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"Nesse dia [em que os teatros fecharam por causa da pandemia], lembro-me de ficarmos mais duas horas no teatro, parecíamos os músicos do Titanic, está tudo a afundar e nós tocámos piano, cantámos, viemos beber uma cerveja todos juntos e foi uma espécie de celebração trágica"

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

"Nesse dia [em que os teatros fecharam por causa da pandemia], lembro-me de ficarmos mais duas horas no teatro, parecíamos os músicos do Titanic, está tudo a afundar e nós tocámos piano, cantámos, viemos beber uma cerveja todos juntos e foi uma espécie de celebração trágica"

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Erica Rodrigues: a longa corrida de uma atriz que sonhava ter "uma profissão diferente todas as semanas" /premium

Tem trabalhado com diferentes criadores e companhias, deixando sempre uma marca de brilhantismo e intensidade. Entrevista com a atriz que está de regresso a Almada, em "Prelúdio ao Rei Lear".

O texto, escrito em 1921 pelo húngaro Ferenc Molnár, só nos dá uma figura feminina, a mulher que trai o marido com um homem mais velho, que é “leve e superficial”. Em Prelúdio ao Rei Lear — nova criação da Companhia de Teatro de Almada (CTA), com encenação de Rodrigo Francisco — Erica Rodrigues descobre e entrega muito mais cores a um estereotipo cinzento e machista. Sempre estimulante, sempre desafiante. E é o regresso à CTA depois de ter feito, em 2018, A Boa Alma de Sé-Chuão, encenação do alemão Peter Kleinert, espectáculo no qual dançava, cantava, tudo.

Aos 33 anos, Erica Rodrigues é uma das mais consistentes atrizes da sua geração, acumulando trabalhos em diversos contextos e sob a batuta de inúmeros criadores (John Romão, Tiago Vieira, Mário Coelho, Bouchra Ouizguen, SillySeason, Palco13, entre outros), fazendo, quase sempre, uso de uma força corporal e de uma intensidade (e delicadeza) do gesto raras, uma violência profundamente bela. E este domínio do corpo não é mera obra do acaso, é que Erica antes de se ter licenciado na Escola Superior de Teatro e Cinema quase concluiu uma licenciatura em fisioterapia na Escola Superior de Saúde de Alcoitão. É por isso natural vê-la a massajar colegas em ensaios de imprensa, ou a ser consultora de saúde à distância. Algo que faz com todo o gosto.

Diz que está a começar uma criação. Portanto, teremos notícias, brevemente. E também está a ponderar tirar outra licenciatura, talvez Ciência Política, para estar munida de conhecimento que lhe permita dialogar com os agentes do sistema. No fundo, não falhar. Como nos diz, “fight the system from the inside” — combate o sistema a partir de dentro. Uma última nota: afinal, como se escreve “Erica”?

"Prelúdio Ao Rei Lear" está em cena no Teatro Joaquim Benite até 6 de dezembro

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

É Érica ou Erica, com ou sem acento?
Sem acento. Já não digo, já assumi que sou ambas, mas é sem acento.

Não é a primeira vez que trabalha com a Companhia de Teatro de Almada. A primeira foi com o Peter Kleinert [encenador alemão, que encenou, em Almada, em 2018, A Boa Alma de Sé-Chuão, de Bertolt Brecht.]
Foi um projeto incrível esse. No final de 2019, o Rodrigo [Francisco, diretor artístico da CTA] ligou-me a dizer que o Peter ia voltar a estar aqui e que iríamos fazer A Noite de Reis [peça de William Shakespeare]. Começámos a ensaiar e duas semanas após a pandemia chegar à Europa, a nossa vida mudou em três dias. Começa a ouvir-se a sugestão dos teatros fecharem e, uns dias depois, estávamos a ensaiar e o Rodrigo desce e percebemos logo pela cara dele que não ia dar. Naquela altura, o importante era protegermo-nos. Nesse dia, lembro-me de ficarmos mais duas horas no teatro, parecíamos os músicos do Titanic, está tudo a afundar e nós tocámos piano, cantámos, viemos beber uma cerveja todos juntos e foi uma espécie de celebração trágica.

E esse processo cai e aparece este convite, foi isso?
Entretanto, este convite aparece no verão, tinha um ou outro projeto já agendado e fiquei sempre na dúvida se teríamos o reagendamento d’A Noite de Reis — porque também sei que isso se prende com o facto de o encenador ser estrangeiro — e fui-me protegendo das expectativas, viver dia a dia, sem criar grandes esperanças porque percebi que isso me ia sufocar. Então o convite do Rodrigo surge no verão e fiquei muito honrada, até porque nunca tinha trabalhado com ele.

É a única mulher no elenco. E esta é uma mulher estereotipada, acusada, em cena, de ser “leve e superficial”. Portanto, um papel ingrato, de alguma maneira.
Bem, depende. Percebo que numa primeira leitura pode parecer ingrato, sendo que, neste caso, a discussão com o Rodrigo e com os colegas foi muito saudável. Tive sempre liberdade para pensar nesta mulher. E não nos podemos esquecer do contexto em que este texto foi escrito, que é anos 20, há toda uma euforia pós-guerra, em que as mulheres, de repente, se despem mais, o conforto é muito mais validado do que a estética, mas há uma euforia no ar, as mulheres passam a ter o direito de celebrar, de festejar, de se darem ao luxo de serem domésticas. E a verdade é que senti sempre que o Rodrigo me incitou a criar camadas nela, torná-la contemporânea é mesmo muito difícil, não vou mentir, mas tomando atenção ao texto, o homem também é colocado nessa posição. Admito que o texto tem componentes machistas, a mulher serve quase de prémio entre aqueles leões, mas no final ela acaba por triunfar, é ela que vai lá agitar aquilo.

Ou seja: é um desafio.
É bastante desafiante, sim. Sobretudo para mim, mulher contemporânea, é claro que abordo as coisas de outra forma, mas sim, houve uma preocupação constante em como o Rodrigo estava a pensar nesta mulher, no figurino dela.

"Quando me perguntavam o que queria ser quando fosse grande dizia uma coisa diferente a cada dia, mas um dia respondi: 'Sabes, mãe, eu gostava que toda a gente pudesse experimentar uma profissão por semana, porque vejo sempre os adultos tristes'”.

Que é altamente contemporâneo, curiosamente.
Sem dúvida. E a certa altura houve a ideia de ser um vestido vermelho, mais provocante e começámos a questionar até que ponto é que isso fazia sentido e até que ponto eu surgir, enquanto mulher, com um fato, com traços masculinos, por muito feminino que seja, é mais uma no meio de calças. E achei isso muito inteligente, dá mais informação.

Falamos de uma peça que decorre no terreno da metateatralidade e nos bastidores do teatro. Decorre uma hora antes da estreia. Há algum episódio semelhante que tenha vivido? Isto é, que tenha provocado o caos antes do pano subir?
Já tive uma colega que se esqueceu do espectáculo. A equipa juntava-se sempre cerca de duas horas antes, dávamos boleia uns aos outros, essas coisas, e ela nunca mais aparecia. Alguém se lembrou que ela andava em mudanças. A nossa estreia tinha sido adiada três vezes, o que lhe dá uma desculpa, mas às tantas lá alguém lhe ligou e ela pergunta: “Mas que dia é hoje? Não é terça?”. E responderam-lhe: “Não, hoje é quinta-feira, estreamos hoje”. Então, começámos a distribuir texto e a falar com o encenador. Lá fomos para palco porque tínhamos de estar antes do público entrar, o público começa a entrar e de repente ela entra e fica ao nosso lado.

Alívio. Correu bem?
Correu super bem, lindamente. No final fomos perguntar-lhe o que se tinha passado, porque nem sequer tínhamos tido tempo.

Não há muita informação quando se googla o nome Erica Rodrigues. Tem trabalhado com muitas companhias, muitos projetos, em formatos diferentes, mas o espaço mediático não é o seu. Não é que tenha de ser. Pergunto apenas a que se deve isto? 
Olha, é uma ótima pergunta.

É, como se costuma dizer, low-profile?
Sim, talvez seja essa a melhor forma de o justificar. Gosto muito da privacidade e zelo-a bastante. Não critico quem tem outra postura, quem usa as redes sociais de uma determinada maneira, a minha verdade é aquela que me chega melhor e é low-profile, sim, gosto bastante de preservar o meu lado pessoal. No caso das redes sociais, prefiro fazer uma utilização mais relacionada com os projetos em que estou envolvida ou em questões sociais, coisas que me ocupam o pensamento. Mas, de vez em quando, também gosto de colocar uma foto dos meus cães.

Claro, cães em redes sociais é infalível.
Claro que sim. Sendo que no nosso meio e em outras várias áreas já vivemos as redes sociais não como apêndice, mas como complemento, já não é dissociado, aquela ideia de que uma rede social não quer dizer nada… já não estamos nessa fase, há sempre um espectro qualquer que transmite algo acerca de nós.

Portanto, é importante um ator trabalhar esse lado…
Não sei se é importante, por vezes penso nesse assunto, depois largo, depois vem algum amigo que está a trabalhar em algum projeto audiovisual em que tem de publicar mais coisas, é normal, faz parte de um protocolo. Mas não penso muito sobre isso, tenho tido o privilégio de fazer absolutamente o que quero com as minhas redes sociais, claro que às vezes, para os espectáculos, convém partilhar porque vivemos do público e convém que as pessoas percebam o que está a acontecer. Os flyers e os mupis não resultam.

"Interessa-me profundamente a fusão entre aquilo que não conheço e aquilo que achava que conhecia. E quem é que encontro no meio disso"

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Cruzámo-nos ainda agora no ensaio de Fora de Campo, dos SillySeason. Como foi lá parar? Como foi o processo?
Fiz alguns projetos online durante a quarentena, e comecei a pensar onde é que a cultura se insere, até que ponto é que oferecer um produto é bom, enfim, questionei muitas coisas. O Fora de Campo foi o primeiro projeto que tive após a quarentena e confesso que estava muito preocupada. Conhecia o Ivo [Saraiva e Silva], a Cátia [Tomé] e o Ricardo [Teixeira], já conhecia o trabalho deles. Mas estava preocupada porque o meu ritmo era outro, como se o corpo estivesse noutro lugar e não propriamente num estado de produtividade. Então, houve uma audição, enviei a minha carta de motivação e o meu curriculum, fui chamada para a audição que era uma self-tape com um texto. Davam uma semana para a preparar e eu só tinha dois dias, porque a pessoa com quem queria filmar só tinha esses dois dias. Lá fui gravar. O Ricardo telefonou-me, foi super elegante e amoroso comigo, começou por dizer que não tinha sido selecionada, mas depois diz-me que gostavam de me convidar, porque gostaram tanto da minha audição que, apesar de só haver lugar para uma atriz…

Teria de ganhar à Ana Moreira…
Exato, é complicado, não é? E se ficou entre mim e a Ana Moreira, sinto-me muito lisonjeada. Mas acabei por ficar também e para isso eles tiveram de cortar noutras coisas, esse gesto é muito bonito, esse desejo de proximidade da matéria humana.

É óbvio que estava inserida numa equipa e deduzo que o trabalho seja horizontal. Mas trabalhou diretamente com a Ana Moreira e fizeram uma dupla efervescente.
A Ana é estrondosa, é uma atriz belíssima, aprendi mesmo muito com ela, não sei bem traduzir em palavras, há qualquer coisa fisicamente em mim que dela ficou, foi fantástico. É uma pessoa muito inteligente, muito delicada, e aquela força que se traduzia em cena vinha de uma enorme delicadeza e sensibilidade que estabelecemos. Porque não era simples, não era nada simples, sermos a mesma personagem. Foi mesmo um projeto incrível. Nunca me importou, e agora ainda menos me importa, com quem é que as pessoas trabalharam, de onde é que vieram, o que é que têm na conta, que projeção é que têm, não me interessa, interessa-me a qualidade com que depois do ensaio nos sentamos a tomar um café. Se o espectáculo correu bem ou correu mal, é subjetivo.

Como é que uma licenciada em fisioterapia vem aqui parar?
Por mero acaso. Porque me apercebi de que estava feliz e para mim é importante demorar-me onde sou feliz. Obviamente que depois há também uma questão de resistência e a fase da dúvida, se vale a pena, essa coisa pela qual todos passamos, mas há um tempo para isso. E em fisioterapia aconteceu-me o oposto do que aconteceu com a arte. Sempre estudei ciências, quando me perguntavam o que queria ser quando fosse grande dizia uma coisa diferente a cada dia, mas um dia respondi: “Sabes, mãe, eu gostava que toda a gente pudesse experimentar uma profissão por semana, porque vejo sempre os adultos tristes”.

"Assusta-me o sistema em que estamos. Não nos dotam de ferramentas e isso faz-nos falhar. Não gosto de lançar teorias da conspiração, mas a partir do momento em que há um sistema que não dá ferramentas para que não falhe, isso faz-me pensar até que ponto ele não foi feito de facto para falhar."

Com que idade?
Seis ou sete. A minha mãe olhou para mim, riu-se… Ela há pouco tempo lembrou-se dessa conversa porque sou atriz e porque, no fundo, faço isso. Não é uma semana, não é, mas em cada projeto há uma dimensão que se aprofunda e não tem de ser uma profissão, pode ser um universo, uma abordagem de vida, uma filosofia. E a minha mãe achou, depois dessa resposta, que eu ia para filosofia. Pensou que estava lixada, porque…

…porque não há propriamente um mercado de trabalho.
Nem mais. Leio bastante e gosto de aplicar a leitura no meu trabalho, mas outra coisa é trabalhar só nesse campo. Pelo meio das ciências fiz ballet, fiz dança, mas sempre numa lógica de hobby. Fiz karaté, também. A minha mãe achou que era muito violento, então tirou-me e eu fiquei tristíssima. Fui para ginástica. Ia pensando o que gostava, andei na zona da Química, da Física, gostava muito muito de Física e odiava Matemática, o que pode não fazer muito sentido. E nisto surge Fisioterapia, porque ligava as dimensões onde eu circulava, o corpo, as ciências, a causa humanitária. Acabou por deixar de fazer sentido. Estudei na Escola Superior de Saúde de Alcoitão.

Acabou o curso?
Não, mas posso dizer, modéstia à parte, que era boa, tinha sempre muito boas notas nas disciplinas e estágios. Mas ter 21 anos e questionar porquê acordar as seis e meia da manhã a desejar que sejam seis da tarde não é um bom presságio. Foi complicado para os meus pais. Não é uma escola barata, era uma mensalidade muito alta e o curso era muito exigente, não podia chumbar a uma disciplina porque chumbava o ano inteiro. Basicamente, não me revi muito no contexto burocrático em que tinha de estar envolvida. O sistema de saúde, para quem lá trabalha, é muito violento. E isso fez-me questionar o que queria fazer da minha vida.

E como é que se dá o salto?
Decido não continuar e vou trabalhar para uma loja de roupa. Há que dizer que ao estudar saúde não há férias, é sempre a estudar, ou para um exame, ou para um diagnóstico, por aí. E de repente, trabalhar numa loja de roupa deu-me tempo, pude jantar, pude conhecer colegas. E surge, no meu mail, até hoje não faço ideia como é que aquilo lá foi parar, publicidade para um workshop em Lisboa — há que dizer que os meus pais vivem em Albufeira e eu estava lá a viver nessa altura. Um workshop de duas semanas, em julho, no Teatro da Trindade. Éramos 30 e eu não conhecia ninguém, só pensava “como é que estas pessoas todas se conhecem?” A partir daí percebi que queria continuar a conhecer, a estudar aquela zona, que era, de facto, distante da minha área de conhecimento, mas que se relacionava de alguma maneira, o movimento, o olhar, o estar, como é que lidamos uns com os outros, fiquei absolutamente fascinada com o clique da ficção.

Isto com que idade?
Tinha 23 anos. Ainda não pensava em trabalhar no meio, era uma espécie de investigadora.

Uma visão teórica. Ser quase fisioterapeuta residente de uma companhia.
Quase isso. Na verdade, atualmente, acabo quase sempre a dar massagens a alguém ou a ajudar alguém perante uma dor. Há sempre alguém que se lembra que andei em Fisioterapia. Ou ligam-me: “Caí agora no ensaio, o que é que faço?”.

Consultora, também.
Sim, sou sempre consultora da saúde de alguém. Durante muito tempo ocultei essa parte da minha vida porque não me revia, não me identificava, era muito saturante e desde há uns tempos voltei a pegar nos livros, a anatomia, o estudo do movimento humano, muito porque me comecei a relacionar com a performance e com a dança, então comecei a pensar na logística do corpo, das linhas, a repensar no gesto como algo que se traduz no espaço. Isto tudo ampliou esse lugar que tentei ocultar e trouxe-o de volta e de uma forma melhorada, a meu ver. E de repente, a filosofia, a sociologia, a política — porque estou a pensar voltar a estudar e estou na dúvida entre Direito e Ciências Políticas…

"Prelúdio Ao Rei Lear" marca o regresso de Erica Rodrigues à Companhia de Teatro de Almada, depois de "A Boa Alma de Sé-Chuão", uma encenação do alemão Peter Kleinert

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Para o recorde de licenciaturas?
É mesmo numa vontade de absorver e de ganhar ferramentas. Assusta-me o sistema em que estamos. Não nos dotam de ferramentas e isso faz-nos falhar. Não gosto de lançar teorias da conspiração, mas a partir do momento em que há um sistema que não dá ferramentas para que não falhe, isso faz-me pensar até que ponto ele não foi feito de facto para falhar. Isso mexe muito comigo.

Ao ponto de a assustar?
Já não. Dá-me mais vontade e força para, no meu pequeno mundo, ter ferramentas, estar informada, moldar qualquer coisa em meu redor, “fight the system from the inside”.

Depois do workshop no Teatro da Trindade, veio o curso na ESTC.
Sim, passados dois ou três anos desse momento, de já estar a trabalhar, comecei a ter trabalho, a candidatar-me a curtas-metragens. Fui fazendo coisas. Já fui para escola a trabalhar como atriz e com 26 anos.

Já trabalhou com várias pessoas cujas linguagens são bastante físicas ou onde o corpo é bastante trabalhado, basta pensar em nomes como o John Romão ou o Tiago Vieira. E mais recentemente com o Mário Coelho e até com o Gonçalo Carvalho na Palco13. Porque é que isto acontece?
Acho que é conjunto de fatores. E acho que somos muito aquilo que convocamos, acredito muito nisso e gosto muito da multidisciplinariedade da arte, gosto de cantar e gosto de espectáculos em que me desafiam nesse ponto. Também gosto da dança ou dessa componente performática. E acho que me convoco para esse lugar. A minha predisposição para rasgar. Mesmo quando não domino e tenho de correr atrás.

E algumas vezes, como no É Difícil Para Mim Dançar!, é literalmente correr.
Sim, são 40 minutos a correr. Acho que é também uma necessidade de chegar a outras zonas, uma zona punk, com quem é que posso aprender, a quem posso recorrer. Interessa-me profundamente a fusão entre aquilo que não conheço e aquilo que achava que conhecia. E quem é que encontro no meio disso.

Trabalha com um leque grande de criadores. A verdade é que não há uma “casa”, uma estrutura na qual se tenhas fixado de forma muito prolongada. A que se deve essa opção, aborrecimento?
Não. Já tive por duas ou três vezes convites diferentes para integrar uma companhia ou para fundar um coletivo. Houve uma vez que estivemos quase. Sou muito intuitiva, gosto de dar tempo às coisas, não gosto de construir sob a forma da ansiedade, detesto a precipitação porque acho que as coisas em cima do joelho nunca vão correr bem. É preciso maturar, é preciso perceber que as pessoas estão conscientes do passo que estão a dar. Além disso, estamos em Portugal, um país onde a cultura é tratada como é. Formar um grupo não pode ser de ânimo leve. Gosto bastante da fricção, mas com elegância. Mas também gosto que haja uma noção do motivo pelo qual se está a formar um coletivo, com que intenção, qual é a longevidade do mesmo.

"Agora estou numa nova e acompanhada. Tudo vai começar a partir da ideia de uma refeição. Acho mesmo que as boas conversas começam sempre com uma bebida ou comida à nossa frente."

Mas reconhece que há projetos que podem ter nascido de um ímpeto, até juvenil?
Claro que sim e isso é belíssimo. A ideia de um coletivo não é um projeto. Em relação a outros convites que tive, não aceitei porque não fazia sentido, não queria estar no processo burocrático e administrativo, queria estar como intérprete, como a parte criativa.

Isso mantém-se hoje?
Sim… até certo ponto. Estou neste momento a começar uma criação minha.

Um projeto onde convoca um grupo de pessoas, certo?
Sim. As quatro pessoas a quem falei do projeto disseram que sim.

Faz o texto e a encenação?
Para já, não vai sob a forma de texto e encenação. Para já. Mas acho que vai desaguar aí. Esta coisa de vencermos os nossos fantasmas e de pensarmos “mas vais estar a lançar isto ao mundo?”. Tenho muitos textos que escrevo e reescrevo. É mesmo uma questão de decisão. E uma decisão que passa por largar os nossos fantasmas. E, ao mesmo tempo, agarrá-los, porque é bom trabalhar com isto da luz e da sombra. Aquilo que me assustava era a minha falta de coragem de fazer assim [agarra num livro e coloca-o em cima da mesa]. É isto, está aqui, vamos discutir o assunto. E agora estou numa nova e acompanhada. Tudo vai começar a partir da ideia de uma refeição. Acho mesmo que as boas conversas começam sempre com uma bebida ou comida à nossa frente.

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