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Estado Islâmico: um erro de cálculo que está a sair caro a todos

Subestimado pelas maiores potências, armado pelos (indiretamente) EUA e (diretamente) aliados árabes, cresce com a guerra na Síria e a falta de entendimento sobre o futuro de Assad. A culpa? De todos.

Quando na sexta-feira, dia 13 de novembro, um grupo de terroristas afiliados ao Estado Islâmico levou a cabo seis ataques coordenados na capital francesa, e provocou a morte a 130 pessoas, muitos viram este dia como o ’11 de setembro’ francês. A reação imediata foi uma caça ao homem, uma declaração de guerra inequívoca da parte do Presidente francês e ataques aéreos, menos de dois dias depois, à “capital” do movimento terrorista na Síria, Raqqa.

Mas a guerra não começou a 13 de novembro. Há mais de um ano que França atacava posições do Estado Islâmico no Iraque e há dois meses começou a fazê-lo na Síria. Os Estados Unidos estão no terreno há anos. Os aviões russos fazem ataques aéreos desde outubro e a Turquia intensificou a ofensiva, depois de um atentado suicida imputado ao Estado Islâmico ter provocado a morte a 102 pessoas.

Com tantos inimigos em comum, o Estado Islâmico parece continuar a crescer e em 2014 foi a segunda organização mais mortífera em ataques terroristas, mais de 6000 pessoas mortas, apenas superada pelo grupo terrorista nigeriano Boko Haram. Em combate, foi de longe a mais mortífera, sendo atribuídas a este grupo mais de 20 mil mortes. Mas afinal, que guerra estão a travar os inimigos do Estado Islâmico na Síria? Para entender, é preciso recuar ao início da instabilidade na Síria e às divisões étnicas no Médio Oriente.

De protestos adolescentes à guerra civil

Depois de um grupo de adolescentes ter sido detido e torturado pelas forças do regime sírio, grandes manifestações pró-democracia invadiram a cidade de Deraa, no sul da Síria, em março de 2011. O resultado foi o pior possível: as forças de segurança abriram fogo contra os manifestantes.

O massacre não deteve os manifestantes, apenas colocou mais achas na fogueira. Os protestos que estavam limitados a Deraa passaram a ser nacionais e exigiam a demissão de Bashar al-Assad. Três meses depois, já eram centenas de milhares de pessoas nas ruas a pedir a saída do ditador e a repressão do regime levou a que muitos dos apoiantes da oposição começassem a pegar em armas. Em primeiro lugar para se defenderem. Eventualmente para expulsar as forças do regime das suas localidades.

Com a escalada da violência, os opositores do regime começaram a organizar-se e formaram forças que passaram a lutar pelo controlo das cidades, localidades e até das zonas rurais. A violência alastrou-se de tal forma que chegou à capital, Damasco, e à segunda cidade da Síria, Aleppo, no ano seguinte.

A juntar a uma já explosiva situação, em agosto de 2013, com um grupo de inspetores das Nações Unidas na Síria para investigar o uso de armas químicas pelo regime, o regime sírio atacou a cidade de Ghouta. No ataque, concluiu a ONU, foram usadas armas químicas, com gás sarin.

Os ataques em Ghouta

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Os inspetores das Nações Unidas chegaram a Damasco a 18 de agosto, a convite de Bashar al-Assad, para investigarem alegações de que o regime estaria a usar armas químicas contra os seus opositores. Três dias depois, o Exército sírio atacou três regiões, a apenas 12 quilómetros do local onde estavam os inspetores: Ghouta, Zamalka e Ein Tarma.

Uma semana após os ataques, os inspetores visitaram os locais e concluíram, de acordo com a investigação divulgada em meados de setembro, que existiam provas “claras e convincentes” de que foram usados mísseis com gás sarin, que paralisa os músculos dos pulmões e provoca a morte por asfixia quase instantânea a quem o inalar. Mesmo uma pequena dose é fatal.

A ONU exigiu de imediato o cessar-fogo na região.

Os poderes ocidentais exigiram a destituição de Assad e o presidente sírio viu-se a braços com a possibilidade de uma intervenção norte-americana, mesmo atribuindo aos rebeldes a responsabilidade pelo uso deste tipo de armamento.

Os protestos tinham virado guerra civil e, em junho de 2013, as Nações Unidas já estimavam que mais de 90 mil pessoas tivessem morrido no conflito. Em 2014, este número saltou para 250 mil.

Mas no centro da disputa — e na ausência de resolução do problema — estão dois conflitos de maior dimensão, um mais local, outro quase mundial: uma disputa religiosa que remonta às origens do Islão, entre sunitas e xiitas, e uma luta pela influência no Médio Oriente, que envolve quase todas as maiores potências do mundo.

Os erros no Iraque

Os erros que permitiram o crescimento do grupo terrorista Estado Islâmico não podem ser imputados a uma parte apenas. E não começaram na Síria. Sucessor da resistência à guerra no Iraque como braço da Al-Qaeda na região, o grupo foi não apenas subestimado, como alimentado pela estratégia norte-americana neste país após a invasão de 2003, que levou à queda de Saddam Hussein.

Antes de mais, a queda de Saddam Hussein levou a uma mudança de regime e à subida dos xiitas ao poder. A decisão norte-americana de tentar reconstruir o Exército iraquiano, afastando os líderes na altura de Saddam para evitar que aliados do antigo regime sunita prejudicassem os esforços, criou dois problemas, que em muito ajudaram ao crescimento do Estado Islâmico.

Com um regime de origem xiita, também ele repressivo, no poder, e ao sentirem-se excluídos de uma solução a que se juntou a violência na região, os sunitas começaram a juntar-se à resistência e tornaram-se um grupo fértil para os esforços de recrutamento do Estado Islâmico.

Em segundo lugar, o novo exército iraquiano, para além de treinado, foi também equipado pelos norte-americanos. Quando os Estados Unidos achavam que tinham reduzido o grupo a uma presença residual na região (ainda como Al-Qaeda do Iraque), uma ofensiva do grupo venceu um mal preparado e frágil exército iraquiano e tomou posse do armamento norte-americano, o que permitiu dar um poder de fogo às suas tropas de incomparável dimensão e obter artilharia pesada.

A Rússia tem sido o principal obstáculo à saída de Assad e a sua intervenção contra o Estado islâmico pode ser a chave para que Assad se consiga manter no poder

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A ameaça deste grupo não era desconhecida do Exército norte-americano, mas foi ignorada pelos seus poderes. Num relatório de 2012, que foi desclassificado em maio deste ano, da autoria do Departamento de Defesa norte-americano sobre a situação no Iraque, os responsáveis avisam que “o Estado Islâmico do Iraque [sua primeira designação] pode declarar um Estado Islâmico através da sua união com outras organizações terroristas do Iraque e da Síria, que iria criar um sério perigo no que diz respeito à unificação do Iraque e à proteção do seu território”.

O mesmo relatório aponta que existia o risco de ser estabelecido um principado salafista (ultra-conservador e ortodoxo, mais próximo da Arábia Saudita em termos de interpretação do Islão) na zona este da Síria, em Hasaka e Der Zor.

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O relatório não só foi ignorado, no que ao Estado Islâmico diz respeito, como avança ainda pistas sobre as intenções das nações que apoiavam a oposição a Bashar al-Assad, dizendo que o estabelecimento deste Estado “é exatamente o que querem os poderes que apoiam a oposição, de forma a isolar o regime sírio”, considerado o foco da expansão xiita no Irão e no Iraque.

Estado Islâmico consolida o seu poder

Depois das derrotas que sofreu em 2006 e 2007, o Estado Islâmico acabou por ganhar força nos conturbados territórios do norte e leste da Síria, que caíram nas mãos dos rebeldes que lutavam contra Bashar al-Assad. A partir de 2013 essa força cresceu ainda mais, em especial com a tomada de Raqqa, a cidade considerada como capital do entretanto autoproclamado Estado Islâmico. Como parte da coligação de grupos rebeldes mais radicais que combatiam o regime sírio, o Estado Islâmico começou aos poucos a dominar os restantes grupos rebeldes e a executar todos os que lhe fizessem frente.

Fossem infrações à visão estrita que têm do Islão, ou simples vontade de domínio, a verdade é que a brutalidade dos métodos do Estado Islâmico levou a Al-Qaeda a excluir o grupo das suas fileiras.

Consolidado o poder na parte norte e este da Síria, com Raqqa como cabeça de cartaz do Estado que querem impor, o grupo avançou para a tomada de Mossul, a segunda maior cidade do Iraque. Com a cidade tomada, os terroristas ficaram na posse de milhões de dólares nos cofres dos bancos, das bases militares iraquianas, expulsaram a polícia e começaram a executar polícias, políticos e todos os seus opositores, deixando nas ruas os corpos dos assassinados e impondo a sua versão da lei islâmica.

A ameaça deste grupo, aliada ao choque provocado pelos métodos brutais que utilizam para exigir a retirada das tropas estrangeiras da região (como a decapitação de vários reféns, entre eles o jornalista James Foley), levou finalmente à intervenção dos Estados Unidos.

EUA começam intervenção militar

A expansão considerável do EI no Iraque e a pressão pública dos vídeos divulgados da decapitação dos reféns norte-americanos, levou à intervenção norte-americana contra o Estado Islâmico no Iraque apenas em setembro de 2014.

No entanto, a questão síria levou a que a intervenção contra o Estado Islâmico fosse desenhada de uma forma que veio a revelar-se catastrófica. Após a investigação dos inspetores das Nações Unidas, que concluiu que Assad teria usado armas químicas contra os opositores do regime, Barack Obama ameaçou com a intervenção militar para depor o regime sírio. A França declarou de imediato o seu apoio à destituição de Assad e estava pronta para avançar com os norte-americanos na Síria, mas a oposição da Rússia e do Irão a esta solução, assim como os fantasmas recentes do custo da guerra no Iraque, fizeram Obama recuar.

A solução encontrada na altura foi destinar 500 milhões de dólares ao treino de uma fação moderada de rebeldes na Síria e ao seu armamento: o Exército Livre da Síria, composto por várias fações étnicas e com desertores das forças armadas do regime sírio, que tinham como objetivo combater o Estado Islâmico, mas não o regime de Bashar al-Assad.

A falta de disciplina do grupo e as suas guerras internas levaram a uma quase desintegração do grupo. A tentativa de criar uma nova força armada dentro da Síria falhou, e parte do seu equipamento militar, fornecido por norte-americanos, foi parar às mãos de grupos extremistas, como a Frente al-Nusra, afiliada da Al-Qaeda.

Durante este período, o Estado Islâmico continuou a crescer, e só os grupos extremistas como a Al-Qaeda eram eficazes a combater o entretanto autoproclamado califado. A estratégia norte-americana mudou recentemente, com Obama a anunciar que ia deixar de tentar criar uma nova força no terreno e passar a apoiar os grupos rebeldes já no terreno.

Um dos ataques levados a cabo pelo regime sírio enquanto os inspetores das Nações Unidas se encontravam em Damasco para investigar alegações de uso de armas químicas.

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A disputa Irão – Arábia Saudita pelo controlo da região

Não eram só os Estados Unidos que estavam envolvidos na contenda. No meio da disputa sobre o poder na Síria, desenvolveu-se uma luta pelo poder na região que acabou por ajudar o Estado Islâmico.

A balança do poder no Médio Oriente estava mais equilibrada que nunca. Alguns dos aliados dos Estados Unidos, como a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e a Turquia, queriam a saída de Assad, Assad era apoiado pelo Irão, que por sua vez encabeçava o grupo de países com liderança xiita e financiava os grupos xiitas na região.

Uma disputa com 1400 anos

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A sucessão do profeta Maomé, alegadamente em 632, criou uma das maiores e mais perigosas divisões no Islão. Um grupo achava que o sucessor devia ser escolhido entre os seus mais próximos seguidores. Outro defendia que tinha de ser descendente do profeta.

Um grupo de seguidores proeminentes, que veio a evoluir para o que são hoje os sunitas, escolheu  Abu Bakr, companheiro de Maomé, como o primeiro califa – o líder da comunidade islâmica -, contra as objeções de quem favorecia Ali ibn Abi Talib, primo e afilhado de Maomé. Os xiitas – cujo termo deriva de ‘seguidores de Ali’ – acreditavam que Ali e os seus descendentes faziam parte de uma ordem divina. Sunistas – que significa seguidores da sunna, ou ‘caminho’, de Maomé, opunham-se a este tipo de sucessão.

Ali tornou-se califa em 656, mas foi assinado apenas cinco anos depois. O califado passou para as mãos dos sunitas, mas os xiitas rejeitavam estes líderes e em 658, os soldados do segundo califa, Umayyad, mataram o filho de Ali, Husayn, com receio de que ele chegasse ao poder em Karbala. Este veio a revelar-se um momento decisivo para a criação da identidade destas duas correntes. Hoje, mais que uma disputa pela liderança, a divisão entre sunitas e xiitas é uma divisão de identidades profundamente diferentes.

Como o próprio vice-presidente dos Estados Unidos veio admitir — embora a Arábia Saudita rejeite liminarmente — o desejo destes três países de ver Bashar al-Assad fora do poder era de tal ordem, que começaram a armar os grupos rebeldes que o estavam a combater na região. Muito do armamento, segundo os norte-americanos, terá ido parar às mãos da Al-Qaeda na região, mas não só, também acabou na posse do Estado Islâmico.

Do lado do Irão, o apoio a grupos xiitas que tentam manter Assad (que é alauita, uma das muitas confissões xiitas e que tem maior expressão na Síria, mas também alguma na Turquia e no norte do Líbano) no poder enfraquecem uma parte da oposição que estará precisamente a combater o Estado Islâmico na Síria. A isto junta-se o apoio da Rússia, que começou os ataques alegadamente contra o Estado Islâmico em outubro, mas que segundo os norte-americanos não tem atacado alvos desse grupo terrorista, mas sim os mesmos opositores do regime que também estão a tentar combater o Estado Islâmico, correndo o risco de aumentar ainda mais as fileiras do Estado Islâmico como último reduto para os sunitas.

O papel da Turquia

Acusada de ser muito permissiva no que diz respeito às suas fronteiras com a Síria — por onde as autoridades internacionais acreditam que passam grande parte dos estrangeiros que se juntam ao Estado Islâmico e por onde passarão também alguns dos alegados jihadistas que terão mão nos atentados na Europa — a Turquia decidiu também atacar o Estado Islâmico, em especial depois do atentado imputado ao movimento que provocou a morte a mais de 100 pessoas em Ancara no mês passado.

No entanto, o presidente Reçep Tayip Erdogan tem reavivado uma longa disputa contra os curdos e no meio dos ataques aéreos, os rebeldes curdos, que têm sido dos mais eficazes a combater o Estado Islâmico, estarão a ser também visados.

Segundo os rebeldes curdos, Erdogan estará a aproveitar o Estado Islâmico como desculpa para atacar os curdos, que são de maioria sunita, mas não se identificam com o restante povo árabe. Os curdos, que controlam parcelas de território na Síria e no Iraque, e têm milícias bem treinadas e equipadas, com apoio norte-americano, têm sido uma das mais eficazes frentes no combate ao Estado Islâmico.

E depois de Paris?

Os atentados de Paris levaram a uma mudança na estratégia de alguns países. A França, que começou a realizar ataques aéreos mais frequentes em Raqqa no domingo — depois de pedir informação sobre alvos do Estado Islâmico aos norte-americanos — começa a mostrar disponibilidade para cooperar com a Rússia, a quem se recusou a vender dois navios de guerra já encomendados pelo regime de Putin na sequência da crise ucraniana.

Curdos lutam para recuperar Kobane do controlo do Estado Islâmico.

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As forças russas, já no terreno, começaram pela primeira vez a comunicar antecipadamente aos norte-americanos que alvos do Estado Islâmico estão a pensar atacar. O Irão, que tem cooperado com os Estados Unidos sobre o seu programa militar, já colocou as suas forças à disposição no terreno, mas para combater ao lado dos russos e favor da liderança xiita de Assad.

Mas, do outro lado, continua a haver pouca disposição para mudar a estratégia. A Arábia Saudita (e a coligação de países árabes que lidera) aceitou mal a participação do Irão nas negociações de paz sobre a Síria e quer Assad fora do poder. Os Estados Unidos acreditam que a estratégia atual está a resultar e recusam meter tropas no terreno e a Alemanha considera prematuro sequer falar nisso.

Apesar de terem um inimigo em comum, as grandes potências mundiais continuam a travar uma disputa pelo poder e influência na região, o que tem permitido ao Estado Islâmico ganhar tempo, poder e armamento para crescer nas sombras e tornar-se cada vez mais mortífero. Agora, mesmo com o que parece um renovado empenho, a estratégia para derrotar o Estado Islâmico continua dependente do mesmo ponto: o futuro de Bashar al-Assad na presidência da Síria.

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