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Pyotr Pavlensky, Juan Branco e Benjamin Graveux são os três homens envolvidos neste caso

Pyotr Pavlensky, Juan Branco e Benjamin Graveux são os três homens envolvidos neste caso

Escândalo que abala França envolve filho de Paulo Branco, um vídeo sexual que deitou abaixo um político e um artista que se mutila /premium

Pavlensky é autor de performances polémicas. Alexandra, a sua namorada. Juntos destroem um político. E o que tem Juan Branco, advogado de Assange e filho do produtor Paulo Branco, a ver com tudo isto?

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Foi na noite de passagem de ano, numa festa num apartamento no centro de Paris — mesmo por cima do famoso Café de Flore, no arrondissement 6eme —, que Pyotr Pavlensky falou pela primeira vez a Juan Branco sobre uma “ação importante” que tencionava levar a cabo e para a qual talvez viesse a precisar dos seus serviços de advogado. As “ações importantes” não são estranhas a Pavlensky: o artista russo já coseu a boca para protestar contra a detenção das Pussy Riot e pregou o próprio escroto ao chão da Praça Vermelha, para denunciar o regime de Putin.

A informação de que tencionava levar a cabo mais uma “ação” não surpreendeu, por isso, Juan Branco. O jovem advogado de origem portuguesa, filho do produtor de cinema Paulo Branco, é conhecido pelas suas posições políticas, movendo-se com facilidade nos círculos da extrema-esquerda francesa — ora defende Julian Assange, ora é candidato pela França Insubmissa de Jean-Luc Mélénchon, ora se distancia e prefere defender plenamente apenas os Coletes Amarelos. Quando Pyotr falou consigo nessa festa (para a qual Juan o tinha convidado uns dias antes, bem como à sua namorada, uma jovem estudante de Direito chamada Alexandra de Taddeo), o advogado mostrou-se pronto para ajudar: “Pensei que seria algo semelhante às ações dele na Rússia. Devo dizer que fiquei entusiasmado”, confessou o próprio ao Le Monde.

Contudo, a festa ficaria marcada por outro incidente. A certa altura, as vozes elevaram-se por cima da música, numa discussão acalorada. De repente, Pyotr tinha na mão uma arma branca. Os relatos nos media franceses contradizem-se: o russo pegou numa faca de cozinha, usada para cortar cebolas, dizem uns; tirou uma navalha do bolso, contam outros. O momento foi confuso, mas certo é que pelo menos duas pessoas foram feridas pela arma — uma na coxa, outra na cara. No meio do caos, alguém partiu uma garrafa na cabeça do artista. A polícia foi chamada. Juan Branco contou a sua versão dos acontecimentos, os outros convidados também. Mas Pyotr e a namorada Alexandra eclipsaram-se após as agressões. Contudo, o russo não se livraria de ser aberto contra si um processo por suspeitas de agressão, que ainda decorre.

À partida, tudo não passou de um episódio de faca e alguidar, envolvendo figuras conhecidas do meio artístico e político francês. Mas naquela noite de passagem de ano, naquele andar por cima do Café de Flore, terá havido ainda a tal conversa sobre as “ações importantes”. Foi ali que Pyotr terá revelado a Juan Branco o que pretendia fazer. E eis que, menos de dois meses depois, a França é abalada por um escândalo que envolve o artista russo, o advogado de origem portuguesa e a jovem estudante de Direito. Na sequência da divulgação online de vídeos íntimos, Benjamin Griveaux, político próximo do Presidente Emmanuel Macron e ex-porta-voz do Governo, anunciou a retirada da sua candidatura à câmara de Paris, e também a intenção de apresentar queixa por “invasão de privacidade”. Foi no sábado passado e nesse mesmo dia, Pyotr Pavlensky e Alexandra de Taddeo foram detidos. As autoridades francesas suspeitam que De Taddeo foi a jovem que recebeu inicialmente os vídeos de Griveaux a masturbar-se e que, juntamente com Pyotr, os tornou públicos, através do site pornopolitique.com. Os crimes em causa são os de “invasão da intimidade da vida privada” e “disseminação de imagens sexuais sem consentimento”.

Benjamin Griveaux decidiu apresentar queixa, mas o caso custou-lhe a candidatura à Câmara de Paris (LIONEL BONAVENTURE/AFP via Getty Images)

AFP via Getty Images

Esta segunda-feira, eis que é envolvido no caso o último vértice do triângulo que esteve presente naquela festa de réveillon: a pedido dos procuradores encarregues do caso, que consideraram que Branco não pode assumir a defesa de Pavlenski, o bastonário da Ordem dos Advogados de Paris, Olivier Cousi, anunciou que foi aberto um inquérito deontológico a Juan Branco, para averiguar se pode “representar o artista russo Pyotr Pavlesnki” neste caso.

Em causa estão suspeitas de que Branco possa estar mais envolvido no caso do que deu a entender até agora. Algo que o próprio nega: “Ele consultou-me como advogado”, afirma.

O artista russo

Pyotr Pavlensky, o artista de olhos verdes e rosto invulgarmente magro, está exilado em França desde 2017, altura em que lhe foi concedido asilo político no país, na sequência de denúncias sexuais contra si que se suspeitava serem politicamente motivadas. Feitas para chocar, as ações públicas que promove são “atos artísticos”, de acordo com o próprio. E enquanto viveu em Moscovo, os atos de Pavlensky foram encarados pela maioria da comunidade artística internacional como corajosos, por denunciarem erros do Kremlin: coser a própria boca para denunciar o tratamento dado às Pussy Riot (“Costura”, 2012); enrolar-se num casulo de arame farpado para denunciar leis que limitam liberdades individuais (“Carcaça”, 2013); pregar o escroto ao chão da Praça Vermelha, em frente ao Kremlin, para criticar a passividade dos russos (“Fixação”, 2013); cortar uma orelha em cima do muro de um hospital psiquiátrico, para alertar para o uso da psiquiatria feita pelo poder político (“Segregação”, 2014).

Quando chegou a Paris e concretizou a sua nova obra, desta vez em território ocidental, as autoridades francesas foram menos complacentes do que quando lhe concederam asilo. Em “Iluminação” (2017), Pyotr deitou fogo ao edifício do Banco de França — que fica exatamente no local onde esteve em tempos a Bastilha — para protestar contra a “tirania dos tempos modernos”, simbolizada pelos bancos. Foi detido, submetido a uma avaliação psiquiátrica, acusado e condenado a três anos de prisão com pena suspensa. Acabaria por estar detido um ano a aguardar julgamento, durante o qual levou a cabo duas greves de fome.

O grotesco das suas “ações”, como o próprio Pyotr define as suas intervenções, deram nas vistas. A intransigência do artista, que vive em edifícios ilegalmente ocupados de Paris e assume roubar dos supermercados para comer, também. Em julho de 2019, a revista do New York Times escreveu um longo perfil sobre o artista russo, intitulado “A Perigosa Arte de Pyotr Pavlensky”. Com o processo judicial concluído, o russo voltou a entrar na semi-obscuridade, deixando de fazer manchetes na Rússia e em França.

Até que chegou o caso Griveaux. Na sexta-feira antes de ser detido, Pavlensky assumiu publicamente a autoria da divulgação dos vídeos do candidato a presidente de Câmara de Paris: “Ele usa a sua família ao apresentar-se como um ícone para todos os pais e maridos em Paris. Ele faz propaganda dos valores tradicionais da família”, afirmou o artista. O objetivo da divulgação dos vídeos íntimos, explica, é o de denunciar a “hipocrisia” do político do République En Marche, de Macron.

Pyotr Pavlensky está exilado em França desde 2017 (LIONEL BONAVENTURE/AFP via Getty Images)

AFP via Getty Images

Uma explicação que o advogado de Griveaux, Riachard Malka, classifica de “grotesca”. “Isto é uma farsa completa, com pseudo-artistas que acham que vivem numa ditadura e podem dar lições de moral”, reagiu. E deixou um recado: “Não acredito, de todo, que ele tenha agido sozinho.” E é aqui que as suspeitas atingem Branco. Na imprensa francesa, são muitas as suspeitas levantadas de que Juan Branco é o verdadeiro cérebro de toda a operação.

Do lado de Pyotr estão pessoas como a sua antiga editora na Rússia, Natalia Turine. À rádio francesa Europe 1, a russa descreveu o artista como alguém que “não tem medo de nada”. “A disciplina que ele impõe sobre si próprio é quase religiosa. Só come uma vez por dia, não come nada até às sete da tarde”, descreveu. “Ele critica qualquer forma de poder. Aqui, tocou em algo que interessa muito aos franceses: o sexo”, acrescentou Turine “Isto pode não ser de bom gosto; mas o que Benjamin Griveaux representa é de bom gosto?”, questionou aos microfones da Europe1.

O advogado de origem portuguesa

Juan Branco nasceu em Málaga, mas passou grande parte da sua vida em França. Filho de uma psicóloga espanhola e do produtor de cinema português Paulo Branco, o jovem de 29 anos cresceu rodeado por influências artísticas. Com diploma da afamada Sciences Po, trabalhou para o gabinete da ministra da Cultura Aurélie Filippetti, mas há dúvidas sobre o cargo que ocupou — o próprio define-se como chefe de gabinete, a socialista diz que não passava de um assistente e apelida-o de “grande manipulador”.

Trabalharia ainda como conselheiro do ministro dos Negócios Estrangeiros do mesmo governo de François Hollande, o antigo primeiro-ministro Laurent Fabius. De acordo com a imprensa francesa, seguir-se-ia um período no Tribunal Internacional Penal de Haia, onde denunciou um alegado massacre das forças das Nações Unidas na República Centro-Africana. Seguir-se-ia a carreira académica, com passagens pelas universidades La Sapienza, Max Planck Institute e Yale. Pelo meio, torna-se voluntário na Wikileaks e é escolhido para a equipa de advogados de Julian Assange.

Juan Branco é filho do produtor de cinema português Paulo Branco e de uma psicanlista espanhola (LIONEL BONAVENTURE/AFP via Getty Images)

AFP via Getty Images

Em 2017, concorre como deputado às eleições legislativas pela França Insubmissa, o partido de extrema-esquerda liderado por Jean-Luc Mélenchon, no círculo de Seine-Saint-Denis. Não vence, mas reúne quase 14% dos votos. Desde então, distanciou-se politicamente de Mélenchon, como reconhecem à France Info fontes próximas do líder da extrema-esquerda francesa, embora não tenha havido uma zanga formal. “Dou-me muito com Mélenchon, mesmo que ache que houve alturas em que ele foi um pouco cobarde. Mas nunca se comportou de forma errada comigo”, define o próprio Juan.

Um ano depois, Juan Branco tornava-se um sucesso ainda maior dentro dos círculos da extrema-esquerda francesa, com a publicação do seu ensaio anti-Macron Crépuscule (Crepúsculo) que vendeu mais de 100 mil exemplares, onde há várias passagens muito críticas para com, nada mais nada menos, Benjamin Griveaux e que foi tomado como guia pelo movimento dos Coletes Amarelos, que Branco apoia incondicionalmente. Seria precisamente num protesto dos Gillets Jaunes que os caminhos de Juan e do macronista Benjamin Griveaux se cruzariam: a 5 de janeiro de 2019, uma das manifestações tornou-se tão intensa que alguns membros da multidão tentaram entrar no gabinete de Griveaux pela varanda, a partir de uma grua de construção. Juan Branco estava com esse grupo quando a tentativa de “invasão” começou.

Agora, Juan Branco volta a estar no olho do furacão com o caso de Pyotr Pavlensky. “Percebi que para ele era um ato político”, afirmou em declarações ao Le Point, divulgadas no dia da detenção do artista, a propósito da divulgação dos vídeos no pornopolitique.com. “Da mesma forma que ele se opunha ao regime de Putin, ele estava pronto para fazer qualquer coisa para se opor ao regime de Macron, que ele considera igualmente repressivo.” O jornal garante que várias fontes confirmaram que o envolvimento do advogado neste caso poderia ir muito além do simples exercício de defesa do seu cliente. Confrontado com essas suspeitas, Branco não quis responder.

A estudante de Direito

Sobre Alexandra de Taddeo, o último membro deste triângulo, sabe-se pouco. Tem 29 anos, nasceu em Metz e estará a estudar Direito Internacional e Governação Internacional. De acordo com o jornal Le Figaro, estará a fazer um estágio na UNESCO e terá feito outro na Aliança de Advogados pelos Direitos Humanos — mas nenhuma das organizações em causa confirmou estas informações ao jornal francês.

Yves Surel, contudo, confirmou que foi seu professor de Ciência Política na Universidade e descreveu-a como boa aluna: “Não sabia nada da vida privada nem dos possíveis compromissos políticos desta estudante, cuja dissertação supervisionei em 2018. Era uma dissertação de grande qualidade e Alexandra de Taddeo era uma estudante inteligente”, disse ao Figaro.

A família de Alexandra também já se pronunciou e acusa Pyotr de a ter desencaminhado. “Ela está longe de ser uma anarquista”, disse o pai à France Info. “O rapaz não é do nosso agrado. Ou ela está inconsciente ou está a ser manipulada”, garantiram os progenitores.

Aquilo que o Le Figaro conseguiu apurar com certezas é que Alexandra parece ter um interesse particular pela Rússia. Autora da obra “A política externa da Federação Russa no Ártico: cooperação internacional e interesses nacionais em sinergia”, convidou por várias vezes russos para serem entrevistados no programa de rádio que levava a cabo na rádio Fréquence.

Alexandra assume um papel essencial nesta trama porque, segundo indicam o tabloide Le Parisien e a televisão BFMTV, foi ela a recetora dos vídeos exibicionistas de Griveaux. Mas, segundo os mesmos órgãos, os vídeos em causa não foram enviados agora, mas sim em 2018 — altura em que, dizem, a jovem teria uma relação com o político próximo de Macron.

Benjamin Griveaux com o Presidente francês Emmanuel Macron no Eliseu (ETIENNE LAURENT/AFP via Getty Images)

AFP via Getty Images

Nessa altura, Pyotr estava numa relação com a mãe dos seus dois filhos e co-autora de muitas das suas intervenções, Oksana Shalygina. Mas, em janeiro de 2019, a russa afastou-se. Pyotr entregou-se então a um “amor trágico”, segundo descreveu o próprio ao New York Times, ao entrar numa relação com uma francesa que seria a sua “antítese”. Essa mulher-mistério seria “um ícone da prudência burguesa”, com “um grande apartamento no prestigiado bairro 16”. Não é certo se Alexandra seria essa mulher, nem quando o seu caminho se cruzou com o de Pyotr.

Será Branco o “manipulador” do caso?

Por explicar continuam também as ligações concretas de Juan Branco a este caso. Uma das principais dúvidas surgiu depois de uma entrevista dada ao site Vécu, onde Branco fala sobre a divulgação das imagens íntimas de Griveaux e explica: “O que nós fizemos foi sem qualquer ódio, apenas quisemos demonstrar a incoerência entre as palavras e os atos”. A frase, dita assim, dá a entender que se tratou de uma ação onde o próprio advogado participou. Mas esta segunda-feira, numa entrevista em direto transmitida pelo canal francês BFMTV, depois de confrontado com estas declarações, Juan Branco garantiu ter apenas “aconselhado” o artista russo antes da divulgação das imagens: “Tenho acompanhado Piotr Pavlenski como advogado e continuo a fazê-lo. É o que tenho dito desde o início. O Piotr agiu sempre com a pessoa que lhe transmitiu estas informações, não comigo”. Também numa entrevista anterior ao jornal Le Point, garantiu que  foi consultado apenas como advogado.“Percebi que para ele era um ato político. Da mesma forma que se opôs ao regime de Putin, quis opôr-se ao regime de Macron, que considera igualmente repressivo”. As explicações não terão convencido a entrevistadora francesa da BFMTV que terminou a conversa a dizer: “Quanto mais o ouço, mais dúvidas tenho se Piotr Pavlenski não é apenas o executante e o senhor o manipulador”. Certo é que os crimes de que Pyotr e Alexandra estão acusados podem levar a dois anos de prisão e uma multa no valor de 60 mil euros. E a primeira consequência do caso já foi relevada pelo próprio filho de Paulo Branco, em entrevista à RTP: deixou de representar Julian Assange como advogado, dizendo que não pode “expô-lo a polémicas de outros casos” que defende, “como o de Pyotr”. “A vida de Julian Assange é prioritária”, sentenciou.

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