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No campo ou na cidade, na praia ou no rio, em casa ou na rua: férias são férias. A época é propícia como poucas a transformar leituras em atraso em leituras em dia. Por isso, é encher a mochila, ou o saco da praia, ou a mala de livros — e sobretudo ler. Se tem dúvidas sobre por onde começar, um painel de críticos, jornalistas e colaboradores do Observador deixa-lhe 25 sugestões para se perder nas páginas do verão, entre aquele mergulho e aquela bebida ao sol.

Alexandre Borges

“Poemas Vadios”, de Álamo Oliveira (Companhia das Ilhas)

Ainda temos muito a fazer em matéria de descoberta da literatura açoriana. As low-cost que nos levaram à Lagoa do Fogo e ao Pico não fazem escala nos livros nem os recomendam nas sugestões “a não perder” com que adornam os bilhetes. Álamo Oliveira, 75 anos, é um dos nomes maiores e constantes do “ativismo cultural” (seria injusto chamar-lhe apenas escritor) do último meio século, nos Açores. Urgente ler. “Perdi a poesia. / Partiu pela rua das metáforas / farta de silêncios e abandonos. / Não sei como encontrá-la como chamá-la / a casa como dizer-lhe volta meu amor / prometo uma orgia de palavras / todas elas válidas perfumadas com o / aroma das maçãs camoesas.”

D. R.

“The Room where it Happened: A White House Memoir”, de John Bolton (Simon & Schuster)

Há anos que não encontramos resposta para este dilema: Trump será perigosamente estúpido ou estupidamente perigoso? O livro do ex-conselheiro nacional de Segurança do 45º Presidente dos EUA não oferece conforto nessa matéria; pelo contrário. “Não consigo encontrar uma teoria compreensível para a transformação da Administração Trump porque nenhuma é possível”, diz (tradução nossa), logo nos primeiros parágrafos. É uma tradição antiga os Presidentes americanos terem de lidar com as confissões de antigos colaboradores, mas este abusa. E parece cada vez mais irresponsável negligenciar aquilo que nos vai dizendo quem conheceu a figura em carne, osso e bronze falso, e não apenas a caricatura.

@ D. R.

“Pai Babado – Guia Desnecessário para o Jovem Pai”, de Vasco Correia (Ego Editora)

É difícil dizer que o Vasco é “um dos melhores humoristas portugueses” porque ser humorista não é exatamente coisa que se meça em golos, downloads ou prémios sequer (não há Nobel da Comédia, ainda), mas que é certamente um humorista a merecer muito mais atenção, isso é certo. Como todos os grandes humoristas, o que diz vai muito além da piada; toca pontos sensíveis, desmascara pequenas grandes verdades, traz sensibilidade ou incómodo, se deixarmos assentar a poeira do riso. Este livro é um belo exemplo disso e, não sendo abertamente de humor, tem humor em tudo, misturado com desarmantes doses de honestidade. Saiu mesmo antes do fim do mundo e corre, por isso, o risco de passar debaixo do radar. Cabe-nos tentar evitar esse desperdício.

@ D. R.

Carlos Bobone

“Com Borges”, de Alberto Manguel (Tinta-da-China)

Em Jorge Luis Borges os livros são quase tão importantes quanto a personagem, com a sua aura de bibliófilo impedido de ler pela cegueira, com a mente cheia de labirintos e jogos complicados. Por isso é que o livro de Manguel, uma memória sobre Borges, tem tanto interesse: Manguel, um dos muitos voluntários que leram para Borges, nunca perdeu o encantamento, mas mergulhou fundo no universo do grande escritor argentino.

D. R.

“The Boundless Sea”, de David Abulafia (Penguin)

Uma História dos oceanos assombrosa na erudição, sem nunca perder ritmo narrativo. Das rotas comerciais à exploração etnográfica, toda a relação do Homem com o mar é explorada neste livro. Vikings, piratas, exploradores, lendas marítimas, tudo serve para ilustrar o modo como o Homem olha para o mar e para perceber o papel da água, quer na imaginação dos Homens, quer no desenvolvimento das civilizações. Há que acrescentar que este é um dos poucos livros com informação fiável e bem estudada sobre piratas e os seus modos de vida.

“Bocage ou o elogio da inquietude”, de Daniel Pires (INCM)

Uma biografia de Bocage escrita pelo maior estudioso da vida e obra do poeta. Passa por todos os assuntos importantes, das estadas na Índia à definição do cânone das Eróticas e Satíricas. É provavelmente a primeira biografia séria de um dos nossos maiores poetas. Que a vida de Bocage, entre as controvérsias com José Agostinho de Macedo e os problemas com Pina Manique, as viagens até Goa e a boémia no Nicola, dava um livro, já todos sabíamos. Pela primeira vez, porém, além de um livro, dá um bom livro.

Miguel Troncão

“Os Testamentos”, de Margaret Atwood (Bertrand Editora)

Atwood regressa ao romance intimista, na primeira pessoa, nesta sequela de A História de uma Serva. A história das três protagonistas entrelaça-se numa rede intricada de espionagem, intrigas políticas e o futuro moral de uma nação, tendo sempre como foco o direito, e dever, da mulher à auto-determinação. Qualquer semelhança com o contexto socio-político atual é, sem dúvida, intencional. Apesar de ser uma sequela não exige ao leitor um conhecimento profundo da obra anterior.

@ D. R.

“Os Anos”, Annie Ernaux (Livros do Brasil)

Nesta viagem pelos caminhos da memória, assistimos ao renascer de um povo que, após uma experiência traumática durante a Segunda Guerra Mundial, cria uma nova identidade para si. A história deste país, França, é contada não só através dos seus grandes acontecimentos políticos, mas também pelas histórias pessoais de cada cidadão, aqui personificados na protagonista. No fim deste caminho, apenas a memória sobrevive.

@ D. R.

“Corpos Celestes”, de Jokha Alharti (Relógio d’Água)

As três irmãs protagonistas deste livro guiam o leitor através de uma sociedade praticamente desconhecida para um ocidental. Omã aparece assim sob duas luzes, Mascate, a capital desenvolvida e urbana, onde já quase não há rasto de tradição, e al-Awafi, uma vila do interior onde a família e os rituais são a lei a ser seguida. Dentro desta dualidade está o papel da mulher dentro da sociedade, fustigada pelo progresso e pela tradição.

@ D. R.

Nuno Costa Santos

“Última Mensagem – 100 Poemas”, de Edwin Morgan [não (edições)]

Que esmerada edição esta — na forma e no conteúdo. Antologia de poesia do autor escocês (1920-2010) que gostava de se situar entre Glasgow e Saturno, entre formatos clássicos e o mais livre experimentalismo (esplêndido, de um lirismo com cheio humor dentro, o poema “O Dia em que o Mar Falou”). Assuntos percorridos por uma pena que se jogou em tons vários: o cometa Halley, Kafka, o Terramoto de Lisboa, Woodstock, as nuvens e a sua finalidade, o sentimento de, à conversa com uma série insuperável, reviver o passado em Amsterdão. O gesto de fazer um poema : “(..) Mas deves concordar/com ele, e amá-lo/mesmo quando cresce/ demasiado feroz para agradar (…)”.

@ D. R.

“Vitorino Nemésio – à Luz do Verbo”, de José Martins Garcia (Companhia das Ilhas)

É, como aponta o título, um livro sobre a “existência” literária do autor de Paço do Milhafre. “Se não se pode separar facilmente ‘a obra e o homem’, devo confessar, no entanto, que prefiro a obra à biografia”. E é pela obra que José Martins Garcia, ele próprio enormíssimo escritor, cuja reedição da obra tem sido ignorada (o que permite acentuar o deprimente diagnóstico em relação ao jornalismo cultural), vai. Escolhe esta ordenação para o seu ensaísmo sem tiques de esoterismo pensante: “O Narrador”, “O Poeta” e “O Investigador e o Crítico” e “O Cronista”. O que permite ao leitor versado nas obras nemesianas encontrar novas pistas e ao leitor que a ignora (e possivelmente a cita), na melhor das hipóteses, ter vontade de a percorrer.

@ D. R.

“Na Floresta”, de Edna O’Brien (Cavalo de Ferro)

O Verão é altura adequada para todo o tipo de leituras e digressões – não só pelas brisas literárias. Pode ser momento para entrar no “coração das trevas” da mais extremada condição humana. Sabemos que a irlandesa Edna O’Brien, uma das escritoras admiradas pelo criterioso Philip Roth, nunca foi mansa para com as zonas mais obscuras da vida no seu país, construídas à base de uma hipocrisia muitas vezes mascarada de um amável catolicismo. Neste livro, editado o ano passado mas capaz de saltar a vedação de muitas décadas, invade os pensamentos de um criminoso alienado, com base na história real do regresso à terra de um órfão que assassina uma mulher, uma criança e um padre. Escritor que se preze não se fica pelas coisas bonitas.

@ D. R.

Joana Emídio Marques

“Cartas ao Léu: Correspondência de Luiz Pacheco a João Carlos Raposo Nunes [1989-2000]” (Maldoror)

Quem conhece a livraria e alfarrabista Uni-Verso, um recanto escondido nas traseiras da Câmara Municipal de Setúbal, espaço exíguo, sombrio, discreto, mais parecido com as lojas de alfarrábios da idade média, quando mouros e judeus ensinavam os cristãos a ler, sabe que ali tudo tem um ritmo lento, um cheiro antigo e que a barba de João Raposo, (o “Raposão” para Pacheco), lembra esses lugares e esses tempos que desaparecem, a pouco e pouco, das nossas cidades. Quem conhece João Raposo sabe que só ele com a sua docilidade e paciência poderia aturar a psicopatia de Luiz Pacheco, nesses anos em que ninguém o conhecia, nem estava interessado em conhecer. Esta correspondência que se reedita agora, 15 anos depois da sua primeira edição, é organizada por António Cândido Franco, para a editora Maldoror, tem algum material inédito, histórias que o tempo iluminou detalhes e muitas notas explicativas. O tema é o de sempre, a grande obsessão de Pacheco: o meio literário português e a sua congénita diletância, mediocridade, amiguismos, etc, e os livros, o ter ou não ter dinheiro para comprar todos os livros que a sua fome pedia. Triste, triste é que ao lermos estas cartas, género que ele escolheu por ser o mais livre e os mais confrontativo como os seus alvos, percebemos que nada mudou, e que quem exerce o direito à liberdade de discordar corre o risco de ir parar a um quarto alugado.

“Que é então uma carta para Luiz Pacheco?”, questiona Cândido Franco: ” Um género poético solto e livre, a partir do qual é possível pensar de forma privilegiada as relações do mundo com a palavra; um género poético quase total, sem entraves, onde tudo se pode dizer; uma enxurrada que lava e alivia a alma de coágulos psíquicos pesados”. Deixamos aqui um aperitivo:

Montijo, 3/2/2000
Raposão Amigo:
terás recebido a m/ carta?, com uma encomenda
MILIONÁRIA, de livros? Calculo que não tenhas aí as
obras que te pedi, mas deves ter livros, interessantes, que atinjam as vinte brasas. É que não tenho nada para ler. Ofereceram-me o último do Dinis Machado
(o que ele devia ter era VERGONHA!) que é uma merda. Olha, livros franceses são preferíveis. E dos Livros do Brasil?, col. Vida e Cultura, saiu agora um. E também precisava de um BOM dicionário de Português, da Porto Editora.E de álbuns com fotografias (nus femininos)
L. Pacheco”

@ D. R.

“À Deriva”, Joris-Karl Huysmans (VS)

O autor é pouco conhecido em Portugal e, até agora, os livros Além (Assírio &Alvim)  e  Ao Arrepio (Cotovia)  eram as suas únicas obras publicadas entre nós, pela Assírio & Alvim. Sendo Huysmans [1848- 1907] um autor de culto na sua França Natal, admirado por Marcel Proust e Paul Valery e Jean Cocteau, não se percebe como a sua edição, agora pela VS, passou completamente despercebida. Voz única e comunicante com o vicio de observar os lugares mais decadentes da cidade, este autor atravessou movimentos como o Naturalismo, o Simbolismo, teve um fascínio pelo Satanismo e acabou por se converter ao Catolicismo. À Deriva não é um livro que vá agradar a muitos, pois o senhor Jean Folantin é um irmão espiritual de Robert Walser, Jacob van Guten, de Bartleby, de Kafka, um falhado.E, rejeitando todos os excessos prometidos pela grande cidade, tudo o que ele ambiciona na vida é apenas ter fome suficiente para comer com prazer um bom jantar, num restaurante que não seja imundo.

@ D. R.

“Caliban e a Bruxa”, Silvia Federici (Orfeu Negro)

Publicado pela Orfeu Negro, Caliban e a Bruxa auto-limitou a sua importância ao promover-se como um livro feminista. Ora este ensaio, de 2014, de Silvia Federici é muito mais que um livro feminista, é um livro sobre a História das mulheres na idade média, mais precisamente, na passagem do feudalismo para o capitalismo e o uso do seu corpo e da sua vida para fazer mover a grande roda do capital. Instigante, bem escrito, sem ser panfletário, nem partilhar a premissas do #metoo, Caliban e a Bruxa mostra a forma como foram vividas e protagonizadas várias revoluções, protestos especialmente contra a igreja. Como se constituíram no mato e nos bosques comunidades dos chamados hereges, que viviam à margem dos nobres e do clero. Mostra ainda como, na idade média, foi preciso criar a figura da bruxa para controlar as mulheres porque, muitas vezes eram elas as instigadoras das revoluções, as assassinas dos senhores, controlavam a sua vida reprodutiva e sexual, faziam abortos recorrendo a ervas e outras práticas, tornavam-se ascéticas e foram determinantes em movimentos heréticos como os Alumbrados, os Cátaros, os Valdenses, os Albigenses, as ordens religiosas femininas de leigas católicas como as Beguinas, que surgiram na Bélgica e se espalharam por vários países da Europa central. Nos século XII e XIII o poder das mulheres cresceu consideravelmente. No inicio do século XIV, o município de Frankfurt contava com 16 físicas (médicas) judias.  Mas a peste negra devolveu o poder à igreja e no final do século XIV as mulheres desobedientes começaram a ser queimadas pela prática de bruxaria. De certa forma, Silvia Federici aborda aquilo que Foucault na sua obra nunca encarou: a diferença da forma como as mulheres e seus corpos foram uma moeda viva.

@ D. R.

“Descasco as Imagens e Entrego-as na Boca: Lições António Reis”, de v. autores (Documenta/Sistema Solar)

Dir-se-ia que é um livro destinado aos cinéfilos, mas, mais do que cineasta António Reis era um poeta e na poesia estava a raiz de tudo o que fez. Descasco as Imagens e Entrego-as na Boca é pois um livro para os amantes de António Reis publicado agora pela Documenta/Sistema Solar. O livro reúne ensaios de  Maria Filomena Molder, Nuno Júdice, Manuel Guerra, José Bogalheiro, uma homenagem de Fátima Ribeiro e um ensaio fotográfico de Maria Patrão. Os ensaios foram proferidos na Escola Superior de Teatro e Cinema na homenagem feita, em 2018, ao poeta e intitulada “As Lições de António Reis”.

O livro cuja parte principal é o ensaio de Maria Filomena Molder percorre a poesia e o cinema de António Reis (e Margarida Cordeiro) em especial o filme de 1974, Jaime e mostra como as duas artes nunca deixaram de remeter uma para a outra, e que só juntas explicam um pouco deste homem misterioso e fugidio que foi António Reis. Como escreve Molder: nos ombros de Reis pesa uma “percepção muito profunda de quem viveu coisas afins, e ele viveu coisas afins: conheceu a pobreza, conheceu o lugar pequeno, conheceu companheiros em situação de abandono, de vazio, portanto ele vê estes homens [como o esquizofrénico Jaime] com um olhar que, acredito, mais ninguém conseguia ver”.

@ D. R.

“Maina Mendes”, Maria Velho da Costa (D. Quixote)

Que a morte recente de Maria Velho da Costa seja um motivo para a relermos, a descobrirmos e não para esquecê-la rapidamente como acontece aos mortos do século XXI, que não cultiva a memória, só a novidade. E não há novidade estival que possa ombrear com Velho da Costa. Séneca e os estóicos lembravam que só somos donos do nosso tempo e, por isso,  não podemos deixar que o roubem com distrações levianas. Porque esse tempo nunca nos será devolvido. Muitos livros de Velho da Costa estão esgotados mas há pelo menos dois títulos que se encontram facilmente na editora D. Quixote: Maina Mendes, com prefácio de Eduardo Lourenço e Mayra, o seu último romance. Nenhum deles será tempo perdido e, mesmo Maina Mendes, escrito em 1969, continua a ser uma obra incomparável na sua estranheza extravagante e indisciplinada pelos modismos literários do seu tempo.

@ D. R.

Rita Cipriano

“Sete Casas Vazias”, Samanta Schweblin (Elsinore)

Depois de uma primeira tentativa na ficção longa com Distância de Segurança, a argentina Samanta Schweblin voltou ao conto e lançou Sete Casas Vazias, obra que antecede aquele que é talvez o seu melhor livro, Kentuchis.

Composto por sete contos, a coletânea de contos é uma viagem por sete casas, sete vidas, cada uma com os seus problemas e aflições. O tempo é o da contemporaneidade (o espaço temporal onde Schweblin mais se sente à vontade), e só à luz dessa noção é que é possível compreender os dramas das personagens, quase todas femininas. Os temas são caros à autora — os limites do pessoal e do privado, tema do seu mais recente romance, Kentuchis, e como a semente da desconfiança e do desconforto pode, através das nossas ações, germinar no interior de um espaço que devia ser sinónimo de segurança, a casa.

O desconforto de estar dentro de casa

O conto central de Sete Casas Vazias, “A Respiração Cavernosa”, condensa tudo isto, tocando ainda no tema da saúde mental, também muito presente ao longo da coleção: é a história de Lola, uma mulher idosa que perante a violação de um espaço que considerava sagrado e intransponível — a sua casa –, se precipita numa espiral de paranoia que a leva a perder toda e qualquer noção da realidade.

Sete Casas Vazias é mais um belíssimo trabalho daquela que é considerada uma das grandes escritoras de língua castelhana; é um retrato dos tempos de hoje, com um detalhe e astúcia só possível ao melhor dos observadores.

@ D. R.

“Prosa — Antologia Mínima”, Fernando Pessoa, ed. Jerónimo Pizarro (Tinta-da-China)

Se o verão é o tempo das descobertas, então não haverá melhor altura para descobrir o lado oculto de Fernando Pessoa. E não nos referimos ao esotérico (esse também existe), mas ao menos conhecido, escrito em prosa.

Apesar de Pessoa ter ficado para a posteridade como poeta e se ter afirmado como tal, a maior parte do seu espólio está em prosa. A afirmação é aparentemente surpreendente, mas faz todo o sentido se pensarmos que não é só a ficção que se escreve em prosa. O teatro também o pode ser, assim como a crítica, o ensaio, o aforismo, a entrevista e a carta, géneros que o autor cultivou e que hoje enchem a sua “arca”.

Jerónimo Pizarro: “Foi a nossa agenda editorial que tornou Pessoa apenas ou maioritariamente poeta”

A nova Antologia Mínima organizada por Jerónimo Pizarro é um convite a descobrir mais este lado do escritor que foi como uma “constelação”. Nela é possível encontrar os três principais heterónimos, Caeiro, Reis e Campos, contos e prosa poética, mas também muitas outras personagens fictícias e géneros literários, que Pessoa soube cultivar durante toda a vida, em português mas também noutras línguas (sobretudo inglês).

Em entrevista ao Observador, Jerónimo Pizarro considerou que “foi a nossa agenda editorial que tornou Pessoa apenas ou maioritariamente poeta, e é de nós que depende transcender essa agenda. Não precisamos apenas de vates românticos, mas também de ficcionistas e pensadores”. É verdade que Pessoa “foi poeta, mas também muitas outras coisas”.

@ D. R.

“Hurricane Season”, de Fernanda Melchor (Fitzcarraldo Editions)

Fernanda Melchor é candidata a ganhar este ano o International Booker Prize. O seu segundo romance, Hurricane Season, foi escolhido, entre elogios sem fim, para integrar a lista final da edição de 2020 do prémio de ficção traduzida para a língua inglesa — e com toda a razão.

Hurricane Season conta, numa corrente de linguagem apenas quebrada pelo fim e início de cada novo capítulo, a história de uma bruxa. Quando o livro começa, essa bruxa está morta (o seu corpo sem vida, descoberto por um grupo de crianças, flutua sobre a água do canal), e Melchor leva-nos atrás no tempo para revelar a sua história, a de sua mãe, outra bruxa, e a de uma localidade mexicana onde a superstição, a misoginia, a pobreza e a violência dominam a paisagem. A brutalidade de uma realidade que não é tanto fictícia, coexiste com a beleza da linguagem quase poética de Melchor, que nos recorda que a vida é tanto feita de momentos luminosos como de escuridão.

A história do International Booker Prize diz-nos que é mais provável que o galardão seja atribuído a autores como Shokoofeh Azar ou Yoko Ogawa, também nomeados, mas será uma pena se os jurados deixarem passar a oportunidade de homenagear a língua castelhana e a magnífica obra de uma das suas mais interessantes autoras.

@ D. R.

Vasco Rosa

“As Literaturas em Língua Portuguesa. Das origens aos nossos dias”, de José Carlos Seabra Pereira (Gradiva e Instituto Politécnico de Macau)

São quase 800 páginas, é certo, mas de leitura merecida pela absoluta originalidade do fôlego — conspecto diacrónico desde as origens medievais até 2019 e grande amplitude nos «espaços trancontinentais da sua realização histórica» — e pela qualidade analítica do seu autor, que sem dúvida deve ser considerado como o último grande professor de literatura da universidade portuguesa. Antes de compilar os seus muitos escritos dispersos, Seabra Pereira surpreende-nos com uma obra original, que ninguém como ele estaria em condições de escrever.

@ D. R.

“Santa Rita Pintor. Polémicas e controvérsias”, de Fernando Rosa Dias e outros (Documenta)

Futurista aparentemente sem outro futuro além da mitificação e do escândalo («vestígios espectrais» chama-lhe um dos autores, p. 31), Guilherme Augusto Cau da Costa de Santa Rita (1889-1918) tem neste livro — e pela primeira vez — um retrato biográfico e estético com alguma consistência. Trabalhos de uma dúzia de historiadores de arte buscaram recolocá-lo nos painéis de santo chiado da arte portuguesa de inícios do século passado, «com chapéu vermelho e casaco de coberta de colchão», distinguindo-se pelas suas «atitudes dramáticas de hiperestesia de psicopata genial». O livro perde muito por não ter um índice onomástico que o torna instantânee instrumento de referência, prejudicando a novidade de algumas das suas páginas.

@ D. R.

“Saudades de Portugal”, de Ramón Gómez de La Serna (Abysmo)

Figura que merece aparecer em qualquer «retrato de família» do primeiro modernismo português, o madrileno Ramón tem nesta colecta de crónicas e cartas lisboetas organizada por Saéz Delgado e Pérez López — pela primeira vez compiladas em Portugal — o reconhecimento que lhe é devido nas relações luso-espanholas dos anos 1920, e que jamais ficará completo sem a versão portuguesa da sua novela La Quinta de Palmira, passada no Estoril (Cascais), onde viveu — e escreveu obras fundamentais —, para cuja relevância a sua tradutora Joana Morais Varela tenta há anos cativar editores. A caminho de Buenos Aires, onde morreu, Gómez de La Serna deixou-nos retratados para sempre.

D. R.

“Bocage, ou o Elogio da Inquietude”, de Daniel Pires (Imprensa Nacional)

Depois do monumental trabalho de fixação textual da obra do poeta Bocage, incluindo as suas traduções, e seguramente aproveitando o aluvião documental dos muitos anos de estudo aplicado que lhe consagrou, entre bibliotecas, arquivos e alfarrábios, Daniel Pires lançou-se à composição deste livro, para enfim desfazer mitos, legendas — e o aneditário — de um dos escritores mais maltratados do nosso país. São vinte capítulos. «A fama… e a fome!» e «Para cúmulo, sem túmulo» são dois deles. Grafismo equivocado e intrometido de A. Marta Ferreira.

@ D. R.

“André Soares, Arquitecto tardo-barroco”, de Domingos Tavares (Dafne)

Antecipando as comemorações, em Novembro próximo, do tricentenário do nascimento do arquitecto bracarense, este estudo certamente erudito mas escrito com uma elegância clássica que o torna acessível a não-especialistas vem destacar a obra do «arquitecto que transformou a paisagem de Braga» com alguns dos seus edifícios religiosos, públicos e privados de referência, «imaginativo introdutor do Rococó no Minho» (trabalhos de arquitectura nos Arcos de Valdevez e em Guimarães), Riscando ou desenhando também para talha e azulejo, foi autor do mapa da cidade dos arcebispos, de 1756.

@ D. R.