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O hospital de Gaia parece igual. Mas tudo teve de mudar lá dentro quando o Covid-19 entrou

Octavio Passos/Observador

O hospital de Gaia parece igual. Mas tudo teve de mudar lá dentro quando o Covid-19 entrou

Octavio Passos/Observador

Enfermarias adaptadas e médicos de vários serviços para combater o vírus. Como a pandemia mudou o Hospital de Gaia

Há médicos com novas tarefas, um laboratório com outros desafios e um gabinete que define todos os dias a organização do hospital. A realidade mudou, mas sem esquecer "o outro mundo que já existia".

É equipado quase da cabeça aos pés que Tiago Gregório surge num dos gabinetes médicos do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho. Uma touca, um par de óculos, uma máscara, luvas e bata. As marcas na cara quando retira o equipamento não enganam sobre o tempo que já leva com aquela proteção. Nos corredores, há agora zonas de acesso mais restrito, cartazes com recomendações para a nova doença que entrou por ali dentro e cada pessoa — sem exceção — usa, tal como ele, também máscara. Tiago, assistente hospitalar formado em Medicina Interna, trabalhava na área de AVC, mas com o surto do novo coronavírus passou a integrar uma equipa de suporte a estes doentes. O mesmo aconteceu com Maria João Oliveira, endocrinologista deslocada das doenças metabólicas para coordenar o rastreio à Covid-19 nas tendas do hospital.

Eles, que conhecem os cantos todos à casa, tiveram que se adaptar a um hospital que já não é o mesmo. As zonas que eram de outros serviços passaram agora para a Covid-19 e há ainda locais construídos do zero, em contra-relógio e já a olhar para a necessidade de mais espaço. Apesar de estar tudo ligado entre si, um hospital dividido a meio: a ala Covid-19 e a ala destinada a todas as outras doenças que não desapareceram e que continuam a precisar de profissionais e de espaço. Ao fundo, o laboratório onde os testes são analisados está a todo o gás, mas também ali houve necessidade de navegar no desconhecido.

Por detrás de todas estas mudanças está um gabinete de crise que se coordena para garantir que o Hospital de Gaia está preparado para lidar com um vírus que trouxe tantos e novos desafios. É este gabinete que decide quando é necessário adaptar mais um espaço para a Covid-19, se é preciso deslocar mais profissionais, espaço e material e que, acima de tudo, gere pessoas — “a tarefa mais difícil”. Entre quadros e esquemas pensados ao detalhe, há ajuda de inovações informáticas, da responsabilidade da população e da disponibilidade dos médicos.

E são eles que explicam como uma pandemia mudou o hospital.

Tal como vários hospitais, o Hospital de Gaia também teve que se adaptar ao contexto da pandemia

Octavio Passos/Observador

Enfermarias adaptadas, cuidados intensivos e números em tempo real: a mudança de um hospital inteiro

No espaço onde todas as decisões acontecem saltam à vista quadros rabiscados com nomes de serviços médicos separados em três colunas. Cada uma corresponde a uma hipótese: casos negativos, suspeitos e positivos. Na parede, um esquema projetado mostra toda a nova organização do Hospital de Gaia/Espinho para enfrentar o novo coronavírus. “A decisão de hoje é se vamos abrir uma contingência nova”, refere Rui Guimarães, presidente do conselho de administração deste hospital. O plano, explica “é alterado todos os dias e adaptado à nova realidade”.

É neste espaço que o conselho de administração passa o dia reunido com outros serviços e onde todos se tornaram quase “na família uns dos outros”. Quando os primeiros casos de Covid-19 começaram a surgir no país, o hospital adaptou a sua resposta em quatro níveis diferentes que vão sendo atualizados à medida das necessidades. Por outro lado, há também a preocupação em manter os serviços que não estão relacionados com a doença, mas que não podem parar. “O facto de o hospital ter vários pavilhões e estruturas permite o corte em relação aos outros doentes. Testamos os doentes todos que são internados e todos os que entram no hospital para ter a certeza e para permitir que não há cruzamento”, acrescenta Rui Guimarães.

A 18 de março abriu a primeira unidade de contingência à Covid-19, uma altura em que o hospital tinha “dois ou três doentes na enfermaria e um nos cuidados intensivos”, mas que no final da semana passou a uma enfermaria quase cheia e sete pessoas nos intensivos. “Foi um susto muito grande ver isto crescer assim de repente. Se não tivermos um planeamento isto cria uma maior ansiedade nas equipas“, sublinha o responsável do hospital.

NAO USAR NAO USAR NÃO USAR

Rui Guimarães, Serafim Guimarães e Tiago Teixeira explicam as alterações que o Hospital de Gaia face ao surto do novo coronavírus

Octavio Passos/Observador

O primeiro nível de resposta (o “nível 0”) é a porta de entrada para tudo, quando o doente chega à urgência. Logo nesse local há um primeiro posto de pré-triagem, onde um enfermeiro faz um breve inquérito e determina se o utente pode ir sozinho até à tenda para fazer o teste — por não ter sintomas graves nem uma idade avançada ou outras doenças. Os casos com maior gravidade são devolvidos para se analisar a possibilidade de internamento.

O passo seguinte — depois de a consulta de contingência decidir se o doente vai para casa ou fica internado —  é o nível 1, correspondente ao internamento. Aqui, explica Rui Guimarães, entram os doentes que testaram positivo à Covid-19 ou os que ainda estão a aguardar resultado mas não têm condições de ir para casa. “Estes aguardam numa enfermaria de contenção, que faz uma espécie de tampão e de onde depois, a partir daí, se drenam os doentes para o internamento normal ou para o internamento no domicílio”. Foi sobretudo neste nível que vários serviços, desde neurocirurgia a urologia, diminuíram o seu funcionamento e foram “roubados” para haver mais espaço para receber casos Covid-19.

Os utentes que testam positivo e vão para casa são “monitorizados todos os dias para saber se está a correr tudo bem”. Já quem não tem condições de cumprir o isolamento em casa, e por uma questão de permitir deixar mais espaço na zona de internamento, pode ir para um espaço criado com esse objetivo: o “Hotel Positivo”, na Hospedaria do Parque Biológico de Gaia, com capacidade para 40 doentes. Além deste local, e fruto de uma parceria anunciada recentemente, o Hospital de Campanha Porto. — montado no Pavilhão Rosa Mota/SuperBock Arena — vai também receber doentes mais leves do Hospital de Gaia.

Hospedaria do Parque Biológico de Gaia vai receber 40 doentes com Covid-19

Para os casos mais graves há o nível 2 ou, como os médicos lhe chamam com frequência, o nível amortecedor, por ser destinado aos cuidados intermédios. “Se um doente numa enfermaria nível 1 agravar mas ainda não tiver critérios de intensivos e precisar de uma vigilância mais agressiva e uma monitorização mais cuidada passa para este nível. Mas também pode ser um doente que está nos intensivos e que já não precise destes cuidados mas que ainda não está bem para ir para uma enfermaria”. Esta é uma das áreas criadas do zero no hospital, “uma área que o empreiteiro terminou em 10 dias e que a logística conseguiu equipar com a capacidade máxima de 27 camas”. A zona abriu, para já, com 10 camas. Se algum dia houver necessidade, será também a primeira zona a ser adaptada a outras necessidades.

É no gabinete de crise que o conselho de administração passa o dia reunido com outros serviços e onde todos se tornaram quase “na família uns dos outros”

Octavio Passos/Observador

O último nível consiste na área de cuidados intensivos, onde o hospital conseguiu aumentar a sua capacidade de 12 para cerca de 60 camas prontas para serem utilizadas e também aqui integrou médicos de outros serviços, a quem foi dada formação por quem já lá estava. “Transformámos tudo o que eram áreas semelhantes a cuidados intensivos, incluindo o próprio bloco operatório central, que tem 8 salas, porque é uma área já isolada e preparada com pressões negativas e equipamento montado”, explica o presidente do conselho de administração. Na manhã da passada segunda-feira, quando o Observador visitou o hospital, havia 20 doentes Covid-19 em cuidados intensivos, divididos por três zonas. À medida que os espaços começam a encher — e não significa que estejam todos totalmente lotados — é ponderada a abertura de mais uma zona, continuando a existir os cuidados intensivos não-Covid.

Para conseguir acompanhar todo o desenvolvimento do hospital em tempo real, e perceber se é necessária alguma mudança, o gabinete de crise conta com a ajuda da tecnologia. Tiago Teixeira explica ao Observador como tudo foi adaptado à Covid-19. Entre gráficos, tabelas e números há um programa (e uma app no telemóvel de cada um) que cruza informações dos recursos humanos e do laboratório, permitindo perceber como está a situação. A lista de dados é longa, mas importante: número de testes (separados por utente ou profissional de saúde), de casos positivos, de óbitos, de altas, de internados, os doentes que foram transferidos de unidade, a taxa de ocupação de cada uma das áreas e ainda informações sobre a evolução do tempo em que os doentes estiveram internados. Pelo meio há gráficos que mostram a evolução de cada componente.

“Isto permite-nos tomar uma decisão informada enquanto gabinete de crise. Permite mesmo que, se estivermos em casa, a qualquer hora conseguimos ver estas informações”, sublinha Tiago Teixeira, acrescentando que o mesmo programa tem também uma parte que junta os dados diariamente enviados para a Direção-Geral de Saúde (DGS).

O hospital, acrescentam os responsáveis, tem conseguido manter o equilíbrio entre o número de doentes que são internados e o número de utentes que têm alta, evitando espaços sobrecarregados. Este é, aliás, um dos grandes desafios que as instituições têm encontrado: “Por cada doente que entra aqui, normalmente esperamos 14 dias. São camas que ficam bloqueadas durante um espaço de tempo muito grande. Se adoecerem 100 pessoas ao mesmo tempo, nós vamos ter que escolher 50/60 para conseguir tratar e isso é absolutamente crítico”, refere Rui Guimarães.

Os médicos que trocaram as funções para lutar contra uma pandemia

Tornou-se um cenário comum no Hospital de Gaia ver profissionais de saúde em corredores que há uns meses não seriam os seus. Porque não foram só os espaços físicos a mudar. Também médicos e enfermeiros foram desafiados a alterar rotinas e a lidar com uma doença que muitos deles não imaginariam que fosse aparecer. “Pedimos um esforço muito grande a todos os serviços para darem gente para o esforço Covid-19. O serviço de Medicina Interna e o serviço de Pneumologia estão praticamente mobilizados a 80% para este vírus. Os outros serviços deram todos os médicos que puderam, de maneira a manter um nível mínimo de serviço porque as pessoas continuam a ter outras doenças”, explica ao Observador Serafim Guimarães, nefrologista e farmacologista clínico, membro do gabinete de crise.

Tiago Gregório é um dos rostos desta adaptação. O médico formado em Medicina Interna tratava de casos de AVC e passou para uma das enfermarias que lida com casos positivos de coronavírus. A tarefa, conta, “foi facilitada” com a formação que já trazia, mas a mudança “foi absoluta”. “Estava numa área onde tudo evoluiu bastante, desde o tratamento à evolução clínica dos doentes. Temos pessoas que às vezes chegam com um AVC gravíssimo e conseguimos tratá-los em dois, três dias. Aqui temos doentes que ficam 10, 12 dias internados. E muitas vezes são doentes mais velhos ou com pouca capacidade de isolamento”, explica ao Observador.

Tiago Gregório é formado em Medicina Interna, tratava de casos de AVC e passou para uma das enfermarias que lida com casos positivos de coronavírus

Octavio Passos/Observador

Na enfermaria onde Tiago Gregório trabalha o tratamento é essencialmente de suporte e monitorização: “Se olharmos para as estatísticas, em cerca de 80% dos doentes vai tudo correr bem, 20% vai precisar de internamento e, desse número, 5% vai precisar de cuidados intensivos e 2% vai acabar por falecer. Nós estamos com os doentes que estão internados a tratar as complicações e a tentar perceber atempadamente quais são os 5% que vão precisar de cuidados intensivos para que entrem lá nas melhores condições possíveis e não de uma forma desordenada”.

A segurança, garante, é muito mais exigente nesta altura. Entrar na sala de fato completo contra “uma doença que assusta” é obrigatório, mas acaba por dificultar um contacto mais próximo, mais humano com utentes. “Sabemos que não é agradável uma pessoa estar internada e, de repente, entrar alguém com uma máscara e com um fato de cima abaixo, quase a parecer um extraterrestre. Não é propriamente agradável para os doentes, mas, apesar de tudo, tem havido compreensão dos dois lados. As pessoas percebem que é uma situação excecional“, acrescenta o médico.

“Agrada-me muito ver as pessoas motivadas. Tenho ali internos de ortopedia, de urologia, de cirurgia vascular, internos de plástica que pararam a formação deles, a rotina deles, para ajudar. É uma mobilização geral não só dentro dos hospitais mas também fora. É agradável ver que as pessoas em tempos difíceis conseguem focar-se em objetivos comuns e trabalhar e remar todos para o mesmo lado”, sublinha Tiago.

Do outro lado do hospital, as tendas onde o rastreio aos utentes é feito são coordenadas por profissionais de saúde que também foram mobilizados para ajudar no combate ao vírus. Maria João Oliveira “deixou um bocadinho as doenças metabólicas” para “relembrar as noções de infeção respiratória” e dedicar-se à doença infeciosa que está a virar o mundo do avesso. O trabalho que faz na tenda de testes é bastante diferente do que fazia há alguns meses: durante seis horas, com mais dois médicos, coordena, analisa e ajuda a fazer os testes de rastreio ao vírus, desde os que vêm das urgências aos que são encaminhados pela linha SNS24. “É mais difícil quando apanhamos dias mais frios”, desabafa.

Maria João Oliveira deixou temporariamente as doenças metabólicas para “relembrar as noções de infeção respiratória” e ajudar no combate à Covid-19

Octavio Passos/Observador

Se inicialmente era necessário ser “mais seletivo nas colheitas das zaragatoas”, agora a orientação passou a ser mais alargada. Quem por lá passa, sublinha Maria João Oliveira, tem cooperado. “As pessoas geralmente estão assustadas, uma vez que o ambiente também é um bocadinho assustador. Vêm sempre um bocadinho ansiosas, mas vêm recetivas e tem corrido tudo bem. Temos tido um bom relacionamento com as pessoas”, sublinha ao Observador.

Rui Guimarães, presidente do conselho de administração do hospital, não tem dúvidas: “Isto tudo dos gráficos e números funciona muito bem, mas não funciona sem pessoas. E as pessoas estão assustadas. Basta ter menos um profissional, por exemplo, numa destas áreas de contingência e estamos a falar logo de menos seis doentes, porque é mais ou menos esse o rácio, o de um enfermeiro para seis pessoas nestes casos. Se não conseguirmos ter os profissionais minimamente motivados é difícil. Não queremos criar a noção de que está tudo bem e que vai correr tudo bem, mas também não queremos que as pessoas pensem que isto é pior do que aquilo que é.”

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Um laboratório a todo o gás e “o outro mundo que existia, que já era duro e exigente”

As primeiras amostras de testes feitos à Covid-19 no Hospital de Gaia foram, para o diretor do Serviço de Patologia Clínica, um desafio e uma surpresa. “Nunca trabalhámos deste modo, com amostras fechadas em sacos de plástico, com este nível de contagiosidade”, recorda. Por isso, havia uma condição para que estes primeiros testes pudessem ser analisados ali: teriam de ser feitos no P3, o laboratório de segurança que está preparado para trabalhar com amostras dos vírus e bactérias mais perigosas e que tem um nível de proteção superior. “Felizmente, aqueles momentos iniciais que nos surpreenderam já foram ultrapassados. Tivemos que adaptar tudo e aprendemos a fazer coisas que não sabíamos”, acrescenta Agostinho Lira.

Agora, as equipas trabalham a todo o gás para conseguirem analisar o maior número de testes possível, numa altura em que estão próximos dos 400 testes trabalhados diariamente — ainda que a capacidade máxima seja quase mil testes por dia, dependentes do material disponível. “Ontem foram quatro séries de 94”, atira o médico. Cada equipa leva para as câmaras disponíveis um conjunto de 94 amostras — sempre este número específico de amostras –, colocadas em tubos e embaladas em sacos de plástico.

NÃO USAR

As equipas do laboratório trabalham a todo o gás para conseguirem analisar o maior número de testes possível

Octavio Passos/Observador

Lá dentro, duas pessoas abrem as amostras dos doentes suspeitos, protegidas pelo equipamento da câmara mas também com fatos, viseiras, máscaras e todo o tipo de proteção individual. “Hoje [segunda-feira] passámos a manhã toda para encher 94 amostras. À tarde vai haver muito stress porque vão chegar as amostras dos lares. Eles estão a colher de manhã e enviam as amostras à tarde. Estamos à espera de 200 amostras que vêm de lares do Porto”, enumera Agostinho Lira, entre voltas pelo laboratório a apontar cada detalhe. A equipa de cerca de 14 pessoas analisa, 24h por dia e durante toda a semana, testes de vários locais, desde a Feira, a Ovar, Barcelos, Famalicão até ao Porto.

A grande dificuldade, destaca Agostinho Lira, tem sido conseguir mais produtos, como as zaragatoas, para o laboratório, uma vez que vários países estão a gastar o que exportavam para consumo interno. Para ajudar, a Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto tem fornecido alguns meios para os testes. “Tem sido, de facto, muito em parte ao nosso motor interno”, destaca. Já Rui Guimarães, o presidente do conselho de administração, salienta que a filosofia não tem sido guardar stock dos materiais e equipamentos. “Tudo o que há nós dirigimos para a procura porque faz muita diferença. Se hoje houver um lar com cinco infetados e for possível rastrear aquelas 50 pessoas para descobrir e parar aquilo, é muito melhor gastar isso nesta altura do que gastar para a semana, em que em vez de cinco já são 20 e aquilo já assumiu uma grande dificuldade de controlo”, refere.

NAO USAR NAO USAR

A equipa do Serviço de Patologia do Hospital de Gaia teve de se adaptar ao novo desafio, mas sem nunca esquecer as doenças que já existiam antes

Octavio Passos/Observador

Mas o laboratório continua também a trabalhar com o que existia antes de toda a pandemia começar, ainda que com menos volume dado à suspensão de algumas atividades programadas. “As doenças continuam a existir, não podemos parar”, comenta Isabel, uma das investigadoras de serviço naquela manhã. Para Agostinho Lira, esta é uma questão importante: “Aqui fazemos tudo, vamos até ao fim. Temos uma responsabilidade com os doentes e com os médicos que os tratam. Não é tão simples como adiar cirurgias ou adiar colheitas e deixar de os fazer. Esse mundo continua a existir, não desapareceu. E já era muito duro e exigente“.

Enquanto continuam a ser criadas zonas no hospital, incluindo mais um laboratório de biologia molecular, o investigador garante que a equipa “está totalmente focada” e adianta que em breve pretende começar a estudar amostras para perceber o que acontece com a imunidade de pequenos grupos e populações no caso da Covid-19. “O que acontece com as populações depois de existir um conjunto de pessoas infetadas, o que aconteceu no grupo próximo? Houve um conjunto de pessoas que tiveram, de facto, contacto e foram positivas sem o saberem. Desenvolveram imunidade? São as grandes dúvidas da atualidade e vamos tentar perceber um pouco o que está a acontecer”, refere.

Até lá, não se trata apenas de uma luta contra um vírus. É, nas palavras de Rui Guimarães, também a luta contra “a pandemia do medo e do pânico que retira as pessoas da sua missão”. E uma luta que começa nas atitudes da população. “A nossa realidade será claramente diferente da que conhecíamos antes. E não vale a pena nada desta conversa da adaptação se não conseguirmos controlar o que está a montante: a população. Se as pessoas não entenderem a mensagem que os profissionais andam a passar — ficar em casa e cumprir rigorosamente as medidas de isolamento — a população adoece toda num curto espaço de tempo e nós não temos maneira de as receber”, alerta. Uma vez mais.

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