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As eleições europeias são só no dia 26 de maio, mas a corrida já começou. Os líderes partidários têm-se apressado a apresentar os seus cabeças de lista, a organizar convenções dedicadas ao tema, a inaugurar cartazes nas ruas, e a dar por iniciados os ataques uns aos outros. O CDS, para já, vai na frente: desde março de 2018 que Assunção Cristas anunciou, em congresso, quem seriam os quatro primeiros nomes da lista, encabeçada por Nuno Melo; Rui Rio fez segredo até à semana passada, altura em que anunciou, já sem surpresas, que Paulo Rangel seria recandidato; BE e PCP também repetem os trunfos, e só António Costa parece apostado numa cara nova: o cabeça de lista vai ser anunciado este sábado, mas o trunfo será o atual ministro do Planeamento e Infraestruturas, Pedro Marques.

Certo é que já se ouviu o tiro de partida. No passado domingo, o CDS inaugurou a ronda das convenções europeias, com uma espécie de speed dating temático dedicado à Europa, e este fim de semana é a vez de PS e PSD organizarem as suas próprias convenções — a do PS dedicada à Europa, e a do PSD dedicada à “construção de uma alternativa”, ou seja, mais centrada nas legislativas e sem palco especial para o candidato Paulo Rangel. Cada um tem o seu ritmo e para o PSD, europeias e legislativas, com quatro meses de intervalo, têm de ser tratadas em “paralelo” — cada uma na sua pista, mas as duas ao mesmo tempo.

CDS. Dois é pouco e três não é demais

Foi o primeiro partido a anunciar a composição da lista, há quase um ano (no congresso de março), e antecipou-se ao PS na realização de uma convenção europeia. Ou uma espécie de convenção europeia. Reunido no passado domingo numa sala do CCB, com vista para o Tejo, o CDS condensou em pouco mais de duas horas quatro painéis temáticos, onde procurou deixar um “cheirinho” da visão do partido sobre a dimensão social da Europa, a agricultura ou o mar português. Em jeito de speed dating, um membro da lista e uma personalidade independente debateram estes temas durante 10 minutos, culminando depois nas intervenções políticas de Nuno Melo e Assunção Cristas. E está feito. O CDS já anda na estrada, com cartazes de Nuno Melo espalhados nas ruas e o lema a circular: “A Europa é aqui”.

A estrela: A estrela não é novidade, sendo já a terceira vez que Nuno Melo encabeça a lista do CDS ao Parlamento Europeu. Por isso, desta vez, a estrela é outra: Pedro Mota Soares, o ex-ministro do governo Passos/Portas, que é a grande aposta do CDS para conseguir que Melo leve “companhia” para Bruxelas. O facto de Mota Soares ir em segundo lugar na lista, contudo, não foi um processo pacífico e esteve por um fio. É que o Parlamento votou uma proposta do Governo de alteração à lei da paridade que impedia que duas pessoas do mesmo sexo encabeçassem qualquer lista eleitoral (além de obrigar a uma representatividade feminina de 40%) — inicialmente a proposta seria para vigorar logo, mas acabou por ser aprovada uma proposta mais recuada, com efeitos apenas para as legislativas (deixando as europeias, para já, de fora).

A estratégia: Partir primeiro, para ganhar vantagem depois; e apelar ao voto dos descontentes com o Governo. Ou seja, assumir-se como o único partido europeísta que diverge do PS em matérias como os impostos europeus, o poder de veto na Europa em questões fiscais, e o anti-federalismo (em oposição a uma postura federalista assumida por PS e PSD). E captar votos à abstenção, que é historicamente mais elevada nas europeias do que nas legislativas. Como explicou Nuno Melo, o CDS não goza da “sorte” de partidos como o PCP que mantêm níveis de participação e de votação constantes independentemente do carácter da eleição, por isso tem de ir buscar votos a todo o lado: sobretudo à abstenção e aos descontentes com o sistema vigente.

Os adversários: Primeiro, o Governo socialista, que é o alvo mais fácil na medida em que o cabeça de lista do PS será um ex-ministro do atual governo e do governo de José Sócrates, já apelidado por Nuno Melo de “ministro do desinvestimento” ou “ministro dos PEC de Sócrates” que, ainda por cima, não soube fazer uma boa gestão dos fundos comunitários; depois, Rui Rio, o presidente do PSD que começou o mandato a dar a mão a António Costa e que, por isso, será sempre rotulado de alguém que colabora, ou pode vir a colaborar, com o Governo, enquanto o CDS “sempre foi oposição ao PS”. E a ideia parece ser passar essa mensagem com estrondo. Depois do tiro de partida no domingo, Assunção Cristas disparou outro esta sexta-feira com o anúncio de uma moção de censura ao governo. A moção, já se sabe, vai ser chumbada, mas consegue ganhos políticos imediatos (ainda que de curto prazo): mostra-se como a “líder da oposição” a Costa e obriga o PSD a ter de se definir, ou vota a favor da censura a Costa ou adota outro sentido de voto com todas as leituras que isso pode permitir.

A ideia será, portanto, pôr o dedo na ferida do PSD, ainda que sem abusar do nome do partido (que é aliado), e não tanto atacar pessoalmente Paulo Rangel, com quem Nuno Melo fez campanha lado a lado há cinco anos. E ainda, claro, a abstenção (os descontentes com a política em geral). Para esses, o CDS vai procurar dizer que a Europa importa — “A Europa é aqui” –, e que o partido, ao contrário do Governo, quer ser a voz dos portugueses lá fora, e não a voz de Bruxelas cá dentro.

O objetivo: Conseguir pelo menos mais um eurodeputado, como os dois que conseguiu em 2009 quando concorreu sozinho (em 2014 foi em coligação com o PSD). Mas dois é considerado pouco aos olhos da mui “ambiciosa” Assunção Cristas, que quer conseguir a proeza de levar três eurodeputados para Bruxelas. Também o não-tão-otimista Nuno Magalhães chegou a admitir em entrevista ao Observador que “dois eurodeputados é pouco”. Para isso, o CDS conta capitalizar votos da tradicional abstenção descontente com o sistema, e dos descontentes com o governo, incluindo ficar com uma fatia dos votos que há cinco anos deram dois eurodeputados ao partido de Marinho Pinto.

PSD. Segredo “Rangel” revelado, mas Rio só tem olhos para as legislativas

Fugiu do tema o mais que pôde, deixando alimentar o tabu sobre se Paulo Rangel voltaria a ser a aposta do PSD para as europeias, ou se um qualquer coelho iria saltar da cartola. Durante um mês ou dois adensou-se o mistério, com Paulo Rangel sempre a negar ter sido contactado pela direção do partido. Rui Rio centralizou a decisão e a informação no núcleo mais restrito possível, e só a largou na semana passada: Paulo Rangel vai mesmo ser o candidato do PSD, pela terceira vez consecutiva, conseguindo o feito de ter sido indicado por três líderes diferentes (Manuela Ferreira Leite, Pedro Passos Coelho e Rui Rio).

Desfeito o mistério, que se volte a pôr as europeias no congelador. É que o PSD já há muito tinha no calendário uma mega-convenção do Conselho Estratégico Nacional (CEN), a realizar-se este sábado, com os olhos postos das legislativas e na preparação do programa eleitoral social-democrata. “Cada coisa no seu lugar”, disse esta quinta-feira David Justino, o coordenador do CEN, quando questionado sobre esta sobreposição de temas. Ou seja, no dia em que o PS vai estar em Gaia numa convenção inteiramente dedicada às europeias, o PSD vai estar a 30km, no Europarque de Santa Maria da Feira, numa maratona de workshops e debates temáticos sobre o “estado do país”.

O objetivo é esse mesmo: dar prioridade ao país, às legislativas, para o PSD mostrar que está a construir uma alternativa estruturada, com cabeça-tronco-e-membros, e não apenas a pensar a curto prazo nos scores eleitorais. “Não é uma mera enunciação de políticas, é uma alternativa sustentada, coordenada e participada, que não se faz numa semana ou duas, mas sim num ano e meio de trabalho”, disse também David Justino para explicar o propósito da convenção deste sábado.

A estrela: É um trunfo repetido. Paulo Rangel volta a ser o número 1 do PSD, mas vai tentar ser, pelo menos durante o tempo em que vigorar a campanha e tiver palco mediático, o líder da oposição que os críticos dizem que Rui Rio ainda não é. Foi o que se viu logo no primeiro discurso que fez na sede do partido, depois de Rio o ter confirmado como “indispensável” em Bruxelas: Rangel não se alongou nos agradecimentos e passou logo ao ataque ao Governo — percorrendo todas as áreas de governação (nacional), do SNS aos incêndios, e não se cingindo no ataque a Pedro Marques, mas focando-se sobretudo no ataque a Costa. O que fica por perceber nas próximas semanas é que palco vai, efetivamente, ter Rangel. Ainda esta sexta-feira, num passeio no Porto com Rangel e com o candidato do PPE a Presidente da Comissão Europeia, Manfred Weber, o candidato Às europeias permanceu em silêncio e o protagionismo foi todo de Rui Rio.

A estratégia: Para já, passa por deixar as europeias em banho-maria e olhar para a big picture. Aliás, o “segredo Paulo Rangel” foi revelado na última quinta-feira precisamente para “não contaminar” a convenção do CEN deste sábado. Segundo explicou David Justino aos jornalistas, Paulo Rangel vai estar presente na convenção da Feira, mas não com um lugar de destaque: não terá um momento em nome próprio, nem fará nenhuma intervenção na sessão de encerramento. Em vez dele, a sessão de encerramento estará a cargo do comissário europeu Carlos Moedas (além do próprio Justino e de Rio). A ideia é “não pôr as munições todas numa” só eleição e descurar da outra, explicou David Justino. As duas têm de correr em pistas “paralelas”, quase simultâneas, já que o objetivo do PSD é apresentar o programa eleitoral para as legislativas logo a seguir às europeias, em junho, de maneira a que, brincou Justino, os portugueses possam lê-lo e amadurecê-lo “nas férias”. Por isso é que o resto da composição da lista só será revelado depois da convenção deste sábado, para não desviar atenções. Certo é que em lugar elegível deverá manter-se José Manuel Fernandes, falando-se também de nomes como a vice-presidente Isabel Meirelles ou Álvaro Amaro.

Os adversários: O adversário do PSD não pode ser outro que não o Governo. Foi o que Paulo Rangel deixou bem claro logo na sua primeira intervenção na qualidade de candidato recém-anunciado, ao lançar perguntas e desafios concretos a António Costa, o próprio. Um deles foi o momento em que exortou o primeiro-ministro a esclarecer de uma vez por todas se Pedro Marques é candidato, para não andar um ministro-candidato a anunciar investimentos fazendo uma campanha “dissimulada”. Mais: Rangel não poupou palavras para criticar a gestão dos fundos de coesão feita pelo atual governo (na pessoa do ministro Pedro Marques, que tutela a pasta), e o facto de esse mesmo ministro “se contentar com uma proposta da Comissão para o próximo quadro financeiro em que Portugal perde 7% dos fundos de coesão, enquanto países bem mais ricos aumentam a sua dotação”. O adversário está declarado: é António Costa; Pedro Marques é acessório.

O objetivo: A grande prova da liderança de Rui Rio joga-se nas legislativas, mas as europeias são o primeiro teste. Atualmente, o PSD tem sete eurodeputados (menos um do que o PS), pelo que manter-se assim já é uma grande vitória. Mesmo que falhe redondamente o primeiro embate, depois de Luís Montenegro ter falhado o número político do desafio ao líder, é pouco provável que haja movimentações para afastar Rui Rio. Até porque, com o PS ainda nas boas graças, não é expectável que o PSD ganhe as europeias. Paulo Rangel fez a sua parte no primeiro discurso: “A luta começa hoje e vai ser ganha ao contrário do que muitos imaginam”, disse. Em todo o caso, Rio terá uma tarefa minuciosa até às legislativas para que o tabuleiro fique a seu favor, o que inclui gerir as expectativas.

PCP. Amigos, amigos, europeias à parte

O mesmo candidato, uma estratégia diferente. Depois de o PCP ter sido penalizado nas urnas naquele que foi o primeiro teste eleitoral pós-geringonça, as autárquicas de 2017 (onde deixou fugir algumas das suas mais emblemáticas câmaras para as mãos do PS), todo o cuidado é pouco. A CDU (PCP e PEV) tem atualmente três eurodeputados em Bruxelas, tendo sido a terceira força política mais votada em 2014 (atrás do PS e do PSD/CDS), pelo que a bitola vai ser não descer desse pódio. Para isso, contudo, os comunistas têm de fazer o pino e a cambalhota para explicarem aos fiéis eleitores comunistas porque apoiam o PS no Governo e porque não devem votar no PS nas europeias.

A estrela: João Ferreira volta a ser, sem surpresas, o cabeça de lista da CDU às europeias. É um dos principais rostos da nova geração comunista, e uma das grandes apostas do PCP inclusive para o futuro interno do partido. Está em Bruxelas desde 2009, primeiro como número dois de Ilda Figueiredo, depois já como cabeça de lista, em 2014. Curioso é o facto de João Ferreira ter sido também a aposta do PCP à câmara de Lisboa nas malfadadas autárquicas, tendo ficado como vereador não executivo.

A estratégia: A do PCP é clara: distância do Governo socialista. E, para isso, o truque é colar os socialistas à direita. Foi isso que João Ferreira deixou bem claro no discurso que fez no Capitólio, em Lisboa, depois de ter sido anunciado como cabeça de lista. “As águas estão bem separadas”, disse: PS, PSD e CDS estão “do lado das falsas promessas” e a CDU está ao “lado dos trabalhadores e do povo”, da “independência” e da “soberania nacional”. Apesar de ser um equilíbrio difícil, já que apoia o governo no Parlamento, o PCP vai escudar-se naquela que sempre foi a maior e inequívoca divergência dos comunistas com os socialistas: os constrangimentos europeus e a submissão a Bruxelas. “Nestas eleições para o Parlamento Europeu, também se decide se aceitamos esta sentença ou se, pelo contrário, afirmamos corajosamente o direito soberano do país ao seu desenvolvimento. Se aceitamos a continuação desta opressão nacional, que é também uma opressão de classe sobre os trabalhadores e o povo português, ou se mobilizamos forças para romper com a dependência e a subordinação”, disse a 17 de janeiro, quando foi formalmente apresentado como candidato ao Parlamento Europeu.

Os adversários: Disputando o eleitorado da esquerda com o PS e o Bloco de Esquerda — disputa que se intensificou desde a formação da “geringonça”, em que os três ficaram no mesmo saco –, esses serão os principais adversários do PCP, sobretudo o BE que, tal como o PCP, também é contra o Tratado Orçamental. João Ferreira deixou claro que vai fazer campanha por “uma nova Europa”, pelo que vai insistir na associação do PS à direita (PSD/CDS): de um lado os que concordam com esta Europa, do outro os que não concordam.

O objetivo: Não repetir o desaire eleitoral das autárquicas. Se isso acontecer, é a prova de que os militantes comunistas estão a dar um cartão vermelho ao PCP por causa da “geringonça”. E será uma mau presságio para as legislativas… Portanto, não baixar dos três eurodeputado é uma meta não escrita.

PS. O aquecimento para o confronto de outubro

A estrela: Ao contrário de todos os outros partidos com deputados no Parlamento Europeu, o PS mudou o seu front man para Bruxelas nestas eleições: sai Francisco Assis, entra Pedro Marques, o ministro do Planeamento e das Infraestruturas. À exceção de Mário Centeno (pelas razões óbvias), o ministro das obras públicas é um dos membros do Governo que, estando em Lisboa, mais tem lidado com as questões europeias, até porque tudo o que eram fundos europeus tinha passagem obrigatória pelo edifício do Campo Pequeno. O ministro feito candidato é a estrela. Quanto ao resto, muitas incógnitas na lista do PS, apesar de todas listas de nomes partilhadas entre os militantes. Certezas absolutas — além da saída de Ana Gomes e de Manuel dos Santos —, só mesmo António Costa as tem.

A aposta em Pedro Marques vai obrigar a uma remodelação governamental, que inclui também a saída da ministra da modernização administrativa Maria Manuel Leitão Marques, tida como certa no segundo lugar da lista. Há, por isso, secretários de Estado que passam a ministros, como é já certo que vai acontecer a Pedro Nuno Santos, por exemplo, que deverá herdar os dossiers das Infraestruturas e acrescentar-lhes a pasta da habitação. Não é a única mudança, haverá ainda uma recomposição cirúrgica de pastas e de organograma no governo. Mas tudo isso está reservado, em princípio, para domingo. Para já, este sábado é dia de apontar os holofotes a Pedro Marques.

A estratégia: A corrida do PS às europeias começou quando faltavam pouco mais de quatro meses para as eleições. Os socialistas não jogaram, claramente, por antecipação, sobretudo se olharmos para o calendário do CDS “campeão da antecedência” e o tiro de partido que deu há quase um ano no seu último congresso. Ainda assim, a agenda das primeiras semanas deste ano foi rica em debates sobre a Europa. De norte a sul, com um salto pelo meio a cada uma das ilhas — não fosse ponto assente que as regiões periféricas voltam ter lugar elegível —, os socialistas juntaram-se por sete vezes em sete locais diferentes (Alentejo, Algarve, Açores, Madeira, Centro, Norte e Lisboa e Vale do Tejo) para falar sobre o tema “Portugal é Europa” na ótica de cada uma das regiões. Costa falou sempre nesses encontros e volta a falar este domingo, em Gaia, onde vai desfazer um segredo que há várias semanas deixou de sê-lo: Pedro Marques será o cabeça-de-lista do PS nas eleições de 26 de maio.

Os adversários: Todos, à direita e à esquerda. Se as europeias são também um barómetro do estado do governo e do estado da oposição, a escolha dos socialistas para cabeça de lista ajuda ainda mais a misturar as duas coisas. Pedro Marques é ministro, não vai ser o único membro do governo em campanha, e por isso é o PS quem vai ser o alvo preferencial de todos os partidos que querem e precisam de atacar o executivo. À esquerda, PCP e BE começaram já a carregar nas diferenças e a encostar os socialistas à direita. Do lado do PSD, Rangel fez um discurso de apresentação muito duro quer para com o adversário direto, quer para o primeiro-ministro. E o CDS até uma moção de censura apresentou.

O objetivo: Foi o próprio António Costa quem definiu as europeias como umas “eleições da oposição, o momento certo para se dar um salto qualitativo” — para quem, lá está, é oposição. Costa falava no programa “Quadratura do Círculo”, mas o contexto não podia ser mais distinto do atual: o PS era então liderado por António José Seguro e estava na oposição, o país vivia sob assistência financeira e respondia aos comandos da troika. Agora, Costa é primeiro-ministro. E já não há programa de assistência, nem visitas trimestrais dos senhores de malas na mão. Na altura, não bastava “ganhar poucochinho”. E agora, a cinco meses das legislativas e com umas eleições na Madeira pelo meio (que Costa quer arrebatar para o PS), qual é o objetivo do líder socialista? A corrida às europeias vai servir de aquecimento, um primeiro embate eleitoral para marcar o tom para outubro. De preferência, com mais um lugar em Bruxelas para os socialistas.

BE. Marisa e “companhia” já têm meta traçada

Se este sábado tem as convenções do PS e do PSD em grande destaque, o Bloco também tem um evento importante em termos eleitorais, embora bastante mais discreto. À tarde reúne-se a Mesa Nacional para fechar a lista de candidatos às europeias. É uma formalidade, até porque o primeiro trunfo é repetido, mas o Bloco de Esquerda não quer perder tempo e já arrancou a sua pré-campanha. As últimas jornadas parlamentares, em Aveiro, no início de fevereiro, deixaram isso bem evidente: Marisa Matias teve um papel de destaque e Catarina Martins definiu logo ali qual é a meta eleitoral dos bloquistas: mais um eurodeputado. Catarina Martins, de resto, não tem perdido uma oportunidade de atacar os cabeças de lista adversários: Paulo Rangel, Nuno Melo, e sobretudo António Costa (aí é que reside a chave do sucesso).

A estrela: É mais uma repetição. Marisa Matias volta a ser a escolha dos bloquistas para encabeçar a lista às europeias pela terceira vez consecutiva. Nas últimas eleições, o BE conseguiu apenas 4,56% dos votos, o que se traduziu em apenas uma Eurodeputada. Mas o facto de, nas presidenciais de 2016, Marisa Matias ter conseguido ser a terceira mais votada, e a mulher mais votada de sempre em eleições para Belem, faz com que o Bloco encha o balão da expectativa.

https://observador.pt/videos/mini-entrevista/mini-entrevista-marisa-matias-ministeriavel-tem-de-me-deixar-respirar/

A estratégia: Atacar e diminuir António Costa, associando-o às políticas ditadas por Bruxelas. Catarina Martins disse-o há uma semana num discurso de encerramento de uma formação para jovens, a Inconformação, em Viseu: “O primeiro-ministro, António Costa, disse que a Europa precisa de mais orçamento” e apesar de a coordenadora bloquistas achar “muito bem”, questionou logo para que é o orçamento que pede.

“Qual é a política que queremos fazer com esse mais orçamento que a Europa precisa? Porque se for mais orçamento para mais PPP [Parcerias Público Privadas] se calhar não, já tivemos disso o suficiente”, disse, defendendo o programa do BE que, no seu entender, tem conteúdo, enquanto os outros se vão perder no “lixo” e em campanhas sujas, para desviar as atenções do essencial.

Os adversários: Ainda Pedro Marques não tinha sido anunciado como cabeça de lista do PS (o que só vai acontecer este sábado) e já Marisa Matias atacava a falta de investimento no país (sendo Pedro Marques o ministro responsável) nas jornadas do BE deste início de fevereiro. “O Governo do PS e Pedro Marques em particular criticaram a direita por não ter feito rigorosamente nada durante quatro anos no ramal da Lousã. Mas Pedro Marques e o PS vão pelo mesmo caminho: não é a anunciar autocarros elétricos que se resolve o problema. Obviamente que é melhorzinho, mas nós queremos é investimento a sério”, disse. Esse, de resto, tem sido o denominador de todo o espectro partidário: todos, da esquerda à direita, atacam a dupla Costa/Pedro Marques na esperança de capitalizarem algum do descontentamento face ao poder instalado. O problema do BE é que, tal como o PCP, apoia esse poder instalado em território nacional. O exercício é, pois, vincar as diferenças este os dois no plano europeu e na resposta aquilo que descrevem como as “amarras”do tratado orçamental. Certo é que entre BE e PCP há uma espécie de pacto de não agressão: os bloquistas sabem que, ainda que partilhem a esquerda, não partilham o mesmo eleitorado. O mote tem de ser segurar os votos do BE e não deixar que fujam para o PS.

O objetivo: Dar “companhia” a Marisa Matias, como definiu Catarina Martins nas jornadas do BE em Aveiro. “A Marisa Matias é, toda ela, compromisso. Mas a Marisa Matias precisa de ter mais companhia com ela no Parlamento Europeu”, disse a coordenadora do BE. Ou seja: pior do que um eurodeputado é difícil, portanto, mais um já é uma grande vitória. A meta está traçada.