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Elefante Branco. “Ele é que escolhia as mulheres que entravam. Aos 30, esquece, já eram velhas” /premium

Foi porteiro da boîte por 22 anos e nunca falou sobre isso. Agora, Manuel Ribeiro conta tudo em livro. A jornalista que o escreveu tem recebido telefonemas de figuras públicas: "Têm medo de aparecer".

Inaugurado em novembro de 1978, o Elefante Branco, célebre casa de diversão noturna de Lisboa, começou este ano a sua quarta vida. Ao todo, o “Trombinhas”, como se celebrizou entre clientes e candidatos a, já fechou e reabriu três vezes, com diferentes gerências, e está agora numa morada e num espaço diferentes, que os novos donos decidiram apimentar com outrora impensáveis espectáculos de sexo ao vivo.

Não é desse Elefante Branco que se fala em “O Porteiro do Elefante Branco”. Nem sequer do primeiro, inaugurado há exatos 41 anos, em novembro de 1978, no espaço onde antes tinha funcionado uma mercearia, na número 83 da Rua Luciano Cordeiro.

A ação do livro, editado pela Prime Books e assinado pela jornalista desportiva Elsa Bicho, passa-se entre 1986 e 2008, anos áureos em que a casa ganhou fama dentro e fora de Portugal, também pelo bife, cozinhado com natas e molho inglês, mas sobretudo pelas mulheres que lá se podia encontrar — e trazer cá para fora, para um hotel ou uma pensão próximos, mediante pagamento combinado no momento.

Nesses anos e durante décadas, à porta do Elefante Branco ficaram os curiosos, os jornalistas ávidos de escândalos e todos os que não pertenciam a uma elite política, empresarial e desportiva, de carteira recheada e trato irrepreensível.

Agora, é Manuel Ribeiro, o “Lavagante”, um dos homens que decidiam quem entrava e quem ficava à porta da boîte mais badalada da cidade, quem franqueia a memória do espaço e revela segredos, episódios e alguns nomes, não todos. “No final, cortámos alguns, para evitar processos judiciais e porque o próprio Ribeiro quis assim. A condição dele para fazer este livro foi contar as histórias, mas sem nomes. Afinal, o Elefante Branco sempre se distinguiu pela privacidade que dava àquela clientela muito selecionada”, explica a ex-jornalista do jornal A Bola.

Para reunir os episódios que desfia ao longo de 150 páginas, Elsa Bicho encontrou-se com Manuel Marcelino Ribeiro Valente, agora com 73 anos, sete vezes, sempre da parte da tarde e em cafés na zona do Parque das Nações, numa espécie de corrida contra o tempo: “Está a ficar muito esquecido e doente”, avisou-a o editor quando lhe confiou a tarefa.

Ao Observador, a jornalista revela tudo sobre os anos dourados da boîte onde, numa só noite, chegaram a estar estacionados 21 Porsches, por onde passaram figuras como Ayrton Senna, Hugh Grant e Johnny Hallyday e onde celebridades como Magic Johnson e Romário chegaram mesmo a ser impedidas de entrar.

Conseguiste a entrevista que, ao longo de décadas, muitos jornalistas deste país quiseram fazer — eu própria tentei e não consegui. Como é que fizeste com que o porteiro do Elefante Branco quebrasse o silêncio?
A história caiu-me no colo, na verdade. Ele não estava muito para aí virado, mas tem um cunhado que é jornalista e que, finalmente, conseguiu convencê-lo. O Jaime Cancella de Abreu, da Prime Books, chamou-me para conversar e ofereceu-me o livro: “Tenho o porteiro do Elefante Branco, que já é septuagenário e está a ficar sem memória, quem se senta com ele ouve histórias maravilhosas. Preciso que alguém faça esse registo enquanto ainda é possível, que consiga ouvi-lo e tirar o melhor dele”.

Quem é, afinal, este porteiro?
O Manuel Ribeiro é de Olhão, mas veio cedo para Moscavide. Não dava para os estudos, chegou a trabalhar como mecânico mas era o típico bon vivant. Começou a trabalhar na noite porque era taxista e apanhava clientes que queriam ir sair. Começou no Nina, que também foi uma casa conhecida, e era daqueles que gostavam dos copos, do tabaco e do ambiente da noite. Toda a vida viveu para aquilo. Tanto que ainda hoje é solteiro, nunca casou e toda a vida viveu com a mãe. Hoje que ela já faleceu, vive sozinho, dedicado aos sobrinhos e à família.

"Além de portuguesas e brasileiras, havia russas, nórdicas e algumas africanas, poucas, para agradar aos clientes nórdicos que de vez em quando apareciam. Quando o Ribeiro pegou naquilo, em 1986, já lá havia mulheres, o restaurante já estava como se viria a conhecer nos tempos dourados, mas só nos anos 80, com uma nova gerência e com ele na porta, é que a casa ganhou a fama que tem"
Elsa Bicho, jornalista

Ainda sai à noite?
Não sai porque não pode! Tem problemas de vista e nos pulmões e é claustrofóbico, tem receio de estar em espaços fechados. Já tem uma saúde muito débil e anda num psiquiatra para ver se consegue deixar de fumar — fuma 44 cigarros por dia! É uma pessoa riquíssima. Chegas ao fim do livro e ficas com carinho pelo porteiro.

Sendo que ele era o “mau”, deixou muita gente à porta…
Deixou muita gente à porta, arranjou muitos inimigos, mas nunca vacilou. Fosse porque lhe oferecessem dinheiro, porque fossem filhos de alguém ou porque fossem conhecidos — se não entrava, não entrava, ponto final parágrafo. Conto a história do Johnny Hallyday, que lhe disse que em LA [Los Angeles] lhe pagavam para ele entrar naquelas casas e ele respondeu “Isto é LC, [rua] Luciano Cordeiro, não é LA!”. No início eu também queria saber os podres e contar a história do Elefante Branco muito centrada nas mulheres e na vida noturna, mas, depois de falar com ele, o livro transformou-se. Passou a ser sobre aquela figura, que viveu a vida que nenhum de nós alguma vez viverá, que desfrutou de todos os prazeres e assistiu de camarote àquilo que era a vida mais boémia de Lisboa.

"Toda a gente lá caía, de todos os clubes, de todos os quadrantes: políticos, comandantes, empresários, altos quadros, toda a gente ia ao Elefante. O Ribeiro diz sempre que na altura conhecia metade da Assembleia da República e não era de ver televisão"
Elsa Bicho, jornalista

O Elefante Branco do livro já não existe, certo?
Existe um Elefante Branco, mas está totalmente remodelado e já nem é na Rua Luciano Cordeiro, é uns números mais abaixo, onde antigamente existia o Lobby. Mas não tem nada a ver, nem a decoração…

Só existe o nome? No livro explicas que foi vendido por 85 mil euros.
Parece que sim, foi isso. Não tem nada a ver com aquilo que o Elefante foi no final da década de 80, início de 90. Eu própria nunca fui ao Elefante Branco, mas também tinha curiosidade, foi uma coisa de que sempre ouvi falar; o meu marido toda a vida foi dirigente desportivo e ia lá jantar todos os dias, com os dirigentes do Estrela da Amadora…

O teu marido ia ao Elefante Branco?!
Ele ia, toda a gente ia! Era ele, o presidente, o presidente da assembleia geral… iam todos! Toda a gente lá caía, de todos os clubes, de todos os quadrantes: políticos, comandantes, empresários, altos quadros, toda a gente ia ao Elefante. O Ribeiro diz sempre que, na altura, conhecia metade da Assembleia da República e não era de ver televisão.

Mas porquê? Não seria certamente por ser um bom restaurante, que até só tinha dois pratos; o bife e o bacalhau.
Mas não eram só os homens que tinham curiosidade: as mulheres, como sabiam que havia lá mulheres, também queriam saber como é que elas eram, o que faziam… Além de portuguesas e brasileiras, havia russas, nórdicas e algumas africanas, poucas, para agradar aos clientes nórdicos que, de vez em quando, apareciam. Quando o Ribeiro pegou naquilo, em 1986, já lá havia mulheres, o restaurante já estava como se viria a conhecer nos tempos dourados, mas só nos anos 80, com uma nova gerência e com ele na porta, é que a casa ganhou a fama que tem. E ganhou-a — ele frisa isso muito bem — graças à clientela que passou a frequentar aquilo. Eram os anos em que se corriam os grandes prémios de Fórmula 1 em Portugal e as escuderias apareciam lá todas, com os gajos cheios de papel a beberem garrafas de Cristal, que era o champanhe mais caro na altura.

"Nessa altura, início dos anos 90, chegavas a um aeroporto de Inglaterra, França ou Itália e quando pegavas em roteiros turísticos de Portugal vinha lá o Elefante Branco. Tal como sugeriam ir a Fátima e ao Mosteiro dos Jerónimos, também indicavam o Elefante Branco"
Elsa Bicho, jornalista

Ele fala numa noite em que se juntaram lá o Ayrton Senna, o Alain Prost e o Jean Alesi…
Que não se topavam, não é? Mas o Elefante albergava toda a gente. Eles foram lá e deram renome ao espaço. Foi numa altura de abastança, em que chegaram a Portugal subsídios da Europa, em que havia a história da Dona Branca, que emprestava dinheiro… A economia estava bem e havia dinheiro a rodos. E o Elefante Branco era o sítio onde giravam as notas. Ele conta-me que, nessa altura, início dos anos 90, chegavas a um aeroporto de Inglaterra, França ou Itália e, quando pegavas em roteiros turísticos de Portugal, vinha lá o Elefante Branco. Tal como sugeriam ir a Fátima e ao Mosteiro dos Jerónimos, também indicavam o Elefante Branco. O Ribeiro também conta que uma hospedeira, vizinha do Elefante, lhe dizia que no avião vinha tudo a perguntar como é que se ia para lá. Saíam do avião, apanhavam o táxi, iam para o Elefante e, de manhã, apanhavam o voo de volta. Havia malta a vir de propósito, tal era o nome que aquilo conquistou.

E era sobretudo pelas mulheres bonitas que lá andavam. Ou não?
Era sobretudo… Quer dizer, o misticismo à volta do Elefante Branco tem a ver com o secretismo que eles conseguiam criar da porta para dentro. O Elefante Branco não tinha nada de especial: dizia-se que tinha um varão, que tinha quartos lá atrás — tudo mentira. Era uma sala preta, com mesas baixas, uma pista de dança no meio, bolas de espelhos no teto, com um bar de pedra preta, uma coisa normalíssima.

Mas que estava vedada à maior parte das pessoas que lá queriam entrar.
Lá está! Ele conta isso, diz que, na altura em que o convidaram para ir para lá, lhe disseram: ‘A porta é tua e isto é para pessoas que frequentam a noite, não é para pessoas da noite’. Ou seja, não era para pessoas que andavam nos copos noites inteiras até caírem. Aquilo sempre foi muito elitista. Não entrava lá qualquer pessoa. E não entrava ninguém de ténis ou de calças de ganga — fosse quem fosse!

O Magic Johnson foi um dos que ficaram à porta por causa dos ténis, não foi?
O Magic Jonhson, imagina! Voltou para trás e foi buscar uns ténis pretos, para disfarçar. Calçava o 53 e não havia propriamente sapatos ditos de saída para ele…

Magic Johnson esteve em Lisboa em 1994, com o patrocínio da Pepsi, para promover o basquetebol mas pelo meio teve de tempo de ir ao Elefante Branco

Getty Images

Essa era outra: o Elefante Branco tinha mesmo uma sapateira de emergência para os melhores clientes?
Sim, o Ribeiro diz que foi comprar uma data de sapatos ao Calçado Guimarães, daqueles números que saem mais, o 42, 43, números de homem. Quando aparecia algum cliente mais especial, que eles sabiam que gastava dinheiro e que dava bom ambiente à casa, facilitavam a entrada e trocavam ali os sapatinhos. Agora, o Magic Johnson, a calçar 53, foi impossível. Mas ele voltou para trás e foi buscar uns ténis pretos.

Aconteceu o mesmo com o Romário, que apareceu de fato de treino…
Claro, nem pensar! Ele não facilitava a ninguém. E o ambiente era tão selecionado, tão selecionado, que as pessoas começavam a pensar: “Que raio, mas o que é que se passa lá dentro?! O que é que acontece? Porque é que ninguém consegue vislumbrar aquilo? Porque é que ninguém fotografa?”. Não se passava nada!

Não seria bem assim, havia engate lá dentro…
Ok… então vamos pensar assim… aquilo que ele me diz — e ele irritava-se muito comigo…

No livro contas que ele se irritava quando falavas em bar de alterne. O Elefante Branco não seria um bar de alterne. Mas havia engate.
Havia engate…

Aliás, as mulheres não seriam escolhidas a dedo por nada…
As mulheres eram escolhidas por ele, era ele que dizia quem entrava ou não. 18 aninhos, com tudo no sítio, muito bem; aos 30 não, esquece, já eram velhas.

"À sexta-feira os deputados já não iam à Assembleia e os políticos e os empresários iam para casa de fim de semana ter com a família. A quinta-feira coincidia com o culminar da semana de trabalho, era véspera dos tempos dedicados à família, e era o dia em que se juntavam todos para fazer negócios e para ir "lavar a vista", como ele diz"
Elsa Bicho, jornalista

E entravam 100 mulheres por noite, em média?
Ele diz-me que houve uma altura, sobretudo quando havia futebol europeu, em que chegava a perder a conta. Que o máximo que terão estado lá ao mesmo tempo foram umas 200 mulheres, mas que, por norma, numa noite dita normal — e a noite forte era a quinta-feira —, andava nas 100, 120.

E porque é que às quintas havia mais gente?
Porque à sexta-feira os deputados já não iam à Assembleia e os políticos e os empresários iam para casa de fim de semana ter com a família. A quinta-feira coincidia com o culminar da semana de trabalho, era véspera dos tempos dedicados à família e era o dia em que se juntavam todos para fazer negócios e para ir “lavar a vista”, como ele diz. Ele diz que a maior parte dos homens ia lá “lavar a vista”.

Ficaste com essa ideia? Seria mesmo a maior parte? Não seria mais 50-50?
Pois, talvez…

Ele também diz que havia alturas de mais movimento em que muitas mulheres entravam e saíam duas e três vezes por noite, não é? Nesse entra e sai, está subentendido que vão para algum lado fazer qualquer coisa…
Naturalmente. Havia lá mulheres, claro. Aquilo que ele me garante é que o Elefante não lhes pagava nada para lá estarem, não pagava jantares, nem sequer pagava bebidas. O Elefante deixava-as entrar porque sabia que atrás delas vinha muito boa clientela, cheia de dinheiro, que gastava e comprava e tinha garrafa. Ele conta que, no início, a vizinhança começou a ver aquele corrupio de mulheres e carros e até fazia queixa à polícia, mas que depois era a própria vizinhança que metia conversa e comentava as mulheres bonitas que lá passavam. Ficavam à janela a vê-las desfilar, como se fossem divas de um filme francês: “Aaaah, que bonitas!”.

Isso era obrigatório, não é? Estarem sempre muito bem vestidas, muito bem penteadas…
Sim, brutas minissaias, casacos de peles, malas caríssimas, sapatos de salto alto, perfumes caríssimos — que, muitas vezes, eram os homens que lhes davam. Ele conta isso também, diz que houve muitos casamentos no Elefante, muitas mulheres que estavam lá acabaram por casar com muitos dos clientes que lá andavam e saíram daquela vida assim.

E casamentos desfeitos não houve também?
Também é capaz de ter havido alguns, não é? Havia algumas mulheres que andavam ali à porta às voltas a ver se apanhavam os carros dos maridos.

No livro há uma história dessas, de uma senhora que chegou a entrar à procura do marido…
Entrou, levou uma amiga e fizeram lá um estardalhaço desgraçado. Entretanto, um amigo do marido escondeu-o na casa de banho, disse-lhe que ele não estava e que lhe tinha emprestado o carro. Depois saiu com ela, para a empatar enquanto o marido fugia para chegar primeiro que ela a casa. É verdade que as mulheres estavam lá. Mas não era como noutros sítios, em que as pessoas entravam e elas iam sentar-se à mesa. Elas estavam proibidas de se meter com quem quer que fosse — era uma das normas do Elefante. Eram eles que se dirigiam diretamente a elas ou que, por serem clientes assíduos e já terem alguma intimidade com os garçons, pediam que elas fossem ter com eles. Elas não tinham ordem para chegar e oferecer-se.

A jornalista Elsa Bicho encontrou-se sete vezes com Manuel Ribeiro: "Chegas ao fim do livro e ficas com carinho pelo porteiro"

Que outras regras existiam?
A apresentação era muito importante, elas tinham de estar sempre lindíssimas, em modo diva. Eles depois também as protegiam muito: podia ser o empresário mais milionário que houvesse, se se comportasse mal com alguma mulher, se fosse indelicado, agressivo ou incorreto, nunca mais lá entrava, era garrafa à porta na hora. Eles tinham esse cuidado e elas lá sentiam-se deusas e faziam o dinheiro que queriam.

Foste tu que usaste a expressão: “Ali as notas rodavam”…
Sim, mas o Elefante nunca lucrou com o dinheiro delas, elas saíam, entravam, levavam o dinheiro que queriam, faziam o que queriam, onde queriam — dizia-se até que o Elefante tinha parcerias com pensões e hotéis, mas não, isso nunca aconteceu. O que havia era panfletos a fazer publicidade ao Elefante nos hotéis. Ele conta que havia russas que chegavam a fazer grandes festas em iates. Elas iam para onde queriam.

E, quando voltavam, contavam tudo.
Contavam umas às outras e ao porteiro. Que era quem via tudo, quem entrava e quem saía — e com quem. Ainda que fosse um despistado do caraças, que foi uma coisa que me deixou com muitos nervos…

Não percebeu durante vários dias que o Hugh Grant lá ia, não foi?
Não deu pelo Hugh Grant, não deu pelo Johnny Hallyday… lá está, ele diz que, para ele, eram todos comandantes, engenheiros, doutores. Não fixava nomes. E vivia de noite (ainda hoje vive, diz que acorda às 16h e come um iogurte), portanto não via televisão nem lia jornais. Podia ter o Khadafi à frente, não sabia quem era.

"Naquela altura as portuguesas não seriam mulheres muito cuidadas, eram mulheres normais, ou com buço ou que trabalhavam, ou eram mães de filhos... Quando chegam as brasileiras revolucionam aquilo tudo, porque têm outro tratamento, são mais quentes, mais dadas, mais faladoras, mais estridentes"
Elsa Bicho, jornalista

O Khadafi também esteve no Elefante Branco?
O Khadafi não esteve, mas houve uma cimeira em Lisboa a que ele veio — até ficou numa tenda, não quis ir para um hotel — e havia uma menina do Elefante que tinha livre-trânsito para entrar na dita cimeira, que estava cheia de polícia e de segurança. Portanto, depreende-se que tinha um bom padrinho, não sei se seria o Khadafi ou não…

Ainda no departamento das mulheres, fala-se numa Carla Açoriana que terá sido a que mais faturou no Elefante Branco.
O Ribeiro diz que, quando começou, em 1986, só havia a dita mulher portuguesa, e a típica mulher portuguesa não é alta e esbelta, como são as nórdicas, por exemplo. Naquela altura, as portuguesas não seriam mulheres muito cuidadas, eram mulheres normais, ou com buço, ou que trabalhavam, ou eram mães de filhos… Quando chegam as brasileiras revolucionam aquilo tudo, porque têm outro tratamento, são mais quentes, mais dadas, mais faladoras, mais estridentes…

“Uma brasileira analfabeta parecia doutorada ao pé das tugas”, é o que diz o próprio Ribeiro…
Cá está: uma das condições para uma mulher andar no Elefante não era só ser bonita, até porque, muitas vezes, clientes iam lá requisitá-las para fazerem presenças e serem acompanhantes. Porque elas, além de serem bonitas, sabiam conversar, eram cultas, opinavam sobre política, sobre sociedade, sobre futebol. E isso arrumava com os homens, não era habitual cá, infelizmente é verdade. Não estavam ali só para sexo, mas, nessa parte, também faziam a diferença.

Como assim?
O que ele me dizia é que as brasileiras eram diferentes. Ao início estava um bocadinho acanhado comigo, tive de lhe dizer para imaginar que eu era um homem, para falar abertamente, disse-lhe que tinha 40 anos e que não me ia chocar com nada. E ele só me perguntava “Mas tenho de te fazer um desenho?”; “Tem, faça-me um desenho!”. “Porque elas eram diferentes, faziam tudo, tudo!”, respondeu-me às tantas. Agora, no meio dessa maluquice toda apareceu a Carla Açoriana, que era uma miúda de 18 anos — que, entretanto, se perdeu na vida, começou a fazer striptease, meteu-se na droga, estragou-se.

Quem era ela?
Tentei descrevê-la ao máximo, mas é complicado pedir a um homem de 70 anos, e que já está a perder a memória, vocabulário para descrever a mulher que todos queriam… “Tinha tudo no sítio, tinha curvas, tinha o peito perfeito e rijinho, e uma gargalhada…” Sei que tinha o cabelo comprido e loiro, aos caracóis, olhos claros, um sorriso do tamanho do mundo e uma gargalhada que ecoava no Elefante todo. Ela entrava e toda a gente ficava pasma a vê-la desfilar e falar e rir. Andava sempre de decotes, saias curtas e embasbacava todos. Ele diz que foi a rapariga que mais faturou no Elefante. E conta a história de ela ter recusado um sheik árabe que chegou cá e queria sair com ela, mas a noite já estava no fim e ela queria era ir para o Alcântara-Mar dançar com as amigas. Ele ofereceu-lhe o equivalente a dois mil euros e ela não quis. Andou lá dias a fio atrás dela e ela nunca lhe ligou nenhuma.

"Aquilo tinha muito requinte, os copos eram lavados com vodka por causa das manchas, os guardanapos com o logótipo do Elefante tinham de estar alinhadinhos, havia muito cuidado com os funcionários, que tinham de ter os sapatos muito bem engraxados e de usar lacinho. Havia muito luxo, muita elegância, aquilo era top, como agora se diz. E não era para todas as carteiras"
Elsa Bicho, jornalista

Essa é uma questão sempre muito presente: o dinheiro. Falas no preço das garrafas, do bife, do valor que a casa faturava por noite, era dinheiro que nunca mais acabava.
Sim, as garrafas, na altura, custavam 18 contos [318 euros a preços atuais], o bife andava à volta dos 40 euros atuais. Aquilo tinha muito requinte, os copos eram lavados com vodka por causa das manchas, os guardanapos com o logótipo do Elefante tinham de estar alinhadinhos, havia muito cuidado com os funcionários, que tinham de ter os sapatos muito bem engraxados e de usar lacinho. Havia muito luxo, muita elegância, aquilo era top, como agora se diz. E não era para todas as carteiras. Também era muito usado para transações comerciais, para fechar vendas de carros ou de casas. Quando queriam impressionar o cliente, levavam-no ao Elefante, pagavam o jantar, muito bem servido, com pompa e circunstância, apareciam as senhoras, que, de alguma maneira, tornavam o ambiente mais leve, e assinava-se mais um contrato.

O Ribeiro diz que, no início, ganhava 60 contos de ordenado e 500 contos de gorjetas [no total, com a taxa de inflação, o equivalente a 9.890 euros atuais]. É surreal, o porteiro teve um Porsche…
Teve três Porsches! E agora diz que está aflito da coluna por causa dos Porsches! Ganhou o dinheiro que quis e também o esturrou todo, ia passar fins de semana aqui e ali… Segundo ele, a pessoa que mais ganhava ali era a mulher que estava na casa de banho, para que nada nunca estivesse desarrumado ou sujo. Na altura, as notas andavam ali nos bolsos a rolar e iam-lhe dando. Ela e a senhora que estava no bengaleiro tiravam grandes ordenados.

Não havia cartões nem caixa registadora, era tudo pago em dinheiro. Contas que eles guardavam as notas em caixotes de cartão…
Era arcaico, mesmo à filme, tinham os escritórios metidos lá para o fundo de um corredor, cheio de caixotes e caixas de bebida, iam metendo ali o dinheiro e, no dia seguinte de manhã, a senhora da contabilidade ia depositar tudo ao banco.

No Elefante Branco Eusébio era o "senhor Ferreira": "Tal como na Tia Matilde, tinha a sua mesa e a sua garrafa"

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Escreves que, em 1986, a casa faturava, em média e a preços de hoje, 5 mil euros por noite e 150 mil euros por mês.
Estamos a falar de outra época, era uma maluquice. Nunca foram assaltados e dificilmente lá faziam rusgas, deve ter havido, no máximo, duas ou três. E isto porquê? Porque os polícias estavam lá todos, os comandantes eram amigos e clientes, tudo se resolvia em conversa, por amizades, por padrinhos… todos lá estavam, portanto ninguém tinha telhados de vidro. Ou melhor: todos tinham telhados de vidro!

Toda a gente ia ao Elefante — políticos, empresários, príncipes e sheiks —, mas havia uma ligação muito forte ao futebol.
E não era só uma ligação ao jogador de futebol, era até, sobretudo, uma ligação aos dirigentes. Era lá que se faziam os negócios. E depois havia outra coisa que era prática corrente: os clubes de futebol, para os receberem bem, levavam os árbitros ao Elefante. E pagavam a conta, fosse do whisky, do jantar, do bacalhau à brás ou de uma saída com uma mulher. E isso era assumido: os clubes grandes em Portugal faziam-no, os pequenos eram clientes. O Estrela da Amadora ia lá, o Belenenses e o Vitória de Setúbal também, e os clubes lá de cima, quando vinham jogar a Lisboa, iam todos ao Elefante: iam os presidentes, os órgãos sociais e os jogadores. Depois era uma altura em que o Benfica estava muito bem ao nível das competições europeias e, quando recebia adversários de renome, aquilo era um pandemónio, caíam lá todos — todos!

A ligação ao Benfica era forte também graças a um dos donos, que tinha a mulher a trabalhar lá, certo?
Era o Manecas. O Manecas era daqueles benfiquistas que estava lá dentro, acompanhava a equipa para todo o lado, e era um mãos largas, portanto levava para lá toda a gente do Benfica e não cobrava nada a ninguém.

Levava toda a gente, incluindo o “Senhor Ferreira”…
O senhor Ferreira, pois… porque no Elefante Branco ninguém lhe chamava Eusébio! Por acaso há uma história que o Ribeiro me conta que acho que pouca gente sabia: eram os funcionários do Elefante que estacionavam os carros dos clientes e estranhavam muito uma toalha branca que o Eusébio tinha sempre a envolver o travão de mão. Um dia perguntaram-lhe e ele explicou que era uma superstição que tinha… Toda a vida se soube que, tal como na Tia Matilde, o senhor Ferreira tinha a sua mesa e a sua garrafa no Elefante. Isso é capaz de não estar muito explícito no livro, mas o Eusébio atravessou-se muitas vezes com contas no Elefante: pagou muitas vezes as contas de malta conhecida que ia para lá, se perdia no meio do fumo, da música e do cheiro a perfume e, quando queria sair, não tinha dinheiro. Fala-se também de uma seleção da Checoslováquia que lá apareceu eram 4h30 da manhã, mas o Ribeiro “desenrascou” e lá os deixou entrar.

E era uma seleção incrível, não era? O Poborsky, o Cech, o Nedved…
Era a nata toda, era a geração de ouro deles, durante o Euro 2004… Fala-se também do Cherbakov, que foi ao Elefante no próprio dia em que chegou a Lisboa e ficou com uma ótima reputação entre elas, diziam que ele era muito bom de cama. Coitado, depois sofreu o infortúnio que sofreu… Cá está, havia essa ligação porque o futebol é um mundo onde há muito dinheiro e se quer agradar. O Elefante tinha a discrição, a privacidade e o ambiente certo para eles estarem à vontade. No fundo, a questão é muito esta: quem entrava no Elefante estava à vontade. É engraçado, tenho recebido chamadas de muita gente que está aflita, com medo de ver o nome no livro…

Que tipo de gente?
Gente do futebol, gente da política. Houve um que me disse “Olhe que a minha família sabia!” Por isso é que tenho algum medo que o livro dececione as pessoas. As pessoas estão à espera de escândalo, de saber quem é que dormia com quem, quem era a figura pública que gastava dinheiro em mulheres…

Há bastantes nomes, diria eu…
Há bastantes nomes. E há histórias que se contam sem nomes e os protagonistas das histórias, se lerem, vão saber que foram eles…

Nem terão de ser só eles. Lembro-me de uma descrição bastante detalhada: falas num “músico que casou com a irmã de um cavaleiro tauromáquico que morava na Costa”. Não faço ideia de quem seja, mas não deve ser assim tão difícil chegar lá…
E há também uma história de um antigo internacional português que levou um tabefe de uma rapariga, à frente de toda a gente e de toda a seleção nacional, porque lhe começou a meter notas no decote. O ex-jogador vai saber que foi ele, mas eu não vou dizer o nome. Uma das coisas com que tivemos muito cuidado — e que foi uma das exigências do Ribeiro — foi a proteção dos nomes e da privacidade alheia. Por exemplo, falo aí de um jornalista muito conhecido da televisão que casou com uma mulher do Elefante — que até era a mais feia que lá andava, mas foi aquela por quem ele se encantou. Não podia escrever nomes e expor assim a vida da rapariga, não é?

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