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Enzo Mari enterrou o design, mas estava pronto para ressuscitá-lo /premium

Foi o mais extremo e idealista dos designers italianos dos anos 60 e 70. Enzo Mari é recordado pelo traço minimal, mas também pelo tom provocador com que anunciou a morte do design muito antes da sua.

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Aos 88 anos, Enzo Mari ocupava um lugar no topo. Numa geração de vozes transformadoras, nenhum outro nome assumiu posições tão extremadas. Comunista no pensamento, minimalista no desenho e provocador no discurso, chegou ao século XXI convicto de que o design tinha perdido algo pelo caminho — uma “dimensão utópica e ideológica”, na opinião de José Bártolo, crítico e professor português.

Tornou vocais as críticas, mesmo as que deixavam a descoberto o seu próprio paradoxo — enquanto remava contra o mercado massificado, colaborava brilhantemente com a indústria. Guta Moura Guedes trouxe-o a Lisboa em 2011 e fala ao Observador numa carreira de “constantes dicotomias”. Ainda assim, há evidências de coerência e essa conclusão é unânime.

Do cinzeiro de mármore ao sofá-cama, perseguiu o traço minimal e a autenticidade da matéria-prima, mas também desafiou o mundo a construir os seus próprios móveis quando, em 1974, publicou “Autoprogettazione?”, “gesto radical”, segundo o designer português Fernando Brízio, o mesmo que, ao Observador, destaca a simplicidade, a depuração e um minimalismo pouco polido, onde “não há truques”.

Enzo Mari morreu na última segunda-feira, na sequência de uma infeção pelo novo coronavírus e dois dias após a inauguração de uma exposição de retrospetiva, no âmbito da Trienal de Milão. Na terça-feira, morreu a sua companheira de décadas, Lea Vergine. Curadora e crítica de arte, foi um nome frequente em publicações como Il Manifesto e Il Corriere della Sera, além dos vários livros editados. Tinha 82 anos.

Enzo Mari: artista designer, designer ativista

Nasceu no ano de 1932, em Cerano, na região de Piemonte, no norte do país. Mas foi em Milão, capital do design e coração da Itália industrial, que Mari fez carreira. Nos anos 50, ingressou na Academia de Belas Artes de Brera, já nessa cidade. O período foi de aprendizagem mas também de experimentação — artística, nomeadamente no âmbito da pintura. Mais tarde, a incursão pelas técnicas pictóricas desembocariam em representações de maças e peras, elementos que acabou por incluir nas suas propostas já enquanto designer.

Um percurso que começou também ligado à ilustração e à arte cinética, segundo recorda José Bártolo, crítico de design e professor na ESAD (Escola Superior de Arte e Design), em Matosinhos. “Durante os anos 60, ele é sobretudo um artista. Só a partir daí é que começa a trabalhar com o objeto de design tridimensional, seja mobiliário ou pequenas peças utilitárias”, acrescenta em conversa com o Observador.

O calendário "Timor", desenhado em 1967

South China Morning Post via Get

Anda assim, a década assistiu a algumas das criações mais icónicas de Mari — “Timor”, o calendário perpétuo desenhado em leque, é apresentado ao mundo em 1967, “Paros”, uma linha de peças em pedra, entre elas uma jarra e um cinzeiro, é anterior, do ano de 1964. Bártolo não deixa de identificar, no início dos anos 70, o primeiro momento chave da carreira do designer. Juntamente com outros autores e coletivos italianos, Enzo integra a exposição “Italy: The New Domestic Landscape”, no MoMA, em Nova Iorque. “É super importante para uma certa legitimação do discurso contracorrente e aproxima Mari de uma geração de arquitetos italianos que, por várias razões incluindo a crise no mercado, estão a fazer design, muito alinhados com o pós-modernismo”, detalha.

José Bártolo partilha que “só” esteve três vezes com Enzo Mari, entre 2001 e 2015. Na última, o encontro nem sequer foi físico — juntou-o a outros dois mestres do design, Paolo Deganello e Alessandro Mendini, para uma conversa destinada a encher as página da revista que editava na altura, a PLI Arte & Design. “Eram os italianos radicais da viragem para os anos 70 e ali quis pô-los a pensar nas propostas dessa mesma década e de que forma é que fazia sentido continuar a repensar questões como a autoria, a produção, a comercialização e o ensino. Eles que chegaram a ter um projeto para formarem um coletivo, uma ideia de escola informal, mas que depois não avançou”, relembra.

O ensino foi, na verdade, outro dos campos onde Mari sobressaiu. A consagração chegou e com ela a carreira enquanto professor. Enzo Mari passou pela Universidade de Parma, pela Academia de Carrara, pelo Politécnico de Milão e pelo Instituto Superior de Arquitetura de Florença. Fora de Itália, deu ainda aulas na Escola Superior de Belas Artes de Berlim e na Escola de Artes Aplicadas de Viena.

“Autoprogettazione?”, um gesto radical

Em 1974, ano da Revolução em Portugal, Mari publicava “Autoprogettazione?”, um livro com os desenhos de 19 móveis — cadeiras, bancos, mesas, uma estante, um armário e uma cama — que podiam ser replicados por qualquer pessoa. Um ato rumo à democratização do design, uma proposta de do it yourself numa altura em que as peças de autor somente estavam ao alcance de uma elite.

“Com o ‘Autoprogettazione?’, Enzo propõe uma nova economia para o design. É um gesto radical porque ele oferece o projeto à comunidade, um projeto que procura educar e ensinar às pessoas os rudimentos de projetar e de construir”, afirma Fernando Brízio em conversa com o Observador. O designer português nunca se cruzou com Mari, embora partilhe hoje o peso da herança deixada pelo italiano. Fala na proposta de 1974 como algo paradigmático, próxima da arte povera, movimento que havia eclodido na década anterior.

Enzo Mari em 1974, com maquetes dos objetos desenhados para "Autoprogettazione?"

Mondadori via Getty Images

“Aqueles desenhos produziram duas coisas. Ao mesmo tempo que as pessoas se podiam apropriar deles e produzi-los, precisamente por serem simples, rudimentares até, e por exigirem poucos meios e ferramentas, o facto de terem de interpretá-los, de pensar e de executar leva a crer que ele também queria que as pessoas aprendessem. Para construirem aquilo, teriam de se iniciar à leitura do desenho”, prossegue o designer.

Sem passo a passo, o que aproximaria o exercício de Enzo Mari dos manuais de instruções de móveis prontos a montar que hoje conhecemos, o livro retira ao consumidor a passividade que lhe era característica. Num enaltecimento do processo de construção e dos próprios materiais, mas também do envolvimento do público menos familiarizado com o design de autor, na opinião de Brízio, parte do intuito do designer ao conceber “Autoprogettazione?” ficou por concretizar.

“Diria que ele queria ter um certo alcance, mas o livro acaba por ter uma circulação muito restrita, nos meios do design e da cultura de projeto. Não deixa de ser um gesto poderosíssimo para a altura. Enquanto outros designers andavam a trabalhar questões de mercado e de forma, ele quis repensar o papel do próprio designer. Foi um trabalho de rutura, do qual saiu algo novo”, adiciona.

A lente marxista de Mari moveu-o no exercício de contrariar a submissão ao marketing, às regras do mercado e ao consumo em massa. Rompendo a lógica, mas também a tendência, a proposta do italiano foi, na opinião de Brízio, “difícil de aceitar”. “São objetos pouco acabados, a matéria está à vista, tal como os pregos e os parafusos. Isso era pouco aceite na altura, o defeito com qualidade só se generaliza no final dos anos 80”, remata o designer.

Em novembro de 2015, o designer autorizou que estas peças fossem produzidas e vendidas pela Cucula, organização não governamental com sede em Berlim, como forma de financiar um programa de apoio a refugiados da África Ocidental em solo europeu. A ação destacou-se pela vertente da educação. Além de ensinar estes indivíduos a desenhar e construir peças de mobiliário, o programa promoveu ainda a aprendizagem de línguas e ofereceu apoio jurídico. Uma das peças já havia sido também incluída no catálogo de uma marca de mobiliário. Em 2010, a cadeira “Sedia”para a Danese começou a ser produzida pela finlandesa Artek.

A cadeira "Sedia", reproduzida pela Cucula em 2015

José Bártolo, por sua vez, enquadra “Autoprogettazione?” num espírito que caracteriza como de “neo-vanguarda”, num “ativismo politizado que marca os anos 70” e, consequentemente, o pensamento do próprio designer. Democratizar é a derradeira ação. “Na arquitetura, sobretudo em algumas experiências na América Latina, isso já estava a ser trabalhado através de projetos participativos, em que os próprios moradores eram envolvidos. Em Portugal, aconteceu também em 1974 com o Processo SAAL, aprovado pelo Nuno Portas”, conclui.

O lançamento aguça o tom politizado de Mari, filiado no Partido Comunista Italiano. Ideias e trabalho assumem, segundo o crítico português, uma coerência que consolida a sua autoridade enquanto designer e pensador. “Ele é alguém sem formação em design, mas que faz design”, recorda. “A ter de reter uma imagem dele, é a de alguém que sabe muito bem o que pensa e como pensa e que, por isso, tem ali uma intransigência. Não faz concessões, é um tipo teimoso, mas generoso na partilha”.

Mari e a indústria

A relação entre Enzo e a indústria foi próspera e marca um paradoxo na carreira do designer. Se, por um lado, projetos como “Autoprogettazione?” e a própria valorização que fez do artesanato, já nos anos 80, são críticas mais ou menos diretas à produção em massa, o rol de peças estrela é extenso e invariavelmente patrocinado por gigantes italianos do mobiliário e da decoração.

“É preciso entender uma coisa muito importante: na altura, existiam na indústria italiana gestores capazes de acertar o passo com estes génios. Mari não foi o único. Castiglioni, Magistretti — todos eles conseguiram ter o seu eco porque havia homens e mulheres que entendiam o que diziam. Eram radicais na forma como pensavam, mas depois havia uma capacidade na indústria e entendê-los e dirigi-los para que fossem capazes de produzir objetos comerciais. É um momento raro na história. Aconteceu ali e mudou a relação do mundo com o design”.

Hans Ulrich Obrist, Enzo Mari e Thomas Lommée, durante a conferência no Tribunal da Boa Hora, em outubro de 2011

Tânia Araújo

A reflexão é de Guta Moura Guedes, curadora e presidente da experimentadesign. Foi precisamente numa das edições da bienal, em 2011, que teve oportunidade de receber o designer italiano em Lisboa. Coube a Hans Ulrich Obrist, atualmente diretor artístico das Serpentine Galleries, fazer os convites para uma conferência no Tribunal da Boa Hora. A sala, habituada a grandes julgamentos, encheu e a conversa marcada para ter uma hora, durou quase três.

Curiosamente, coube ao mesmo curador e crítico suíço, juntamente com Francesca Giacomelli, montar a exposição de retrospetiva que inaugurou no último fim de semana, dois dias antes da morte do designer, no âmbito da Trienal de Milão. Obrist proporciona uma viagem — cerca de seis décadas de criação (no campo da arte, no campo do design e no limite entre os dois, tão explorado por Mari) em mais de 250 projetos, desenhos, peças e escritos, entre outros.

A seleção curatorial inclui “Day Night”, o sofá-cama desenhado para a Driade, em 1971. Para a mesma marca, criou a cadeira “Sof Sof”, apenas um ano depois. Com a Danese, a colaboração começa bem mais cedo — “16 animali”, o puzzle em madeira composto por figuras de animais, data de 1957. “In Attesa”, um cesto para papéis, e “Sumatra”, um porta-folhas, chegam mais tarde, em 1971 e em 1976, respetivamente. No romper dos anos 70, desenha também a famosa cadeira “Box” para a Castelli. Já em 1985, chega “Tonietta” para a Zanotta.

"Bambu", jarra desenhada para a Danese no final dos anos 60 e reeditada pela marca em 2015

South China Morning Post via Get

“A relação com a indústria e com as marcas editoras não fere a coerência e o posicionamento do Enzo Mari. Houve uma preocupação dele em conseguir desenhar objetos que pudessem ser editados, produzidos industrialmente e que correspondessem àquilo que, para ele, era bom design. E esse design tem em atenção os aspetos económicos, mas também as novas formas de vida e necessidades de consumo”, resume José Bártolo.

O professor e presidente do conselho científico da ESAD destaca também a transição para os anos 80, momento em que Mari foi pioneiro na tendência dos new crafts. Logo em 1981, publica o livro “Dov’è l’artigiano” (Onde está o artesão), dando o mote para um novo escape à estandardização industrial. “Talvez por ter sido pioneiro num design mais artesanal, conceptual e de série mais limitada, no início do século XXI, começámos a ver muito do trabalho do Enzo a fazer parte do circuito da arte contemporânea. Conviveu com isso, não foi uma escolha dele”.

“O design está morto”

A expressão foi proferida, citada, parafraseada e interpretada com mais ou menos liberdade. O certo é que Mari apregoou, mais do que uma vez, a morte do design. “Era um provocador e um agitador. São afirmações feitas para suscitar uma reflexão e um debate, do qual ele nunca se pôs fora”, contextualiza Bártolo, que recorda o “Manifesto de Barcelona”, texto publicado em 1999 e que expõe as angústias e as reservas do designer italiano face ao estado da disciplina. Enzo termina com uma proposta: garantir a ética enquanto valor absoluto do design.

Enzo Mari fotografado em 2010

Getty Images

Guta Moura Guedes recorda a estatura alta, as barbas brancas, o gesticular quase constante, mas sobretudo o discurso provocador. Contudo, “no trato, era uma pessoa muito mais doce, quase reservada”, ressalva. Não consta que tenha estabelecido relação com a indústria portuguesa, ou que tenha, sequer, trabalhado em Portugal. Enquanto isso, o peso que tem no contexto académico é incontornável e sem fronteiras, do enaltecimento da matéria-prima ao do it yourself.

“Estava sempre a provocar-nos, era a metodologia dele para nos estimular. E, claro, não há provocação mais direta do que dizer que o design está morto. Ele acreditava nisso, em parte, porque achava realmente que muitos aspetos estavam disfuncionais e que se tinha perdido o foco. Mas no segundo a seguir, tinha um discurso construtivo para redesenhar a disciplina. Ele quis sempre lutar pelo design, até ao fim”.

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