta limitação que fez com que se começasse a pensar em usar uma vacina alternativa, a da Johnson & Johnson, que tem 1,5 milhões de doses prontas a usar. Esta nova vacina mostrou bons resultados nos ensaios de segurança, mas ainda não foi testada em humanos em relação à eficácia. Usar esta vacina nas pessoas que teriam indicação para receber a vacina da Merck era torná-las cobaias de um ensaio clínico alargado, numa zona afetada pelo surto de ébola, e foi isso que o então ministro da Saúde rejeitou. Mas, para uma vacina deste tipo, um ensaio clínico só faz sentido durante um surto. A vacina da Merck foi testada durante o surto de 2015 e é por isso que pode estar em uso agora.

A declaração de emergência internacional para responder ao problema

O primeiro caso de ébola em Goma, capital da província de Kivu do Norte, foi confirmado no dia 14 de julho. Os cerca de dois milhões de habitantes, as ligações de viajantes para vários pontos do país (e do mundo) e os meros cinco quilómetros que separam Goma da cidade de Gisenyi, no Ruanda, com cerca de 85 mil habitantes, justificaram a declaração de Emergência de Saúde Pública de Interesse Internacional (PHEIC), pela Organização Mundial de Saúde (OMS), a 17 de julho.

O risco de o surto se espalhar a outros países e a necessidade de mobilizar esforços internacionais para mais facilmente combaterem um evento “sério, fora do comum e inesperado” são as condições necessárias para que a emergência internacional seja declarada, mas o comité que elaborou a recomendação neste caso foi claro ao afirmar que não deve haver restrições na circulação das pessoas, apenas que os controlos de saúde nas estradas e fronteiras devem ser mais apertados.

“Nenhum país deve fechar as fronteiras ou restringir as viagens e o comércio”, recomendou o Comité de Emergência. “Essas medidas são geralmente implementadas por medo e não têm base na ciência.” O receio do comité é de que as pessoas comecem a atravessar as fronteiras fora das zonas onde existem pontos de controlo, aumentando o risco de propagação da doença a outros países, em vez de diminuir. “Mais criticamente, estas restrições podem comprometer a economia local e afetar negativamente as operações de resposta sob um ponto de vista de segurança e logística.”

Apesar da recomendação, depois de o segundo caso (e respetiva morte) ser conhecido em Goma, o governo do Ruanda mandou encerrar as fronteiras com a República Democrática do Congo. O problema é que, diariamente, 15 mil pessoas atravessam a fronteira entre Goma e Gisenyi por motivos profissionais ou pessoais. Umas horas depois, o Governo do Ruanda recuou, abriu as fronteiras, mas reforçou o controlo fronteiriço para detetar potenciais casos de doentes.

Esta é apenas a quinta vez que a OMS declara uma emergência internacional, desde 2009, mas a segunda vez que é motivada por um surto de ébola — a primeira foi o surto que, entre 2014 e 2016, atingiu a Guiné-Conacri, Serra Leoa e Libéria. O surto de 2014 foi o maior surto de ébola de que há registo, com 28.616 casos confirmados e 11.310 mortes registadas (dados da OMS). O surto atual é o 10.º a atingir a República Democrática do Congo, mas o maior de que há registo. Aliás, é o segundo maior em termos internacionais, com 2.973 casos confirmados (mais 111 prováveis) e 2.071 mortes — cerca de 70% dos casos confirmados —, segundo dados da OMS de 9 de setembro.

São precisos mais de 300 milhões de euros

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Dos cerca de 88 mil euros necessários para combater o surto entre fevereiro e julho, só estiveram disponíveis cerca de 49 mil euros. Depois de declarada a PHEIC, o Banco Mundial anunciou que vai disponibilizar 300 milhões de dólares (cerca de 269 milhões de euros) para apoiar o combate ao surto. Esse valor aproxima-se das necessidades da OMS no combate ao ébola (324 milhões de dólares) para os próximos seis meses, mas o Banco Mundial não quer apoiar só os cuidados de saúde, quer apostar na educação, nos empregos e nas questões sociais.

O Comité de Emergência da OMS reuniu três vezes (a 17 de outubro de 2018, 12 de abril e 14 de junho de 2019) antes de, finalmente, declarar a emergência internacional, mas nestes três casos decidiu que ainda não estavam reunidas as condições para declarar uma emergência internacional. Isto apesar de já ser o segundo maior surto de que havia registo, de terem sido detetados os primeiros casos de infeção no vizinho Uganda e de ser claro que o dinheiro disponível para combater o surto era insuficiente — a declaração de emergência internacional pressupõe que possa ser injetado mais dinheiro na resposta.

O primeiro caso no Uganda foi confirmado a 11 de junho. Depois disso, houve mais dois casos relacionados, mas nos 42 dias que se seguiram não houve novos casos. O Uganda continua livre do surto, mesmo depois de ser conhecido o caso de uma criança doente que atravessou a fronteira no final de agosto. O Uganda já lidou com três surtos antes (2000, 2007 e 2012) e, apesar de ter um sistema de saúde com falta de dinheiro, está bem organizado, o que faz com que os especialistas acreditem que um surto neste país não fugiria de controlo, como citou o jornal The New York Times. Mais preocupante pode ser a disseminação do surto para o Sudão do Sul, que também faz fronteira com o nordeste da República Democrática do Congo e que não terá a mesma capacidade de resposta.

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