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Dos 1700 alunos da Escola Secundária João Gonçalves Zarco, em Matosinhos, 130 não têm condições para acompanhar aulas online

Octavio Passos/Observador

Dos 1700 alunos da Escola Secundária João Gonçalves Zarco, em Matosinhos, 130 não têm condições para acompanhar aulas online

Octavio Passos/Observador

Ensino à distância. Alunos sem computador, professores sem formação tecnológica e pais preocupados com as refeições

Há alunos sem computador, pais preocupados com as refeições e professores que vão dar aulas online na escola. O ensino à distância regressa na segunda-feira e para muitos é “como dar um passo atrás”.

O regresso ao ensino à distância apanhou poucos de surpresa e nos últimos dias têm sido muitas as reuniões entre diretores de escolas, professores e pais para definir estratégias de aprendizagem, organizar horários e limar os erros do passado. Apesar de quase todos assumirem estar melhor preparados do que em março, as dúvidas, os receios e as preocupações mantêm-se e outras até se multiplicaram.

José Ramos, diretor da Escola Secundária João Gonçalves Zarco, em Matosinhos, defende que o cenário poderia ter sido evitado caso o Ministério da Educação tivesse aceitado a proposta de adotar um sistema de ensino misto, em que as turmas seriam divididas em dois grupos e frequentariam a escola em semanas diferentes, de forma intercalada. A direção critica ainda a falta de planeamento e de comunicação por parte do Governo e resta-lhe agora sinalizar os casos mais fragilizados e sem condições sociais, emprestar computadores e disponibilizar salas para que alunos e professores possam ensinar e aprender à distância.

“Parece que estamos todos de castigo”. Passámos uma semana numa escola para ver tudo o que a pandemia mudou

Os pais estão preocupados com as refeições, que vão passar a ser fornecidas na cantina de outra escola, obrigando a uma deslocação extra, e com as demasiadas horas passadas em frente a um ecrã durante as aulas síncronas. Admitem a dificuldade que é conciliar o trabalho com a vida escolar dos filhos e lamentam que esta medida os torne mais inseguros, ansiosos e presos. “Muitos sentem-se a recuar, sentem que isto é como dar um passo atrás”, diz Maria Rosa Carvalho, presidente da associação de pais daquela escola.

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Se alguns professores reconhecem que o desafio é grande, outros conseguem identificar ganhos nesta nova forma de ensinar. José Paulo, professor de educação tecnológica, acredita que, em casa, os alunos adquirem competências determinantes para o seu futuro, como uma maior autonomia, responsabilidade e capacidade de decisão. “Têm obrigatoriamente de se desenrascar de forma mais rápida e sozinhos”, explica.

A Escola Secundária João Gonçalves Zarco registou 15 alunos positivos à Covid-19 desde setembro

Rui Oliveira/Observador

“Houve alguma lacuna em decidir uma alternativa ao ensino presencial. Poderíamos mantê-lo, reduzindo riscos”

Desde setembro, a Escola Secundária João Gonçalves Zarco, em Matosinhos, teve várias turmas em isolamento profilático e registou 15 alunos, um professor e dois funcionários infetados com o novo coronavírus. Ainda assim, a possibilidade interromper as aulas presenciais não era vista como algo inevitável, uma vez que a direção propôs um cenário bem diferente.

“Muitas escolas, incluindo a nossa, propuseram o ensino misto, em que os alunos não vinham todos em simultâneo, ou seja, metade da turma vinha numa semana e na semana seguinte viria a outra. Desta forma manteríamos o ensino presencial. Em vez de estar uma turma de 28 alunos dentro de uma sala mal ventilada, com uma dimensão pouco adequada que não garante ao afastamento entre os alunos, tínhamos apenas 14. Isso permitia mais condições de proteção de alunos e até das suas próprias famílias, reduzindo a possibilidade de contactos”, explica José Ramos, diretor da escola, ao Observador.

A proposta não foi aceite pelo Ministério da Educação, levando a que o ensino à distância fosse mesmo obrigado a voltar. “Houve alguma lacuna em decidir uma alternativa ao ensino presencial. Poderíamos mantê-lo, mas reduzindo riscos”, defende o diretor, sublinhando que “as coisas podiam ter corrido melhor”, apesar de concordar que o ideal é mesmo aprender dentro de uma sala de aula.

O responsável acredita que, depois da Páscoa, o ensino presencial possa voltar para o terceiro período e aponta ainda outras falhas à tutela, como a falta de planeamento ou de comunicação. “Nesta fase, em que durante 15 dias as escolas estiveram paradas, poderia ter havido uma preparação mais antecipada e uma comunicação maior”, afirma, acrescentando que muitos estabelecimentos de ensino recebem informação “através dos meios de comunicação” e só depois chega a informação oficial do ministério. “Isto deixa as direções das escolas desconfortáveis, numa altura em que precisamos de ter o apoio do ministério para nos prepararmos em conjunto, decidindo as melhores as estratégias.”

Entre reuniões com secretários de Estado, professores, diretores de turma e pais, José Ramos admite que os últimos dias têm sido de “muito trabalho” para que, a partir de segunda-feira, tudo corra “dentro de uma certa normalidade”. A preparação prende-se essencialmente com o acesso a meios tecnológicos de forma a que as aulas online sejam possíveis. A Gonçalves Zarco recebeu do Ministério da Educação 92 computadores para alunos carenciados do ensino secundário, estando previstos chegarem até ao fim do mês de março mais computadores para o ensino básico e até para professores que não tenham este tipo de equipamento disponível.

“Estamos neste momento a distribuí-los, mas é um processo demoroso. Os nossos técnicos informáticos abrem todos os computadores recebidos, fazem a instalação e formatação para que, quando este for entregue ao aluno, já esteja apto para começar a usar. Depois disso, o encarregado de educação terá de assinar o contrato de responsabilidade”, explica o diretor, acrescentando que o equipamento em causa oferecido pelo Estado terá de ser devolvido nas mesmas condições quando o aluno sair da escola. “Vários pais recusaram este material por existir esta obrigatoriedade, penso que terão outras opções, embora estejamos a falar de alunos que necessitam do apoio do Governo para os estudos.”

Chegaram também computadores destinados a alunos que já não frequentam esta escola e, neste momento, a direção aguarda ainda indicações do ministério para saber o que fazer com eles. “Penso que haverá duas hipóteses: ou são reencaminhados para outras escolas com alunos dos escalões A e B; ou ficam na escola e são oferecidos a outros alunos e profissionais que também necessitem.”

"Há muitos alunos com boas condições em casa, tanto tecnológicas como sociais, mas que desligam, pois não têm ninguém que monitorize se estão ou não a assistir efetivamente às aulas ou a fazer jogos no telemóvel."
José Ramos, diretor da Escola Secundária João Gonçalves Zarco

Dos 1.700 alunos, 130 já foram sinalizados por não terem condições tecnológicas para acompanhar as aulas online a partir da próxima segunda-feira. Os que não têm computador terão de inteirar-se dos conteúdos através do telemóvel, desde que este tenha uma câmara e internet, mas aos alunos que não tiverem nenhum dos aparelhos a funcionar, a escola poderá emprestar computadores portáteis ou fixos, à semelhança do que fez em março. No entanto, esta não será uma opção fácil. “No ano passado emprestámos 250 computadores e, quando terminou o ano letivo, tivemos tempo para voltar a colocar os computadores nas salas de aula, montados e programados, para que voltassem a funcionar. Neste momento, não o podemos fazer, porque se daqui a um mês podemos voltar à atividade presencial, não teremos os computadores da escola prontos a serem usados.”

Prevendo este constrangimento, a direção da Gonçalves Zarco terá 12 salas disponíveis para os alunos que não consigam participar nas aulas em casa o façam a partir da escola e com a devida segurança. “Teremos também dois professores que irão fazer as suas aulas online a partir da escola por não reunirem todas as condições em suas casas”, adianta José Ramos, acreditando que todos terão mais ferramentas para lidar com esta nova realidade de ensino. “Ainda esta semana tivemos muitos docentes a ter formação com professores de informática, que se disponibilizaram para ajudar os colegas. Penso que, a nível técnico, os professores estão muito melhor preparados e as coisas correrão bastante melhor.”

Apesar da preparação tecnológica ser agora maior, a distância continua a ser a principal preocupação. “Este afastamento, embora possa ser superado pelas capacidades técnicas dos professores, não substitui a aula presencial, que é a essência da formação e da aprendizagem. Os alunos que já estiverem muito motivados vão conseguir dar o máximo, mas outros vão perder-se, precisamente porque não existe proximidade, acompanhamento e visualização do seu grau de atenção.”

José Ramos, diretor desta escola em Matosinhos, fala mesmo numa auto-discriminação. “Há muitos alunos com boas condições em casa, tanto tecnológicas como sociais, mas que desligam, pois não têm ninguém que monitorize se estão ou não a assistir efetivamente às aulas ou a fazer jogos no telemóvel. Se o aluno não tiver auto-controlo e vontade de estudar e aprender, irá certamente ficar para trás, distante de todos os outros. Será uma auto-discriminação.” O sentimento de “frustração e de impotência” dos professores será maior fora das salas de aula. “Nada substitui um bom professor, só que, neste momento, um bom professor não se sabe muito bem o que é. Esse conceito do bom professor no ensino à distancia torna-se um bocado relativo.”

A partir desta segunda-feira, as refeições em formato take away serão fornecidas na cantina de outra escola, selecionada pela autarquia de Matosinhos

Octavio Passos/Observador

“Estão inseguros, ansiosos e sentem que isto é dar um passo atrás”

Maria Rosa Carvalho é presidente da Associação de Pais da Escola Secundária João Gonçalves Zarco e mãe de uma aluna do 12.º ano que quer seguir fisioterapia. Quando soube que o ensino à distância iria voltar ficou preocupada. “Ela está num ano que considero bastante importante e esta mudança faz com que eles percam o ritmo de trabalho. As médias subiram imenso, não se sabe ainda nada sobre os exames e o facto de irem agora para casa faz com que recuem no trabalho e no estudo que estava a ser feito. Estão inseguros, ansiosos e sentem que isto é dar um passo atrás.”

O difícil acesso aos meios digitais é, neste momento, umas das principais inquietações dos encarregados de educação. “Muitos queixam-se de que as redes não funcionam dentro de casa, a internet não chega ao quarto, na sala ouve-se mal, as chamadas caem, as câmaras não ligam”, explica Maria Rosa Carvalho, acrescentando que conciliar o teletrabalho com o acompanhamento dos filhos é “uma gestão difícil de fazer”. “Ainda ontem uma mãe me perguntava como é que trabalhava tendo em conta o horário do filho, como o iria acompanhar? Penso que a solução passa por ele se tornar autónomo mais cedo, não há outra alternativa.”

Para Maria Rosa Carvalho, o papel dos pais deve dividir-se entre acompanhar a aprendizagem dos filhos e criar métodos para os distrair nas horas livres, como “inclui-los nas tarefas domésticas, dar caminhadas pelo seu quarteirão, ver filmes em família, voltar aos jogo de tabuleiro e ouvi-los, que é o mais importante”.

As refeições normalmente fornecidas pela escola representam outra dor de cabeça para alguns pais. “Estamos ainda a aguardar informação por parte da autarquia, que é quem gere as cantinas de Matosinhos”, adianta, recordando que em março a câmara sinalizou duas escolas que confecionavam o almoço para todos os alunos do concelho, em formato take away, o que obrigava a que muitos percorressem vários quilómetros para as ir buscar. No conselho pedagógico desta quinta-feira, a associação de pais fez chegar à direção da escola outra preocupação: a quantidade de horas que os alunos passam em frente ao ecrã. “É demasiado tempo, as aulas síncronas têm de ser ajustadas e o mais práticas possível.”

Maria Rosa Carvalho é professora numa outra escola e admite que, graças ao facto de já ter dois filhos autónomos, a sua dinâmica familiar não se altera substancialmente com o ensino à distância, mas não esconde o desafio que é trabalhar como docente nesta altura. “Como podemos saber se o trabalho foi feito pelo pai ou pelo aluno? Há aqui nuances que são muito difíceis de lidar.”

Esta mãe e professora não tem dúvidas de que são mesmo os mais novos quem mais sofre com esta medida “porque se sentem presos”. “Tenho muitos alunos que se queixam que se sentem presos em casa e digo muitas vezes para se lembrarem da Anne Frank, que quando esteve presa nem o autoclismo podia puxar. Eles ficam a pensar nisso, os jovens de hoje são mais sensíveis, basta apelarmos ao coração e eles acabar por entender que há sempre alguém que está pior que nós.”

“Não sabemos o que se passa dentro da casa das pessoas, que recursos têm, se são ou não partilhados, por isso temos de reduzir ao máximo as atividades síncronas que os obriguem a estar naquele momento, num determinado espaço, pois nunca sabemos se isso é possível.”
José Paulo, professor de educação tecnológica

“Há ganhos no ensino à distância. O grau de exigência mantém-se, mas o método de avaliação deve mudar”

José Paulo é professor de educação tecnológica do ensino básico e docente há mais de duas décadas na Escola Secundária João Gonçalves Zarco, em Matosinhos. Admite que o ensino à distância não é comparável ao presencial, mas mostra-se otimista relativamente ao futuro. “Não é uma coisa que me desagrade, claro que é desafiante, mas penso que estamos mais ou menos preparados para dar resposta”, diz ao Observador.

Na sua área, a mudança não será tão grande como noutras disciplinas, uma vez que o seu trato com os alunos “já é tecnológico por natureza”, mas reconhece que é necessário ajustar algumas práticas. “Enquanto que numa sala de aula podemos fazer correções e análises imediatas e de maneira mais eficaz, em casa não, mas as coisas ajustam-se de forma pacífica, vamos gerindo.”

O professor defende que “há ganhos no ensino online” de competências determinantes para o futuro dos mais novos, como a aquisição de autonomia, responsabilização e maior capacidade de decisão. “Os alunos têm obrigatoriamente que se desenrascar de forma mais rápida e sozinhos.” Por outro lado, reconhece que este método de ensinar faz com que perca o campo visual permanente, a monitorização cuidada e o rigor. “Há coisas que convém serem registadas presencialmente. Por exemplo, o domínio das atitudes é um dos termos que avaliamos, claro que também pode ser avaliado à distância, mas presencialmente tem sempre outro peso.”

José Paulo ainda não sabe quantas horas irá lecionar a partir de segunda-feira nem se todos os seus alunos terão condições tecnológicas para acompanhar as suas aulas em casa. Seja como for, não tem dúvidas de que o objetivo é “reduzir ao máximo as atividades síncronas”. “Não sabemos o que se passa dentro da casa das pessoas, que recursos têm, se são ou não partilhados, por isso temos de reduzir ao máximo as atividades síncronas que os obriguem a estar naquele momento, num determinado espaço, pois nunca sabemos se isso é possível.”

O professor explica que, com o ensino à distância, o grau de exigência deve manter-se, mas o método de avaliação terá de mudar. “Tentamos avaliar as mesmas coisas de uma maneira que seja ajustada à realidade, mas a realidade na escola pode muito bem ser diferente da realidade em casa.” Para o professor, as adaptações são comuns a alunos e a professores e centram-se sobretudo em “reorganizar a casa e os horários”. “Para quem vive sozinho será mais fácil, mas para quem não está sozinho, como eu, é um esforço mais significativo. Desejo que isto seja uma coisa temporária, porque não é de todo o cenário ideal.”

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