Este é o vinho de que todos os portugueses gostam

Provavelmente já o bebeu e quase de certeza gostou. Não é de admirar, já que desde que foi criado, em 1997, o vinho Marquês de Borba conquista tudo e todos. A começar pelos júris internacionais.

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Unanimidade é, talvez, a palavra que melhor se adequa ao vinho Marquês de Borba e a quem o produz, João Portugal Ramos. Afinal, reunir consenso em torno da qualidade dos vinhos que cria tem sido a história da carreira deste enólogo que já foi apelidado de “Mourinho dos vinhos”. O nome não é descabido, sobretudo se se tiver em conta o imenso contributo que, há quase 40 anos, tem dado para impulsionar os vinhos portugueses – e os do Alentejo em particular –, ganhando prémios internacionais e conseguindo referências sistemáticas nas melhores publicações do setor. Um dos seus vinhos mais emblemáticos é o Marquês de Borba, um dos primeiros que começou a produzir em nome próprio. Foi para conhecer a história deste vinho que fomos até Estremoz e ali testemunhámos como uma família se dedica a extrair o melhor que as uvas têm, teimando na preservação de cuidados ancestrais, mas sem esquecer a inovação. É talvez aí, no equilíbrio entre a tradição e a ousadia, que reside o maior segredo daquele que, na sua gama de preço, é o vinho alentejano mais consumido pelos portugueses.

É talvez aí, no equilíbrio entre a tradição e a ousadia, que reside o maior segredo daquele que, na sua gama de preço, é o vinho alentejano mais consumido pelos portugueses.

Conhecer a história do vinho Marquês de Borba implica, desde logo, saber que quando João Portugal Ramos o concebeu, em 1997, já possuía vasta experiência como enólogo. Como se ele próprio fosse um vinho, enquanto trabalhou como consultor para grandes marcas nacionais, apurou experiência e o nome ganhou corpo. Quando por fim decidiu criar a sua Adega Vila Santa, começada do zero em Estremoz, foi apanhado de surpresa pela fama: “Confesso que era muito mais conhecido do que eu próprio imaginava, daí o grande sucesso das marcas no princípio”.

Parte deste êxito ficou, desde logo, materializado com a vitória alcançada na primeira prova com júri internacional em que aquele vinho participou, num conjunto de 48 vinhos ibéricos. “O Marquês de Borba Reserva foi o vencedor, o que deu uma projeção enorme à marca”, conta-nos.

“De carne e osso”

Mas quem é a personagem que dá nome a um dos mais famosos vinhos portugueses? Esta é uma das histórias que João Portugal Ramos revela cerca de 20 anos depois da criação do vinho com título nobiliárquico: “O Marquês de Borba é um senhor de carne e osso. Dá-se a feliz coincidência de nós estarmos na região demarcada de Borba e de eu ter um primo da minha mãe que tem o título de Marquês de Borba”. Da constatação da curiosidade à formulação do pedido ao familiar para usar o título, foi um passo, e hoje a informação consta do novo rótulo dos vinhos Marquês de Borba.

“O Marquês de Borba Reserva foi o vencedor [de uma prova com 48 vinhos ibéricos], o que deu uma projeção enorme à marca"
João Portugal Ramos, enólogo responsável e fundador da JPR

A nova rotulagem foi, aliás, um dos aspetos em que incidiu a renovação da imagem que a marca levou a cabo em 2017, ano em que celebrou duas décadas. De acordo com Filipa Portugal Ramos, responsável pelo marketing da empresa e brand manager, o objetivo passou não só por contar a relação do parente marquês com o vinho, mas também “aproximar mais a marca Marquês de Borba dos valores que representa, nomeadamente, tradição, qualidade, uma referência do Alentejo”.

O ano de 2017 ficou ainda marcado por uma importante renovação na adega, com grandes obras destinadas a aumentar a capacidade de armazenamento do produto final e da pisa a pé. Isso mesmo. É que na João Portugal Ramos continua a privilegiar-se a tradição como forma de garantir uma qualidade consistente e a toda a prova. “Passámos de dois lagares para oito e esta é a primeira vindima onde já estamos a pisar, em lagares de mármore aqui da região, vinhos de toda a gama Marquês de Borba”, refere João Maria Portugal Ramos, enólogo como o pai.

“Passámos de dois lagares para oito e esta é a primeira vindima onde já estamos a pisar, em lagares de mármore aqui da região, vinhos de toda a gama Marquês de Borba”
João Maria Portugal Ramos, enólogo

Vinhos novos com Vinhas Velhas

Por ser das mais antigas – e também aquela que mais êxito tem registado -, a marca Marquês de Borba alargou recentemente o seu portefólio. Além do Reserva e do Colheita (lançado logo em 1998, devido ao sucesso obtido com o Reserva no ano anterior), a marca acaba de lançar o Vinhas Velhas, tinto e branco. “Havia um grande gap entre os preços, até porque o Reserva faz-se em quantidades muito pequenas e só em anos considerados de exceção”, justifica João Portugal Ramos. Como o nome sugere, o Vinhas Velhas resulta de videiras antigas, aquelas que João Portugal Ramos plantou em redor da casa da família – “uma ruína reconstruída ao pé do castelo de Estremoz” -, em 1989. “A primeira vinha que plantei tinha seis hectares e hoje em dia a empresa tem, entre vinhas próprias e arrendadas, cerca de 500 hectares só aqui no Alentejo”, contabiliza com visível orgulho.

Até ao momento, a aposta no Marquês de Borba Vinhas Velhas está a revelar-se “muito bem-sucedida”, sendo já elevada a procura, apesar de também aqui estarmos a falar de uma produção muito limitada, não ultrapassando as 20 mil garrafas.

“A primeira vinha que plantei tinha seis hectares e hoje em dia a empresa tem, entre vinhas próprias e arrendadas, cerca de 500 hectares só aqui no Alentejo”
João Portugal Ramos, responsável e fundador da JPR

O que também não é fácil de encontrar à venda – por se tratar de outra edição muito reduzida – é o Marquês de Borba Espumante Rosé, que este ano é comercializado pela segunda vez. E se a história do vinho e das vinhas é, para João Portugal Ramos, uma história de família (os filhos são a segunda geração na empresa, mas a sexta a fazer vinho), então a criação deste Espumante Rosé é daquelas narrativas que vão acompanhar as gerações vindouras com toda a certeza. É que a sua criação surge de “uma brincadeira”, conta-nos Filipa Portugal Ramos: “Quando o meu irmão João Maria entrou na empresa, começaram por fazer esta experiência com Pinot Noir na base, deram-no a experimentar no dia do meu casamento e as pessoas gostaram tanto que no ano seguinte, em 2016, decidiram lançar no mercado sob a marca Marquês de Borba”. A produção não ultrapassa as sete mil garrafas, estando apenas disponível na restauração e garrafeiras.

Cuidar, colher, vinificar

Mas como é que se criam vinhos memoráveis, capazes de captar as atenções de júris, apreciadores ou consumidores casuais?

Os (muitos) vinhos de João Portugal Ramos

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Além da marca Marquês de Borba, a empresa João Portugal Ramos comercializa outras 12, somando mais de 30 referências distribuídas por quatro regiões vitivinícolas: Alentejo, Douro, Vinhos Verdes e Beiras. Ainda do Alentejo, saem vinhos como o Estremus, Vila Santa, Loios ou o Pouca Roupa, um vinho assumidamente irreverente, com a assinatura de João Maria Portugal Ramos. A norte destaca-se o Duorum, projeto que resulta da parceria com José Maria Soares Franco, outro nome que marca a história do vinho em Portugal nas últimas décadas.

A resposta foi-nos sendo dada ao longo da visita, por João Maria Portugal Ramos. “Sem uvas boas não se fazem vinhos bons”, diz-nos, reforçando a confiança que tem nas uvas da casa. Mas para que estas revelem todo o seu potencial, é necessário que muitos outros fatores sejam tidos em conta ao longo do processo de produção do vinho. No caso da marca Marquês de Borba, sublinha que “o foco na qualidade está sempre presente em todas as etapas”, nomeadamente, nos trabalhos levados a cabo na vinha ao longo de todo o ano, nas análises regulares em laboratório, no decurso da vindima (que ainda é feita à mão para grande parte da gama), no transporte, na seleção cuidada e na vinificação. “Cada vez mais estamos com uma intervenção menor dentro da adega, deixando as coisas mais simples, daí voltarmos à tradição que é a pisa pé, como toda a vida se fez”, refere, enquanto assistimos ao momento a decorrer na adega ao nosso lado, em dois lagares.

Mas também o tipo de solo e as condições climatéricas são determinantes para a qualidade do resultado final, e João Maria Portugal Ramos destaca a particularidade do sítio onde nos encontramos: “Estamos à beira do castelo de Estremoz, a cerca de 400 metros de altitude, o que faz com que tenhamos noites muito frescas e isso leva a uma maturação lenta dos brancos, o que nos ajuda bastante a ter vinhos bons”.

“Cada vez mais estamos com uma intervenção menor dentro da adega, deixando as coisas mais simples, daí voltarmos à tradição que é a pisa pé, como toda a vida se fez”
João Maria Portugal Ramos, enólogo

Do Alentejo para o mundo

Ao saírem do Alentejo, os vinhos Marquês de Borba rapidamente se espalharam pelo mundo, tendo contribuído bastante para a notoriedade que a região veio a conhecer. João Portugal Ramos sabe disso, mas prefere falar-nos de acasos felizes: “Tive sorte por chegar a uma região fantástica, que é o Alentejo, onde muita coisa estava por fazer e eu tinha muita vontade de fazer coisas novas”. A isto soma o “papel determinante das adegas cooperativas na altura” e o resultado é o que se conhece: de uma quota de mercado de 2% na altura, o vinho alentejano passou para os atuais 40%.

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Com forte presença em países como Brasil e Angola, o vinho Marquês de Borba – sobretudo o Colheita – é hoje quase um símbolo da região que traz consigo na identidade: “A região foi muito importante para a marca Marquês de Borba, e a marca Marquês de Borba foi muito importante para a região e para o Alentejo”.

“A região foi muito importante para a marca Marquês de Borba, e a marca Marquês de Borba foi muito importante para a região e para o Alentejo”
João Portugal Ramos, enólogo responsável e fundador da JPR

É na cave da adega – enterrada na terra para garantir frescura e condições ideais ao estágio dos vinhos – que nos faz um balanço do trabalho de uma vida. Rodeado por centenas de barricas de carvalho – cada qual com o seu nome gravado -, João Portugal Ramos fala-nos da “responsabilidade” que sente pelo percurso que trilhou, admite o “prazer supremo de ter conseguido chegar até aqui” e mostra-se descansado pela continuidade do negócio, assegurada pelos filhos. Quanto à maior conquista que alcançou, não hesita em partilhá-la connosco: “Ter conseguido, ao longo destes anos, manter uma qualidade constante e boa”. E isso merece um brinde. Com Marquês de Borba, claro.

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