Entre o Brasil e “Westworld”, o que faz Rodrigo Santoro em Portugal?

10 Março 2018338

Está a rodar uma série realizada por Vicente Alves do Ó e protagonizada por Lúcia Moniz. Falou com o Observador sobre esta produção mas também sobre o trabalho na televisão americana.

Rodrigo Santoro e Lúcia Moniz voltam a encontrar-se. Quinze anos depois de “O Amor Acontece”, filme onde os dois se conheceram, Lúcia Moniz é agora “Solteira e Boa Rapariga” numa série de 26 episódios assinada por Vincente Alves do Ó e produzida pela Ukbar Filmes, ainda sem data de estreia. Em cada episódio, Lúcia Moniz terá um novo encontro amoroso, numa demanda pela procura do homem ideal. Numa dessas situações/episódios conhece Rodrigo Santoro, que é um dos muitos actores a integrar a série: Carlos Oliveira, Helena Isabel, Rita Loureiro, Nuno Gonçalves, Eurico Lopes, Pedro Giestas, Nuno Pardal, Pedro Lamares, entre outros, fazem parte do elenco.

O actor brasileiro esteve em Portugal para apresentar a série e o Observador aproveitou a oportunidade para saber um pouco mais sobre os seus planos para participar em mais produções portuguesas e sobre a carreira que tem feito na televisão norte-americana. Claro, tinha de ser. Até porque a segunda temporada de “Westworld” está quase a estrear (22 de abril) e era impossível evitar a pergunta sobre o que está para vir.

[Rodrigo Santoro em “Westworld”:]

Em “Solteira e Boa Rapariga” reencontra Lúcia Moniz. Como é que surgiu o convite?
Através da Lúcia Moniz. Trabalhei com ela num filme há muito tempo [“O Amor Acontece”] e ficámos amigos. E quando venho a Portugal, nos últimos anos, estou sempre com ela. Há algum tempo que tinha vontade de trabalhar em Portugal, estava buscando alguma coisa no cinema, fui conhecendo alguns produtores e realizadores daqui e estava à espera que surgisse uma oportunidade interessante. E surgiu este convite, que foi muito carinhoso e é uma participação especial. Conversei com o Vicente [Alves do Ó] e ele foi muito simpático, aberto à colaboração, perguntou o que eu achava, se tinha alguma ideia e trabalhámos nisso durante duas semanas. E fiquei convencido de que era hora de experimentar. Gostei do texto, ele é autor e realizador e eu gosto quando o realizador também tem esse processo onde ele mesmo escreve, porque está envolvido com tudo. E vindo da Lúcia, que é uma amiga muito querida, achei que era a hora dessa experiência.

Conhecia o trabalho de Vicente Alves do Ó?
Já tinha ouvido falar do Vicente, especialmente por causa do “Florbela”, que é o filme que fez com mais sucesso, foi o mais falado. Dei uma olhada nas outras coisas quando soube que ele iria dirigir. Mas o que mais me encantou foi o contacto mesmo, quando comecei a falar com ele, via a forma como ele ia adaptando as coisas e eu dizia o que achava. Eu achei um artista, um criador, aberto, colaborador, ele sabia o que queria da minha personagem, mas ao mesmo tempo estava disposto a colaborar. É muito interessante para mim colaborar dessa forma. Acho que foi o motor principal, achei que iria ser legal fazer.

"Tenho estado a fazer uma série para a HBO, nos Estados Unidos, que se chama “Westworld”. Ela é o meu trabalho agora. Acabámos a segunda temporada, que estreia agora a 22 de abril. Depois daqui vou para Los Angeles para fazer press junkets. Esta segunda temporada vai estremecer."

Já agora, o que conhece e gosta do cinema português?
Manoel de Oliveira, claro. O Miguel Gomes, acho que é o cineasta português com mais projecção internacional: vi o “Tabu” e as “As Mil e Uma Noites”. Quando estive cá há um ano, conheci alguns produtores e comecei a me inteirar com os novos talentos, como o Ivo Ferreira ou o Vicente, falaram-me nele nessa altura, mas não cheguei a conhecê-lo. Estou estudando esta nova geração. Estou com os olhos e coração aberto, para ver se encontro uma oportunidade interessante para fazer cinema aqui. E, claro, tudo tem de fazer sentido. Não sou português, sou brasileiro, mas falo português. Já me aventurei em línguas diferentes, gostei da experiência. Acho que isso não é uma barreira. É um desafio e quando a personagem faz sentido para o actor e o actor para a personagem, isso é o mais importante.

No meio de tudo isso, continua a fazer telenovelas.
Fiz uma participação no “Velho Chico”, foram 18 episódios. A novela inteira não teria condição, a dinâmica da minha vida hoje não permite esse compromisso tão longo. E, sinceramente, estou mais envolvido com o cinema ultimamente. Embora tenha estado a fazer uma série para a HBO, nos Estados Unidos, que se chama “Westworld”. Ela é o meu trabalho agora. Acabámos a segunda temporada, que estreia agora a 22 de abril. Depois daqui vou para Los Angeles para fazer press junkets. Esta segunda temporada vai estremecer.

A primeira já foi assim…
Mas esta é muito mais. A gente ia lendo, falando, e não estava acreditando para onde estão indo. A série é realmente ambiciosa, ela vai para um lugar extremo. Vamos ver como o pessoal vai receber. É bem surpreendente.

E como é que essa oportunidade surgiu na sua vida?
Eu não achava que fazer uma série fosse algo que se encaixaria na minha vida, porque são compromissos muito longos.

Mas já tinha entrado em “Perdidos”.
Mas fiz por uma temporada. O meu contrato foi de uma temporada. Eles queriam fazer o que chamam de “option”, em que têm três anos para te usarem, quando quiserem. E como eu morava no Brasil e tinha coisas lá, falei que não. A minha participação no “Perdidos” foi bem relâmpago. Porque eu tinha um contrato a cumprir e era curto. Tinha um tempo, oito meses, era para fazer dezoito episódio e acabou sendo rápido: apresentaram a gente, a gente desaparecia e depois explicaram a história e mataram-nos, porque tinha acabado o tempo do contrato.

[Rodrigo Santoro em “Lost”:]

E agora já tem mais tempo para trabalhar em séries?
O convite veio novamente do J.J. Abrams [produtor executivo de “Westworld]. A gente já tinha trabalhado junto no “Perdidos” e ele escreveu-me e disse que tinha esta nova história e que tinha uma personagem que eu poderia fazer. E eu aí falei por Skype com o Jonathan Nolan e a Lisa Joy e foi óptimo. Pediram-me para enviar uma gravação com uma cena de uma personagem, que nem era a minha, era de um dos hosts. E aí eu fiz. Tinha algum receio por ser um compromisso longo, mas disseram-me que o Anthony Hopkins e o Ed Harris iriam entrar e eu pensei: que elenco maravilhoso! Enviei o teste sem expectativa e eles gostaram. A falta de expectativa relaxou-me e eu acabei fazendo algo que eles gostaram muito.

Estes mundos fantásticos, de fantasia e ficção científica, agradam-lhe?
Eu gosto particularmente. Eu gosto de ficção científica e interessa-me muito a inteligência artificial. Acho que a gente vive isso há algum tempo, desde a entrada da internet, da globalização, de tudo o que aconteceu com o mundo. E a gente está vivendo um mundo, um tempo que a gente não tem consciência do que a gente está vivendo, de quanto a máquina se apoderou da gente. E isso é discutido agora na segunda temporada. O assunto me estimula muito. As pessoas que não viram “Westworld” imaginam que é uma série de cowboys, num parque, mas não sabem o que está sendo dito. Ou seja, metaforicamente, outras coisas estão sendo discutidas. O cowboy, o oeste, é uma estrutura, um pano de fundo para outras coisas que estão sendo discutidas. Todo esse domínio de quem domina quem.

E a própria ideia de replicação, quando a inteligência artificial começa a replicar-se?
Eu acho que o assunto central é o homem versus a máquina e o lado escuro da natureza humana. O que você faria se estivesse num lugar onde não existisse qualquer julgamento? Onde você pudesse fazer o que quisesse e nunca ninguém iria saber. Porque o nosso grande problema é a sociedade, o que vão pensar, o que vão dizer. Senão tivesse isso tudo, o que você faria? Pode fazer o que você quiser. Aí é que a gente começa a entrar em contacto com coisas em que geralmente não se entram. Acho que esta segunda temporada fala muito disso.

"Quando eu entrei [em "Lost"], eles não puderam desenvolver as nossas personagens porque tinham que explicar quem eram os “Outros” e depois desenvolveriam as personagens. E quando vieram ao encontro da minha personagem, tinha acabado o meu tempo de contrato."

Mas a sua personagem não é muito boa pessoa.
É difícil. Assiste à segunda temporada, esse conceito do bom e do mau é outra coisa que cai por terra. Eu não posso falar nada, mas posso dizer o seguinte: se você pensar que o meu personagem é um host e ele é manipulado, quem é que é o bom e o mau? Na verdade, aquilo não é a vontade própria. O comportamento dele é um comportamento de vilão. Mas ele é aquilo? Ou está sendo programado daquela forma? Quem programou ele? Quem é o vilão da história? É aí que mora o segredo.

Voltando a “Perdidos”, os argumentistas falavam muito do que se iria passar?
Isso foi um dos problemas. Eles tinham de esclarecer para o público quem eram os “Outros”. Quando eu entrei, eles não puderam desenvolver as nossas personagens porque tinham que explicar quem eram os “Outros” e depois desenvolveriam as personagens. E quando vieram ao encontro da minha personagem, tinha acabado o meu tempo de contrato.

Mas tinha ideia do que andavam a fazer?
Nós não tínhamos ideia de nada. Eu recebia o guião na noite anterior. Tinha de ler, estudar rápido. Era uma espécie de técnica que eles faziam para você ficar perdido. E então não tinha informação de nada, o que eram os mistérios, a fumaça preta, não sabia de nada. Eu estava ali perdido. Com o “Westworld” não é tão diferente. Nós não temos muitas informações, aliás, recebemos muito pouca informação. Recebemos os guiões próximo da hora de filmar e ficamos nesse processo quase instintivo, a gente vai e faz e não tem tempo de arquitectar, planear muito.

Mas sabe o que se passa à volta?
Sim, sabemos. As personagens recorrentes sabem. Quem faz participações não. Mas os regulares da série, como eu, e outros, recebemos os guiões. Mas é muito próximo também e tem dois, três dias para estudar, entender e fazer.

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