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Os dois líderes fizeram questão de sublinhar que os dossiês autárquicos e orçamentais não se misturam

Os dois líderes fizeram questão de sublinhar que os dossiês autárquicos e orçamentais não se misturam

Eleições, eleições, Orçamentos à parte. Como Jerónimo e Costa mostraram que querem continuar a negociar

PCP voltou a sofrer perdas às mãos do PS, mas Jerónimo foi claro: o resultado não afeta a política nacional. Costa fez questão de valorizar ganhos do PCP, especialmente em Lisboa.

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Quando Jerónimo de Sousa entrou, de passo decidido e rosto fechado, na sala do hotel Sana Metropolitan para reagir aos resultados eleitorais, as contas de cabeça não eram fáceis de fazer. Àquela hora, praticamente onze em ponto, caíam notícias contraditórias: o PCP perdia câmaras para o PS, mas crescia em Lisboa e no Porto; a derrota que sofreu às mãos do PS há quatro anos tornava-se cada vez mais difícil de corrigir, mas os comunistas não pareciam surpreendidos. A contabilidade das perdas ainda iria agravar-se, mas o partido mostrava-se já determinado em passar uma mensagem política importante: as autárquicas não serão “determinantes” para a política nacional. Por outras palavras: o PCP não planeia mudar a estratégia que tem seguido por causa de mais um desaire eleitoral.

Um par de horas depois, desta vez no largo do Rato, também em Lisboa, António Costa comentava os resultados da noite e era questionado sobre a forma como as relações entre socialistas e comunistas poderiam ser afetadas daqui para a frente. A frase com que respondeu poderia facilmente ter sido dita por Jerónimo de Sousa ou um qualquer dirigente do PCP, tal foi a defesa que fez dos resultados comunistas: “O PCP perdeu cinco câmaras para o PS, mas o PS também perdeu duas câmaras para a CDU. E em Lisboa foi manifesta a transferência de votos para a CDU, o que pode ter custos políticos significativos para o PS”.

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Em dois pontos diferentes da cidade, os dois partidos começavam assim a digerir, e a gerir, os resultados que tinham em mãos — e o que será a relação PS/PCP daqui para a frente. Deixando pistas relevantes: para Jerónimo de Sousa, importou reconhecer rapidamente a derrota e olhar em frente, já de olhos postos nas negociações orçamentais; para António Costa, a prioridade foi desvalorizar e não hostilizar o partido que tem funcionado como parceiro político nos momentos decisivos. E num princípio, os dois pareceram mais do que em sintonia: eleições, eleições… Orçamentos à parte.

Jerónimo recusou ficar “choroso”. E seguiu

Jerónimo não teve pruridos. Mal se colocou diante do microfone, resumiu o panorama assim: os resultados, àquela hora ainda muito longe de estarem apurados, ficaram “aquém”; o cenário não foi o “desejado”; o partido registou “perdas” que não queria ter registado, mesmo que tenha conseguido recuperar uma ou outra câmara.

No final da noite, a votação global ficaria nos 8,21%, um pouco abaixo dos 9,45% de 2017, e o saldo líquido seria uma perda de cinco câmaras, de 24 para 19. O PCP veria seis câmaras a passar para o domínio do PS (entre elas, Loures, Alandroal, Alvito ou Montemor-o-Novo), recuperaria menos (Viana do Alentejo, por exemplo) e agarraria duas capitais de distrito (Setúbal e Évora) mas não seria capaz de assegurar as recuperações dos bastiões perdidos, como Almada ou Barreiro. O foco estaria em desviar as atenções, por exemplo, para o bom resultado (a superar a fasquia dos 10%) de João Ferreira, muitas vezes apontado como sucessor de Jerónimo, em Lisboa.

A essa hora, Jerónimo ainda não dispunha de dados suficientes para fazer o balanço, mas já sabia que o quadro não seria famoso nem mostraria a desejada inversão da tendência de perdas dos últimos anos. E, por entre tiradas espontâneas — fora o discurso escrito, lá explicou que, “como se diz no futebol, por um se ganha e por outro se perde” e num partido habituado a resistir não se fica “choroso” por isso –, quis virar a página e avançar.

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Foi por isso que, segundos depois de ter admitido a derrota, seguiu em frente: se a questão era como é que a estratégia nacional do partido fica depois de voltar a ver câmaras caírem para as mãos do PS, arrumou-a rapidamente dizendo que estes resultados não influenciam a política nacional; apressou-se a dizer que agora é urgente “responder aos problemas do país”; e passou mesmo ao caderno de encargos concreto: dos salários ao fim da caducidade da contratação coletiva, da revogação das leis laborais do tempo da troika aos aumentos de reformas, da rede pública das creches ao reforço do SNS, a série de recados pareceu desenhada para António Costa ouvir.

O PCP já vinha, aliás, avisando desde o início do verão que só negociaria o Orçamento do Estado com o PS depois das autárquicas e que se recusaria a misturar as duas pastas, tal como fez em 2017, depois de sofrer uma hecatombe eleitoral às mãos dos socialistas — nem por isso o partido desfez então os acordos a nível nacional.

Entretanto, já tinha aproveitado o palco da Quinta da Atalaia, na Festa do Avante!, para começar a desenhar o caderno de encargos em que insistiu agora, assumindo que a pasta orçamental será o próximo dossiê a tratar. No Sana, Jerónimo voltou à garantia que tem dado ano após ano, mesmo após nova derrota: o PCP “não prescinde de intervir para todas as soluções”. E agora, disse Jerónimo, é preciso “olhar para o futuro”.

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Costa confia no sentido de “responsabilidade” comunista

Foi mais ou menos o que António Costa tentou fazer. Na sede do Rato, numa altura em que ainda não estava confirmada a surpreendente derrota em Lisboa, Costa pintava um cenário cor de rosa para o PS a nível nacional. Mas, questionado sobre a relação com o PCP, a história era outra: o primeiro-ministro fez questão de valorizar os ganhos dos comunistas e de não hostilizar nem apoucar o partido com quem quer negociar já em outubro mais um Orçamento.

O primeiro passo seria passar a ideia de que não olha para o PCP como um adversário: “Ganhámos cinco câmaras à CDU (a coligação que junta PCP e PEV) e 13 ao PSD”, contabilizava Costa. Em segundo lugar, quis elogiar o sentido de “responsabilidade” do partido que trata, Orçamento após Orçamento, como um parceiro fiável: “Acho que sempre ficou muito claro para todos que nem PCP nem PS confundem de forma alguma o processo com a responsabilidade que temos de assegurar a estabilidade e a continuidade da viragem política que se iniciou em 2015”.

Para Costa, a conclusão era clara: os resultados não trazem nenhuma “perturbação das negociações calendarizadas”. Quem tivesse ouvido o discurso de balanço de há quatro anos e o desta noite poderia ter uma sensação de dejá vu: é que já em 2017 Costa insistia não ver nos resultados qualquer “derrota dos parceiros parlamentares”. O comité central respondia então avisando que “nenhuma circunstância” reduziria a “independência” e o “poder de decisão política” do PCP — leia-se, a derrota não impediria o PCP de se posicionar (e viabilizar) Orçamentos futuros.

“Não há nenhum tabu”

O discurso do PCP tem um fio condutor claro: quando a campanha arrancou, há duas semanas, Jerónimo negava que o facto de ter entrado em clima de guerra com o PS a propósito das autárquicas representasse uma “contradição” face à disponibilidade do partido para negociar o Orçamento.

E explicava, de forma cristalina, o raciocínio do PCP: “Naquilo em que é possível convergência, procuramos a convergência. Naquilo em que existe diferença e divergência, naturalmente, não acompanhamos o Governo do PS. Não há aqui nenhum tabu”. Mais claro: o facto de essas divergências existirem “não significa qualquer quebra ou rotura de diálogo que é necessário em relação, particularmente, a matérias de fundo como é o Orçamento do Estado”.

Se haverá “quebra” ou “rotura”, dependerá das negociações que se seguirem, para as quais o PCP continua disponível, e das conclusões que o comité central, que deverá reunir-se esta semana, daqui retirar. Mas Jerónimo já fez questão de separar os dossiês, no arranque da campanha como agora. Até porque as derrotas não foram exatamente inesperadas… e a política nacional — onde o PCP tem optado por manter a sua influência junto do Governo, pelo menos até ver — tem de seguir.

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