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MIGUEL A.LOPES/LUSA

MIGUEL A.LOPES/LUSA

Entre choques sociais, geracionais e de reputação, a luta do Sporting passa por recuperar uma identidade perdida /premium

Em cinco meses o Sporting viveu o que nunca vivera em 112 anos. Na campanha falou-se muito de futebol e finanças. Ainda assim, a primeira luta do novo presidente passa pela recuperação da identidade.

Foram dezenas de debates e entrevistas, foram centenas de intervenções públicas nos meios de comunicação social, nos Núcleos e em sessões de esclarecimentos e agora, este sábado, serão milhares de sócios a escolher quem será o novo presidente do Sporting, naquela que ficará também como a eleição com mais candidatos de sempre no clube. E do que se falou quase sempre ao longo de todo essa lapso temporal? Futebol, finanças e futuro. Ainda houve umas incursões não muito declaradas sobre o “problema” que todos sabem existir mas ninguém quer por agora tocar (Bruno de Carvalho), mas basicamente tudo assentou naquilo que chega com maior facilidade ao ouvido de quem vota. Mas há uma realidade bem maior por trás de tudo isso e bem mais profunda do que possa à partida aparentar. Algo que, de uma forma ou outra, definirá o futuro do clube.

Primeiro, a espiral de divisão interna. Entre sócios a favor ou contra a liderança da altura, entre grupos apoiantes do caminho que estava a ser traçado e fações mais escondidas em busca de alternativas a esse rumo. Depois, a cadência crescente de guerras entre estruturas. Entre presidente e jogadores, entre Direção e Mesa da Assembleia Geral, entre Bruno de Carvalho e quem lhe fizesse frente. Por fim, os estilhaços do bárbaro ataque ao plantel na Academia, em Alcochete, e da derrota na final da Taça de Portugal uns dias depois. Chegaram as demissões, as rescisões, as manifestações. As participações disciplinares, as assembleia gerais, as providências cautelares. Em cinco meses, o Sporting viveu o que nunca vivera a este nível em 112 anos de história. E foi isso que trouxe também à tona os choques sociais e geracionais que existiam e coabitavam mas sempre na sombra. No limite, tudo acabou por ficar colocado em causa, incluindo a própria identidade enquanto clube. Tanto ou mais do que as vitórias no futebol que todos prometem, esse é o grande desafio do próximo presidente do clube verde e branco.

Filipe Amorim / Global Imagens

O ADN Sporting e uma identidade que se perdeu no tempo e com os erros

O Sporting teve na sua história presidentes que, pelo contexto em que lideraram o clube, tiveram uma importância determinante para o seu crescimento. Exemplo paradigmático disso mesmo foi Joaquim Oliveira Duarte, um desconhecido para muitos que, no seguimento da segunda passagem pelo cargo entre 1932 e 1942 (antes estivera cinco meses, no final de 1928 e início de 1929, saindo no meio do turbilhão do caso Jorge Vieira por não se conformar com o ambiente que crispação que tornava a sua gerência em algo ingovernável), consolidou os alicerces do período mais vencedor dos leões em termos desportivos – ganhando também oito Campeonatos de Lisboa, três Campeonatos de Portugal, um Campeonato Nacional e uma Taça de Portugal – e incrementou o ecletismo, a aposta no património e um estilo de chefia capaz de acalmar a crónica instabilidade institucional.

João Rocha, o presidente com maior longevidade de sempre (1973-1986), acaba agora por surgir como grande referência para os candidatos. Pelo carisma, pela liderança forte, pelo espírito pioneiro, pela aposta no ecletismo, pelo aumento a pique do número de sócios. Tão ou mais importante do que tudo isso, renovou aquilo que é o ADN Sporting. Foram públicas as “guerras” com José Roquette e com tudo um projeto que profissionalizou as estruturas leoninas anos depois. Ainda assim, muitos foram focando esse desacordo na parte mais economicista do passivo e do património quando, na verdade, aquilo que estava em causa era mesmo essa identidade que o empresário sabia ter reconstruido e que via então diluir-se com o tempo. Quase duas décadas depois, Bruno de Carvalho chegou à presidência verde e branca com esse mesmo espírito de regresso à parte boa do passado. Conseguiu, em parte, chegar a esse ponto, mas a forma como saiu, destituído em Assembleia Geral, colocou todo esse legado em causa. Esse é um dos grandes desafios do novo líder do Sporting. Quiçá o maior de todos.

João Rocha, nesta imagem com o sucessor Amado de Freitas e Dias Ferreira, é uma referência transversal a todos os candidatos

Os choques geracionais não foram invertidos. E até se adensaram

Houve um documento que circulou no final de agosto, assinado por sportinguistas como Miguel Poiares Maduro, Jaime Mourão Ferreira, Samuel Almeida, Nuno Wahnon Martins, Rodrigo Roquette e Philippe Mendonça, que provocou muitas reações nesse período de antecâmara antes da campanha eleitoral a sério. Falava da necessidade de adiar as eleições até haver mais pontos de convergência, recuperava erros do passado, lançava alguns desafios para o futuro mas tocava num ponto em específico que passou ao lado do debate – “uma profunda fragmentação”. “São hoje públicas, e exploradas, de forma perigosa para o clube, clivagens sociais e geracionais preocupantes (…) É importante que diferentes ideias e projetos possam ser livremente discutidos. Contudo, é fundamental que esse debate não seja substituído por uma competição entre personalidades assente em preconceitos geracionais ou sociais que arrisca agravar ainda mais o clima de profunda divisão e prolongar-se no tempo, para além das eleições”, referia tocando também na possível candidatura de Bruno de Carvalho.

Mais do que questões sociais, que podem existir mas não estão latentes, o Sporting nunca soube gerir esses choques geracionais que eram eram por demais evidentes. Pior: os mesmos foram ainda mais adensados durante a presidência de Bruno de Carvalho. Ao contrário do que acontecia há menos de dez anos, há um peso crescente no clube de uma geração com sete a dez votos, que representa um intervalo entre os 35 e 50 anos, e que corresponde a uma franja de associados que atravessaram um longo jejum de títulos depois de 1982 nunca perdendo a filiação ao clube e ganhando voz em termos de militância interna. Mas também há uma ala de associados com maior antiguidade que viveram num clube com características diametralmente opostas às que se assistiram nos últimos tempos, bem como uma vaga de sócios mais novos que crescem num mundo novo que mudou e têm outra perceção sobre o que é o Sporting. Na habitual guerra eleitoral, é normal que cada uma das candidaturas vá em busca do seu “nicho”; depois da eleição, o segredo do sucesso passa por encontrar um fio condutor transversal a todas as gerações.

Filas dos cerca de 15 mil sócios que votaram na Assembleia Geral destitutiva foram um retrato fiel do choque geracional

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A responsabilidade que o ano 1 do Pavilhão João Rocha deixou como herança

Estudando e sobretudo percebendo com a devida distância temporal o que foi o trabalho e o legado de cada um dos presidentes do Sporting, tendo maior ou menor sucesso desportivo e financeiro, há um ponto em comum entre todos aqueles que maior destaque ganharam com o seu trabalho: o reforço do ecletismo do clube, não só pelo número de modalidades mas sobretudo pela competividade que as mesmas tinham em termos nacionais. João Rocha, que idealizou uma espécie de Cidade Sporting com os pavilhões junto ao estádio, potenciou tudo isso não no plano desportivo mas também a nível de prática desportiva – passavam por Alvalade diariamente milhares e milhares de atletas, dos três anos aos acima dos 50, entre modalidades de pavilhão, natação e ginástica (com toda a receita que daí advinha), o que tinha também relação direta com o aumento de sócios.

Durante alguns anos, quiçá até de forma involuntária tendo em conta a falta de uma “casa” como havia com o Pavilhão ou a Nave de Alvalade, as modalidades foram interpretando o papel de almofada para o insucesso do futebol a nível de conquista de troféus. Bruno de Carvalho encontrou ali o caminho não só para chegar ao topo mas também para reforçar a sua posição, pela construção do novo Pavilhão João Rocha, pelo aumento do número de atividades ligadas ao clube e pela ambição até europeia a nível de conquistas (ganhou provas internacionais no atletismo, no andebol e no hóquei em patins, a nível coletivo). Depois, por uma espiral de erros, caiu. E o orçamento do clube, que basicamente cobre tudo menos o futebol que está na SAD, começou a ser colocado em causa, a nível de “veracidade” de números e de “investimento”. Certo é que, à partida para a época 2018/19, o Sporting tem como legado a conquista dos quatro Campeonatos (futsal, hóquei em patins, andebol e voleibol) no ano de estreia do Pavilhão. E esta herança é uma fasquia pesada que o próximo líder não pode marginalizar.

Capitão João Pinto em festa no Pavilhão João Rocha: hóquei em patins do Sporting voltou a ser campeão 30 anos depois

ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA

Como recuperar a grande coroa que foi ganha com o tempo pelos rivais

Durante muitos e muitos anos, havia um ponto inquestionável na política desportiva e institucional do Sporting até no plano comunicacional: a apologia da veia formadora. E que não se cingia apenas aos exemplos mais óbvios de Luís Figo e Cristiano Ronaldo, dois Bolas de Ouro formados pelo clube. Existia a veia pioneira do torneio Onda Verde, onde foi “pescado” um miúdo que até omitiu a idade por ser demasiado novo para participar mas que ficou chamado Paulo Futre. Existia um Departamento de Recrutamento e Prospeção liderado por Aurélio Pereira que se sobrepunha aos rivais na altura da escolha dos pais quase por uma questão de estatuto e prestígio. Existia uma rede transversal que conseguia cobrir todos os distritos. Hoje, a realidade mudou, os efeitos dessa viragem já se começam a sentir e os próximos anos, pelas gerações que aí vêm, confirmarão isso mesmo.

Por erros próprios e mérito de Benfica, FC Porto e até outros clubes como Sp. Braga ou V. Guimarães (entre outros), o Sporting recuou nesse estatuto e a imagem dos dez campeões da Europa em 2016 formados no clube dificilmente se irá repetir a breve prazo, como se percebe agora pelas convocatórias dos Sub-21, Sub-20 ou Sub-19. O projeto Visão 611 dos portistas não atingiu na plenitude os resultados pretendidos, mas no caso das águias o salto no futebol de formação a todos os níveis, do desportivo às infraestruturas, foi notório e colocou em causa a grande joia da coroa leonina. Até por uma questão de sustentabilidade financeira perante as clivagens em crescendo no mercado europeu, este é o ponto chave no futuro a médio e longo prazo dos verde e brancos. Sem isso, muitos dos outros projetos anunciados pelos candidatos perdem a sua base.

Cristiano Ronaldo é um dos principais embaixadores da grande coroa do Sporting durante décadas: a formação

NUNO GARUTI/Global Imagens

A comunicação como arma para reparar os danos a nível de reputação

As duas Assembleias Gerais de fevereiro, com tudo aquilo que as mediou e veio nos dias seguintes; a troca de publicações nas redes sociais entre presidente e jogadores; a turbulência institucional crescente que chegou aos mais altos órgãos sociais do clube; e sobretudo o ataque à Academia atiraram o Sporting para uma crise sem precedentes, que teve na derrota na final da Taça de Portugal, frente ao Desp. Aves, o seu espelho fiel: lágrimas de jogadores no relvado após o desaire, confrontos pontuais nas imediações do Jamor entre adeptos leoninos, ânimos exaltados antes, durante e depois do encontro, mistura de aplausos e insultos na altura de subir as escadas até à tribuna presidencial para receber as medalhas de finalista derrotado.

Todo este período provocou um enorme rombo em termos de reputação ao Sporting (que tudo o que se passou antes e depois da Assembleia Geral destitutiva em nada aligeirou, pelo contrário) e esse é um dos problemas imediatos do novo presidente do clube: ultrapassar, sem esquecer para aprender de futuro com esses erros do passado, todos os danos que os últimos meses trouxeram ao universo verde e branco. E grande parte dessa estratégia irá estar assente na comunicação utilizada, não só em termos públicos mas também nos principais órgãos decisores do futebol nacional e europeu, e na própria esfera interna do clube, que se foi deteriorando entre uma conduta belicista que trouxe mais coisas negativas do que ganhos.

Imagem da manifestação em Alvalade num dia que não será esquecido: o ataque na Academia, a 15 de maio de 2018

ANDRÉ KOSTERS/LUSA

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