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Esta é a 2.ª e última parte de uma panorâmica sobre grandes marcas da indústria farmacêutica e da origem dos seus nomes. A 1.ª parte pode ser lida aqui.

Roche

A F. Hoffmann-La Roche AG é a 2.ª maior empresa farmacêutica do mundo, com receitas anuais de 63.000 milhões de dólares (50.000 milhões no sector dos fármacos). Fritz Hoffmann-La Roche (1868-1920), que provinha de uma família suíça abastada, tentara a sorte em diversos ramos antes de fundar a empresa farmacêutica Hoffmann, Traub & Co., com Max Carl Traub como sócio e o pai como principal investidor. Esta sociedade teve vida curta e em 1896 nasceu em Basileia a F. Hoffmann-La Roche, a que se juntou, nesse mesmo ano, o químico Emil Christoph Barell, que seria figura determinante na direcção técnica da empresa durante o meio século seguinte, enquanto Fritz Hoffmann-La Roche se centrava na comercialização, área em que teve o mérito de reconhecer, bem antes da maior parte da concorrência, a importância da publicidade e do conceito de marca.

Fritz Hoffmann-La Roche (à direita) e Emil Barell, 1898

Um dos primeiros produtos da empresa foi o xarope para a tosse Sirolin, que, embora fosse de eficácia duvidosa, se tornou num sucesso de vendas, graças a campanhas publicitárias maciças. Em 1934, a Roche apostou na produção em massa de vitamina C sintética e na década de 1950 investiu fortemente no segmento dos tranquilizantes – a sua criação mais famosa é o Valium, cujo nome provém do latim “vale”, com o significado  de “boa noite”. Em 1976, um acidente numa pequena unidade industrial da Roche em Seveso, perto de Milão, causou a libertação maciça de dioxinas para a atmosfera que na altura foi classificado como um dos maiores desastres ambientais da história e ainda hoje macula o registo ambiental da marca.

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Novartis

A Novartis é um “odre novo para vinho velho”, tendo resultado da fusão, em 1996, de duas empresas com raízes antigas, a Ciba-Geigy e a Sandoz, ambas com sede em Basileia.

A Ciba-Geigy resultara, por sua vez, da fusão, em 1970, de duas empresas históricas que tinham ambas iniciado actividade no ramos dos corantes sintéticos para a indústria têxtil (em particular fucsina): uma era a J.R. Geigy AG, fundada em 1857 por Johann Rudolf Geigy-Merian e Johann Muller-Pack; a outra era a CIBA, que fora fundada em 1859 por Alexander Clavel e cujo nome era uma abreviatura de Chemische Industrie Basel (Indústria Química de Basileia). Quer a J.R. Geigy AG, quer a CIBA, foram diversificando a actividade para o ramo dos medicamentos e dos herbicidas (e do material fotográfico, no caso da CIBA).

A Sandoz tinha origem na Kern & Sandoz, fundada em Basileia em 1886 por Alfred Kern e Edouard-Constant Sandoz, e que também começara por ter por fito a produção de corantes.

Alfred Kern e Edouard-Constant Sandoz

Após o falecimento de Kern, em 1895, a empresa foi rebaptizada como Sandoz & Cie. e foi diversificando actividades: produção do adoçante sacarina, em 1899; início da investigação farmacêutica, em 1917; produção de agroquímicos, em 1939; descoberta do LSD, em 1943.

O LSD, cuja designação são as iniciais de “lysergic acid diethylamide”, fora sintetizado em 1938 por Albert Hofmann, mas este só se deu conta dos efeitos alucinogénicos do composto cinco anos depois, quando o ingeriu acidentalmente. A partir daqui, foram realizados novos estudos, que levaram à comercialização do LSD, em 1947, como panaceia para uma vasta gama de problema psiquiátricos (“uma cura para tudo, da esquizofrenia ao comportamento criminoso, perversões sexuais e alcoolismo”). Na década de 1960, os movimentos contra-culturais que tinham começado a fervilhar no Ocidente descobriram o LSD e advogaram – através de vozes como Aldous Huxley e Timothy Leary – a aplicação do composto para fins de “expansão da consciência”. Não tardou que o uso “recreativo” do LSD começasse a ser reprimido e o seu uso médico também foi sendo abandonado, pouco a pouco.

A Novartis é a 3.ª maior empresa farmacêutica do mundo, com receitas anuais de 49.000 milhões de dólares (todas na área dos fármacos).

Bristol-Myers Squibb

O nome não é muito conhecido e a sua sonoridade poderia levar a pensar tratar-se de um automóvel desportivo britânico dos anos 50, mas é a 8.ª maior empresa farmacêutica do mundo, com receitas anuais de 26.000 milhões de dólares (todas na área dos fármacos), e é também uma das mais antigas.

A sua origem remonta a uma empresa fundada em 1858 em Nova Iorque pelo médico Edward Robinson Squibb (1819-1900), a quem a indústria farmacêutica muito deve, pois foi dos primeiros a pugnar para que esta adoptasse padrões de elevada pureza e processos rigorosos de controlo de qualidade. O facto de o laboratório ter explodido por três vezes, uma delas deixando Squibb com queimaduras graves, não abateu a sua determinação e a E.R. Squibb & Sons (os dois filhos entraram no negócio em 1892) tornou-se numa empresa reputada, tendo sido pioneira na produção em massa de penicilina, com a abertura, em 1944, da que era então maior unidade de fabrico deste antibiótico no mundo.

Fábrica da Squibb em Brooklyn

A Bristol-Myers Co. foi criada em 1887 em Clinton, estado de Nova Iorque, por William McLaren Bristol e John Ripley Myers, e entre 1887 e meados do século XX, o seu produto mais conhecido foi o laxante Sal Hepatica, que a publicidade alardeava ter também efeitos benéficos sobre o fígado (como o nome sugere), bem como sobre o funcionamento de rins e estômago e no alívio de constipações. Embora este sucesso inicial tenha um odor a charlatanismo, a empresa foi, depois, construindo uma reputação séria: na II Guerra Mundial foi uma importante produtora de penicilina e a experiência adquirida nesta operação levou a que no pós-guerra investisse no sector nascente dos antibióticos. Este era um mercado disputado pela Squibb e a rivalidade entre as duas empresas só teve termo com a sua fusão, em 1989.

Anúncio ao laxante Sal Hepatica, 1920

Eli Lilly & Company

É pouco conhecida deste lado do Atlântico, mas é uma das maiores empresas farmacêuticas do mundo – a 11.ª do ranking, com receitas anuais de 22.000 milhões de dólares (todas na área dos fármacos) – e também tem raízes antigas. Teve origem numa firma, com apenas três empregados, criada em 1876, em Indianapolis, por Eli Lilly (1838-1898), que tinha atrás de si muitos anos de experiência no ramo, pois começara a trabalhar como ajudante de boticário aos 16 anos. Os comprimidos produzidos por Lilly tiveram boa aceitação, pois foram dos primeiros a ser revestidos com açúcar e a ter sabor a fruta, o que os tornava menos desagradáveis de engolir.

O primeiro laboratório da Eli Lilly & Company, em Indianapolis, 1876. Lilly está ao centro, e o rapaz à direita (Josiah, o seu filho de 14 anos) e o homem à esquerda representam 2/3 do staff da empresa

A empresa cresceu rapidamente, empurrada, no início da década de 1880, pelo Succus Alteran, um fármaco que era publicitado como cura para doenças venéreas, reumatismo e doenças de pele. A maior parte dos produtos que comercializava eram mais “sérios”, pois, a partir de 1886, a firma foi das primeiras a criar um verdadeiro departamento de investigação e a estabelecer critérios exigentes de produção e controlo de qualidade, numa época em que a produção de fármacos era artesanal e aproximativa. Quando Eli Lilly faleceu em 1898, sendo sucedido pelo filho, Josiah, a empresa comercializava já mais de 2000 produtos diferentes.

Alguns dos produtos da Eli Lilly & Company, num prospecto de 1906

A colaboração entre investigadores da Universidade de Toronto e a Eli Lilly & Company permitiu que em 1922 tivesse início a produção em massa de insulina – dois dos investigadores, Frederick Banting e J.J.R. Macleod, seriam distinguidos com o Nobel da Medicina em 1923, pelas descobertas neste campo. Outro dos triunfos da Eli Lilly foi o anti-depressivo fluoxetina, que resultou do trabalho de Brian Molloy e Robert Rathburn. O composto foi sintetizado em 1972, mas só começou a ser comercializado em 1986, na Bélgica, e só chegou ao mercado americano em 1987; o nome “fluoxetina” deixará indiferentes a maioria das pessoas, mas todos reconhecerão a sua designação comercial, Prozac (que não tem significado algum, sendo uma criação da firma de marketing Interbrand).

A Eli Lilly & Company não tem cessado de expandir-se e diversificar a sua actividade, que inclui a cosmética – através da aquisição, em 1971, da Elizabeth Arden Inc., depois vendida à Fabergé –, os fármacos veterinários e para a agro-química.

AstraZeneca

Este é um nome que só entrou recentemente para o vocabulário do cidadão comum, por ser uma das primeiras empresas a descobrir uma vacina contra a covid-19, a AZD1222, em conjunto com a Universidade de Oxford. Todavia, a AstraZeneca tem uma história que remonta a 1913, com a fundação, em Södertje, na Suécia, da Astra AB (Aktiebolaget Astra Apotekarnas Kemiska Fabriker), a primeira empresa industrial sueca na área dos fármacos, que visava pôr termo ao domínio alemão e suíço no mercado nacional. A Astra foi adquirida em 1918 pela ASF, uma empresa de corantes sintéticos que ambicionava criar um grande conglomerado sueco na área da indústria química, mas que soçobrou ingloriamente dois anos depois. A Astra acabou nas mãos do governo sueco, ao qual foi comprada por uma coroa por um consórcio privado, de que fazia parte a poderosa família Wallenberg.

Alguns fármacos da Astra

O outro ramo, a Zeneca, é bem mais recente: surgiu em 1993, em resultado da autonomização do sector farmacêutico da Imperial Chemical Industries (um gigante britânico da indústria química, então já em franco declínio: ver Do óleo de fígado de bacalhau ao Band-Aid: A história das marcas da indústria farmacêutica 1) e o seu nome não tem significado algum, pois foi inventado por “marqueteiros”. Em 1998 a Zeneca fundiu-se com a Astra AB , dando origem à AstraZeneca, que ocupa hoje o 10.º lugar no ranking das empresas farmacêuticas, com receitas anuais de 24.000 milhões de dólares (96% das quais no sector dos fármacos).

Moderna

Fora da indústria farmacêutica, ninguém dera pela existência da Moderna – era uma empresa de dimensão modesta, fundação recente e campo de actividade restrito – até que ela se tornou numa das primeiras a desenvolver e ver aprovada uma vacina contra a covid-19 – a mRNA-1273 (que resulta também da colaboração com investigadores de duas agências governamentais dos EUA).

A Moderna tem apostado num novo tipo de vacinas, que recorre a uma técnica desenvolvida por Derrick Rossi, um especialista em células estaminais, e que consiste em inserir nas células uma forma modificada de RNA mensageiro (mRNA) que dá instruções à maquinaria celular para produzir réplicas da glicoproteína com que o vírus (neste caso, o SARS-CoV-2) se fixa à superfície celular; ao entrarem na circulação sanguínea, essas réplicas estimulam o sistema imunitário a produzir anti-corpos contra o vírus, de forma que, na eventualidade de ocorrer uma infecção por este vírus, a resposta imunitária será mais rápida e eficaz, pois o “sistema de defesa” já teve contacto prévio com o “inimigo” e já sabe que “projécteis” deve “disparar” contra ele. Parte deste processo é, do ponto de vista conceptual, análogo ao de todas as vacinas – a novidade da mRNA-1273 está no uso de uma forma modificada de mRNA, que é designada por modRNA e que está só a uma letra de distância do nome da empresa.

Vacina contra a covid-19 da Moderna

AbbVie

É mais um nome pouco conhecido, ainda que a sua origem remonte a 1888 e ocupe o 6.º lugar no ranking das empresas farmacêuticas, com receitas anuais de 33.000 milhões de dólares. A AbbVie resultou da autonomização, em 2011, do ramo farmacêutico da Abbott Laboratories, ficando esta designação com o ramo dos dispositivos médicos, equipamento de diagnóstico e nutrição.

Tudo começou em 1888, em Chicago, quando o Dr. Wallace Calvin Abbott (1857-1921) fundou a Abbott Alkaloidal Company, que se especializou no fabrico de fármacos a partir de princípios activos de origem vegetal, sobretudo alcalóides (morfina, quinino, estricnina, codeína). O negócio expandiu-se à Grã-Bretanha em 1907, ao Japão em 1962 e a França e Itália em 1965, abrangendo hoje 160 países.

Wallace C. Abbott

Na década de 1930, um dos investigadores da Abbott descobriu o tiopental de sódio, que a firma registou comercialmente como pentotal de sódio e que ganharia amplo uso como anestésico nos anos seguintes, até ser suplantado por compostos com menores riscos e efeitos secundários. O pentotal de sódio também teve também aplicação nas injecções letais administradas pelo sistema prisional dos EUA e como “soro da verdade”, pois, em doses baixas, enfraqueceria, supostamente, a resistência a revelar a verdade; porém, a sua eficácia neste último domínio é muito questionada, já que o facto de o interrogado ficar mais sensível a sugestões dos interrogadores, mais tagarela e com maior dificuldade em elaborar mentiras congruentes não significa necessariamente que esteja a dizer a verdade.

Embalagem de pentotal de sódio

Sanofi

Ocupa o 7.º lugar no ranking das empresas farmacêuticas, com receitas anuais de 39.000 milhões de dólares (dos quais 28.000 milhões no ramo dos fármacos). O grupo francês Sanofi resultou da fusão, em 2004, da Aventis com a Sanofi-Synthélabo – a empresa resultante começou por denominar-se Sanofi-Aventis, mas deixou cair a segunda metade em 2011.

Qualquer destas empresas tem longas e complexas histórias: a Aventis resultou da fusão, em 1999, da francesa Rhône-Poulenc com a alemã Hoechst, a primeira remontando a Étienne Poulenc, que, em 1858, assumiu a gestão de uma farmácia em Paris (ver Do nylon à dinamite: A evolução da indústria química no mundo), e a segunda à fábrica de corantes Teerfarbenfabrik Meister, Lucius & Co., situada em Höchst am Main e que iniciou laboração em 1863 (ver Da aspirina à cassette: A história das marcas alemãs da indústria química).

Quanto à Sanofi-Synthélabo, resultou da fusão, em 1999, de duas empresas: a Sanofi, criada em 1973 como subsidiária da Elf-Aquitaine, após esta ter adquirido o grupo belga Labaz (com origem na Societé Belge de l’Azote et des Produits Chimiques du Marly, fundada em 1947). Quanto à Synthélabo, nasceu em 1970 da fusão dos Laboratoires Dausse (fundados em 1834) e dos Laboratoires Robert Carrière (fundados em 1899) e foi uma subsidiária de L’Oréal entre 1973 e 1999.

Anúncio à Biocholine, um dos produtos dos Laboratoires Robert Carrière

Amgen

É mais uma empresa pouco conhecida, pelo menos na Europa, por quem não trabalhe no sector da saúde ou não tenha como hobby coleccionar embalagens de medicamentos, embora ocupe o 12.º lugar no ranking das empresas farmacêuticas, com receitas anuais de 22.000 milhões de dólares. A empresa foi fundada em 1983, em Thousand Oaks, na Califórnia, como Applied Molecular Genetics.

Gilead

Ocupa o 13.º lugar no ranking das empresas farmacêuticas, com receitas anuais de 22.000 milhões de dólares. A empresa, cujo foco são os fármacos anti-virais foi fundada em 1987 com o nome Oligogen, por Michael L. Riordan, mas depressa mudou de nome para Gilead Sciences, numa alusão ao “Bálsamo de Gilead”, um bálsamo aromático com vasto espectro de propriedades medicinais que é mencionado em trechos da Bíblia (com diferentes nomes) e nalgumas fontes históricas judaicas, gregas e romanas. O tratado De materia medica, de Dioscórides, atribui-lhe uma miríade de efeitos benéficos, tratando tosse, asma, pneumonia, pleurisia, ciática, epilepsia, vertigens e mordeduras de serpentes, e funcionando ainda como indutor de abortos – esta multiplicidade de efeitos levou a que a expressão “bálsamo de Gilead” seja usada como sinónimo de “panaceia”.

O cruzamento da informação das várias fontes – quase sempre vaga e por vezes contraditória – sugere que a proveniência do bálsamo seria a Palestina, mais concretamente a região montanhosa a leste do Rio Jordão, conhecida como Gilead (hoje Jal’ād, na Jordânia), topónimo que provém do hebraico “gal’ed”, a partir de “gal” = colina. Algumas fontes defendem que o bálsamo era exclusivo desta região, outros, que também existia na Arábia e Flavius Josephus afirma que fora a Rainha de Sabá que ofertara um pé da planta que o produz ao Rei Salomão.

Região de Gilead/ Jal’ād

As hipóteses sobre a natureza do bálsamo são também muito variadas: o único ponto de consenso é que teria origem vegetal. Uma das possibilidades é que se tratasse de uma resina extraída da Pistacia terebinthus, ou terebinto, ou da Pistacia lentiscus, a aroeira ou lentisco (ver De onde vêm os nomes do que comemos? Parte 19: Nozes-do-cisne-negro e cornos-de-madeira); porém, há quem argumente que ambas as espécies são demasiado comuns e difundidas em toda a bacia mediterrânica e Próximo Oriente para que seja plausível que sejam a fonte de um bálsamo tão raro e precioso e que a fonte do “bálsamo de Gilead” será antes a Commiphora gileadensis (também denominada Commiphora opobalsamum), um arbusto que ocorre na Península Arábica e que produz uma resina que é queimada como incenso ou mastigada como “pastilha elástica” e a que são atribuídas propriedades medicinais, que se estendem, aliás, às sementes, casca e madeira do arbusto.

Commiphora gileadensis

Allergan

Foi fundada em 1948 pelo farmacêutico americano Gavin S. Herbert e baptizada como Allergan Inc. dois anos depois; passadas três décadas atingira uma apreciável dimensão, despertando a cobiça da SmithKline Beckman, que a adquiriu. Porém, nove anos depois, em 1989, a Allergan reconquistou autonomia, que voltou a perder em 2015, ao ser engolida por outro gigante farmacêutico a Actavis PLC. Esta, que nascera nos EUA com o nome Watson, em 1983, foi adquirindo empresas farmacêuticas pelo mundo fora e quando, em 2012, adquiriu a farmacêutica suíça Actavis, assumiu o nome desta. No ano seguinte, a Actavis “engoliu” mais uma empresa do ramo, a irlandesa Warner Chilcott PLC, que fora fundada em 1968 com o nome Galen, em homenagem ao médico grego Galeno (129-c.200 d.C.), natural de Pérgamo (na Ásia Menor), que foi médico pessoal do imperador romano Marco Aurélio e é considerado, com Hipócrates, um dos fundadores da medicina e da farmacologia.

Galeno dissecando um macaco, pelo pintor português José Maria Veloso Salgado (1906)

A aquisição da Warner Chillcot foi um bom pretexto para a Actavis transferir o seu domicílio fiscal para a Irlanda, a fim de beneficiar de um regime fiscal mais favorável. A aquisição da Allergan Inc. foi, por sua vez, pretexto para a Actavis PLC ser rebaptizada como Allergan PLC, sendo a Allergan Inc. uma das subsidiárias do grupo.

Quer o nome Allergan quer os restantes que acima se mencionaram nada dirão à maioria das pessoas, mas todas reconhecerão o Botox, que é a marca comercial do seu produto de maior sucesso. Trata-se de uma proteína neurotóxica produzida pela bactéria Clostridium botulinum e que causa a doença (potencialmente fatal) conhecida como botulismo – a causa mais comum é a ingestão de alimentos impropriamente conservados. A designação “botulismo” provém do latim “botulus” = salsicha, por a doença ter sido associada, inicialmente, ao consumo deste enchido.

A toxina botulínica, que é uma das substâncias mais venenosas que se conhece, inibe um neurotransmissor – a acetilcolinesterase – levando à paralisia pela perda de tónus dos músculos. Quando é injectado no rosto, em pequenas doses, o Botox causa o relaxamento dos músculos faciais, fazendo desaparecer as rugas e, secundariamente, diminuindo a expressividade facial, o que faz as “vítimas” deste tratamento parecer uma versão mais jovem, inerte e plastificada de si mesmas. O uso de Botox tornou-se extraordinariamente popular entre “celebridades” das passerelles, cinema, TV e música pop (embora muitas não o admitam), nalguns casos começa bem antes da meia idade. O Botox é o lubrificante indispensável ao regular funcionamento de Hollywood e das tournées de Paul McCartney, mas o seu uso está amplamente democratizado, como atestam os 4.4 milhões de tratamentos com Botox realizado nos EUA em 2020.

Bayer

Ocupa o 14.º lugar no ranking das empresas farmacêuticas, com receitas anuais de 21.000 milhões de dólares respeitantes à venda de fármacos – estas representam apenas 40% das receitas totais do grupo Bayer AG, que são de 47.000 milhões de dólares, uma vez que sua actividade se distribui por muitas áreas. Por esta razão e por boa parte do passado da Bayer – que existe desde 1863 – estar ligado à indústria química, a marca Bayer foi tratada em Da aspirina à cassette: A história das marcas alemãs da indústria química.