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Pablo Blazquez Dominguez/Getty Images

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Em Espanha, os mortos não esquecem. E falam

Há quem deixe vinte milhões de euros para obituários e quem aproveite a necrologia para mandar mensagens enigmáticas e políticas, revelar problemas com heranças. Ou vingar-se.

É um ritual. No dia catorze de cada mês, os jornais La Vanguardia e El Periódico trazem um anúncio nas páginas da necrologia onde se lê “Manuel Martínez Calderón. Siempre seremos cuatro. Falleció en Barcelona el 14 de mayo de 2001“. Uma citação de um provérbio, poema ou frase de filósofo completam este enigmático anúncio. A 19 de Fevereiro, data do nascimento de Manuel Martínez Calderón, o homem evocado nestas necrologias, e a 14 de Maio, data da sua morte, o anúncio ocupa a página inteira. A mensagem: “Siempre seremos cuatro” lá está a atiçar a curiosidade e as especulações.

Ao fim de vários meses a passar os olhos por este anúncio aconteceu o inevitável: os jornalistas partiram à procura de informações sobre Manuel Martínez Calderón, um homem rico de vida discreta que se tornou célebre precisamente por ter morrido.

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Manuel Martínez Calderón era proprietário de uma empresa de demolições. Visto de Lisboa, o negócio pode não parecer muito atractivo, mas se tivermos em conta que Manuel Martínez Calderón viveu parte da sua vida em Barcelona e que esta cidade sofreu um crescimento urbano que implicou fazer muitas demolições, além de ter tido de se preparar para os Jogos Olímpicos de 1992, percebe-se que trabalho nunca faltou a este espanhol que esteve longe de nascer em berço de ouro.

Manuel Martínez Calderón era um dos quatro filhos de uma jovem viúva. O pai, republicano, morreu na guerra. Será exactamente por causa da mãe, que suspirava por vê-lo na televisão, que Manuel Martínez Calderón acedeu a dar a única entrevista televisiva da sua vida. Fê-lo num programa que pretendia dar a conhecer “homens que se tivessem feito a si mesmos”. Manuel Martínez Calderón não desiludiu a audiência. “Nos negócios não há sorte. Sorte é calhar-te a lotaria”, declarou a quem o entrevistava. Também se lhe ouviram frases como “Há gente que vive do negócio e gente que vive para o negócio. Eu faço parte dos segundos” e “Os catalães de agora trabalham menos que os anteriores. Esta geração já não é a mesma.”

Se se tiver em conta que entre 2001, data da morte de Manuel Martínez Calderón, e 2013 os seus herdeiros gastaram aproximadamente um milhão de euros nas secções de necrologia de La Vanguardia e El Periódico, apenas se pode concluir que mais facilmente desaparecem estes jornais do que se acaba o dinheiro que muito previdentemente Manuel Martínez Calderón deixou de parte para assinalar a sua morte.

A sua empresa, Derribos Martínez, posteriormente rebaptizada Escombros Martínez, despachava o trabalho mais rapidamente que as concorrentes e Manuel Martínez Calderón recusava o conceito de missões (ou mais propriamente de demolições) impossíveis. Os jornalistas descobriram também que não se limitou a demolir e a ganhar dinheiro: Manuel Martínez Calderón foi um dos fornecedores benévolos de material para a Igreja da Sagrada Família e colaborou gratuitamente na recuperação de alguns edifícios emblemátios de Barcelona, como o Teatro Liceo que o fogo destruíra em 1994.

Mais complicado do que descobrir a vida de Manuel Martínez Calderón – uma vida semelhante à de milhares de espanhóis no pós-guerra que, graças ao seu esforço, conseguiram em poucos anos passar das estatísticas da fome para as do bem estar – é perceber quem são os quatro a que se refere a mensagem que deixou para ser publicada após a sua morte: ele e os seus irmãos, os quatro filhos dessa mulher que ele adorava e a quem uma vez ofereceu um camião carregado de flores? Ou ele e os seus três filhos, Manuel, José María e Julia? Esta última hipótese seria a mais provavel não se desse o caso de Manuel Martínez Calderón estar de relações cortadas com o filho mais velho, Manuel, nascido do seu primeiro casamento. Assim, serão os quatro ele mais José María, Julia e a mãe deles, Nieves, a sua segunda mulher, que começou por ser sua secretária e de quem na entrevista que deu a à TV3 declarou: “Sou um homem feliz porque faço o que gosto e estou casado com a mulher que amo. Nós, homens, valemos aquilo que a mulher decide que valemos.” (“Los hombres valemos lo que la mujer se propone que valgamos“).

Quanto à possibilidade de esclarecer o enigma junto dos filhos, é escusado tentar: os três recusam falar aos jornalistas. Donde a única certeza é que estes anúncios se manterão por largos anos, pois na fortuna que herdaram do pai estavam salvaguardados vinte milhões de euros – não é erro, são mesmo vinte milhões de euros – para a publicação dos misteriosos obituários. Se se tiver em conta que entre 2001, data da morte de Manuel Martínez Calderón, e 2013 os seus herdeiros gastaram aproximadamente um milhão de euros nas secções de necrologia de La Vanguardia e El Periódico, apenas se pode concluir que mais facilmente desaparecem estes jornais do que se acaba o dinheiro que muito previdentemente Manuel Martínez Calderón deixou de parte para assinalar a sua morte.

Todos os anos, a 21 de Março, um recado para Elena

Valha a verdade, a “esquela” de Manuel Martínez Calderón não é a única a marcar presença regularmente nos jornais espanhóis e a alimentar as especulações. O caso de Elena Lupiáñez Salanova pode inaugurar até uma espécie de novo género de crónica literária. Todos os anos, o viúvo de Elena Salanova publica uma pequena esquela em que lhe dá conta, num estilo muito particular, do que acontece no seu país, na sua casa e muito particularmente com o que sucede na vida dos seus filhos, os gémeos Boris e Yuri. Num ano, José Luis Casaus conta à mulher que os rapazes já aprenderam inglês: “Elenita: A la hora de los toros y del té tus hijos Boris y Yuri ya pueden recibir a la Reina de la Commonwealth y conversar con ella sin filtros idiomáticos; lamentablemente Kate Moss no se pone al teléfono. De todos modos en casa no se atreven a motejar a Crazy Horse llamándole Creisy Jorss. J.L. Casaus.”

No outro revela-lhe que Boris e Yuri, ‘mileuristas’ como não podia deixar de ser, são hábeis utilizadores das novas tecnologias e respectivo ideolecto: “Elenita: El viaje que no hicimos a Alejandría te incapacita para verter al sánscrito primero y a tu idioma después el bastardo esperanto que tus mileuristas hijos, Boris y Yuri, se gastan por el móvil. tqremos bsts. JL Casaus”.

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Desde 1994, ano em que morreu a mulher, que a cada 21 de Março José Luis Casaus mantém esta espécie de crónica na página de obituários do El País, jornal em que Elena Lupiáñez trabalhou na parte comercial. Quando lhe pedem para explicar o que o levou a criar esta rotina obituária e literária, José Luis Casaus, escritor e porta-voz de Izquierda Unida em Madrid, responde: “Preciso explicar-lhe o que acontece com os seus filhos, dizer-lhe como vão.”

Quem agradece a persistência e o talento de José Luis Casaus é o El País, cujas páginas de necrologia se reforçam como a versão progressista dos incontornáveis obituários do ABC.

A vingança serve-se fria

Note-se, contudo, que não é necessário ser particularmente rico, como era Manuel Martínez Calderón, ou inspirado, como é o caso do marido de Elena Lupiáñez Salanova, para conseguir imortalizar-se através das “esquelas”. Nem sequer é necessário publicar muitas “esquelas”. Dona Soledad Hernández Rodríguez só publicou uma “esquela” mas ficou famosa. Esta senhora, que nasceu em Badajoz a 1 de Agosto de 1934 e morreu a 2 de Setembro de 2012, achou por bem dar conta na “esquela” da indiferença com que os seus familiares a trataram. E assim, nesta “esquela” que deixou redigida para ser publicada depois da sua morte, escreveu nada mais nada menos que isto: “Quis nos seus últimos momentos de vida deixar preparado este obituário para manifestar o seu perdão aos familiares que a abandonaram quando mais deles precisou, os seus irmãos Juan Hernández Rodríguez e Manuel Hernández Rodríguez e a sua filha María Soledad García Hernández pela sua absoluta falta de carinho e apoio durante a sua longa e penosa doença.” (Em castelhano a vingança soa ainda melhor: “Quiso en sus últimos momentos de vida dejar encargada la publicación de esta esquela para manifestar su perdón a los familiares que la abandonaron cuando más les necesitó, sus hermanos Juan Hernández Rodríguez y Manuel Hernández Rodríguez y su hija María Soledad García Hernández por su absoluta falta de cariño y apoyo durante su larga y penosa enfermedad.“)

Ainda restam dúvidas sobre aquilo que se consegue com um simples anúncio numa página da necrologia? Note-se que, nesta matéria, o das recriminações por via dos obituários, o cortejo ainda não saiu do adro. O viúvo de dona Herminia Diego Diego pedia uma oração por alma da esposa mas avisava “hijos pasan”, expressão idiomática que traduzida para português quererá dizer: os filhos não se interessam nem interessam. Ou não sabem nem querem saber. Para bom entendedor isto chega, terá pensado este pai e marido. Dos filhos, não se sabe o que pensaram.

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Há também quem use a necrologia para tratar de problemas de heranças, como foi o caso de Francisca Sánchez Galera, que depois de afiançar ter a certeza que seu pai Francisco Sánchez Pérez se encontra próximo da Virgem da Piedade faz o seguinte pedido: “Peço-te que sigas intercedendo por mim para que Deus faça com que as tuas sobrinhas, Sánchez Fernández Gallardo, juntamente com os teus dois sobrinhos-netos, Sánchez Palacios, acabem com a espoliação dos teus bens começada pelos seus antecessores.” Para que o leitor perceba melhor o enquadramento de todo este problema, Francisca Sánchez Galera ainda acrescenta que o seu pai morreu no “estado civil solteiro” e era irmão do médico Arturo Sánchez e remata concluindo que todos somos iguais no que aos direitos respeita. Certamente que a Virgem da Piedade deve ter intercedido, pois ao que se sabe este relambório necrológico ficou por aqui!

O viúvo de dona Herminia Diego Diego pedia uma oração por alma da esposa mas avisava "hijos pasan", expressão idiomática que traduzida para português quererá dizer: os filhos não se interessam nem interessam. Ou não sabem nem querem saber. Para bom entendedor isto chega, terá pensado este pai e marido. Dos filhos, não se sabe o que pensaram.

Às vezes as famílias até são particularmente lacónicas, mas a simples publicação dos anúncios nas páginas da necrologia revela vidas no mínimo atribuladas. Como a de Juan Paredes Hernandez, casado com Carmen Sánchez Domingo, de quem teve seis filhos e que graças às páginas da necrologia sabemos ter tido uma vida dupla com Maria del Mar, que para efeitos de necrologia se apresenta como sua companheira e mãe da sua filha Marina. As duas mulheres publicam todos os anos anúncios em sua intenção. Para não desunir ainda mais o que vida separou, o jornal piedosamente publica em páginas separadas estas “esquelas”.

Para mais, as mulheres publicam estes anúncios no ABC, jornal que tem as mais famosas e lidas páginas de necrologia de toda a Espanha. Existe mesmo quem diga que em Espanha só se morre quando sai a “esquela” no ABC, de preferência entre aqueles mortos cujos apelidos remetem para um tetravô companheiro de Pelágio na gruta de Covadonga.

Convém ter em conta que a desmesura de que os espanhóis são capazes tem um largo campo de expressão nos obituários. A sucessão de apelidos, títulos, cargos e actividades que podem surgir na necrologia de um cidadão do reino de Espanha faz a rainha de Inglaterra parecer uma plebeia. É que se apenas alguns nobres são considerados grandes de Espanha, qualquer espanhol pode ter um grande obituário. E se pagar os quase onze mil euros que custa uma página inteira na edição nacional de domingo do ABC, então tem mais que garantido um dia de fama.

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Na necrologia a guerra ainda não acabou

Como não podia deixar de ser a política também anda pelas páginas da necrologia. O caso mais óbvio e pacífico será o de Justiniano Álvarez Montero que morreu a 23 de Fevereiro de 2008 com a tristeza de não viver mais uns dias de modo a poder votar em Zapatero. Já as “esquelas” que remetem para a guerra civil continuam a explicar como as sequelas de um conflito dessa natureza demoram muito mais a sarar. E mesmo o que parecia resolvido pode, de repente, ressurgir, para surpresa de todos. Foi isso que aconteceu quando, em 2006, no meio da enorme discussão sobre as implicações da chamada Lei da Memória Histórica, que de uma forma genérica se pode dizer que procura recuperar a memória dos derrotados (republicanos, socialistas, comunistas e anarquistas) na Guerra Civil, começaram a ressurgir nas secções de necrologia as “esquelas” dos executados pelo governo republicano ou pelos seus apoiantes. Para acentuar a tensão, em 2006 assinalavam-se 70 anos sobre o massacre de Paracuellos de Jarama em que terão sido executados alguns milhares de pessoas (o número é ele mesmo uma fonte de polémicas) por militantes afectos à esquerda – o papel desempenhado pelo líder comunista Santiago Carrillo nesses massacres continua a suscitar acusações. Num ápice voltaram as “esquelas” com as referências às torturas, aos enterrados vivos e aos fuzilamentos ao amanhecer em Paracuellos de Jarama. Prontamente os dois lados da guerra ressuscitaram os velhos demónios nesses anúncios onde ecoam o muito que os separou: “assassinado por defender a República”; “assassinado junto a outros espanhóis pela horda vermelha”; “abatido pelas balas assassinas da repressão franquista”; “entregaram a sua vida para não renunciar à sua fé”…

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As mulheres mostraram estar menos dispostas a esquecer. Algumas foram às suas poupanças para relembrar a morte dos seus: “Foi o dinheiro melhor gasto de toda a minha vida!” – declarou, em 2006, de Caracas, onde a mãe se exilara, Carlota Leret, a filha de Virgilio Leret, executado setenta anos antes pelos franquistas. Ao jornalista do El Mundo que a entrevistou, Carlota Leret explica que se fosse necessário até teria vendido algum bem para pagar os 7.420 euros que dera para ver aquele obituário nas páginas do El País onde escreveu: “In memoriam de VIRGILIO LERET, comandante da base de hidroaviões da atalaia de Melilla, e dos alferes Armando González e Luis Calvo, suboficiais sob o seu comando, que a 17 de Julho de 1936 travaram a primeira batalha da Guerra Civil, em defesa da Constituição e do Governo legítimo da República, contra as forças regulares indígenas comandadas pelo comandante Mohamed Ben Mizziam. Estas vítimas do terrorismo franquista foram assassinadas, depois de se terem rendido, ao amanhecer do dia 18 de Julho de 1936 sem que até agora se conheça o paradeiro dos seus restos mortais. Como resultado de um pacto de silêncio inaceitável em qualquer sociedade democrática Espanha continua em dívida com a Justiça, a Verdade e a memória das vítimas des grupos de revoltosos.”

Em conclusão, nunca mais se pronuncia a expressão guerra civil da mesma forma após ler a necrologia nos jornais espanhóis passados que já vão oitenta anos sobre os factos.

Nesse mesmo ano, 2006, do outro lado da tricheira, outra mulher, no caso sobrinha de uma vítima, também redige uma “esquela” onde detalha, como se estivesse num tribunal, não tanto a morte do seu tio mas sim a identidade e percurso de vida de quem o levou a ser preso e executado: “70 ANIVERSÁRIO. JESUS MARIA ARROYO. Sacerdote. 19-20 de Setembro de 1936. Denunciado por Gregoria G.G., que levou os milicianos a prendê-lo, foi levado para a terrífica «checa de fomento» a 19-9-1936. No dia 20-9-1936 informaram que «o tinham colocado em liberdade». Foi impossível então encontrar o seu cadáver. Terminada la guerra, Gregoria G.G., e a sua mãe Leonor G.E., foram julgadas em processo sumaríssimo de urgência nº 5.237, e a 19-2-1940 é produzida sentença condenando Gregoria, ré convicta e confessa, a 30 anos de reclusão maior e accessórias. A sua mãe Leonor foi absolvida.

Indultada [Gregoria G.G.] no dia 28-6-1949, casou e enviuvou sem filhos, na sua localidade chamavam-lhe «La kiosquera» por ter un quiosque de jornais. Morreu em Burgos a 22-8-1998, aos 92 años, 7 meses e 28 dias de idade.

É impossível encontrar o cadáver de Jesus, agora perdido nas listas intermináveis que faziam as autoridades nas demarcações onde apareciam os cadáveres, torturados e baleados, antes de lhes darem sepultura. À imensa maioria enterravam-nos sem os identificar. Tudo isto se pode comprovar no Arquivo Histórico Nacional, Causa Geral, documentos 1.502 a 1.563.

Elevo as minhas orações pela vítima, meu querido tio Jesus, por todas as vítimas, sejam de que parte sejam e pelos seus verdugos, desejando que esta dor sem sentido, que agora está sendo remexida sem piedade, não seja sofrida por ninguém nunca mais. Tua sobrinha Carmen, de 85 anos, que recorda horrorizada os três anos de terror que se viveram em Madrid.”

Em conclusão, nunca mais se pronuncia a expressão guerra civil da mesma forma após ler a necrologia nos jornais espanhóis passados que já vão oitenta anos sobre os factos.

Manolo, não tenhas pressa em ver-nos

Seria contudo injusto acabar este artigo sem referir a capacidade inventiva dos espanhóis, aquele rasgo que têm no falar comum e que é capaz de transformar um obituário num documento tão irónico quanto terno: é a família de Miguel Ángel Morata Galarza que depois de recordar o bom marido e o bom pai que ele foi lhe lembra que partiu sem deixar a receita da paelha de escabeche ou a viúva e demais família de don José Borrego que fazem questão de salientar o quanto ele gostava de bolos. Às vezes estes obituários são desconcertantes mas nem por isso menos comoventes como acontece com a esquela que o Club Chumbalaka dedicou ao seu presidente: “Manolo, no nos esperes levantado, ya iremos llegando. Tú a tu aire.” – o que traduzido quererá dizer mais ou menos que os amigos do morto esperam o defunto não tenha pressa em os rever, afinal estes lá irão ter com ele. Até lá Manolo estará por sua conta.

Quem conhecia os Chumbalaka não terá estranhado assim tanto esta “esquela”: trata-se tão só de uma tertúlia de sete amigos que se conheceram adolescentes em Sevilha nos anos 60 e que fundaram um club que tinha como propósito divertirem-se. Os Chumbalaka organizaram bailes e festas. Dançaram Namoraram. Casaram. Tiveram trabalhos, famílias, alegrias e desgostos.

Assim continuaram pelos anos fora até que morreu Manolo a quem chamavam El Suave (cada membro do club tinha uma alcunha que dava conta da forma como se relacionava com o sexo oposto) e eles resolveram dedicar-lhe aquela “esquela”.

Para acabarmos em beleza, se a expressão é permitida neste assunto, temos os mortos que resolvem despedir-se de forma original mas não propriamente traumática para os familiares como aconteceu com a dona Soledad que deixámos – em paz, dona Soledad! Em paz! – no princípio deste texto.

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Por mim confesso a minha preferência pelo estilo do actor Carles Flavià Pons que anunciou ele mesmo a sua morte: “Capri c’est fini. Nos meus 70 anos, ja não devo sofrer com o futuro. Nem lares, nem cadeirinha de rodas empurrada por peruano. O meu futuro imediato é a casa mortuária de Sancho de Ávila, Barcelona, onde esta segunda-feira se celebrará uma cerimónia às 11h 50.” É claro que houve logo quem viesse perguntar o que tinha o desaparecido actor contra ou a favor dos peruanos e demais sul-americanos que em Espanha assumem muito frequentemente os trabalhos de acompanhamento dos mais velhos. Infelizmente Carles Flavià Pons já não estava cá para os elucidar. Nem para nos dizer se aquele “Capri, c’est fini” tem algo a ver com a canção do mesmo nome que Hervé Vilard interpretou nos anos 60.

Mas talvez o futuro das esquelas esteja anunciado naquela que Carmen Bustamante Barangó fez publicar. O texto até não destoa do habital em Espanha (note-se que o habitual em Espanha não o é noutros países!) mas Carmen Bustamante fez questão de encimar a sua esquela com um símbolo até agora inédito nestas funções. Um emoticon.

Claro que existem mais casos, mais exemplos e o mais que quiserem porque em Espanha a imaginação e a grandiosidade andam de mãos dadas. Em todas as horas em geral e nas da morte em particular.

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