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João Pedro Morais/Observador

João Pedro Morais/Observador

Eleições nos Açores. O que está em causa para cada partido? /premium

PS não quer maioria a fugir-lhe das mãos. PSD não quer cair. Chega quer ser a terceira força, e empurrar CDS para o fundo. 'Chicão' vê primeiro teste. PCP pode desaparecer e BE quer segurar oposição.

Parece ser uma eleição sem história, mas, nas entrelinhas, a corrida eleitoral deste domingo, nos Açores, esconde mais do que isso. Vasco Cordeiro tem a maioria absoluta a fugir-lhe das mãos e não quer ser o responsável por tirar esse trunfo ao PS, que governa confortavelmente sozinho há mais de 20 anos, muito à custa do ex-presidente Carlos César — que também entrou na reta final da campanha numa arruada barulhenta na freguesia de Rabo de Peixe.

O PS optou por fazer uma campanha de mínimos olímpicos, porque quando se está bem o melhor é não mexer, e a Covid-19 foi o pretexto perfeito para isso. O PSD quer segurar votos com o discurso da “mudança” e da “credibilidade” do seu líder, o BE quer afirmar-se como oposição, o CDS testa a liderança de ‘Chicão’, o PCP tenta segurar-se mas pode mesmo perder a representação nos Açores, e o Chega quer ser o “terramoto político” de domingo. Mas todos sabem duas coisas: eleger um dos 57 deputados do Parlamento regional não é fácil, porque cada círculo eleitoral tem uma dinâmica própriae o PS só precisa de perder dois deputados para perder a maioria.

Em Ponta Delgada, quem andasse pelas ruas nesta tarde de sexta-feira, dia do tudo por tudo no apelo ao voto, pouco dava pela existência de uma campanha eleitoral a decorrer. Num dos largos principais, junto à Igreja Matriz, uma carrinha do CDS passa a entoar o hino do partido: “Para a voz de Portugal ser maior/junta a tua voz à nossa voz/e vamos cantando”. Mas é só uma carrinha com altifalante, para fazer lembrar os adormecidos de que há eleições no domingo. O coordenador do CDS Açores está a apostar tudo na ilha Terceira, e era lá que também estava o líder nacional, Francisco Rodrigues dos Santos, que assentou arraiais nos Açores há duas semanas. São Miguel, contudo, não é terreno fértil para centristas.

Minutos depois, é a comitiva do Iniciativa Liberal que cruza a esquina, com o coordenador e candidato a deputado Nuno Barata à cabeça. Mas são apenas meia dúzia de pessoas com folhetos nas mãos. Ninguém dá por eles. O cenário repete-se com três elementos do Bloco de Esquerda de São Miguel, de bandeira em punho, que tentam abordar quem passa para lembrar que há eleições dali a dois dias (o líder está no Faial). Pobreza, educação (os Açores têm índices de iliteracia superiores à média nacional) e saúde têm sido temas abordados, mas pouco. A campanha passa entre os pingos da chuva, com o PS a conseguir dominar a narrativa: todos contra a maioria absoluta do PS, e todos condicionados pela pandemia — um tema que tende a favorecer o poder instalado. O que se joga este domingo nos Açores?

PS. A maioria ou o caos

João Pedro Morais/Observador

O PS governa com maioria absoluta há 20 anos, mas tem vindo a reduzir a percentagem de votos desde 2004, altura em que, com Carlos César, o PS teve 56% dos votos, o valor mais alto. Nas últimas legislativas regionais, os socialistas perderam votos passando de 49% em 2012 para 46% em 2016, e a sondagem da Universidade Católica aponta agora 45% para o PS, com a eleição estimada de 28 a 32 deputados.

Um intervalo que faz toda a diferença: se o resultado final for a eleição de 28 deputados, então aí é uma derrota para os socialistas. A maioria absoluta consegue-se com 29 deputados (num total de 57) e 30 é o número de mandatos que o PS tem atualmente. Abaixo disso é derrota.

Vasco Cordeiro encerrou a campanha, na quinta-feira através de um evento online do PS, a dramatizar ao máximo esse apelo: se não houver uma maioria “estável” e “segura” do PS, então vai somar-se à crise pandémica uma “crise política”. Porquê? Porque os Açores vão passar a “discutir outras coisas” nomeadamente as “vontades e desejos” dos outros partidos, em vez de discutirem o rumo dos Açores. É a maioria ou o caos, alerta o PS.

PSD. Uma mancha (ou manchete) no currículo a dois dias do fim

João Pedro Morais/Observador

José Manuel Bolieiro procurou fazer uma campanha “tranquila”, sem ambição nem depressão, procurando puxar dos galões de político “humilde” e de perfil honesto, e exibindo para isso o seu percurso de autarca de Ponta Delgada. Mas num instante tudo muda. E tudo mudou na quarta-feira, quando a edição do jornal Público fez manchete com a notícia de que o líder do PSD Açores estava a ser investigado pelo Ministério Público pelo crime de insolvência culposa quando era presidente da câmara, estando em causa a venda de uma empresa municipal, a Azores Park.

Uma notícia “requentada” nas palavras de José Manuel Bolieiro, e estrategicamente colocada nos jornais a dois dias do final da campanha. A comitiva do PSD estava no Corvo quando viu a notícia, e só reagiu nas Flores onde aterrou a seguir. Nesse mesmo dia, José Manuel Bolieiro chegaria ainda a Ponta Delgada a tempo de se justificar aos jornalistas: sempre agiu em nome do “interesse do povo e dos munícipes” e a notícia em causa não é mais do que uma tentativa de “pôr em causa a honra do político” na véspera do sufrágio. O próprio Rui Rio teve de intervir. Primeiro, num tweet, depois num vídeo publicado nas redes sociais do PSD. “O PS resolveu agora lançar mão de uma história requentada que todos os açorianos conhecem para confundir os açorianos e difamar quem é sério”, dizia Rio sobre o se ex-vice-presidente.

Foi a chamada corrida atrás do prejuízo. Depois disto, foi tentar desmontar a tese da “crise política”, com José Manuel Bolieiro a defender que a “mudança de governo não é geradora de crise política nenhuma”. O PSD tem atualmente 19 mandatos no Parlamento regional (teve 30% nas últimas eleições), e ambiciona agora vir a eleger mais um ou dois. A sondagem da Católica dá um intervalo entre 18 e 22 mandatos, o que pode fazer toda a diferença em relação ao PS ter ou não maioria absoluta.

A chave pode estar nos votos das ilhas mais pequenas — Corvo e Flores — e tudo pode mudar se o PCP, que tem atualmente um deputado eleito pelas Flores, perder a representação parlamentar. Foi sobretudo nessas duas ilhas que José Manuel Bolieiro esteve nos últimos dias, mas foi também aí que esteve Carlos César, ex-presidente do Governo regional e presidente do PS, a fazer uma campanha intensiva de porta a porta na vez de Vasco Cordeiro, que esteve em São Miguel na reta final.

CDS. Um teste ao líder ou às 7 vidas do partido

ANDRÉ KOSTERS/LUSA

Pode ser o grande derrotado da noite. O CDS é atualmente a terceira força política nos Açores, com 7% dos votos nas últimas eleições e 4 deputados eleitos, mas a sondagem conhecida esta semana aponta para uma queda para metade: podendo eleger entre 1 a 3 deputados. Artur Lima, líder do CDS Açores, tem feito campanha a afirmar-se como a “única alternativa” à maioria absoluta do PS, num apelo ao voto útil, e contou com a presença quase permanente do líder nacional do partido, Francisco Rodrigues dos Santos, que se envolveu pessoalmente na campanha tendo passado as duas últimas semanas ao lado do líder regional.

Uma queda para metade, por isso, pode não significar a demissão de ‘Chicão’, mas é indiscutível que se trate do primeiro teste nas urnas desde que foi eleito. E se se confirmar uma votação na casa dos 3%, não augura nada de bom para as sete vidas do partido fundador da democracia, que está sempre em vias de morrer. Francisco Rodrigues dos Santos e Artur Lima, que é vice-presidente do CDS nacional, estiveram toda a última semana de campanha na ilha Terceira onde tentam ter uma melhor prestação ‘roubando’ votos ao PSD. Chega?

Chega. O “terramoto” Ventura vai atingir os Açores?

João Pedro Morais/Observador

É precisamente o Chega que pode ser a ameaça do CDS. Se o CDS corre o risco de reduzir a sua representação para metade, o Chega pode mesmo vir a eleger 1 deputado nos Açores. É o que diz a sondagem da Católica e é o que se vai comentando nas comitivas das restantes campanhas. Muitos eram os que diziam que André Ventura tinha chegado tarde aos Açores — chegou só na última semana de campanha –, e que por isso podia não chegar lá. Mas a última semana pode ter sido suficiente para garantir a entrada no Parlamento açoriano.

Carlos Furtado é o coordenador do Chega nos Açores mas, segundo ouviu o Observador de várias fontes, a campanha que fez nos últimos meses foi discreta e até “moderada”. Era o PPM (Partido Popular Monárquico) quem fazia a campanha mais agressiva — “e punha o Chega num altar”. Mas a chegada de André Ventura ao arquipélago pode ter imprimido algum ritmo ao partido na região. Ventura não quer menos do que “ser a terceira força política” nos Açores. Quer um “terramoto político” e quer reduzir o CDS ao mínimo possível: “O CDS já morreu e ninguém sabe”.

Foi o que disse André Ventura num jantar comício em São Miguel, na quinta-feira à noite, onde também criticou quem vive do rendimento mínimo nos Açores e está “no café o dia todo sem fazer absolutamente nada”. “Leiam os meus lábios: no domingo à noite o Chega vai provocar um terramoto político nos Açores ao tornar-se a terceira força mais votada”, disse. O alvo está definido: o CDS, a “muleta do regime”.

BE. Contra a maioria absoluta, marchar

João Pedro Morais/Observador

O Bloco de Esquerda tem atualmente dois deputados nos Açores (teve 3,6% dos votos nas últimas eleições) e tudo indica que poderá manter o score. Se assim for, o partido coordenado por António Lima nos Açores já se dá por satisfeito. “Queremos crescer em votos mesmo que isso não se traduza num reforço do número de mandatos”, dizia António Lima ao Observador. Com um discurso muito centrado na necessidade de tirar a maioria ao PS, foi assim que o Bloco de Esquerda encerrou esta sexta-feira a campanha no Faial: “20 anos de poder absoluto fizeram o Partido Socialista pensar que a democracia é algo que existe de quatro em quatro anos e que pelo meio manda o PS”. O objetivo é claro: crescer e tirar a maioria aos socialistas.

CDU. Manter as Flores mas com o risco de desaparecer

João Pedro Morais/Observador

É uma das incógnitas da noite: o PCP tem atualmente um mandato no Parlamento regional (teve 2,6% dos votos nas últimas eleições), eleito pelo círculo eleitoral das Flores, e pode mesmo vir a perder a representação parlamentar. É quase dado como certo entre algumas comitivas partidárias que isso vá acontecer, muito por causa da entrada de novos partidos no hemiciclo (incluindo o Chega). Marco Varela, o coordenador dos comunistas nos Açores, fechou a campanha no Faial, a apelar ao voto naqueles que, nos últimos quatro anos, estiveram “ao lado dos açorianos no combate às injustiças sociais e às desigualdades”. Resta saber se é suficiente.

PPM. “Para Parar os Mamões”

João Pedro Morais/Observador

PPM é Partido Popular Monárquico mas, na campanha eleitoral nos Açores, é mais “Para Parar os Mamões”. É esse o slogan que o partido, que tem um deputado no Parlamento regional (Paulo Estevão), tem afixado em cartazes e nos carros que percorreram por estes dias as ruas das cidades. Gonçalo da Câmara Pereira, líder nacional do PPM, esteve nos Açores na reta final da campanha e o objetivo máximo parecia ser fazer barulho. Diz que está confiante na eleição de “três ou quatro deputados”, mas o barulho todo é para não perder um: Paulo Estevão é eleito pelo Corvo e espera manter-se assim.

São mais os cartazes do PPM pelas ruas de São Miguel do que dos outros partidos. Um deles é sugestivo: Vasco Cordeiro em cima de um burro (numa manipulação de imagem) a dialogar com o animal que lhe responde que “20 anos” é muito tempo para estar no poder. “Já lá estiveste 20 anos, queres mais?”, atira o burro.

PAN, IL, Aliança e Livre. Devagar, devagarinho, é possível eleger?

João Pedro Morais/Observador

Não têm candidatos por todos os círculos eleitorais, mas tentam a sua sorte. O PAN, que podia ter maior gás devido à representação que tem no Parlamento nacional, pode eleger um deputado, a avaliar pela sondagem, mas há quem duvide que seja possível. Muito menos a Iniciativa Liberal, o Aliança ou o Livre.

É que as previsões que são feitas nas sondagens são particularmente frágeis nos Açores devido à complexidade do sistema eleitoral. Primeiro, a sondagem da Católica abrangeu apenas as ilhas de São Miguel e Terceira, que têm os dois maiores círculos ao eleger 30 dos 57 lugares no Parlamento (dez pela Terceira, 20 por São Miguel); e, depois, além dos 9 círculos por cada ilha, existe ainda um círculo de compensação, que agrega os “restos” dos votos que os partidos tiveram nos vários círculos e que não foram suficientes para eleger um deputado. Há cinco deputados que são eleitos por esta via do círculo de compensação que reúne os votos que não foram aproveitados nos outros círculos e que, por isso, beneficia os partidos que concorrem em mais círculos. Daí que seja difícil a entrada de novos partidos no hemiciclo açoriano.

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