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"Estamos a ser bombardeados. A guerra começou". Relatos de quem sobreviveu às explosões em Beirute /premium

Uns pensaram que era um sismo, outros que a guerra tinha começado. Os que não fugiram da cidade, feridos ou ilesos, em ruas cobertas de estilhaços mas sem corpos, procuram familiares e amigos.

“Longo, pesado e chocante”. É assim que João Sousa, fotojornalista português a viver em Beirute desde janeiro, descreve o dia 4 de agosto, em que duas explosões no porto da capital libanesa causaram 135 mortos, cinco milhares de feridos e mais de 200 mil desalojados (os números estão a ser apurados e atualizados à medida que as buscas e o contacto com desaparecidos e desalojados se vão desenvolvendo).

Quando tudo aconteceu, João Sousa estava na varanda do apartamento térreo onde mora, com outras três pessoas, no bairro de Geitawi, na zona este da cidade e a apenas um quilómetro do porto — “É horrivelmente perto”.

Assim que ouviu o primeiro estrondo, pensou em bombas mas também em trovões  — podia ter sido só um trovão — e terá tido uns 30 segundos, calcula, para lidar com a estranheza e perguntar ao único house mate naquele momento em casa o que raio poderia ter sido aquilo. “Depois, houve a segunda explosão, a tal que estilhaçou tudo e nessa altura pensei: ‘Olha, estamos a ser bombardeados por Israel, a guerra começou’. A segunda explosão, aí, sim, aí foi sério. Deixou danos na casa, nas janelas, na mobília e nas portas”, recorda ao Observador o fotojornalista, de 42 anos.

"Um amigo meu ficou gravemente ferido, com estilhaços, foi apanhado na explosão, e ainda não saiu do hospital. Acho que a minha sorte foi estar na varanda, num espaço mais ou menos aberto, e sem janelas à volta"
João Sousa, fotojornalista

O instinto e o sangue frio fizeram-no agarrar numa mochila, onde enfiou carteira, dinheiro, passaporte e pouco mais. “O meu house mate, que é libanês, estava em choque, aterrado, não dizia coisa com coisa. Peguei nele, disse-lhe para agarrar na mochila e nos pertences pessoais mais necessários e fomos embora”, recorda o português que, ao contrário da casa onde mora e de milhares de pessoas na cidade, escapou incólume às explosões.

“Não senti nada, saí ileso dali, não tive nem um arranhão. Agora já tenho, nos pés, por pisar vidros, mas nada de grave. Há estilhaços em todo o lado, nunca vi tanto vidro partido na minha vida, tenho dito que Beirute é uma cidade estilhaçada”, descreve o português, ao telefone, através de whatsapp — a rede móvel não está a funcionar.

“Diria que qualquer pessoa que tenha estado num raio de 5 quilómetros da explosão ficou bastante afetada. Um amigo meu ficou gravemente ferido, com estilhaços, foi apanhado na explosão, e ainda não saiu do hospital. Acho que a minha sorte foi estar na varanda, num espaço mais ou menos aberto, e sem janelas à volta. O problema maior foram as pessoas que estavam ou dentro de um carro — e aí não tiveram escapatória possível — ou em casa, perto de janelas. Muitas pessoas ficaram cortadas.”

Os colegas de casa — um sírio, uma libanesa e o libanês com quem estava, quando tudo aconteceu — também não tiveram ferimentos mas logo na terça-feira à noite, escassas horas após as explosões, decidiram sair da cidade, onde os hospitais continuam lotados, muitas pessoas procuram familiares desaparecidos e há ainda, quase 24 horas depois, algum fumo no ar — para além do tapete de vidro que agora lhe cobre o chão.

Não terão sido os únicos, explica o fotojornalista ao Observador: pouco confortáveis com a teoria de que as explosões terão sido acidentais e receosos sobre o que poderá acontecer nos próximos tempos — “Não sei o que é que vai acontecer a seguir. Não sei se isto vai ser um incidente isolado ou se vamos ter um crescendo de tensão entre o Hezbollah e Israel” — muitos moradores de Beirute estão a abandonar a cidade.

“Vi muita gente a pegar em malas e a sair da cidade. Geralmente as famílias libanesas e sírias tem casa nas montanhas, aproveitam e passam lá o verão, porque é mais fresco, ou então vão para lá quando acontecem coisas destas”, explica o fotojornalista. “Foi o que aconteceu em 2006 quando Israel bombardeou a cidade, as pessoas fugiram para o campo ou para as montanhas.”

Pelo menos quatro mil pessoas ficaram feridas nas explosões

AFP via Getty Images

Para já, e apesar de não ter eletricidade em casa — meia Beirute está às escuras desde as explosões e não há previsão para o restabelecimento do serviço —, João Sousa não tenciona, para já, deixar a cidade.

Depois de já ter passado por lá esta terça-feira ao fim do dia, quarta-feira de manhã o português voltou ao porto de Beirute, para fotografar. “Está tudo destruído, tudo queimado. Quando algo explode as coisas ficam negras e deformadas”, descreve. “Falei com alguns trabalhadores do porto que me disseram que felizmente não estavam lá porque tinham saído às 3 da tarde. Começam cedo e acabam cedo, por isso é que não houve tantos mortos e feridos. Não imagino sequer que alguém conseguisse resistir ao impacto daquela segunda explosão se estivesse lá no porto”, continua João Sousa, que durante as suas incursões pela zona dos silos, onde se deram as explosões, só vislumbrou escombros e destroços, nada de vestígios de vidas interrompidas. “Não encontrei nada macabro, felizmente. Mas se calhar há. Há muita gente desaparecida ainda”, lamenta.

Seriam umas duas horas da madrugada desta quarta-feira quando João Sousa foi até Bourj Hamoud, um dos bairros armenos de Beirute, mesmo ao lado de Geitawi, comprar uma sanduíche para o jantar, e deu por encerrado o dia. “Depois fui tomar banho, acendi uma shisha, tomei um café e fui-me deitar.” É o que tenciona fazer esta quarta-feira à noite, quando acabar de fotografar, para o seu jornal e para as agências de notícias que lhe têm pedido trabalho, e der por encerrado o dia. Com uma diferença apenas: à segunda noite, espera conseguir dormir. “Ontem não consegui, estava com demasiada adrenalina”.

Apanhado pelas explosões um dia depois de chegar a Beirute

José Cortez tem 26 anos e não conhece João Sousa. Em comum, têm inúmeras coisas: ambos são portugueses, ambos testemunharam o impacto das explosões desta terça-feira em Beirute, ambos estavam em Geitawi — a apenas um quilómetro de distância do porto da cidade — quando o desastre aconteceu, e ambos escaparam ilesos. As diferenças: José Cortez estava na rua, a comprar um café. E estava na capital libanesa há pouco mais de 24 horas quando sentiu o estrondo que lhe tirou os pés do chão e o fez voar cerca de um metro, até embater contra a máquina que lhe deveria ter servido o café, que nunca chegou a beber.

“Estava no passeio, a pedir um café, ouço primeiro o barulho de uma explosão, não sabia bem o que era, de repente sente-se um bocado de calor, e de um momento para o outro vem a tal onda e aí, de um microssegundo para o outro, está tudo no ar. Vias a poeira toda, estava tudo no ar”, contou esta terça-feira à noite à Rádio Observador. “Eu próprio voei para aí um metro, não sei, voei contra a máquina do café, e nos momentos a seguir estava a tentar perceber onde é que eu próprio estava, é um bocado difícil de descrever por causa disso. Depois do momento da explosão estava um caos tremendo, havia imensas pessoas feridas à minha volta, a tentar encontrar ajuda, tudo partido por todo o lado, pessoas aos berros, um caos autêntico”, recordou o estudante.

“Estava no passeio, a pedir um café, ouço primeiro o barulho de uma explosão, não sabia bem o que era, de repente sente-se um bocado de calor, e de um momento para o outro vem a tal onda e aí, de um microssegundo para o outro, está tudo no ar. Vias a poeira toda, estava tudo no ar. Eu próprio voei para aí um metro"
José Cortez, estudante

Ainda atordoado, percorreu cerca de quatro quilómetros até chegar à casa onde se tinha instalado na véspera: “Na altura em que se deu a explosão pensava que tinha sido uma coisa pequena, só onde eu estava, mas depois à medida que fui caminhando para casa, deu para ver que o caos estava em todo o lado. Estavam os edifícios todos destruídos, pessoas feridas em todo o lado a tentar encontrar uma ambulância, um caos completo”. Quando chegou ao destino, não encontrou um cenário diferente: “As portas estavam abertas, havia vidros partidos por todo o lado, a porta do meu quarto tinha saído completamente, a mobília estava toda virada do avesso, portanto mesmo o próprio apartamento, a 3 ou 4 quilómetros de distância, está um pouco destruído”.

Ao telefone e através da internet, Tarek Mabsout, libanês a viver em Lisboa, já conseguiu falar com alguns dos familiares e amigos que moram na capital do país e não ouviu relatos dissonantes. Todos sentiram o impacto, até os que vivem a mais de 30 quilómetros da cidade, mas os que moram no centro “saltaram do lugar onde estavam e foram levantados contra a parede, foi muito violento mesmo”, disse esta quarta-feira de manhã à Rádio Observador.

“Beirute é uma cidade bastante pequena, afinal de contas, e o porto ficando tão perto das zonas residenciais, de certeza que todos os residentes estão muito afetados com a força da explosão. Imagino dormir sem janelas, por exemplo, imagino acordar e ver a destruição. É um impacto muito agressivo, as pessoas já têm uma vida muito difícil devido a várias situações que se têm passado no país, por isso acho que é um dia bastante negro para Beirute”, lamentou o libanês, um dos responsáveis pelo grupo Atalho, que tem vários restaurantes na capital portuguesa.

"Beirute é uma cidade estilhaçada", diz o fotojornalista João Sousa

AFP via Getty Images

“É triste ver as pessoas de quem gostamos passarem por tanto. Estão neste momento a passar por uma crise financeira muito dura, estão a passar pelo coronavírus também, e agora mais uma situação que vem mesmo, na minha perspetiva, arrasar as esperanças dos libaneses, que ainda tinham algumas se calhar”, concluiu.

Safaa Dib, dirigente do LIVRE nascida no Líbano, também depois de falar com alguns dos familiares que tem a viver em Beirute e arredores, reproduziu à Rádio Observador os relatos que eles lhe fizeram e que dão conta de uma “explosão arrasadora” que se sentiu “em todo o lado”: “Especialmente nas vilas e nas montanhas do Líbano todos sentiram o enorme tremor, o estrondo e o impacto da explosão. Muitos pensaram que tinha sido um terramoto”.

"É triste ver as pessoas de quem gostamos passarem por tanto. Estão neste momento a passar por uma crise financeira muito dura, estão a passar pelo coronavírus também, e agora mais uma situação que vem mesmo, na minha perspetiva, arrasar as esperanças dos libaneses, que ainda tinham algumas se calhar"
Tarek Mabsout, empresário libanês a viver em Portugal

“É um cenário dantesco, estão muito assustados, se nós próprios, ao vermos o vídeo, ficámos assustados com a força da explosão, imagine quem estava lá a viver na cidade”, descreveu a dirigente do LIVRE e empresária, nascida no Líbano mas com nacionalidade portuguesa.

“A casa da minha tia ficou com os vidros todos destruídos, houve enormes danos materiais na cidade. Para além do susto há também um enorme nervosismo, neste momento o Líbano está a viver uma situação política e económica delicada. É a pior altura em que isto podia ter ocorrido, está tudo a acontecer ao Líbano neste momento, é um país que está a sofrer imenso”, lamentou, fazendo menção às negociações em curso com o FMI, à desvalorização da moeda e às manifestações contra a elite governativa que se têm intensificado desde o início do ano.

O ex-ministro que foi para o hospital “ajudar a salvar vidas” e o relato da jornalista ensanguentada

Mohamed Khalifeh, que em tempos foi ministro da Saúde do país, contou à Al Jazeera a forma peculiar como reagiu às duas grandes explosões desta terça-feira. Quando sentiu o primeiro impacto, Mohamed Khalifeh apressou-se a avisar a família de que estava a acontecer um tremor de terra — mas rapidamente percebeu que não era bem isso.

“Imediatamente, tudo colapsou”, recordou o antigo ministro libanês que, apesar de ter escapado “por pouco”, deixou a família e foi “a correr para o hospital”, para poder “ajudar a salvar vidas”. “Estamos numa situação económica muito má, [há falta de] material médico, falta de tudo, e conseguimos aguentar, mas a devastação está para além de qualquer descrição”, lamentou ainda.

Os hospitais estão lotados e sem capacidade para receber mais pacientes

AFP via Getty Images

Já Vivian Yee, correspondente do New York Times para o Médio Oriente, baseada em Beirute, escreveu um texto a descrever as horas de horror por que passou e a exaltar a capacidade de reação dos moradores da cidade que, reminiscências da guerra civil que assolou o país entre 1975 e 1990, assim que ouviram a primeira explosão souberam o que fazer: “Instintivamente correram para os seus corredores (…) para escapar ao vidro que sabiam que ia partir-se”.

A jornalista não sabia, por isso, quando sentiu o prédio a abanar, segundos depois de ter recebido um vídeo de uma colega — “parece que o porto está a arder” —, correu para a janela, para perceber o que se passava. “Depois veio um estrondo muito maior, e o som em si pareceu fragmentar-se. Havia vidro estilhaçado a voar por todo o lado. Sem pensar, mas mexendo-me, atirei-me para debaixo da secretária”, descreveu.

“Quando o mundo parou de se partir ao meio, não consegui ver nada, por causa do sangue a correr-me pela cara. Depois de pestanejar o sangue dos olhos, tentei processar a imagem do meu apartamento transformado num local de demolição. A minha porta de casa amarela tinha sido atirada para cima da mesa de jantar. Não consegui encontrar o meu passaporte, nem quaisquer sapatos resistentes.”

"Quando o mundo parou de se partir ao meio, não consegui ver nada, por causa do sangue a correr-me pela cara. Depois de pestanejar o sangue dos olhos, tentei processar a imagem do meu apartamento transformado num local de demolição. A minha porta de casa amarela tinha sido atirada para cima da mesa de jantar. Não consegui encontrar o meu passaporte, nem quaisquer sapatos resistentes."
Vivian Yee, correspondente do New York Times

Depois de ter sido socorrida por desconhecidos, que lhe limparam as feridas e lhe deram boleia para o hospital mais próximo, Vivian Yee percebeu que o cenário era ainda mais dramático do que imaginara. “Pacientes idosos estavam atordoados e sentados em cadeiras de rodas nas ruas, ainda agarrados aos seus sacos intravenosos. Uma mulher estava estendida no chão, em frente à entrada rebentada das urgências, o corpo todo a pingar vermelho, e sem se mexer muito. Era evidente que não estavam a receber novos doentes, certamente não pacientes que tivessem tido tanta sorte como eu.”

Sorte. Por um motivo ou por outro, acaba por ser a palavra mais repetida pelos sobreviventes das explosões desta terça-feira na capital libanesa.

Habib Battah, jornalista independente em Beirute, foi só mais um, no caso em declarações à rádio pública australiana. “Tive sorte, tinha acabado de passar na zona do porto, e tinha parado na farmácia, a alguns quilómetros de distância. Estava a falar com o farmacêutico e ouvi um pequeno estrondo, que achei que era um avião, porque vivemos com bombardeamentos aéreos durante anos neste país, por isso achei que era alguma coisa que estava a acontecer no sul, na direção de Israel. Mas depois fui lá fora, olhei para o céu e de repente levei com aquela onda gigante de energia, fez lembrar aquele cenário de pesadelo que imaginamos, explosões loucas a rebentar por todo o lado”, descreveu o jornalista, editor de um site de notícias.

“Foi muito traumático, o meu coração quase saltou pela minha garganta, todo o meu corpo estava a vibrar. Limitei-me a saltar para o meu carro e a tentar chegar a casa o mais rapidamente possível. Já passámos por muito neste país e esta é provavelmente das maiores explosões que já ouvi, para alguém de Beirute dizer que isto foi mau, significa que foi muito mau”
Habib Battah, jornalista libanês

“Foi muito traumático, o meu coração quase saltou pela minha garganta, todo o meu corpo estava a vibrar. Limitei-me a saltar para o meu carro e a tentar chegar a casa o mais rapidamente possível. Já passámos por muito neste país e esta é provavelmente das maiores explosões que já ouvi, para alguém de Beirute dizer que isto foi mau, significa que foi muito mau”, continuou o jornalista, que garante que nenhuma pessoa num raio de várias centenas de metros em redor da zona da explosão teve qualquer hipótese de sobrevivência — pelo que o número de vítimas fatais deverá ainda crescer exponencialmente. “Não sei como é que alguém pode ter sobrevivido, há pessoas feridas a quilómetros de distância. Um amigo meu, que vive a vários quilómetros, ficou sem vidros em casa, eis quão poderosa foi esta explosão.”

Também o português José Cortez, de apenas 26 anos, como Habib Battah e Vivian Yee, falou em sorte para descrever o que lhe aconteceu, pouco mais de 24 horas depois de ter chegado à capital do Líbano. E se a jornalista do New York Times, vários hospitais depois, acabou por ter de levar onze agrafos na testa, mais uns quantos nos braços e nas pernas, ele nem isso.

“Estou bem, um corte ou outro, mas nada de especial, só coisas ligeiras, tive muita sorte”, disse à Rádio Observador, explicando ainda não ter sido contactado por quaisquer serviços consulares ou pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros português — e garantindo não precisar sequer de ser. “Quem precisa de apoio neste momento não sou eu, são os libaneses que estão cá a viver e que, mesmo antes desta explosão, já viviam numa crise económica gravíssima, a moeda perdeu 80% do valor só nos últimos 3 ou 4 meses, e acima disso ainda tinham corona, e agora esta explosão… Quem precisa de ajuda são claramente eles.”

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