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A atleta de 33 anos foi campeã mundial em 2017 e tem quatro títulos europeus no palmarés

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A atleta de 33 anos foi campeã mundial em 2017 e tem quatro títulos europeus no palmarés

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

"Escolhi o bodyboard e não fui para a faculdade. Não podia pagar os dois". Joana Schenker, campeã mundial com nome alemão e sotaque algarvio /premium

Filha de alemães, cresceu em Sagres e escolheu bodyboard porque era o que "os fixes" faziam. Vegetariana desde os dez anos, foi campeã mundial e condecorada por Marcelo. Entrevista a Joana Schenker.

O apelido é alemão, a alma é portuguesa, o sotaque é algarvio. Joana Schenker é filha de pais alemães mas nasceu e cresceu em Sagres, no extremo sudoeste da Europa continental, de onde saiu para se tornar sete vezes campeã nacional, quatro vezes campeã europeia e uma vez campeã do mundo de bodyboard.

Encontramo-nos à porta da Estalagem Muchaxo, junto à Praia do Guincho, em Cascais. Surge com a prancha sobre a cabeça, para se abrigar da chuva, e depressa dá a má notícia do dia: as ondas não estão ótimas e a conversa terá de ser longe da praia, sem pés na areia nem maresia. Nada que a torne menos característica. Até porque com Joana, mesmo no sofá de um hotel e com o mar a espreitar apenas pela janela, os pés na areia e a maresia estão sempre presentes.

Portuguesa Joana Schenker campeã mundial de bodyboard

Em entrevista ao Observador, Joana Schenker recordou como “os miúdos mais fixes” da escola eram os que faziam bodyboard, como a falta de dinheiro e apoios já destruiu várias gerações da modalidade e como teve de batalhar para ver reconhecido o primeiro título nacional, já que na altura ainda não tinha a nacionalidade portuguesa. Aos 33 anos, fala sobre o facto de ser vegetariana desde os 10, sobre as aulas de Educação Física em que aproveitava para fazer os trabalhos de casa de Matemática e sobre a Ordem de Mérito que recebeu das mãos do Presidente da República, depois de ter sido campeã do mundo. E garante que as ondas preferidas continuam a ser “lá em casa”, em Sagres. Afinal, o apelido é alemão, a alma é portuguesa mas o sotaque é mesmo algarvio.

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Joana Schenker nasceu e cresceu em Sagres e é a mais velha de quatro irmãs

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A primeira pergunta é muito simples. Qual é a onda preferida?
A resposta também é muito fácil. É uma onda lá em casa, em Sagres. Aliás, são duas. É na Praia do Beliche e na Praia do Zavial. São as minhas duas ondas preferidas no mundo inteiro.

Como é que apareceu o bodyboard? Normalmente, o surf acaba por ser a porta de entrada dos jovens que gostam de desportos aquáticos.
Sagres, o lugar onde eu nasci e cresci, é uma terra que tem uma grande tradição no bodyboard. A maior parte dos jovens acaba por fazer bodyboard, é mesmo “o” desporto. Quando eu andava na escola, os miúdos mais fixes faziam bodyboard. Eu queria fazer parte desse grupo e por isso foi automático. Nunca ninguém me perguntou: “Joana, queres fazer surf?”. Foi uma questão que não se pôs. Foi automático. Bodyboard e pronto. Sempre foi completamente natural.

Existiu aquele momento em que percebeu que queria mesmo levar as coisas a sério ou foi acontecendo?
Foi acontecendo. Apesar de a minha mãe… A minha mãe é uma mãe um bocadinho fora do normal. Ela apoiou-me a 100%, desde o início. Quando ainda era uma brincadeira, ela já levava aquilo como se fosse mesmo a sério. Levava-me à praia todos os dias, passava horas na praia a olhar para mim, a apanhar uma seca. Justificava as minhas faltas quando eu faltava para ir fazer bodyboard. E nessa altura ainda nem era a minha profissão. Mas ela apoiou-me sempre.

Sagres, o lugar onde eu nasci e cresci, é uma terra que tem uma grande tradição no bodyboard. A maior parte dos jovens acaba por fazer bodyboard, é mesmo "o" desporto. Quando eu andava na escola, os miúdos mais fixes faziam bodyboard. Eu queria fazer parte desse grupo e por isso foi automático.

Chegou a ter essa preocupação, de não ser uma profissão certa, por assim dizer?
Sim. E tive muitas pessoas a avisarem-me, a dizer: “Joana, olha que o bodyboard não é futebol, nunca ninguém ficou rico, muita gente tem problemas até para ter apoios para competir”. E eu também passei por isso, tive de esperar muitos anos para ter apoios para ir ao Mundial. Mas não sei… O meu coração falou mais alto. Eu gostava tanto de ir para a praia fazer bodyboard que nem sequer fui para a faculdade. Porque eu não conseguia pagar as duas coisas — e tinha notas, porque eu tinha boas notas — e tive de optar. Optei pelo bodyboard e arrisquei e foi um risco bastante grande. Agora, olhando para trás, penso: “Bem, esta miúda era maluca”. Mas pronto, calhou bem. Acabou por dar certo.

Essa questão do dinheiro e dos apoios, já afastou muitos atletas que poderiam ter tido sucesso?
Sim, claro. Há gerações inteiras que aparecem como esperanças, nota-se que têm talento, podiam ser trabalhados e com apoios podiam ser grandes atletas mas acabam por nunca se desenvolver. Porque acabam por nunca chegar sequer ao ponto em que alguém podia investir neles. Foram esperanças, foram bons mas nunca deram o salto. E simplesmente por falta de investimento e de apoios.

A Joana tem esta particularidade de ser vegetariana, algo que há uns anos não era muito comum entre os atletas mas agora torna-se cada vez mais recorrente. Acha que é uma moda ou é o avançar dos tempos, em que os atletas percebem que a dieta vegetariana pode ser uma boa solução?
No meu caso, como já foi há tanto tempo – eu era uma miúda, tinha dez anos quando decidi não comer mais carne nem peixe –, foi simplesmente por uma questão de ética. Eu gostava dos animais e não conseguia ver… Não fazia sentido. Depois, percebi também que traz imensos benefícios, algo que não foi a razão pela qual eu me tornei vegetariana, não foi pelo rendimento desportivo. Mas quando comecei a ter mais obrigações desportivas comecei a ter mais atenção à alimentação e tudo mais, comecei a fazer análises regularmente e percebi que as minhas análises vinham sempre excelentes, nunca me faltou nada. Ou seja, isso também era um bocadinho a prova de que a minha alimentação estava a funcionar. Agora, tornou-se um bocadinho moda. Mas acho que é uma moda boa. Quando é uma moda boa, seja por ser moda ou não ser, é sempre bom estar a acontecer. E filmes como o “The Game Changers” [de 2019, sobre a dieta vegetariana, a proteína e a carne], por exemplo, ajudam a desmistificar esta questão da proteína e do rendimento. Acho que fomos tão formatados a ver o atleta a comer proteína animal e a precisar disso para ter rendimento que isto quase se tornou um mito, é o mito da proteína. De certeza que muitos atletas sentem benefícios e tenho a certeza de que se sentissem que estavam a regredir em capacidades ou perdessem músculo, voltavam a comer carne. Os atletas são completamente focados no rendimento. Se não estão a voltar, é porque está a funcionar.

Joana Schenker defende que o bodyboard, tal como o surf, também poderia ser modalidade olímpica. FRANCISCO MARTINS

Estamos a caminhar para um futuro em que a maioria dos atletas vai ser vegetariano?
Sim, porque não? Eu acredito que no futuro isso seja uma realidade. Aliás, o homem mais forte do mundo é vegetariano. Até nessas modalidades em que é preciso ganhar músculo, em que se achava que era impossível ter uma dieta vegetariana, já se vê o contrário. Os atletas vão cada vez mais por aí.

Tomou a decisão quando foi à Índia, certo?
Na Índia, a maior parte das pessoas são vegetarianas. A comida já é vegetariana, as vacas andam na rua… De repente, vi que existia um país enorme, gigantesco, em que muitas pessoas já eram vegetarianas. Ou seja, que não era uma coisa estranha e era perfeitamente normal. E eu era uma miúda, tinha dez anos. Quando fui lá e voltei, senti um crescimento em mim que me fez dizer: “Agora já posso”. Eu sempre quis ser vegetariana mas às vezes sucumbia ao paladar, porque eu adorava camarão, adorava sardinhas, adorava frango assado. Nunca foi uma questão de sabor. Mas quando voltei da Índia, pensei: “Agora já sou adulta e vou deixar de comer e acabou”.

Aprender a cozinhar é o grande truque para levar a dieta a sério?
Ajuda imenso, saber fazer comida saborosa. Quando se toma esta decisão, a pessoa acaba por aprender, porque acaba por ter de se desenrascar, fazer comidas diferentes. Eu sempre gostei de cozinhar e continuo a querer, um dia, ter um restaurante vegetariano. Ajuda muito, saber usar as especiarias e saber que os legumes não são para “matar” ao lume, precisam de ter textura para terem sabor.

No meu caso, como já foi há tanto tempo — eu era uma miúda, tinha 10 anos quando decidi não comer mais carne nem peixe —, foi simplesmente por uma questão de ética. Eu gostava dos animais e não conseguia ver... Não fazia sentido.

É verdade que, na escola, não fazia as aulas de Educação Física porque achava que era tempo perdido?
Eu era extremamente teimosa. E acho que o meu sucesso também vem um bocadinho da minha teimosia, quando quero uma coisa, sempre fui obcecada. A questão da Educação Física… Eu ia às aulas, não fazia a aula e aproveitava o tempo para fazer os trabalhos de casa de Matemática, estudar para os testes, fazer as coisas difíceis a que tinha de dedicar tempo. Aproveitava para fazer nas aulas de Educação Física porque depois podia ir para a praia surfar. Eu fazia desporto, eu fazia muito desporto, mas a aula de Educação Física, para mim, era uma perda de tempo. Estava a perder tempo. Jogávamos à bola, que é uma coisa de que eu nunca gostei. E também era um bocado de ser teimosa, do género “tu não mandas em mim, eu corro quando eu quero”. Às vezes tinha essa mania. Apesar de achar que Educação Física é importante e faz bem e toda a gente devia fazer! [entre risos]

E era tudo tranquilo com os seus pais? Não havia problemas em casa?
Sim, era. O próprio diretor da escola chamou a minha mãe para dizer: “A Joana está a ser um péssimo exemplo para os colegas”. E a minha mãe dizia que não me podia obrigar e que eu tinha decidido que era assim. No 7.º ano, tive 5 a todas as disciplinas e 1 a Educação Física. Ninguém podia dizer nada, ninguém tinha argumentos.

Essa maneira de ser mais liberal dos seus pais já vem deles ou intensificou-se quando vieram para Portugal?
Já vem deles, hoje em dia continuam a ser assim. Eles viajavam muito e vieram para Portugal porque queriam sair da Alemanha tão alemã, tão rígida, tão cheia de regras. Uma Alemanha tão … Estática, acho eu, nem sei explicar bem. Em Portugal, as pessoas são muito mais abertas e simpáticas e as regras existem mas são um bocadinho mais redondas. Acho que foi um bocado por aí.

Durante o primeiro confinamento, a atleta passou quase 60 dias sem entrar dentro de água, apesar de viver "a dois minutos da praia"

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Alguma vez sentiu algum tipo de preconceito pelo facto de ser filha de pais estrangeiros, mesmo tendo já nascido em Portugal?
Não, sempre lidei com as pessoas da terra. Comecei logo a falar português, andei na escola primária, como todos os miúdos, nunca fui para uma escola especial, sempre me senti completamente inserida. O bodyboard também ajudou, porque ganhei ali uma família portuguesa. O único momento em que eu me lembrei de que afinal era alemã foi no primeiro título nacional, em que eu ainda não tinha nacionalidade portuguesa e esse título não foi reconhecido. Ou seja, eu levei anos a tentei ganhar uma coisa que no fim não ganhei. E aí pensei: “Espera aí, eu vou-me nacionalizar, porque isto nem faz sentido, porque é que ainda não aconteceu?”. E passado um ano nacionalizei-me.

Ficou magoada com essa questão do título nacional?
Senti mágoa porque não podia dizer que tinha ganho uma coisa que no fundo ganhei. Mas não podia dizer. E isso prejudicou-me também em termos de apoios, porque era um título importante, era o meu primeiro título nacional. E pensei que não ia perder aquilo duas vezes, porque não sabia quantas vezes ia ganhar. E nacionalizei-me logo a seguir.

Depois de ser campeã do mundo, em 2017, recebeu um voto de louvor do Parlamento e foi condecorada com a Ordem de Mérito pelo Presidente da República. Esse momento foi importante?
Para mim, pessoalmente, foi a prova de que todas as minhas decisões foram acertadas. Ao fim de 20 anos de bodyboard, receber uma medalha do Presidente da República foi quase aquela coisa da espada [simula com as mãos o gesto feito pelos monarcas quando atribuem o título de cavaleiro]. Eu, que não vivo para prémios ou para distinções e não é isso que me move, até fiquei emocionada. Foi importante, as pessoas deram muita atenção. Foi uma prova. Foi tipo um selo.

Acabou por compensar a questão do título nacional, portanto.
Foi a prova de que sempre fui portuguesa. Toda a minha pessoa foi construída em Portugal, a minha cultura é portuguesa, apesar de o meu sangue ser alemão. Portugal tem muito isto, é muito bonito, acolhe muito bem as pessoas de fora, nem todos os países fazem isso. E eu nunca senti nada ao contrário. E, mais uma vez, tive esse gesto, com a pessoa mais importante do país a reconhecer-me como qualquer outro cidadão. Aí, já não há muitas dúvidas: sou portuguesa e pronto.

A questão da Educação Física... Eu ia às aulas, não fazia a aula e aproveitava o tempo para fazer os trabalhos de casa de Matemática, estudar para os testes, fazer as coisas difíceis a que tinha de dedicar tempo. Aproveitava para fazer nas aulas de Educação Física porque depois podia ir para a praia surfar.

Essa vitória no Campeonato do Mundo trouxe o bodyboard para a atualidade desportiva e acabou por levar muita atenção para uma modalidade que parece ficar sempre na sombra do surf. Sentiu isso, que essa conquista publicitou muito a modalidade?
Só senti isso depois do título mundial. Aí, senti uma onda de abertura que nunca tinha visto neste desporto. Eu já tinha três títulos europeus antes do mundial e parecia que nada ia muito além do que já estava a acontecer e quando foi a vitória no Mundial eu nem estava preparada para aquela atenção toda. E foi bom, porque acho mesmo que o bodyboard marcou o desporto nacional, fizemos história naquele ano e ninguém consegue tirar-nos isso. A partir daí, a minha vida como atleta mudou completamente, eu agora sou profissional à vontade, estou bem como atleta, e acho que as pessoas olham para nós com um bocadinho mais de respeito e valor. O que é uma parvoíce, porque já tínhamos muito talento antes. Mas ainda bem que aconteceu.

Joana Schenker revalida título de campeã europeia de bodyboard

Estamos cada vez mais a viver um momento em que as modalidades, sejam elas quais forem, têm hoje muito mais atenção do que alguma vez tiveram.
Acho que sim. Aliás, a prova disso é que Portugal tem cada vez mais campeões em várias modalidades, existem muitos representantes bons em tantas modalidades. Seria quase injusto não dar o devido valor. E isto também tem a ver com a comunicação social, que está mais aberta e fala com atletas muito mais variados. Aparecem notícias de todo o tipo de modalidades e as pessoas começam a perceber que há muito valor em Portugal. Futebol é fixe mas há muito mais coisas fixes.

É a mais velha de quatro irmãs. Elas também se aventuraram pelo bodyboard?
A segunda, que vem logo atrás de mim, faz bodyboard também. É boa mas não é profissional. As outras duas não fazem. Todas experimentaram mas só uma é que ficou com o bichinho do mar, como eu digo. E até há uma que não gosta nada de praia! Eu digo que é do contra.

Esta conquista do Mundial, já há quatro anos, foi algo que foi sempre um objetivo? Ou aconteceu sem que estivesse propriamente à espera?
Era um objetivo, claro, mas era um objetivo que parecia muito longínquo. Quando eu entrei no circuito — porque, curiosamente, eu ganhei o Mundial na minha segunda época no circuito, foi muito rápido –, já tinha muita experiência. Muita experiência competitiva, muitos anos a fazer muitos Campeonatos nacionais e europeus que também têm um bom nível e também são uma boa escola. Quando fui ao Mundial, já estava bem preparada. Pareceu rápido demais mas não foi rápido demais. Quando entro no Campeonato, o objetivo é ganhar. Só que dizer que é um objetivo ganhar um circuito mundial, é aquela coisa… Nunca sabemos se vai correr bem ou não, porque há muitas coisas que entram. O mar tem de colaborar, temos de ter sorte, temos de ter um timing perfeito. E quando tudo se compôs, até pareceu fácil demais. Porque todas as coisas encaixaram.

A atleta é heptacampeã nacional, para além dos quatro títulos europeus e do Mundial que conquistou naquela que foi apenas a sua segunda temporada no circuito internacional. FRANCISCO MARTINS

Como é que é o dia seguinte a uma conquista deste calibre? Não a festa ou os festejos, mas os objetivos: quais são os objetivos do dia seguinte?
No dia seguinte… Temos sempre de ter noção que cada ano começa do zero. O título, ok, foi conquistado, está ali, mas no dia a seguir já estamos à procura do próximo título. É tudo rápido, a festa não dura muito. Mas é interessante, porque eu acho que a minha motivação nunca vem dos títulos. Os títulos são o fruto do meu trabalho, eu vejo as coisas assim. Em termos de bodyboard, eu ainda tenho muito para evoluir. Não estou a surfar exatamente como eu gostava, como eu adorava surfar. A minha motivação não vai acabar enquanto eu não chegar lá. E provavelmente não vou chegar. Tenho hoje a mesma motivação para evoluir que tinha quando comecei a fazer bodyboard.

O surf vai estrear-se em Tóquio como modalidade olímpica, ainda que a ideia não seja completamente consensual entre os surfistas: uns acham que é ótimo para a modalidade, outros defendem que o surf é muito mais do que um desporto, é um modo de vida, e por isso não devia ser incluído nos Jogos. De que lado é que fica? E como é que olhava para uma eventual integração do bodyboard nos Jogos Olímpicos?
Tenho de concordar com os dois, porque ambos são pontos válidos. Acho que seria bom para o bodyboard, porque uma modalidade que é olímpica traz muitos benefícios, muitos apoios, muito dinheiro. E o bodyboard precisa disso. No entanto, também faz todo o sentido a ideia de que isto não é só um desporto de competição, é muito mais. Mas, para quem faz competição, os Jogos Olímpicos seriam um objetivo, porque é o topo. Acho que seria bom para o bodyboard estar nos Jogos, sim. Também acho que não faz sentido ter surf e não ter bodyboard – teríamos o mesmo ginásio, as mesmas ondas, podíamos surfar perfeitamente nos mesmos sítios, se há condições para um também há condições para o outro. Agora, se define o desporto? Não, porque a modalidade não é definida apenas pela competição.

Como é que foi ser uma bodyboarder profissional durante o primeiro confinamento, em que não recebeu o estatuto de Alto Rendimento e por isso não pôde mesmo entrar no mar?
Para mim, foi uma experiência completamente nova. Estive 58 dias sem ir à praia e eu moro a dois minutos da praia. As praias estavam desertas. Mas sentia a responsabilidade, tinha de cumprir, como todas as pessoas, e também não fui à praia. Nem uma vez. Nunca tive uma lesão que me tirasse dois meses do mar. Foi uma redescoberta. Não foi nada fácil, em termos psicológicos, não tanto a nível físico, porque fui treinando em casa, mantive-me em forma, saltei à corda, fiz coisas. Mas a nível psicológico, percebi o valor que isto tem para mim. Porque fazia isto todos os dias, já nem me apercebia do quanto era importante e do quanto eu gosto. Comecei a dar um valor novo ao meu “desportozinho”, que parecia uma coisa normal. Ainda bem que eu tenho isto, ainda bem que posso ir surfar, até as ondas más já eram apetecíveis. É o que dá tomar as coisas como garantidas. Acho que isto aconteceu a toda a gente. Se há alguma coisa que a pandemia nos ensinou, foi exatamente isto, a dar valor às coisas que já tínhamos.

[Receber a Ordem de Mérito do Presidente da República] para mim, pessoalmente, foi a prova de que todas as minhas decisões foram acertadas (...) Eu, que não vivo para prémios ou para distinções e não é isso que me move, até fiquei emocionada. Foi importante, as pessoas deram muita atenção. Foi uma prova. Foi tipo um selo.

Sentiu diferenças, quando voltou ao mar?
Na primeira semana, sim. Porque não há como treinar bodyboard em seco. Mas depois, como fiz muito treino físico, que é uma coisa que eu não faço tanto quando estou a surfar muito, a nível de capacidade até acho que estava mais em forma. Por isso, adaptei-me rápido.

Neste segundo confinamento, nos últimos meses, já foi tudo um bocadinho mais fácil.
Neste confinamento, sim, consegui ir ao mar, surfei todos os dias. Como vivo em Sagres, acabei por não mudar quase nada no meu dia a dia. A única coisa que mudou foi que não ia para mais lado nenhum. Até surfei bastante neste segundo confinamento.

Os surfistas ou bodyboarders preferem treinar quando as praias estão vazias, sem as multidões do verão. Quando as praias onde passa grande parte do ano ficam cheias, durante os meses de calor, sente que estão a invadir um espaço que é seu?
Sim, eu sinto isso no verão! Muitas vezes, até. A Costa Vicentina tem ondas o ano todo e eu costumo surfar em praias que no verão estão completamente cheias. Ainda que no verão acabe por ter o seu charme, porque parece que estamos a brincar. Vamos de fato de banho e vamos só surfar um bocadinho e é muito mais divertido, no verão, porque vamos na brincadeira, não vou surfar horas e horas e horas. Dá para perceber, claramente, que quando a praia está cheia nunca é um dia muito bom de ondas. Se bem que, em Sagres, há dias em que vai tudo ver o mar quando há ondas boas. Então a praia fica cheia de pessoas que estão só a olhar. É giro porque parece um anfiteatro.

A decisão de se tornar vegetariana tornou-se definitiva aos 10 anos e depois de uma viagem à Índia

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O que é que diria à Joana que, quando era miúda, entrou no mar de Sagres com uma prancha debaixo do braço pela primeira vez?
Diria: “Olha, faz exatamente isso. Digam o que disserem, com portas abertas ou fechadas, faz exatamente o que estás aí a fazer”.

Não mudava nada?
Não. Fazia tudo outra vez. Olhando para trás, ainda mais.

E quais são os objetivos, daqui para a frente?
Ainda estou a competir, estou com muita vontade de competir. Estou a treinar para o Campeonato nacional, que sei que vai acontecer. Com os Europeus e os Mundiais ainda vamos ver o que vai acontecer, com a pandemia. Mas, se existisse um Campeonato amanhã, eu estava pronta. Gostava muito de conseguir ter mais impacto na questão da poluição dos oceanos, mas para isso vou ter de dedicar mais tempo a esse tipo de coisas. Para já, é isso: competir e os oceanos.

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