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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Entrevista ao embaixador do Irão. "Os EUA estão a esconder baixas do ataque iraniano" /premium

Em entrevista ao Observador, o diplomata diz que os Estados Unidos devem deixar de ter um comportamento arrogante para que haja novos entendimentos e nega o uso de balas reais nos protestos em Teerão.

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Embaixador do Irão em Lisboa desde julho do ano passado, Morteza Damanpak Jami falou com o Observador duas semanas depois do ataque norte-americano que matou o general Qassem Soleimani e da resposta iraniana, com o ataque a uma base militar dos Estados Unidos no Iraque. O diplomata vê nesse conflito o pico de uma escalada de tensão que começou com a saída dos EUA do acordo nuclear, em 2018, atribuindo as culpas aos norte-americanos. Ainda que continue a acreditar num entendimento entre os dois países, mesmo que Donald Trump se mantenha na presidência. Diz que os iranianos não têm “problemas com pessoas específicas”, mas sim “com o comportamento” e que isso é que tem de mudar: “Os EUA precisam de perceber que o Irão já não é um fantoche dos Estados Unidos no Médio Oriente”.

Segundo o diplomata, as mãos dos Estados Unidos também poderia estar uma parte da responsabilidade pelo abate de um avião comercial ucraniano, confundido por um míssil pelos iranianos. Morteza Damanpak Jami falou em relatos de movimentações suspeitas de aeronaves norte-americanas na noite do incidente, o que levantaria a possibilidade de ter havido uma sabotagem eletrónica dos sistemas de controlo aéreo de Teerão — entretanto excluída, já depois da entrevista, pelo relatório da investigação. Ainda assim, o Irão pediu desculpa e diz que vai assumir todas as responsabilidades. Porque é que demorou quase três dias a fazê-lo? O embaixador lembra que era um momento “de grande tensão e sensibilidade”, mas garante que o país nunca quis esconder o erro. Esta terça-feira foi tornado público o resultado da investigação ao incidente, que concluiu que o aparelho foi mesmo atingido por dois mísseis.

Investigação conclui que avião ucraniano foi abatido por dois mísseis

Nos dias seguintes ao caso do avião, milhares de iranianos protestaram contra o governo e pediram a queda do Líder Supremo, o ayatollah Ali Khamenei. A polícia bateu nos manifestantes, alguns vídeos mostram disparos e uso de gás lacrimogéneo, mas Morteza Jami nega que tenham sido usadas balas reais. Argumenta que a intervenção da polícia foi necessária para acalmar “uma situação caótica”.

[Veja aqui os principais momentos da entrevista ao embaixador do Irão em Portugal]

Estes protestos seguiram-se às grandes manifestações de novembro, onde, segundo três funcionários do Ministério do Interior disseram à Reuters, podem ter sido mortas mais de 1.500 pessoas. O embaixador do Irão em Lisboa afirma que o balanço total ainda está a ser calculado, mas não será tão alto. Nega que as manifestações tenham tido uma dimensão significativa e garante que a intervenção da polícia foi necessária porque um “pequeno grupo” de “oportunistas” estava a pôr em causa a segurança do país.

Autoridades iranianas usaram balas reais e gás lacrimogéneo contra manifestantes

Entre as razões dos protestos estão os gastos com o financiamento de grupos armados e milícias em países vizinhos, como o Iraque, a Síria ou o Iémen. Morteza Jami desvaloriza, diz que o apoio a grupos como o Hamas e o Hezbollah é apenas “espiritual” e que o Irão está nos países vizinhos apenas a pedido dos governo locais — garantindo que foi por causa desse apoio que Qassem Soleimani salvou o Iraque do autoproclamado Estado Islâmico.

[Ouça aqui a entrevista completa, na versão original em inglês]

“EUA estão a esconder baixas do ataque iraniano”

Como acha que é possível que alguém no exército iraniano tenha confundido um avião comercial com um míssil de cruzeiro e tenha decidido disparar dois mísseis, matando 176 pessoas, incluindo 82 iranianos?
Deixe-me, primeiro, expressar as minhas sinceras condolências pessoais e as do meu governo por aqueles que perderam as suas vidas. A maioria deles eram iranianos, das elites iranianas. Isso foi um choque para a nossa nação e nós lamentamos tanto que um infeliz incidente tenha acontecido. As questões técnicas sobre essa matéria devem ser tratadas pelos peritos. Como sabe, há uma comissão conjunta, criada com a cooperação dos países envolvidos e a autoridade de aviação civil iraniana, que está a analisar todos os aspetos técnicos do problema ou do erro que aconteceu. Pergunta-me como pode ter havido um erro…

Na verdade, não houve qualquer erro técnico.
O que eu digo é que os aspetos técnicos estão a ser investigados para perceber como este incidente infeliz aconteceu. Mas pergunta como é que um erro destes aconteceu. Bom, na verdade, um erro humano pode acontecer em qualquer momento. Até erros desta dimensão. É preciso ter em conta a situação em que tudo isto aconteceu. Da nossa perspetiva, e muitos outros o mencionaram recentemente, incluindo o primeiro-ministro do Canadá, se estas tensões não estivessem a acontecer, então era possível que todas estas pessoas não tivessem morrido de uma forma tão terrível. É preciso ter em conta a situação em que este incidente aconteceu. Havia um perigo de escalada da tensão, depois do ataque terrorista dos Estados Unidos, ao assassinarem um dos altos responsáveis militares do nosso país, que era um convidado de outro país vizinho, o que foi considerado pelo Irão um ato militar de agressão. Por isso, os nossos responsáveis prometeram retaliar, com base nos nossos direitos definidos na Carta das Nações Unidas, no artigo 51. E assim fizemos, alguns dias depois. Era uma situação de tensão e havia o perigo de que os Estados Unidos pudessem, de novo, responder, e depois o Irão iria responder, e a situação poderia, possivelmente, ficar fora de controlo.

Mas a escalada de tensão começou antes. Houve uma invasão da embaixada norte-americana em Bagdad, tivemos um norte-americano morto num ataque do Katah’ib Hezbollah. Por isso, a escalada começou antes.
Diz que a escalada começou aí, mas eu digo-lhe que a escalada começou há mais de um ano e meio, quando havia países a trabalhar na implementação de um acordo internacionalmente aceite — e todos faziam parte desse acordo, o acordo nuclear, que era suposto resolver a disputa entre o Irão e os países ocidentais. Os Estados Unidos faziam parte do acordo, mas, repentinamente, o presidente dos EUA decidiu demolir todo o legado do governo Obama, incluindo o acordo nuclear. Saíram do acordo e deixaram as outras partes numa situação caótica, ameaçando os outros para que também saíssem. E depois começou a política de pressão máxima, reaplicando todas as sanções ao Irão, e esse foi o início da escalada. Os casos que refere aconteceram dentro do Iraque. Há milícias no Iraque, há forças militares no Iraque, pode ter acontecido alguma coisa ali, mas nós não somos responsáveis por isso. Se a embaixada norte-americana foi atacada, qual foi o papel do Irão? Há alegações de que o Irão estava por detrás, a pressionar e a apoiar estas milícias no Iraque, mas aquilo foi uma ação e uma reação. O Irão não tem nada a ver com isto.

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Já voltaremos a essa questão, mas falemos um pouco sobre o aspeto político do ataque ao avião. Primeiro, foi dito que foi um acidente ou uma falha mecânica do avião. Depois, um porta-voz do governo iraniano disse que qualquer suspeita do envolvimento do Irão era “uma grande mentira”. Depois disseram, numa declaração das forças militares, que o avião “assumiu a postura e a altitude de um inimigo”, porque estava a aproximar-se de uma base da Guarda Revolucionária Iraniana. E, só depois disso, o comandante da unidade aérea da Guarda Revolucionária Iraniana reconheceu publicamente que o avião estava a voar na sua direção normal e sem qualquer erro. Porque é que o governo iraniano não foi frontal mais cedo? Porque é que demorou três dias?
Na verdade, a nossa retaliação à ação militar dos EUA aconteceu na madrugada de quarta-feira. Umas horas depois houve o acidente do avião e na sexta à tarde, hora do Irão, o governo reconheceu que houve um erro e assumiu a responsabilidade por ele. Foram cerca de 48 ou 50 horas, não os três dias. Mas não é importante quantos dias.

Os militares souberam imediatamente, presumo.
O comandante da unidade aérea da Guarda Revolucionária, na sua primeira entrevista em que explicou a situação, mencionou que, de manhã, reportou à sua hierarquia militar. Eu não vou justificar porque é que foi tão tarde, mas tenha isto em consideração: se o nosso governo quisesse não confessar que isto foi um erro, não o teríamos dito na sexta-feira, mesmo depois de 48 horas. Não houve, de todo, qualquer intenção de esconder isto. Porque, afinal, houve uma investigação, uma análise ao conteúdo das caixas negras. No final, o resultado poderia ser o mesmo. Mas nós até o fizemos antes de a análise da informação — que ainda não está completa — ser concluída. Os militares têm o seu protocolo. Um comandante reportou a um nível mais alto e eles, como explicaram depois, tiveram de considerar aspetos diferentes da situação que levou a este erro. Nas forças militares foram precisos dois dias para eles fazerem esse reporte e, imediatamente depois, o presidente do governo, que é o líder do conselho da segurança nacional, foi informado das conclusões dos altos cargos militares do país. Depois ordenou a realização de uma reunião extraordinária do Conselho de Segurança Nacional e esse foi o momento de concluir que o acidente foi o resultado de um erro. Quero sublinhar que não houve qualquer intenção de esconder. Assumimos a responsabilidade e assumimos também a responsabilidade de compensar todos os aspetos do que aconteceu. Como foi mencionado na declaração das forças armadas, infelizmente isto aconteceu num tempo de grande tensão, grande sensibilidade, e ainda não sabemos que tipo de condições levaram a que este erro acontecesse neste tempo de crise. Isso é uma coisa que ainda está sob investigação e os detalhes serão revelados brevemente, espero. O problema é: quem criou esta tensão? Temos recebido algumas notícias contraditórias, até da comunicação social ocidental, de que, possivelmente, poderia haver uma guerra eletrónica nos céus do Irão. Que, possivelmente, quem estava a operar o equipamento dos mísseis recebeu a informação — como recebemos dos responsáveis militares — de que um míssil de cruzeiro se estava a aproximar da capital.

"Podendo ter havido alguma sabotagem eletrónica, aquele incidente aconteceu. E, talvez, aquele tenha sido o último elo na corrente de questões que acabaram por levar ao disparo daqueles dois mísseis."

Pode ter havido uma espécie de sabotagem eletrónica, é isso?
Há alguma discussão sobre isso. Até na comunicação social ocidental, há dias, vimos uma informação do ministro russo dos Negócio Estrangeiros, o sr. Lavrov, que disse que no momento em que o incidente aconteceu, naquela noite, havia seis F36 norte-americanos a voar à volta do Irão. No tempo de crise em que o acidente aconteceu, eu estava aqui, a ouvir as notícias, era por volta da meia noite, quando ouvi que o Irão tinha retaliado. E na internet, nessa altura, eu vi algumas notícias na comunicação social iraniana — eram 5 ou 6 horas da manha no Irão — de que algumas aeronaves específicas tinham descolado das bases norte-americanas no Golfo Pérsico.

Mas, se há uma possibilidade real de sabotagem, porque é que o Irão pediu desculpa?
Eu não tenho essa informação. Eu só digo que há notícias contraditórias sobre todos os aspetos à volta do que aconteceu. Mas, podendo ter havido alguma sabotagem eletrónica, aquele incidente aconteceu. E, talvez, aquele tenha sido o último elo na corrente de questões que acabaram por levar ao disparo daqueles dois mísseis. Pode ter havido alguns passos que podem ter levado a este acontecimento infeliz e essa foi a fase final de todo o processo. Por isso, precisamos de esperar para ver qual será o resultado de todas as investigações, que vão clarificar todas as questões. Peritos internacionais da ICAO (Organização Internacional de Aviação Civil), Canadá, Ucrânia e outros países envolvidos foram convidados para irem para o Irão, estão a fazer a investigação lá, a tentar ler a informação nas caixas negras. Por isso, temos de esperar para ver qual será a conclusão final. O facto é que esse erro aconteceu. Isso não vai desaparecer. Está aqui e o Irão assumiu a responsabilidade e vai dar o seu melhor para remediar as consequências.

Protestos contra o governo. “Não estão a pedir nenhuma revolução”

Depois de ter sido admitido o “erro humano” por parte das autoridades iranianas, as pessoas saíram às ruas e recorreram às redes sociais para expressar a sua raiva contra o governo. A polícia bateu nos manifestantes, alguns vídeos mostram disparos, gás lacrimogéneo. É aceitável usar balas reais em civis iranianos?
Deixe-me primeiro dizer que, com base na informação que tenho, não foi feito qualquer disparo com balas reais. Talvez balas de borracha tenham sido usadas pelas forças disciplinares, e gás lacrimogéneo ou algo semelhante. Na verdade, o nosso governo, toda a sociedade, todo o povo do meu país está de luto. E repare que, dias antes disso, houve uma muito maior manifestante nacional de luto no funeral do major-general Soleimani. Milhões de pessoas estavam nas ruas do Irão. Eu estava no Irão nesse dia e estava entre as pessoas em luto. Por isso, eu vi com os meus próprios olhos milhões nas ruas da capital.

Quem é Qassem Soleimani, o general de elite do Irão morto pelos EUA?

Algumas pessoas questionam os números.
Podem questionar, mas as imagens estão lá. Os cálculos…

Não os cálculos. Um jornalista iraniano, a escrever para o Washington Post, chamou-lhe “propaganda iraniana”, dizendo que estudantes e funcionários foram obrigados a irem para as cerimónias, que as lojas receberam ordem para fechar e que esses números não são verdadeiros.
Infelizmente, propaganda e publicidade e aspirações políticas estão sempre por detrás. Quando há milhões de iranianos de luto nas ruas de Teerão e outras cidades, então eles vieram para as ruas pressionados pelo governo, pelo fecho das lojas, por isto e por aquilo. Os media, especialmente os media ocidentais, fecham os olhos. Mas quando há algumas pessoas, digamos milhares de pessoas, que estão com raiva, a maioria jovens que sentem simpatia com os seus colegas estudantes [passageiros do avião abatido] em algumas das universidades a que pertenciam antes de irem para o Canadá para a continuação da sua educação. Portanto, os media ignoraram os números de milhões de pessoas e só se concentram nos números mais pequenos de pessoas que dizem que estão zangadas. Hoje mesmo, o nosso Líder Supremo esteve nas orações de sexta-feira e mencionou que nós sentimos e compreendemos o sentimentos dos mais jovens, que podem estar zangados, mas isso acontece em tempos de raiva e o problema é que o governo é responsável por trazer segurança ao país. Quando, de fora do país, há órgãos de comunicação social em língua persa, apoiados por fontes financeiras específicas, que pedem às pessoas que vão para as ruas, para fazerem isto, e depois consideram este número de pessoas que protestam uma revolução, então a situação não é uma situação normal. Toda a situação está em alta tensão. O país está em risco de guerra, ameaçado por um país estrangeiro, então como pode haver manifestantes a atacar os bancos, a fazer isto? Essa é a responsabilidade de qualquer país no mundo: se há este tipo de situações caóticas, tentar acalmar a situação. Mas eu posso confirmar que não foram usadas balas reais. E até há alguns relatos de que, possivelmente, pessoas desconhecidas entre a população podem ter disparado sobre as outras pessoas, e não as forças disciplinares. Isso, em algumas circunstâncias, daria uma boa justificação para que outros, fora do país, ponham pressão no governo. Isto é algo que aconteceu nos protestos de novembro.

Nesses protestos de novembro, três funcionários do ministério do interior disseram à Reuters que 1.500 pessoas foram mortas.
Eu vi essas notícias, mas eles só dizem que um ou dois ou três funcionários, que não querem dizer os seus nomes. Como pode essa fonte ser credível?

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Mas porque é que não há um balanço oficial de vítimas?
O balanço de vítimas é uma combinação de pessoas diferentes: os manifestantes, as forças de segurança e alguns dos que estavam a passar só nas ruas, que não fizeram parte do protesto. A verdade é que ainda está a ser calculado.

Houve tantas vítimas que ainda estão a calcular? Isto foi em novembro.
Sim, mas depois enfrentámos uma série de problemas diferentes, como o homicídio de Qassem Soleimani, que não permitiram que o registo fosse finalizado. A informação que eu vi em algumas fontes oficiais é que nós vamos revelar o número real de vítimas mortais e a composição dos números. Há rumores sobre o número, não são confirmados. Mas vai haver um número oficial.

Essa manifestação em novembro começou por causa da subida no preço da gasolina e evoluiu para grandes manifestações contra o governo e as políticas. Porque é que estas manifestações devem ser reprimidas ou travadas? No mesmo artigo, a Reuters revelava que a ordem para reprimir os protestos veio diretamente do Líder Supremo, citando-o dizendo: “Façam o que for preciso para acabar com os protestos”. Porque é que isso é necessário?
Eu nunca vi isso citado, que ele disse isso diretamente. Ele escreveu, em resposta a uma carta dos responsáveis dos três poderes — administrativo, judicial e speaker do parlamento —, sobre a subida do preço do petróleo, “façam o que for preciso pelo país”, mas nunca vi uma citação dele a dizer “ok, acabem com isto assim” sobre os protestos. Ele não ordenou nada diretamente sobre isso. Há notícias confusas e contraditórias, mas eu não posso confirmar que houve uma ordem direta do Líder Supremo porque isto é algo de que o governo vai tratar, as forças disciplinares e de segurança vão tratar. Deixe-me dizer isto: na nossa Constituição, o direito de protesto e manifestação está bem reconhecido, é um direito. E até na sequência dos protestos de há dois anos, depois em novembro e agora recentemente, por este luto, com algumas pessoas — poucas pessoas, não “números enormes”, como disse —, o governo está a tentar encontrar lugares seguros para a linha daqueles que têm o direito de protestar de forma calma, sem tentarem danificar património público e das pessoas. Agora mesmo o governo está a trabalhar com o parlamento para ter, possivelmente, uma lei ou apenas encontrar uma forma de as pessoas se sentirem seguras quando protestam. De forma a que essa linha seja separada da linha dos oportunistas, que tentam pôr em causa a segurança do país. Então, o governo está a tratar disso. A repressão dos protestos foi feita porque estava a caminhar para desestabilizar a segurança do país. Dezenas de bancos foram incendiados, bombas de gasolina…

Um pequeno grupo de pessoas, como lhe chama, estava a pôr em causa a segurança nacional?
Esse é o problema. Em circunstâncias como estas, pessoas oportunistas — que não são em grande número — funcionam como insurgentes nos ajuntamentos pacíficos do povo.

Mas não foi apenas em Teerão. 
Sim, também noutras cidades. Mas nós temos mais de 700 cidades. Em 10 ou 20 ou 30 cidades, maiores ou mais pequenas, em pequenas partes das cidades, houve alguns ajuntamentos, gritando contra o governo, contra as autoridades, mas a esse nível é tolerável.

"Algumas pessoas podem ter, comparado com anos anteriores, menos confiança em alguns responsáveis, não em todo o sistema. Mas isso não significa que estejam exaustas do sistema político. Não estão a pedir nenhuma revolução."

Então é um protesto nacional.
Não é um protesto nacional, se considerar que, no meu país, que tem 82 milhões de habitantes, há mais de 700 cidades, grandes e pequenas. Se em 100 cidades houve, nem grandes nem enormes, mas pequenos ajuntamentos, não lhe pode chamar um protesto nacional. Além disso, quando se prolongam por vários dias, o número de pessoas vai diminuindo, porque, de forma geral, o público não quer que a segurança do país, nestas circunstâncias, seja posta em perigo. Por isso afastaram-se dessa linha e abandonaram as ruas. E, no final, não havia muita gente nas ruas para continuar. Não foi uma revolução! Foi uma espécie de protesto, mas de forma a que alguns oportunistas usassem isso de forma errada para seguir a sua própria agenda. Eu não digo que 100% das pessoas no meu país apoiam o governo. Em qualquer país há oposição. Mas a oposição deve expressar a sua vontade no parlamento, na comunicação social, não indo para as ruas e tentando desestabilizar o país, especialmente nestas circunstâncias, em que estamos sob ameaça de um país estrangeiro.

A questão é se essa oposição está a crescer. Existe, o senhor reconhece-o. Mas está a crescer? Em declarações à Rádio BBC, Ghanbar Naderi, um comentador da televisão pública iraniana Press TV admitiu, e cito: “Há pouca confiança no governo e o povo quer mais liberdade. As mentiras que eles disseram sobre o ataque ao avião fizeram perder a confiança do público”. Acredita que os iranianos confiam no regime?
Se não confiassem, milhões não tinham ido para as ruas de Teerão e outras cidades para participar no funeral de um soldado do seu país, que foi um companheiro a defender a segurança do país. As pessoas não estão em boas condições económicas. Algumas pessoas podem ter, comparado com anos anteriores, menos confiança em alguns responsáveis, não em todo o sistema. Mas isso não significa que estejam exaustas do sistema político. Não estão a pedir nenhuma revolução.

Está a acontecer uma revolução no Irão?

Disse que, se alguém quer protestar no Irão, deve recorrer ao parlamento ou à comunicação social.
Não, o Ministério do Interior é o responsável. Mesmo aqui, se alguém quiser fazer uma manifestação, tem de pedir à polícia. No meu país, para os protestos deve ser feito um pedido ao Ministério do Interior. Eu disse isso por causa dos oportunistas, que tentam estragar estes ajuntamentos para as suas próprias motivações políticas. Há um debate no nosso país e no parlamento de que deveria haver alguns lugares seguros — ruas, por exemplo —, para que, se houver algum protesto, mesmo contra o governo, as pessoas possam marchar e a polícia poderia protegê-las.

"Como qualquer outro país, nós temos leis, que são limites. Uma pessoa não pode, simplesmente, escrever blasfémias contra os valores do país. Por isso, enquanto a expressão dos pontos de vista estiver em linha com as leis e regras do país, não há nenhum problema em expressar esses pontos de vista."

Sim, mas disse que havia formas organizadas, os opositores poderiam candidatar-se ao parlamento ou usar a comunicação social para expressar as suas críticas.
Essa é a forma democrática de expressar os protestos.

Mas a Repórteres Sem Fronteiras coloca o Irão na 170.ª posição no índice mundial de liberdade de imprensa, entre 180 países. E diz que o controlo do Estado sobre as notícias e a informação é constante e que, pelo menos, 860 jornalistas e cidadãos repórteres foram presos ou executados desde 1979. Uma pessoa põe-se em risco quando expressa as suas críticas na comunicação social no Irão?
Eu não sei quão de perto segue os órgãos de comunicação social no Irão, digital ou impressa. Por estes dias, estão cheios de comentários, colunas de opinião e conteúdos que expressam protestos contra o presidente e outros responsáveis, mas sabe que, como qualquer outro país, nós temos leis, que são limites. Uma pessoa não pode, simplesmente, escrever blasfémias contra os valores do país. Por isso, enquanto a expressão dos pontos de vista estiver em linha com as leis e regras do país, não há nenhum problema em expressar esses pontos de vista. Eu não sei quão real ou exato é o relatório dessa entidade que mencionou, mas, na verdade, eu não acredito que esse grande número de jornalistas esteja na prisão por expressar os seus pontos de vista. Nós temos muitos meios de comunicação social que apoiam o governo e o sistema político, mas também contra o presidente e os outros, com críticas até para as mais altas autoridades, mas dentro das leis e regras do país. Por isso, desde que isso aconteça, não deve haver medo de expressar pontos de vista. Nestes dias, nas ruas, eu disse que, se as pessoas só marcharem nas ruas e disserem alguma coisa contra as autoridades e o governo, mas não tentem pôr em perigo a segurança do país, isso é tolerável. E o governo está a tentar tolerar isso.

Apoio a Hamas e Hezbollah. “Apenas apoiamos a sua causa de forma espiritual”

As queixas dos manifestantes incluíam as dificuldades económicas e questões relacionadas com a corrupção. Mas alguns também criticaram o uso de fundos públicos para financiar questões internacionais, como a guerra na Síria, o conflito no Iémen ou o apoio a grupos como o Hamas e o Hezbollah. Isto significa que algumas pessoas não concordam com a estratégia de ganhar influência e controlo nos países vizinhos, da qual o general Soleimani era um dos principais arquitetos?
Está a referir-se às operações que o ramo internacional da Guarda Revolucionária Iraniana, chamado Forças Quds, conduz em países vizinhas. Mas deixe-me dizer-lhe que esse argumento de que os recursos do país são gastos na expansão da influência iraniana em países vizinhos é apenas uma alegação. Nós não estamos a providenciar quaisquer recursos financeiros a, por exemplo, o Iémen ou o Hamas ou outros. Nós apenas apoiamos a sua causa, de forma espiritual, digamos. Mas quanto a países vizinhos, como Iraque e Síria, qual é o principal objetivo de os nossos conselheiros militares estarem lá, ou a defenderem a soberania desses países contra o ISIS [o autoproclamado Estado Islâmico], contra os grupos terroristas mais perigosos do mundo? Nenhum de nós pode esquecer que, há alguns anos, ninguém poderia sentir-se seguro no Iraque ou na Síria, onde as capitais estavam em risco de cair na mão do ISIS. E foi o major-general Soleimani que salvou Mossul, que salvou Erbil, que salvou Bagdad do ataque destes grupos terroristas. Estávamos lá a pedido do governo local. E o que fizemos? Defendemos a sua soberania e as suas cidades contra este tipo de forças terríveis que estavam a decapitar pessoas inocentes, estrangeiros e outros muçulmanos. As Forças Quds fazem parte das nossas Forças Armadas oficiais. Mas a sua função era e é assegurar a segurança das fronteiras iranianas e não permitir qualquer ameaça estrangeira. E nós ainda acreditamos que o ISIS e outros grupos terroristas, que tinham uma presença forte no Iraque e na Síria, não estavam apenas a ameaçar esses países, mas foram, no início, como forças proxy financiadas por petro-dólares, criados para pôr em risco a integridade e a soberania do Irão.

Pudemos ler há algumas semanas documentos que chegaram ao The Intercept e ao The New York Times, jornais norte-americanos, que mostram planos do Irão para usar proxies para se infiltrar e impor a sua influência em países como o Iraque, o Iémen, o Líbano. Leu esses documentos? Foram publicados em todo o lado.
É suposto serem documentos oficiais do nosso país?

Sim. Telegramas, mensagens, cartas.
Eu não posso confirmar se são documentos falsos ou corretos, porque não vi esses alegados documentos, mas a verdade é que o que nós fizemos no Iraque é conhecido. Estivemos lá e ainda lá estamos a pedido do governo legítimo. Enquanto nos pedirem para estar lá e se não nos pedirem para sair… Nós não somos, como os americanos, que, quando o parlamento iraquiano aprovou uma resolução, disseram “vamos ignorá-la”. Se fosse o nosso caso, se o parlamento iraquiano aprovasse que o Irão devia sair… Pelo menos, nós não temos forças militares lá, temos conselheiros militares.

"Nós acreditamos que a verdadeira luta [contra o Estado Islâmico] foi feita pelas pessoas do Iraque. Talvez as forças da coligação tenham tido um papel, mas não podem reclamar um papel importante."

Na verdade, o governo americano não disse que ia ignorar essa decisão.
Mas temos informações contraditórias de que um grupo no Pentágono diz que, enquanto existir o ISIS, não saem do país. Outro grupo diz que não existe um governo forte no Iraque…

Não há uma decisão definitiva… Também temos tido notícias de incidentes, em especial em zonas xiitas do Iraque, contra partidos políticos apoiados pelo Irão. Houve vários protestos contra a proposta de nomear como primeiro-ministro o governador de Basra, apoiado pelo bloco do parlamento iraquiano apoiado pelo Irão. Isto não quer dizer que os iraquianos podem querer a saída dos Estados Unidos, mas também do Irão?
Não recebemos essa mensagem. O Iraque é um país independente e soberano, embora esteja numa situação muito caótica em termos de manifestações nas ruas — ainda está a ser ameaçado por grupos terroristas, embora não haja nenhuma praça-forte de nenhum grupo terrorista graças a esta resistência e ao apoio iraniano, e também por forças estrangeiras, da chamada coligação. Esta é a situação no Iraque.

As forças da coligação também tiveram um papel na luta contra o ISIS.
Eles dizem que sim, mas nós acreditamos que a verdadeira luta foi feita pelas pessoas do Iraque e pelo chamado Al-Hashd Al-Sha’abi, o Comité de Mobilização Popular, que está já a tornar-se parte das forças armadas oficiais iraquianas, graças a uma decisão do parlamento iraquiano, o seu líder é nomeado pelo primeiro-ministro. Esse comandante, Abu Mahdi al-Muhandis, foi assassinado juntamente com o major-general Soleimani — ele foi nomeado pelo primeiro-ministro e o seu substituto também. Eles fazem parte das forças armadas iraquianas de forma oficial. Eles tiveram um papel muito importante e tiveram o apoio e o aconselhamento do Irão. Talvez as forças da coligação tenham tido um papel, mas não podem reclamar um papel importante. A situação dentro do Iraque não é normal. Acreditamos que os acontecimentos recentes no Iraque, antes do assassinato, os protestos nas ruas de Bagdade, que ainda continuam, são parte de um estratagema para dividir a sociedade iraquiana. Para impedir que o Iraque seja suficientemente forte para defender os seus direitos, ter um parlamento forte, ter um governo forte. E esperamos que uma das consequências deste assassinato, que tirou as vidas de soldados e comandantes iranianos e iraquianos, seja uma lição para o povo iraquiano, a de que eles precisam de ser autónomos. O parlamento tem de escolher um governo forte. Se quiserem fazer alguma mudança na sua Constituição, têm o direito de o fazer, não interferimos nisso. Queremos que o Iraque seja seguro e seja um vizinho forte, em coexistência connosco, porque temos a experiência de uma guerra devastadora que durou oito anos quando Saddam Hussein estava no poder no Iraque.

Estava há pouco a falar sobre as organizações que o Irão apoia espiritualmente. Acha que todas essas organizações, como o Hamas ou o Hezzbollah, contribuem para a estabilidade da região?
Independentemente do que outros infelizmente lhes chamam, nós chamamos-lhes a linha da resistência. Qual é a causa da sua existência? Veja o exemplo do Hamas. Eles estão lá para defender o povo palestiniano oprimido contra as atrocidades de Israel. Ao longo das últimas seis décadas, eles estão a tentar defender os seus direitos. Houve muitos planos — o governo de dois Estados, o acordo de Oslo, e outros — mas os israelitas ignoraram todas essas iniciativas internacionais, por isso não há alternativa para o povo palestiniano a não ser resistir. E mesmo nós, no Irão, fizemos uma proposta, baseada em normas internacionais, que seria aceitável e lógica, que é esta: se querem que os territórios ocupados na Palestina sejam livres desta guerra cansativa que se arrasta há seis décadas, vamos organizar uma eleição livre. Se os países ocidentais acreditam em eleições e na democracia , vamos organizar uma eleição livre entre todo o povo da Palestina, independentemente da religião — cristãos, judeus, muçulmanos — e vamos deixar os refugiados voltarem para as suas terras — mais de 3, 4 milhões de palestinianos estão deslocados, vamos deixá-los voltar e depois organizar uma eleição nacional. E o resultado dessa eleição mostraria o futuro da terra palestiniana. Aí, todas as religiões e todas as pessoas poderão viver em coexistência, sem ficarem reféns do sionismo. O mesmo se passa no Iraque. Estão a defender a sua terra. Dá-me o exemplo do Hashd ash-Sha’bi — faz parte das forças militares oficiais do Iraque, estão a defender a sua própria terra contra o ISIS. Pode dar o exemplo do Ansar Allah Hezbollah no Iémen. Veja o que aconteceu no Iémen, não há lá nada, tudo está a ser destruído. Que mais pode o povo do Iémen fazer a não ser defender a sua terra contra as forças ocupantes e contra a agressão dos sauditas?

Iémen. O que se passa na guerra da qual ninguém quer saber?

Deserções. “Pode haver pessoas que não gostam do governo. São livres para decidir”

No Irão, na semana passada, uma atleta olímpica desertou, falando sobre “o povo oprimido do Irão”. E três apresentadores de telejornais demitiram-se por causa daquilo a que chamam “mentiras” e dizendo que não podem continuar a compactuar com o regime. Estes são sinais de que o regime está a deteriorar-se?
Não somos um regime, somos um sistema político estabelecido de acordo com os desejos do povo — a palavra “regime” não é adequada. As pessoas que falaram têm o direito de decidir trabalhar numa estação de televisão ou estar dentro ou fora do país. Está a dar-me o exemplo da atleta que penso que está na Holanda…

Sim.
Bem, a informação que temos é que ela saiu para continuar a sua educação porque queria estudar fisioterapia ou algo assim e tinha dificuldades em encontrar oportunidades para isso dentro do Irão. Alguns responsáveis do Ministério do Desporto disseram que este é mais um sinal de que o Irão não está a forçar ninguém a ficar no país ou a impedi-los de tomar decisões sobre o seu próprio destino. Ela era livre de sair. E informou as autoridades de que ia sair. Por isso, a decisão de sair é dela.

"A qualquer altura, pode haver pessoas que não gostam do governo ou do sistema, mas são parte do nosso país, são parte do nosso povo e são parte dos iranianos. São livres para decidir."

Mas as palavras são dela: “mentiras”, “injustiça”…
Não posso confirmar isso porque não li as declarações dela. Portanto, pergunto-me se ela disse isso, ela é uma atleta…

Porque razão é que ela falaria sobre “o povo oprimido do Irão”? O povo do Irão é oprimido?
Não posso falar por ela. E não ouvi as declarações dela. Mas qualquer coisa que tenha dito é decisão dela. Mas isto não é, de maneira nenhuma, um sinal. Uma pessoa, ou duas pessoas, ou três pessoas…

A que se somam os protestos…
Este é um sinal apenas de que se estão a distanciar do sistema político e do país todo. A qualquer altura, pode haver pessoas que não gostam do governo ou do sistema, mas são parte do nosso país, são parte do nosso povo e são parte dos iranianos. São livres para decidir.

Vamos ter eleições parlamentares em fevereiro. Qual acha que vai ser o impacto destes últimos acontecimentos nos resultados? Vamos ter um parlamento mais moderado ou mais conservador?
Não é possível prever. Mesmo como um analista de relações internacionais, e olhando de perto para os desenvolvimentos políticos no meu país, não é possível dizer qual será o resultado final. Nas cidades grandes, as listas que pertencem a cada fação ganharão, como aconteceu nas últimas eleições parlamentares, em que todas as listas dos reformistas venceram a eleição na capital, 30 lugares. Nas maiores cidades, como Teerão, Xiraz ou Mashhad, as listas apoiadas por cada fação — sejam moderados ou os chamados conservadores, ou os reformistas ou o que lhes quiser chamar — podem ganhar, depende de como falarem com o povo. A situação atual pode ter um efeito no nível de participação do povo, isso é previsível especialmente nas cidades grandes. Mas a maior parte dos eleitores estão em cidades mais pequenas, somos um país muito populado, e aí a rivalidade étnica é mais importante do que as questões políticas, ser reformista, ou conservador, ou moderado. E a maior participação será, presume-se, nessas cidades, onde a eleição e a competição não se baseia numa divisão política mas em considerações étnicas e outras.

O Presidente Rouhani parece estar preocupado com a diversidade de fações nas eleições. Ele queixou-se do número de candidatos…
… que estão a ser desqualificados pelo Conselho de Guardiões…

… sim, ele diz que são, na sua maior parte, moderados ou reformistas.
O governo não pode decidir qual será a composição… Bem, o atual governo é moderado e por isso pode preferir que os seus apoiantes estejam no parlamento, mas o povo é que tem de decidir. Em relação às desqualificações de candidatos, há uma lei eleitoral e, com base nela, o Conselho dos Guardiães é responsável, é uma espécie de comissão eleitoral. Algumas pessoas foram desqualificadas com base nisso e não por causa das suas convicções políticas ou algo parecido. Têm oportunidade de recorrer. Já houve mais de 3.500 pessoas a pedir um recurso da sua desqualificação e, por isso, o processo ainda não acabou. Temos que esperar para ver. E, desejavelmente, mais candidatos serão de fações políticas diferentes, para termos uma eleição justa e competitiva, para o povo encontrar os candidatos que prefere baseado em considerações políticas ou de grupos étnicos.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Acordo nuclear. “O Irão prometeu que nunca tentou ter e nunca tentará ter armas nucleares. É proibido pelo Islão ter armas de destruição massiva”

Vamos então falar do acordo nuclear. O Irão culpa Donald Trump e os Estados Unidos pelo falhanço do acordo e das negociações recentes, insistindo que o Irão sempre cumpriu as suas obrigações. Se é assim, porque é que o Irão nunca permitiu que houvesse inspeções internacionais a bases militares? 
Se tivesse sido a IAEA (Agência Internacional de Energia Atómica) a levantar essa questão, eu não poderia dar resposta. Mas tem que consultar os relatórios da IAEA. O Irão cumpriu totalmente o JCPOA [acrónimo pelo qual é conhecido o acordo] até maio passado, quando começámos a reduzir os nossos compromissos no acordo. Até aí, houve mais de 16 relatórios da IAEA a atestar que o Irão estava a cumprir totalmente o acordo e a cumprir os seus compromissos de implementação do JCPOA. Não tenho o número exato, mas mais de 65% das cerca de 170 inspeções totais feitas em 2019 pela IAEA, dentro dos acordos de salvaguarda ou dos protocolos adicionais, foram apenas concentrados no Irão. Isso não tem qualquer precedente na história da IAEA.

Mas as visitas aos locais militares sempre foram um ponto. Os Estados Unidos e outros países europeus sempre insistiram que seria importante que as missões internacionais os visitassem. 
Já percebi o seu ponto…

Porque se é apenas um programa de energia…
Esse é um argumento, infelizmente, da administração americana desde que Trump tomou o poder e começou a colocar pressão sobre o Irão para conseguir uma desculpa para abandonar o acordo. Mas o facto é que precisamos de ter confiança na instituição responsável pela vigilância das atividades nucleares do país, e essa instituição é a IAEA. Na IAEA há diferentes tipos de inspeções — e há os protocolos adicionais. Eu fui um especialista em relação à IAEA porque fui membro da nossa missão em Viena nos anos 90, quando se estava a discutir o tema do Irão e da Coreia do Norte, e representei o meu país no conselho de governadores da IAEA, por isso conheço a forma como são escritos os relatórios da IAEA e como a agência funciona. Nessa altura, estava a discutir-se a possibilidade de um protocolo adicional. E, mais tarde, passou a fazer parte integrante do regime de inspeções da IAEA. De acordo com o protocolo adicional, se houver algum pedido da agência para visitar qualquer local, esse país que pode estar a ser acusado de fazer algo que não foi reportado à IAEA deve dar acesso num prazo máximo de 48 horas a uma equipa que queira fazer inspeções não anunciadas. Lembre-se que, desde que o Irão aderiu ao acordo, em 2015, temos implementado este protocolo adicional. Sempre que a agência quis enviar uma equipa de inspetores a qualquer local suspeito puderam fazê-lo. Além disso, estamos sujeitos a um regime de inspeções muito rígido. Mesmo com todas estas inspeções, que continuam ainda hoje, mesmo com o Irão a tomar a decisão de reduzir os seus compromissos na implementação do acordo nuclear, continuamos a cooperar com a IAEA neste regime de inspeções. Por isso, não há nada a esconder neste processo. Esses argumentos de responsáveis americanos são só uma forma de arranjar desculpas para abandonar o acordo. E, infelizmente, abandonaram-no mesmo.

"Há uma ordem religiosa, uma fatwa, do nosso Líder Supremo que diz que é proibido pelo Islão ter armas de destruição massiva. Estamos comprometidos com os acordos internacionais e com as resoluções da ONU."

Usam outros argumentos. O Líder Supremo disse que o acordo nuclear deveria ser um ponto de viragem nas relações entre o Irão e a comunidade internacional, em direção à estabilidade e à paz. Mas a assinatura do acordo não impediu o Irão de…
… De quê?

… De apoiar milícias xiitas e as suas ações. E Teerão continua a ser ligado — muito por causa desse apoio — a incidentes como os ataques a petroleiros no Golfo Pérsico…
… Não há provas disso…

… E de ataques aos campos petrolíferos na Arábia Saudita. Não há aqui uma contradição entre querer estabilidade e paz e uma mudança nas relações e continuar a estar ligado a ações como estas?
Deixe-me dizer que o acordo nuclear não foi feito para resolver todas as disputas que existem entre o Irão e os EUA desde a revolução islâmica. Eu diria que talvez pudesse ter resolvido 10%.

Só 10%?
Talvez 10% de todas as disputas que temos em cima da mesa com os EUA. Infelizmente, pode ter sido interpretado de forma errada, mesmo dentro do meu país pelos media e por alguns altos funcionários, que o acordo iria resolver todos os problemas entre o Irão e os EUA. Mas não foi assim. O mesmo vale para os EUA. Nós assinámos um acordo e esse acordo, que foi mais tarde aprovado por uma resolução das Nações Unidas, deveria ter resolvido o problema nuclear entre o Irão e os restantes países que faziam parte do acordo. Mas nesse acordo não há nenhuma referência aos outros temas que estão há três décadas em disputa entre o Irão e os EUA. Porque mesmo nessa altura, e até mais tarde durante a era Obama, os EUA continuaram a colocar pressão sobre o Irão em assuntos regionais, no tema dos mísseis. Esses são temas distintos, são temas que não fizeram parte do processo de negociações do acordo nuclear. E lembro-me do que disse o nosso presidente depois de o acordo ter sido assinado em Viena, que este era um bom exemplo e um modelo. Se todas as partes o implementassem integralmente e de forma sincera, esse poderia ser um bom modelo para trabalharmos nas outras áreas em disputa entre nós e os países ocidentais. Mas, infelizmente, não foi uma boa lição. Não foi uma boa lição para nós porque acreditámos nos nossos parceiros. Um já abandonou o acordo, pelos motivos errados, porque queria matar e destruir a herança de Obama; e em maio de 2018, quando os EUA abandonaram o acordo, os chefes de Estado dos países europeus escreveram ao nosso presidente e disseram que tínhamos o direito de abandonar o acordo — porque está previsto no acordo que se um dos lados deixar de cumprir o acordo, o outro lado pode fazer o mesmo — mas pediram ao Irão que ficasse e disseram que iam tentar compensar a ausência dos EUA e cumprir os seus próprios compromissos. Mas passou-se um ano e meio e nada foi feito pelos países europeus, infelizmente. Pode ir ao site sobre as relações externas da UE e ver o comunicado, de 6 de julho de 2018, uns meses depois da retirada dos EUA, e há onze compromissos dos nossos parceiros europeus e dos outros na JCPOA. Eles prometeram cumpri-los e não o fizeram.

Trump rasgou o acordo com Irão. Qual é a crise?

Desde maio, estão a reduzir os vossos compromissos.
Ficámos no acordo, a cumpri-lo na totalidade…

Durante um ano.
Durante um ano e, depois de vermos que os nossos parceiros na UE-3 [que junta Alemanha, França e Reino Unido] não tomavam nenhuma ação, não tivemos outra opção que não a de exercer os nossos direitos, que estão previstos no acordo.

O Irão vai alguma vez procurar ter armas nucleares?
Nunca. Primeiro, e isso está referido no acordo, o Irão prometeu que nunca tentou ter e nunca tentará ter armas nucleares. Aliás, do ponto de vista religioso, há uma ordem religiosa, uma fatwa, do nosso Líder Supremo que diz que é proibido pelo Islão ter armas de destruição massiva. Estamos comprometidos com os acordos internacionais e com as resoluções da ONU. Por isso, não temos nenhuma intenção nuclear. E mesmo esta redução dos nossos compromissos é feita apenas para dar uma oportunidade à diplomacia. Uma oportunidade que os nossos parceiros… a propósito, há apenas uns dias tentaram iniciar o mecanismo de resolução de disputas, mas nós já o tínhamos feito uns meses antes, em maio, ao reduzir os nossos compromissos. Por isso, é uma oportunidade, vamos ver ver o que acontece na comissão conjunta da JCPOA, que deve acontecer seguramente nas próximas semanas, com base no que está estabelecido no acordo. Aí, vamos discutir qual a melhor forma de sair desta situação. Estamos sempre disponíveis para a diplomacia.

"Estamos prontos para negociar, excepto com os EUA. Estamos disponíveis para debater os assuntos porque só através da verdadeira diplomacia e das negociações é que os problemas se resolverão. Mas tem que existir vontade política por trás das negociações."

O acordo também deveria ter trazido crescimento económico e investimento estrangeiro. Mas isso nunca aconteceu. Acha que o Presidente Rouhani vai ser responsabilizado pelo fracasso das expectativas que existiam no Irão?
Na verdade, não foi o governo do presidente Rouhani, ao contrário do que dizem alguns opositores dentro do país — e esse é outro sinal de que as pessoas podem exprimir-se — que o acusam e dizem que nunca deveria ter entrado em negociações. Mas o presidente Rouhani continua a acreditar na diplomacia e ainda acredita que a diplomacia pode funcionar. E nós ainda acreditamos na diplomacia, como referiu há dias o nosso ministro dos Negócios Estrangeiros em Nova Deli. Mas numa diplomacia que possa trazer igualdade e prosperidade a todas as partes — não numa diplomacia em que apenas uma das partes cumpra os seus compromissos enquanto o outro lado não paga um preço. Sim, o presidente Rouhani investiu não tudo, mas muito, no acordo nuclear porque acreditava numa interação construtiva com o exterior na sua política externa. Esse é um dos pilares da sua política externa: interação construtiva com a comunidade internacional. Nesse quadro, ele começou esta negociação e vimos este resultado, não vou falar do passado. Mas, infelizmente, a confiança que depositou nos parceiros no acordo, que deveria trazer prosperidade e desenvolvimento económico ao nosso país, não foi bem sucedida. Mas não é ele quem deveria ser condenado por este falhanço. O outro lado é que não cumpriu os seus compromissos. Nós aprendemos uma grande lição com isto. Apesar de ainda acreditarmos que precisamos de trabalhar e de falar com a comunidade internacional. Ainda hoje [sexta-feira] o nosso Líder Supremo disse que estamos prontos para negociar, excepto com os EUA. Estamos disponíveis para debater os assuntos porque só através da verdadeira diplomacia e das negociações é que os problemas se resolverão. Mas tem que existir vontade política por trás das negociações. Sem isso, e sem a capacidade de cumprir os compromissos, até a diplomacia falhará.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Trump. “Não temos problemas com pessoas específicas, temos problemas com o comportamento”

É preciso que haja algum tipo de conversação diplomática com os EUA, se não hoje ou para a semana, algum dia. Hoje [sexta-feira], no sermão, o ayatola Khamenei usou palavras duras, descreveu o Presidente Trump como um “palhaço”. Qual a forma de retomar as conversas diplomáticas?
As palavras do nosso Líder Supremo no sermão de sexta-feira mostram claramente que o iranianos estão exaustos com esta política externa aventureirista, errada e egoísta do atual governo dos EUA. Você diz que tem de haver diálogo. Mas nós entrámos nesse diálogo. Este acordo nuclear foi o resultado de 12 anos de negociação. Primeiro, no governo do presidente Ahmadinejad, que antecedeu o do presidente Rohani, tivemos negociações com a UE-3 [que juntava Alemanha, França e Reino Unido] — e os EUA não faziam parte desse diálogo. Mas finalmente os EUA tornaram-se membros do P5+1 [grupo que juntava os cinco países com assento permanente no Conselho de Segurança da ONU (China, França, Rússia, Reino Unido e EUA) e a que se juntava a Alemanha]. Mas não falávamos diretamente com os americanos. Quando o Presidente Rouhani chegou ao poder, continuou a trabalhar nesses moldes, mas acreditava que sem conversas diretas com os EUA não podia haver um acordo. Porque já tinha existido um acordo — quando o presidente Rouhani era o secretário-geral do Conselho de Segurança Nacional, durante o governo do presidente Khatami, ele foi o principal negociador deste dossiê. Ele fez um primeiro acordo e depois o Acordo de Paris. Mas os EUA não aceitaram o trabalho do UE-3 e esses dois acordos falharam. Por isso, quando chegou ao poder em 2014, o presidente Rouhani decidiu continuar estas negociações no âmbito do P5+1. E acreditava que, em paralelo, devia haver conversações diretas com os EUA. E fizemo-lo. E eu diria até que esse diálogo direto entre Zariv e Kerry [responsáveis pela diplomacia do Irão e dos EUA] foi mais importante do que as nossas conversações com a União Europeia. Eram conversações paralelas e, no final, os resultados de ambas convergiram no acordo JCPOA.

Mas podemos concluir que não vai haver mais conversações com os EUA enquanto Donald Trump for presidente?
Enquanto este comportamento arrogante existir, não acredito que os iranianos, seja em que nível for, confiem no governo americano. A não ser que haja uma mudança no comportamento dos americanos.

Não necessariamente uma mudança na presidência?
Não temos problemas com pessoas específicas, temos problemas com o comportamento. Acreditamos que foi o seu comportamento arrogante que levou à forma como os EUA se comportaram no acordo nuclear e nos colocou nesta situação caótica. Ele, ou qualquer pessoa que venha a mandar nos EUA, ou as pessoas que os aconselham, têm de mudar a forma como pensam e têm de respeitar a dignidade de um país que está a querer manter a sua independência. Precisam de perceber que o Irão já não é um fantoche dos Estados Unidos no Médio Oriente.

O Irão de 2019 é igual ao Iraque de 2003? Quatro razões que desfazem esse mito

Devemos esperar mais alguma ação militar por parte do Irão como retaliação contra a morte do general Soleimani?
Não há razão para isso. Logo depois da medida de auto-defesa que tomámos ao atacar as bases americanas no Iraque, as nossas autoridades, incluindo o ministro dos Negócios Estrangeiros Zariv, disseram que as contramedidas estavam concluídas. O ministro escreveu isso no Twitter: estavam concluídas. Isso quer dizer que não queremos uma escalada da tensão. Mas tudo depende da ação futura dos EUA e não de nós. Para nós, a contramedida está concluída e terminada. Nós chamámos-lhe “vingança dura”, mas acho que a vingança soft ainda está para chegar às forças dos EUA na região. Como, mais uma vez, escreveu no Twitter o ministro dos Negócios Estrangeiros Zariv, na sequência do assassinato e da ação do Irão, a mensagem que os EUA deveriam ter apreendido disto tudo é que, pela primeira vez na história americana desde a Segunda Guerra Mundial, houve instalações militares dos EUA que foram atacadas por outro país. Essa é uma boa mensagem que tenho a certeza que eles receberam porque, logo depois da operação, o presidente Trump disse frente aos jornalistas que tudo estava a correr bem. E escreveu isso no Twitter. Eles estão a esconder baixas, estão a esconder os danos provocados. Eles podem esconder, mas a mensagem foi recebida por eles.

"Há países que nos disseram que podem reconsiderar a presença de bases militares americanas nos seus países. Aliás, o desejo do Presidente Trump era — e é — retirar os soldados americanos do Médio Oriente, onde alegadamente gastaram 7 triliões de dólares. Por isso, esta é uma boa altura para eles fazerem isso."

Acredita que houve mais baixas do que as que foram reportadas?
Pode ter havido. Ainda hoje vi uma referência em alguns jornais a…

… a 11 feridos.
Sim, a pelo menos 11 feridos. Mas a CNN disse que pode haver mais baixas, a reportagem deles no terreno afirma isso. Mas o Irão não queria matar soldados. Nós não queríamos provocar vítimas humanas. Só queríamos mostrar-lhes que tínhamos o poder de responder e retaliar. E conseguimos isso. Mas tudo o que acontecer a partir de agora depende do comportamento dos EUA. Se acabarem com as suas políticas aventureiristas, o Irão não provocará nenhuma escalada de tensão. Queremos que a nossa região seja segura. Se não, não teríamos estado na linha da frente do combate ao ISIS na região. Neste momento, estamos a promover uma iniciativa de paz chamada Hope. Já foi comunicada aos países da região e está aberta a debate. Baseia-se na resolução da ONU 598, que acabou com a guerra Irão-Iraque, e pretende fomentar um diálogo regional sobre temas de segurança, que pode expandir-se a outras áreas de cooperação. O Irão já apresentou uma proposta por escrito aos seus vizinhos.

E se os EUA não saírem da região?
Vamos esperar para ver. Não posso dizer que se não saírem o Irão empreenderá uma operação militar, não é esse o caso. Mas já podemos ver os sinais. Um sinal é a resolução adoptada pelo parlamento iraquiano [a pedir a saída das tropas americanas] — e o governo e o parlamento iraquianos estão muito determinados nisto. E há outros sinais que estamos a receber de outros países na região, que não estão contentes com a presença de bases militares americanas no seu território. Não vou dizer quais são esses países, mas há países que nos disseram que podem reconsiderar a presença de bases militares americanas nos seus países. Aliás, o desejo do Presidente Trump era — e é — retirar os soldados americanos do Médio Oriente, onde alegadamente gastaram 7 triliões de dólares. Por isso, esta é uma boa altura para eles fazerem isso.

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