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Nunca ganhei um euro com o partido. Mas sempre disse que o meu papel era de segunda linha. Só fui parar à primeira linha porque não estava lá mais ninguém",

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Nunca ganhei um euro com o partido. Mas sempre disse que o meu papel era de segunda linha. Só fui parar à primeira linha porque não estava lá mais ninguém",

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

"Esta é uma história improvável". Carlos Guimarães Pinto conta as memórias da campanha que levou a IL ao Parlamento /premium

Carlos Guimarães Pinto arrepende-se da forma como abandonou a liderança do IL. Apoiantes sentiram-se traídos e isso "pesa-lhe na consciência", diz no livro "Força das Ideias: Histórias de uma eleição"

Três dias bastaram a Carlos Guimarães Pinto para encolher um ano de liderança do partido Iniciativa Liberal em pouco mais de 200 páginas. “Pensei que me tinha esquecido de muitas histórias, mas assim que comecei a escrever, apercebi-me que tinha tudo presente”, assegura o economista, que falou com o Observador a propósito do pré-lançamento do livro “Força das Ideias: Histórias de uma eleição”, da Alêtheia Editores. O livro é uma retrospetiva da curta experiência de Guimarães Pinto na liderança de um partido que conseguiu uma eleição inédita ao parlamento. As memórias, os discursos e os artigos que escreveu nesse período, o relato do bom, do mau, das surpresas e das desilusões de um candidato “pouco mediatizável” que superou expectativas e que agora, que olha para trás, se arrepende de ter saído tão cedo da vida política: “Esta é uma história improvável e uma experiência de vida difícil de esquecer”.

“Eu acho que vocês estão lixados". Foi assim que naquele fim de tarde de Agosto de 2018 respondi à pergunta sobre o que pensava sobre o futuro da Iniciativa Liberal. Não estaria muito longe da verdade. O partido tinha acabado de sair de uma crise interna em resultado da notícia de que a página de Facebook do partido tinha sido anteriormente uma página de apoio a António Costa

Carlos Guimarães Pinto admite que “foram tempos excecionais” os que viveu entre 13 de outubro de 2018, quando se apresentou na convenção eletiva em Montemor-o-Velho, perante uma plateia de 100 pessoas, e o dia 30 de Outubro de 2019, quando anunciou, no Facebook, que a sua missão estava cumprida no “dia histórico” em que a força política se estreou no parlamento.
“Enquanto andei na política, o meu objetivo foi ser a oposição que o país não tinha. Trabalhei sempre por gosto. Nunca ganhei um euro com o partido. Mas sempre disse que o meu papel era de segunda linha. Só fui parar à primeira linha porque não estava lá mais ninguém”, admite.

Esse discurso, o de líder improvável, sem jeito para a exposição pública, que pegou num partido desconhecido, e com muito trabalho e poucos recursos, fez o impensável e elegeu um deputado, estende-se ao longo de várias passagens do livro. Aliás, arranca logo nas primeiras páginas, onde assume que, quando chegou à política, não só não era mediático como era pouco mediatizável: “Gago, um pouco tímido e sem grande vontade de exposição. Mais habituado a escrever do que a falar, sem grandes preocupações com a imagem e pouco polido nas suas intervenções públicas nas redes sociais, dificilmente corresponderia ao perfil de sonho para líder de um partido”.

"Naquela fase sentia alguma frustração pela atenção desproporcional dada ao Aliança e ao Chega, apenas por terem líderes mediáticos. Sentia a frustração de quem sabia que estava a trazer algo verdadeiramente novo à política, mas que não tinha a atenção merecida. Três meses depois de assumir o cargo de presidente do partido ainda não tinha nenhum pedido de entrevista de nenhum órgão de comunicação social dos principais grupos do país.

Essa tendência para se “desvalorizar”, diz o economista, nada tem a ver com uma faceta da sua personalidade, mas com o hábito de olhar sempre para os factos. “A verdade é que na história portuguesa, até à chegada do PAN, os partidos sem líderes carismático não tinham sucesso”. O Iniciativa Liberal (IL) teve e Carlos Guimarães Pinto, mesmo por trás dessa timidez, não fecha a porta a um regresso à vida política. “Consideraria voltar a candidatar-me às próximas legislativas. Teria muito gosto em ser deputado. Ser eleito pelo meu distrito, pelo meu partido, com as ideias que sempre defendi”, admite ao Observador.

"A ideia que tinha daquela noite ainda era a memória da noite das Europeias: um discurso interno para os apoiantes. Mesmo com a eleição de um deputado, não julguei que fossemos ter a atenção que tivemos. Não sabia como reagir. A felicidade era imensa, mas sentia que não a devia tornar tão visível. A minha expressão facial ia mudando entre a alegria que sentia e a ideia de que tinha que parecer mais formal em frente às televisões.

No entanto, só nas legislativas de 6 de Outubro é que se apercebeu que poder continuar esse percurso político por mais quatro anos, mas agora dentro da Assembleia da República, “podia ser perfeito”. E ainda se lembra do que sentiu: “Na noite das eleições europeias não veio um jornalista à nossa sede de campanha, mas naquela noite todas as televisões estavam presentes ainda antes de saírem os resultados. De repente, um cenário que eu tinha sempre considerado longínquo, a minha eleição, parecia possível. Seria um sonho tornado realidade”. Foi a primeira vez que considerou mudar de vida. Até aí, a sua intenção foi sempre passar a liderança do partido a alguém “de primeira linha”.

Algumas sondagens à boca de urna chegaram a dar como garantida a eleição de dois deputados do IL. O que não se veio a concretizar. Por menos de cinco mil votos falhou a eleição. Diz que não houve “tempo para tristezas” porque o grande objetivo tinha sido atingido. O partido, defende, ficou bem entregue a João Cotrim de Figueiredo, o líder que a Iniciativa Liberal precisava. “Bom comunicador, conhece a imprensa e isso é importante”, resume.

"Ficou também claro pelas interacções iniciais no Twitter que iríamos ser um alvo preferencial da máquina de propaganda online do PS e do BE. Muito mais do que qualquer outro partido da nossa dimensão e, surpreendentemente, até mais do que o CDS ou o PSD. A Explicação para isto era mais pessoal do que ideológica. Eu e outros liberais já andamos a discutir nas redes sociais e na blogosfera há muitos anos, praticamente desde que o acesso à internet se generalizou. 

No seu caso, diz, ter estado fora do país durante grande parte da vida profissional também não o ajudou a criar uma rede de “amigos” na imprensa e entre “potenciais financiadores” que pudessem ajudar. “Ainda para mais vivia longe de Lisboa, onde estas redes de contactos são mais fáceis de estabelecer”.

Se um regresso à política se vier a confirmar, o pior vai ser ultrapassar o desconforto com os media, que é indisfarçável ao longo do livro. Mas recusa que o tenha escrito para se vingar da forma como diz ter sido tratado pelos jornalistas. “Não tenho jeito para presenças mediáticas. Eu gosto de intervir publicamente sem me expor publicamente”, confirma. Mas, de acordo com aquilo que escreve no livro, acredita ter sido escolhido pelo PS, o Bloco de Esquerda e até por Pedro Santana Lopes, que nessas eleições concorria pelo Aliança, como um “alvo a abater”. Talvez isso tenha ajudado os eleitores a ver o IL como um “partido grande”, admite Carlos Guimarães Pinto. Mas no livro, o relato que faz desses tempos revela que se sentiu muitas vezes atacado ou simplesmente ignorado pela comunicação social.

Não deixa de ser curioso, no entanto, que admita terem sido os media – juntamente com as redes sociais – a projetar o líder e o partido em dois momentos cruciais. O primeiro, aconteceu no período de preparação para as eleições europeias, quando o IL tinha a conta bancária negativa e precisava de doações para investir nos primeiros cartazes políticos – uma estratégia que viria a revelar-se fundamental na notoriedade do partido.
Foi nessa fase, “em que tivemos de nos arranhar para conseguir juntar dois mil euros”, que um tweet a questionar a origem dos fundos para pagar esse cartaz, se transformou num momento de viragem na vida do partido. “Em três meses, e depois de termos sido atacados por pessoas ligadas ao PS, conseguimos angariar dez mil euros”, recorda o ex-líder do Iniciativa Liberal.

Ficaram conhecidos como o “partido do Twitter”, e se esse facto pode não ter trazido muitos votos diretamente, foi visto como essencial numa primeira fase para obter fundos e “criar empatia entre algumas pessoas que haveriam de ser determinantes na vida do partido mais tarde”, recorda o autor.

Um segundo momento, a escassos dias das eleições legislativas, novamente com uma figura mediática, viria a alavancar o partido e a ajudar na eleição do deputado único: a entrevista com Ricardo Araújo Pereira no Gente Que Não Sabe Estar (TVI). Ainda hoje, Guimarães Pinto está convencido que esse programa foi chave para os resultados eleitorais. “Nesse dia havia o jantar de fecho de campanha em Lisboa. Depois da entrevista fui para lá. Foi uma receção que nunca irei esquecer. Provavelmente, ainda mais entusiástica do que a que teria uns dias mais tarde na noite eleitoral”.

"A minha ligeira gaguez e alguma timidez em ambientes de estúdio retira -me a capacidade de exposição que tenho quando escrevo. Sabia desde sempre que falar em televisão ou rádio nunca seria o meu lugar na política. Quando aceitei ser presidente do partido não esperei que o momento em que esta limitação fosse um problema chegasse tão cedo. A maioria dos presidentes dos pequenos partidos não tinha grandes aparições mediáticas. 

Esse é o lado positivo de quem avança para um desafio sem ter “nada a perder”. Superar os desafios, neste caso, a sua falta de vontade frente às câmaras. O pior são os erros que se cometem quando se está a dar os primeiros passos. No livro, Carlos Guimarães Pinto enumera-os a todos. Até quando o partido anunciou que rejeitaria a subvenção de campanha caso viesse a ter direito a ela. Uma promessa que veio a ser cumprida, “a custo”, nas legislativas e que hoje considera que, apesar de todos os argumentos estarem corretos, “a opção pode ter sido um excesso de zelo ideológico”. Ao Observador assume ainda a falta de preparação nas eleições Europeias. Valeu-lhe, diz, um “candidato extraordinário”, Ricardo Arroja, que trouxe ao partido “respeitabilidade” e João Cotrim de Figueiredo. Sobre ambos escreve assim no livro: “Tive a sorte de poder contar com duas pessoas, o Ricardo e o João, que se juntaram a nós e deram a cara pelo gosto que tinham pelas ideias, mais do que pela posição que lhes foi oferecida”.

Para o fim, fica o que talvez tenha sido o seu maior arrependimento, e que ainda hoje lhe pesa na consciência: o timing de abandonar a liderança do partido. “Provavelmente poderia ter gerido melhor esta situação. Talvez se tivesse esperado um pouco mais para que o João ganhasse no parlamento o coração das pessoas, tivesse evitado o sentimento de traição nos apoiantes”. Fica a dúvida.

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