Enric Bach, criador de “O Pioneiro”: “O objetivo final de Gil y Gil era ser adorado” /premium

14 Julho 2019

Histórico presidente do Atlético de Madrid, Jesús Gil y Gil também foi um político controverso. “O Pioneiro”, minissérie documental da HBO, recorda essa face do espanhol. Falámos com um dos criadores.

Numa nova série documental que chega à HBO este domingo, 14 de julho, Enric Bach e Justin Webster contam a história de Jesús Gil y Gil, o político, mas também o tempestuoso presidente do Atlético Madrid, clube que acaba de contratar João Félix numa transferência milionar de 126 milhões. Nos anos 90, as histórias de Gil y Gil chegavam a Portugal também pela via do futebol, mas de Paulo Futre, só que pouco se sabia da sua figura enquanto político, do seu passado, de Gil y Gil como um todo. À distância, parecia uma caricatura, mas a realidade era outra.

Nos quatro episódios de “O Pioneiro”, a história de Jesús Gil y Gil é matéria para se pensar no presente. Não só o de Espanha, mas o da Europa e o do mundo. É fácil construir paralelismos entre Gil y Gil, Donald Trump e outros políticos populistas, ou políticos que cresceram em paralelo com uma carreira no mundo dos negócios, mas em nenhum momento Donald Trump é mencionado em “O Pioneiro” – propositadamente: e, como pequena nota, Donald Trump tentou meter o pé no desporto, quando quis popularizar uma outra liga de futebol americano. Gil y Gil é material de reflexão para o crescente populismo na política. Há vinte anos era impensável chegar-se a este raciocínio.

Estivemos à conversa com Enric Bach, um dos criadores desta série documental. Ao contrário da norma, não é o entrevistador que faz a primeira pergunta. Era importante entrevistado e entrevistador estarem no mesmo pé.

[o trailer de “O Pioneiro”:]

Teve oportunidade de ver o documentário?

Sim, mas só vi o primeiro episódio, foi o único que me enviaram.
E que impressões deixou?

Bem… estava a vê-lo e não parava de pensar em como o Jesús Gil y Gil foi um produto do seu tempo. Estas figuras, como ele, o [Silvio] Berlusconi…
Sim, tem razão.

Mas também me fez pensar no presente, em 2019. Em como teria sido ver este documentário há cinco anos, talvez Donald Trump não fosse a primeira figura a surgir como termo de comparação.
Sabe, eu e o Justin Webster começámos a discutir este projeto há mais de quatro anos. Num momento em que Donald Trump nem sequer era candidato. E, nessa altura, já sabíamos que a história de Jesús Gil seria muito relevante para compreendermos o presente. Porque já estávamos cientes desta nova forma de fazer política e de que as políticas populistas estavam a crescer. Já era uma realidade em alguns países europeus e até no resto do mundo. Especialmente na Europa, começámos a sentir um momento de mudança, de que a política tradicional estava a ser questionada e que estava a ser, sobretudo, questionada por pessoas que vinham de fora, em grande parte por populistas, que por vezes são fascistas ou pertencem à alt-right, mas também homens de negócio, que queriam chegar a um lugar político para interesse próprio. Temos muitos exemplos disso na Europa no presente, mas já os tínhamos há quatro anos. E isso foi um dos elementos que nos fez pensar no quão fantástica é esta história por si só: porque Jesús Gil era uma personagem por si só, mas também porque diz muito sobre o presente e sobre como nos comportamos enquanto sociedade. Não estamos só a falar do passado, estamos a relevar o passado para compreender o presente. É por isso que contamos histórias.

De certa forma, já respondeu àquela que seria a minha primeira pergunta. Mas tenho de a fazer na mesma. Porquê agora?
Há uns anos estive envolvido num programa de televisão chamado “Salvados”, não sei se conhece…

Nunca vi mas já li sobre ele.
OK. Era um programa muito popular sobre política. E nos anos em que o fiz, de certa forma cobri o surgimento e o crescimento desta forma de fazer política através da antipolítica, por assim dizer. Naquela altura, o Podemos representava isso, pela crítica que fazia ao poder estabelecido. E, através da minha experiência pessoal, conheço um pouco o que se passa na Europa do Leste, porque a minha companheira é croata, já sabia da emergência destas figuras populistas, que estavam a ocupar lugares de topo nas câmaras municipais e até à frente de países, como primeiro-ministro. Quando fizemos o pitch desta história, fizemo-lo em simultâneo à HBO espanhola e à Hanka Kastelicova, que é a responsável pelos documentários originais da HBO na Europa. Ela é checa e, na altura, disse-nos que ficou apaixonada pela história e que a revia no seu país: o primeiro-ministro checo era o homem mais rico do país. Era um homem de negócios que se decidiu envolver na política e chegou ao mais alto cargo. Há um enorme conflito de interesses nisso. Ela ligou imediatamente a história do Jesús com a realidade política dela, do seu país… Para nós é muito importante que “O Pioneiro” não seja só visto em Espanha, mas também na Europa e no resto do mundo. Queremos que as pessoas liguem a história de Jesús à sua realidade.

"Ele viu o futebol com uma forma de se reinventar, de se livrar do estigma da tragédia e concretizar aquilo que ele mais desejava. E aquilo que ele mais desejava não era dinheiro nem poder. Ele queria ser reconhecido, queria ser amado pelo povo."

Ao longo do documentário senti exatamente o mesmo em relação a algumas figuras políticas que existiram, e ainda existem, em Portugal.
Não sabia que também existiram por aí.

Algumas delas também tiveram uma ligação ao futebol.
Há padrões nestas figuras. Muitas vezes vêm dos negócios imobiliários, da construção. Imagino que seja porque é um negócio que está habituado a lidar com dinheiro sujo, dinheiro que não é declarado. É algo que aconteceu durante décadas. Talvez agora o negócio seja mais sofisticado, mas nos anos 1990 havia muito dinheiro não declarado. O futebol também é uma ótima plataforma para esse tipo de homens de negócios conseguirem ser populares…

A entrada na União Europeia e a chegada do dinheiro europeu ajudou muitas dessas figuras, tanto em Portugal como em Espanha, a vingarem. Voltando ao Jesús Gil, no primeiro episódio fica a ideia de que ele está sempre à procura de fazer novos negócios. É uma forma de sobrevivência. Diria que foi um homem com muitas vidas?
Ele estava sempre a reinventar-se. Estava sempre a correr, a ir em frente, muito rápido, como forma de escapar a tudo, aos problemas e às tragédias que aconteceram durante a sua vida. A tragédia de 1969 em Los Ángeles de San Rafael, quando morreram aquelas 58 pessoas, por causa da má construção de um restaurante, que não teve sequer um arquiteto ou qualquer tipo de licença… ele foi o grande responsável por esse acidente. Foi para a prisão. Ele tinha esse estigma: 58 pessoas morreram por causa dele. Foi uma das maiores tragédias durante o franquismo. Ele viu o futebol com uma forma de se reinventar, de se livrar do estigma da tragédia e concretizar aquilo que ele mais desejava. E aquilo que ele mais desejava não era dinheiro nem poder. Ele queria ser reconhecido, queria ser amado pelo povo. Penso que essa foi a sua principal motivação. Sempre. Claro que também queria dinheiro e poder, mas eram apenas instrumentos para o seu objetivo final: ser adorado. Talvez isso tenha alguma explicação na sua infância, não sei. Mas a minha grande conclusão foi essa, que ele adorava ser amado.

Logo no início falámos de populismo. Tenho a sensação de que nas décadas 1980 e 1990 não se via o populismo com os maus olhos com que é visto agora…
Claro, não éramos tão críticos com este tipo de comportamentos. Quando entrámos na União Europeia a economia não estava assim tão má. OK, tivemos uma crise no final dos anos 1980, mas os 1990s foram prósperos. A nossa sociedade ainda não tinha uma consciência sobre o significado da corrupção. A corrupção não estava no topo das preocupações da sociedade.

Exacto.
E o estado espanhol, provavelmente o português também, não tinha as ferramentas para combater a corrupção. Eram democracias muito jovens. Em Espanha, o gabinete de combate à corrupção só foi criado em 1996. E, quando foi criado, não era muito popular. As pessoas não o viam como uma coisa boa: estes são os tipos que nos vão dar más notícias. Era o que se pensava na altura, que aquele gabinete estava a dizer que os políticos que adoramos são corruptos. É uma situação muito interessante. Em 2019 somos uma sociedade diferente, já sabemos muito mais, e estamos mais conscientes do que a corrupção significa e dos problemas que traz. Mas a corrupção de hoje também é muito mais sofisticada do que há duas, três décadas.

Durante todo o processo, qual foi o elemento que mais o fascinou em Gil y Gil?
Explorar a sua complexidade. Primeiro, porque é que fez o que fez? Tentava perceber e não fazia qualquer sentido. Existia uma memória muito simplista em volta de Jesús, as pessoas têm uma memória muito simplificada dele. E a minha intuição dizia-me que ele era bem mais complexo do que eu achava. Cada vez que ia mais fundo, percebia que estava enganado. Como é que ele poderia ser quem foi, não pagando impostos, construindo sem licenças, sendo um criminoso… como é que estas coisas poderiam viver juntas? Alguém disse que o Jesús Gil era alguém que nos divertia e que nos assustava. Sabe, esse sentimento misto… porque é que votamos nele? Porque é que o adoramos? Porque é que os eleitores continuam a votar em alguém que sabem que, provavelmente, é corrupto. Porque é que votamos nele e o adoramos? Isso diz muito sobre como a nossa sociedade é frágil. Por vezes procuramos soluções fáceis e rápidas para os nossos problemas. E confiamos nos políticos que as fazem. A boa política tem de ser lenta e aborrecida. Uma política rápida e divertida…

Desculpe estar a rir-me. Mas estava a dizer isso e eu estava-me a lembrar da história do seu documentário, quando Jesús vai para a prisão e faz aquele acordo com o padre. Era uma solução fácil, manhosa, que deixava toda a gente feliz, mas deixava tudo na mesma.
Ele esteve quase doze anos (1991-2002) no poder em Marbella. Deu cerca de 1009 licenças para construção sem qualquer plano urbanístico aprovado. Não só para casas, mas também para edifícios de apartamentos, algumas eram áreas residenciais bem grandes. Consegue imaginar quantos edifícios foram construídos ilegalmente em Marbella? Como ele não tinha um plano urbanístico, fazia estes acordos com os construtores com a garantia de que poderiam construir no futuro, que ele próprio iria legalizar aquela construção. Ou seja, ele estava basicamente a dizer que aquilo não era legal mas que iria ser legal. Foram construídas quase vinte mil novas casas. Consegue imaginar isso?

"O Jesús prometeu-lhe [a Futre] um Porsche e quando foram ao concessionário da Porsche em Madrid, o único disponível era amarelo. Talvez o Futre tivesse escolhido um vermelho ou um branco, mas naquele dia o amarelo era o único disponível."

Não. E parece-me incrível que isso ainda acontecesse nos 90…
Mas como é que acha que a população de Marbella se sentia? Pensa que estavam preocupados? Sim, algumas pessoas eram críticas, mas ele conseguiu quatro maiorias absolutas. Três delas de seguida. As pessoas tinham trabalho e bons salários. Não havia desemprego. Essa foi a solução fácil e rápida: criar trabalhos. E as pessoas fecharam os olhos e continuaram a votar nele. É algo de que, agora, algumas pessoas não se orgulham. Mas há outras que têm nostalgia por esses tempos e gostavam que Jesús estivesse de volta.

Falando um pouco de futebol, a história do Porsche amarelo do Futre também é uma grande história em Espanha como é em Portugal?
Não me recordo se foi assim tão grande… mas aquilo tudo foi uma coincidência. O Jesús prometeu-lhe um Porsche e quando foram ao concessionário da Porsche em Madrid, o único disponível era amarelo. Talvez o Futre tivesse escolhido um vermelho ou um branco, mas naquele dia o amarelo era o único disponível.

Como é que o Futre o recorda? Ele sempre mostrou muito respeito pelo Jesús, mas também sinto que ele, nos últimos anos, fala mais sobre como estavam sempre em conflito.
Penso que era uma relação de amor-ódio constante. Estavam sempre a discutir, a gritar um com o outro, mas ao mesmo tempo gostavam muito um do outro. Jesús via o Futre como um filho. Estava lá desde o início, foi o principal responsável para a sua eleição para presidente do Atlético de Madrid. Sempre que ele precisava do Futre, o Futre estava lá. E sempre que o Futre precisava do Jesús, ele estava lá para ele. Fiquei com a ideia de que o Futre gostava mesmo do Jesús e que tem uma boa memória dele. Embora reconheça que houve ali tempos difíceis. Mas lembra-o como alguém que amava.

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