Entre Angola e o Brasil, o silêncio de Aline Frazão deu-lhe o disco certo /premium

20 Setembro 2018

Nasceu em Angola, viveu em Lisboa e Barcelona, voltou a morar em Luanda e foi gravar um disco ao Brasil. "Dentro da Chuva" chega agora. "Sinto que os álbuns perderam muito a alma", diz em entrevista.

A herança brasileira vem da avó e da MPB que ouviu muito em adolescente — e que ainda hoje a influencia. Cabo Verde vem do avô, que rumou em novo para a Angola em que Aline Frazão nasceu e cresceu. Durante dez anos, a cantora e compositora esteve um pouco afastada nas suas raízes, a viver em Lisboa (para onde se mudou aos 18 anos, para estudar) e em Barcelona. Há dois anos, voltou a Luanda. Não só não se arrepende como foi lá, na “casa nova”, onde encontrou “sossego”, que começou a compor Dentro da Chuva — o seu quarto disco a solo, gravado num estúdio no Rio de Janeiro, Brasil, que chega às lojas e às plataformas de streaming esta sexta-feira, dia 21. Em Portugal, o álbum é editado pela NorteSul.

O disco novo é o quarto a solo e é muito diferente do anterior Insular, que teve participação do guitarrista português dos Linda Martini, Pedro Geraldes. É um disco virado para dentro, íntimo, de estética delicada, com alguns ecos dos registos musicais com que Aline Frazão cresceu, em particular a bossa-nova, MPB, canção cabo-verdiana e poesia angolana. É um disco de mergulho de fim de tarde, apaziguado, confortável, de uma certa “paz”, para utilizar uma palavra usada por Aline Frazão em entrevista ao Observador.

A cantora e compositora de 30 anos quer simplicidade, gravar em pouco tempo, que o disco soe “verdadeiro” em vez de perfeito, com alma em vez de “descafeinado”. Foi isso que Aline Frazão disse numa conversa em que abordou também a nova vida em Angola e a influência de Luanda na sua música, o impacto do Rio de Janeiro nas canções, a colaboração com o “mestre” Jaques Morelenbaum, o momento em que vive o seu país que é agora presidido por João Lourenço e ainda o feminismo, tema em que tem convicções firmes.

Aline Frazão não tem medo de assumir que nasceu com privilégios em Angola e que, mais do que pensar em utilizá-los para proveito próprio ou comunitário, está empenhada em “abdicar deles”. Em calar-se e ouvir quando é caso disso, “deixando outras pessoas falar e ocupar esses espaço”. Ouvi-la cantar é que é indispensável. Esta sexta-feira, 21 de setembro, apresenta o disco num pequeno showcase na FNAC do Chiado, às 18h30. Em novembro, dias 9, 14 e 29, apresenta-o respetivamente na Casa da Música, no Porto, no Convento São Francisco, em Coimbra e no Teatro Municipal São Luiz, em Lisboa.

“Dentro da Chuva”, de Aline Frazão

“Sinto que os álbuns perderam muito a alma. Tento fugir disso”

Como é que de um disco como o Insular, com um ambiente um pouco mais elétrico e rock, passa para este Dentro da Chuva, acústico, voz e guitarra, mais íntimo?
Depois de um trabalho, tendo a querer fazer algo de diferente a seguir. Tem sido um pouco assim o meu trajeto. O Insular era um disco muito de rutura com o que tinha feito antes e este acaba por contrastar. Mas na verdade fazer este disco corresponde a uma necessidade que tinha de me recolher um pouco e procurar um formato mais cru, mais despido, mais essencial, mais minimal, mais focado na voz e na palavra. Também muito porque tenho feito vários concertos nesse formato [sozinha com guitarra acústica] e são concertos muito especiais, que me colocam a uma distância muito curta do público. É um formato especial, que me ensina muito.

Falou pela primeira nessa tonalidade do disco há algumas semanas, ao jornal Público. Dizia uma coisa curiosa: que a sonoridade deste disco é o sítio de onde vem como compositora e como cantora. Que lugar é esse?
Este é o meu quarto disco a solo. Cada um dos anteriores tinha dez ou 11 músicas e todas elas começaram a ser criadas da mesma maneira: voz e “violão” [guitarra acústica]. Quando componho estou num estado de solidão e de isolamento, é um momento íntimo. Depois vou para a sala de ensaio, produzo a canção e entra o baixo, entra a bateria e é assim que as pessoas vão ouvir depois, num formato de banda, já produzido. No caso deste disco, não existe quase nenhuma diferença entre o momento da composição e o momento da entrega da música ao público, é quase a mesma coisa. Por isso é que digo que é um disco que se encontra muito com essa fase original, inicial, minha, como compositora e autora.

A “Ces Petits Rien” é uma canção que já canta há muito tempo ou só recentemente começou a ter vontade de a ouvir e gravar?
É uma canção que canto há alguns anos. Cantei-a durante algum tempo nos meus concertos e senti que havia espaço para a recuperar [agora]. Cantar noutras línguas é uma coisa que me atrai bastante. Esta canção do Serge Gainsbourg em particular é uma canção super bonita e que acho que encaixa muito com a linguagem brasileira. Não conheço bem as influências do Gainsbourg, mas acho que se enquadra numa determinada época como songwriter [compositor cantor]. E com uma doçura, com uma dramaticidade nas letras, em esse coração partido constante [risos]… Achava que isso encaixava bem neste disco, que este seria um bom momento para recuperar essa canção que adoro e fazer a minha versão e interpretação dela.

Voltou a viver em Luanda durante um período de tempo, depois do último disco, certo?
Sim. O Insular é de 2015 e no final de 2016, em dezembro, creio, voltei para Luanda.

De que modo é que isso influenciou o disco? Ou, antes disso, de que modo é que isso a influenciou a si?
Mudou-me muito. Durante muitos anos tive dúvidas sobre se deveria ou não regressar a Luanda, porque morei dez anos fora, entre Portugal e Espanha. Mas houve uma altura que comecei a ir lá com muita frequência e comecei a ver-me lá, sentia-me melhor lá do que em qualquer outro lugar. A decisão não foi fácil, mas decidi regressar e quando voltei a Luanda as coisas fizeram bastante sentido. Às vezes há estas decisões da vida, que se tomam a apalpar terreno e depois felizmente a vida confirma que foi a decisão certa. Nesta caso, foi. Sinto-me muito bem lá, bastante sossegada, bastante em casa. E houve várias coisas que mudaram em mim. [Pausa] Isso influenciou a música, porque este álbum já foi todo escrito lá, na minha casa nova, com uma vivência diferente e uma observação diferente [do exterior]. Os contextos são muito importantes no meu percurso, ao longo dos últimos anos mudei de contexto muitas vezes e acho que isso acaba por influenciar sempre a voz, as coisas que tenho para dizer, os álbuns.

"Sinto que os álbuns perderam muito a alma, estão muito descaracterizados. É tudo muito igual, soam todos iguais. Tento sempre fugir disso, limitar no tempo a gravação, tentar gravar em pouco tempo. Sinto que se fizesse um disco durante muito tempo ele iria ficar descafeinado [risos], sem erros, sem personalidade."

Apesar disso, gravou este disco no Rio de Janeiro, depois de já ter gravado o Insular numa ilha escocesa. Para gravar precisa de um refúgio, de um sítio onde não tenha grandes rotinas, onde não conheça tanto a paisagem? Embora com o Rio de Janeiro tenha uma ligação [conhece a cidade e tem ascendência brasileira, por parte da avó].
Sinto que os álbuns perderam muito a alma, estão muito descaracterizados. É tudo muito igual, soam todos iguais. Tento sempre, quando estou a produzir um disco, fugir disso. Tento limitar no tempo a gravação, tentar gravar em pouco tempo, com poucos takes, para ter uma certa frescura, para ser o mais verdadeiro possível. Sinto que se fizesse um disco durante muito tempo ele iria ficar descafeinado [risos], sem erros, sem personalidade, porque ia sempre tentar pô-lo mais e mais perfeito.

Estou a falar do tempo mas o espaço também é importante para mim: escolher bem o estúdio, escolher bem o local onde se grava. O Insular ensinou-me isso, ensinou-me que o contexto afeta muito o resultado. Quando se muda de contexto é-se obrigado a ficar mais atento, não se volta para casa à noite, para a “nossa cama”, não estamos na “nossa” cidade. Não se liga o modo piloto automático, é preciso ter atenção às ruas, a muitas coisas novas. E isso coloca-me num estado de maior atenção e maior foco na hora de cantar e de gravar. Depois há o aspeto de ser uma cidade do sul [da linha do Equador], uma cidade que significa muitas coisa para mim em temos musicais. No Rio de Janeiro senti sempre que estava mais perto dos meus ídolos enquanto caminhava e a ideia era um pouco aproveitar isso. É uma cidade sempre nova quando se regressa, que tem coisas muito boas e coisas muito más, especialmente neste momento.

Tem algumas participações no disco. Sobre Jaques Morelenbaum, como é que o conheceu e como é que o desafiou para gravar consigo esta “Areal de Cabo Ledo”?
O “Areal de Cabo Lego” foi o primeiro tema que escrevi para este disco. Assim que defini que ia para o Rio de Janeiro, pensei logo no Jaques. Há muito tempo que queria gravar com ele, porque sou muito fã dele e por acaso não estávamos assim tão longe, já tínhamos estado juntos em alguns contextos. Conheci-o em Lisboa, temos a mesma produtora em Portugal, a Inês Mota. Ele ouviu a música e aceitou. Foi uma questão de conciliarmos agendas, tivemos pouco tempo para gravar mas felizmente bateu tudo certo. É um músico genial e em estúdio, em poucos takes, quase de improviso, fez uma diferença muito grande e aumentou a melancolia que a canção já tinha. Era o que eu pretendia, uma melancolia bonita, bela, que tem a linguagem musical dele que é muito própria. Ao ouvir o Jaques tocar é fácil recordarmo-nos do Tom Jobim e do Caetano Veloso. Produziu inclusivamente vários discos do Caetano. Tem uma identidade muito forte e está nas nossas aparelhagens há muitos anos. Ter isso num disco meu é um privilégio.

E no caso da Luedji Luna, aconteceu de maneira diferente? Foi através do João Pires [guitarrista português radicado no Brasil], que a Aline conhece e com quem toca há algum tempo, ou foi através de outra pessoa?
A Luedji foi muito diferente. Conheci o trabalho dela na internet, é uma cantora que lançou um primeiro disco o ano passado. Gostei muito de um videoclip dela, do tema “Um Corpo No Mundo”. Fiquei fascinada com a linguagem dela. É baiana, é uma cantora e compositora negra, mulher, com uma personalidade muito forte, muito política. Senti-me muito atraída por isso, porque não queria que a presença brasileira no disco ficasse apenas por clássicos, queria que o disco tivesse o novo Brasil, a frescura e garra que a Luedji carrega. Acontece que ela também tem uma ligação a África, a música dela é muito africana, toca inclusivamente com músicos africanos e caribenhos. Escrevi-lhe através da internet e trocámos algumas mensagens, enviei uma canção e ela aceitou. Ficou muito emocionada, gostou muito da música. Tal como aconteceu com o Jaques, também “bateu certo”: ela pôde vir de Salvador e passar um dia connosco no Rio. Gravámos a música e ficámos amigas, houve sintonia entre nós. É uma coisa boa que os discos às vezes dão: novos amigos.

Li numa entrevista sua, entre este disco e o anterior, em que dizia: “Não tenho ainda claro o que será o próximo disco. Há muitos projetos que gostaria de fazer, mais ligados à música tradicional em Angola. Ou revisitar clássicos ou coisas mais próximas do rock. Prefiro reservar uma espécie de liberdade criativa para andar à procura de outras facetas da música, de novos estilos. O futuro é imprevisível e divirto-me muito com essa imprevisibilidade”. Houve algum momento específico, algum episódio, uma canção, o que for, que lhe tenha indicado o caminho para este álbum novo?
Para mim é bom ouvir isso porque confere, continua a ser assim que vejo as coisas. Voltar a Luanda foi importante, tinha essa ideia de revisitar a música angolana, com músicos angolanos, num estúdio em Luanda, mas uma pessoa chega lá e a vida atropela. Precisava de muito mais tempo para entender que músicos seriam esses, que música seria essas. Até fiz uma música em Angola que apresentei lá ao vivo. Provavelmente há de integrar um disco futuro. Mas senti que não era tempo. A arte disto tudo também é entender qual é o tempo das coisas.

De repente estava longe da minha banda, num novo momento da minha vida e senti também que era um bom momento para fazer outro disco que sempre quis fazer, que é este álbum, um álbum mais virado para dentro. Sempre quis fazer um disco assim, que represente o que as pessoas ouvem ao vivo quando me vão ver, o que ainda não tinha acontecido porque os outros discos foram todos feito com banda. E há questões pessoais que estão sempre presentes na minha forma de compor, que é uma certa solidão, uma necessidade de silêncio, assumindo um lado que algumas pessoas consideram arriscado, porque muito do que se faz tem barulho e há um certo vício no barulho, na quantidade de elementos que se tem, na produção que se faz, nessas coisas.

"Acho que este disco tem um pouco a ver com isso, com um esforço mesmo meu de tentar ouvir mais e ficar um pouco mais focada e tranquila, voltar um bocadinho a uma paz, talvez."

E quando se despe isso tudo…
Fica-se mais fragilizado, mais vulnerável, sem tantas máscaras. De certa forma isso correspondia a um novo momento na minha vida, a uma mudança de país, a voltar para casa, às coisas que estava a pensar, a ter deixado de escrever crónicas semanais para o Rede Angola [jornal online que acabou em 2017], algo que fiz durante dois anos. Essa época era muito frenética, de opinar e falar muito. Houve um momento em que isso me cansou mesmo muito, precisava de parar e de ouvir de novo. Acho que este disco tem um pouco a ver com isso, com um esforço mesmo meu de tentar ouvir mais e ficar um pouco mais focada e tranquila, voltar um bocadinho a uma paz, talvez.

“Alguma emancipação feminina faz-se à custa de trabalho de outras mulheres”

Na canção “Sumaúma”, o segundo single deste disco, há um verso curioso que encerra a canção: “irmã de causa e de casa”. Esse verso tem alguma coisa a ver com o texto “O que aprendi com o Ondjango Feminista”, que escreveu a propósito desse movimento que integra?
Sim!

Partilhando o texto que escrevi para o site do Ondjango Feminista esta semana.

Posted by Aline Frazão on Wednesday, April 4, 2018

Estava lá, entre outras coisas: “Da mesma forma que é necessário combater a desigualdade que existe entre homens e mulheres, é preciso combater as desigualdades que existem entre as mulheres. Precisamos de um feminismo que consiga representar todas, não só algumas”.
Sim, tem tudo a ver com isso. O Ondjango Feminista é uma presença muito forte na minha vida neste momento, tenho aprendido muito com essas irmãs de causa e de casa, que são mais irmãs de causa, na verdade. São mulheres brilhantes, muito inspiradoras. Senti necessidade que o meu disco refletisse também essa admiração, esses afetos, a minha relação com o feminismo. A “Sumaúma” acaba por ser isso, uma canção de homenagem ao Ondjango.

O texto abordava também um tema que está muito presente na forma como alguns comentadores discutem hoje o crescimento de populismos e a popularidade de alguns líderes como Donald Trump junto da classe trabalhadora. “A luta feminista dentro do continente africano não pode fechar os olhos ao debate de classe. Os problemas das mulheres ricas não são exatamente os mesmos problemas das mulheres pobres.” Os discursos que associamos mais ao feminismo atualmente, aqueles que têm mais notoriedade, não tratam maioritariamente só da igualdade entre mulheres de classe média-alta e alta e homens de classe média-alta e alta? Não ignoram as preocupações de mulheres que escapam a esse estrato social?
Acho que é um pouco notório e é disso que falo no texto. Há várias agendas dentro do feminismo e acho que elas podem ser compatíveis em alguns momentos e aspetos. É importante que se fale de feminismo mas em rigor o feminismo que acho que faz mais sentido é um feminismo assente na intersecionalidade, que passa por um compromisso de questionamento dos privilégios de género mas também privilégios de classe, cor de pele, identidade sexual e nacionalidade. Porque, por exemplo, uma mulher imigrante não tem normalmente as mesmas condições que uma mulher local.

"Muitas vezes alguma emancipação feminina, de mulheres de classe alta, com formação académica, que já têm algum acesso a lugares de poder -- por exemplo conselhos de administração de bancos -- faz-se à custa de trabalho de outras mulheres. (...) A minha posição é de que exista igualdade a todos os níveis e não apenas de género."

Todas estas questões são importantes no momento de se pensar o feminismo como teoria política. Acho que num contexto como o angolano, onde há tantas desigualdades sociais, é uma questão muito importante. Muitas vezes alguma emancipação feminina, de mulheres de classe alta, com formação académica, que já têm algum acesso a lugares de poder — por exemplo conselhos de administração de bancos — faz-se à custa de trabalho de outras mulheres, que ficam em casa a cuidar dos filhos delas. Uma mulher que concilia família e um trabalho desses e que deixa de fazer trabalho doméstico, muitas vezes não deixa de o fazer para o marido passar a fazê-lo, é para outra mulher o fazer. Uma mulher que está afastada da sua família, que não está a criar os seus filhos. Isto é só um exemplo, é preciso cruzar essas variáveis todas e integrar a visão feminista na política. Isso passa por integrar outras questões de igualdade no feminismo, porque a minha posição é de que exista igualdade a todos os níveis e não apenas de género.

Falava da questão dos privilégios e nesse texto também fala disso, da importância de cada um reconhecer quem é e de onde vem. No seu caso em particular, é alguém que, como escreveu, nasceu numa classe média ou média-alta em Angola, com dupla nacionalidade, mestiça, que pôde estudar, que fala mais do que uma língua… como é que se utiliza tudo isso para lutar contra privilégios? Encontrou essa resposta?
Muitas vezes utiliza-se ficando calado e deixando outras pessoas falar e ocupar esse espaço. Acho difícil utilizar essa voz e tem sido um dos meus maiores conflitos. Em certos contextos acho que é importante sairmos de cena e deixar falar quem merece. Às vezes penso em não colocar a questão dessa maneira, isto é, em como usar os privilégios, mas sim em como abdicar deles. Acho que esse é o passo seguinte, 2.0. Claro, é importante tentar utilizar a nossa voz sem ser só para nosso próprio benefício, mas também é importante calarmos e ouvirmos, quando não sabemos falar de certos assuntos e não estamos legitimado para tal.

“Não é pouca coisa conquistar a independência de um país”

Chegou a Lisboa com 18 anos. Três anos depois faz um primeiro disco coletivo, Em Mim Embala. Lisboa fomentou o lado criativo, musical, que expressou depois?
Na verdade, não especialmente. Acho que comecei a pensar em dedicar-me à música já depois de ter saído de Lisboa e de ter ido para Barcelona. Quando estava em Lisboa estava numa fase de faculdade, de início da vida adulta, a música não estava assim tão presente. Depois dessa mudança para a Catalunha apareceram algumas variáveis novas: a música e o feminismo, por exemplo. Aprendi muito nessa época e acabei por mudar muitas coisas na minha vida nesse momento passando a tentar tomar decisões pessoais que fossem políticas. A música foi um pouco isso, tentar seguir em frente com um projeto pessoal que para mim era importante, em detrimento de um percurso mais convencional, que não me satisfazia.

Acabei por regressar sempre a Lisboa — quando gravei o meu segundo disco, penso que também quando gravei o terceiro –, porque Lisboa acolhe muito bem a música que vem de Angola e Cabo Verde, é um ponto de encontro e de aprendizagem muito forte com pessoas que lá vivem. Aprendi muito por exemplo sobre Cabo Verde, Moçambique e Guiné Bissau. É importante porque fazem parte de uma história comum e de uma linguagem musical, há uma partilha que é muito bonita. Há aliás uma casa em Lisboa para essas músicas [B.Leza] por causa dessas pessoas.

"Desde que voltei a Luanda sinto mais sossego. Talvez não seja necessário explicar-me tanto lá, sinto-me mais em casa, coisas simples, sem muita filosofia: estar mais perto dos meus amigos, da minha família, do lugar de onde vim. O [movimento] Ondjango Feminista também me tem ajudado a colocar certas coisas no lugar devido."

Numa entrevista em que falava sobre esses primeiros tempos em Portugal e sobre um livro de poesia angolana que a acompanhou nesse período, dizia: “Sabendo que não era daqui, de Portugal, de onde era mesmo? Fui à procura”. Encontrou totalmente esse sentimento de pertença e de auto-conhecimento? Ou é uma procura que não está concluída, que inclusivamente não se conclui?
Acho que é uma procura permanente. Há uma fluidez nas nossas identidades. Acho que é importante estarmos abertos a isso mas também confesso que desde que voltei a Luanda sinto mais sossego nesse aspeto. Talvez não seja necessário explicar-me tanto lá, sinto-me mais em casa, coisas simples, sem muita filosofia: estar mais perto dos meus amigos, da minha família, do lugar de onde vim. O Ondjango Feminista também me tem ajudado a colocar certas coisas no lugar devido. Mas é uma busca constante, as identidades estão sempre a mudar e o mundo está a mudar, as pessoas que conhecemos vão-nos influenciando. Fazer música e arte, para mim, até tem a ver com estarmos abertos a isso, à mudança.

Angola mudou de presidente em 2017. Os novos rumos do país parecem-lhe interessantes, diferentes do passado?
Sim, acho que há uma mudança importante. Acho que o país todo queria que houvesse uma mudança. No início era mais cética, hoje em dia reconheço que as mudanças simbólicas são importantes. Há uma mudança de ares e as pessoas estão com mais esperança. Isso é importante. Há também uma mudança na maneira como vemos a política, percebermos que pode haver alternância política, pode haver outras formas de pensar. Foram mesmo muitos anos com o mesmo presidente e uma forma de fazer política centrada numa só figura, numa só cabeça. Isso não é bom. Há agora mais espaço para outras cabeças pensarem.

Para já, há uma cabeça diferente da que existia antes [risos] e as pessoas sentem que há espaço para darem mais a sua opinião. Isso nota-se muito, está tudo mais “arejado”, mais leve. Ao mesmo tempo, há uma crise económica muito forte, a que não se pode fechar os olhos, porque tem afetado muito a vida dos angolanos e das angolanas. Há uma maior dificuldade na vida de todos. Claro que as pessoas que estavam mal estão pior e nos próximos capítulos da política angolana terá de se ultrapassar a questão da mudança política para começar a falar de mudanças efetivas para melhorar o país. Continua para mim a ser urgente uma maior aposta nas questões sociais: saúde, educação, inclusivamente na cultura. É importante que haja uma visão do país, um projeto para o país, que seja inclusivo e justo. Aí, acho que continua “magro”.

"Acho que devemos muito aos mais velhos. Eles são os primeiros a estarem desiludidos com o país que existe hoje. Ao conversar com eles, a maior parte diz que não foi para isto que lutaram, 'não foi isto que nós combinámos', como se costuma dizer em Angola."

Ia terminar precisamente por aí. Há algum tempo disse: “Tínhamos uma ideia de que a independência levaria a um equilíbrio social e uma maior distribuição de riqueza, para que o povo se pudesse emancipar dele mesmo e não apenas dos colonizadores”. Em que fase é que está esse projeto?
Enquanto pessoa de uma geração que não esteve na luta pela independência, acho que devemos muito aos mais velhos, que fizeram essa luta. Eles são os primeiros a estarem desiludidos com o país que existe hoje. Ao conversar com eles, a maior parte diz que não foi para isto que lutaram, “não foi isto que nós combinámos”, como se costuma dizer em Angola. Continua a haver um caminho a percorrer. A missão daquela geração foi cumprida porque não é pouca coisa conquistar a independência de um país. Não é mesmo pouca coisa e houve muita gente que morreu por essa causa, que é uma coisa que hoje em dia a maioria nem consegue conceber. Agora, há novas missões e há uma nova geração que tem de pegar o país pela frente e a quem cabe a missão de continuar a realizar o país, a realizar Angola, a fazer com que o país se cumpra.

Vamos ver o que acontece. A nova geração ainda é um pouco incógnita, a minha geração ainda não está propriamente no poder. Há pessoas que são mais e menos otimistas em relação à minha geração, eu acho que há muito talento, sinceramente. Acho que é uma geração mais fresca, principalmente fora das esferas da elite, com talento e com vontade de fazer as coisas de outra maneira. Tenho mesmo esperança e tudo o que vejo à minha volta, de pessoas jovens e mais jovens que eu, dá-me sinais positivos. Claro que existe o que resta do status quo mas acho que o caminho poderá ser melhor. Acredito nisso.

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