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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Estes heróis não são deste tempo: guia rápido para destruir estátuas

Não é apenas o Padre António Vieira que está em causa. Uma adequação entre os heróis do nosso tempo e a estatuária do país exigiria uma devastação do património. Carlos Maria Bobone explica como.

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No século XIX, há uma verdadeira luta de titãs a respeito de um livro. A luta requer coragem, porque os atacados são, precisamente, Os Heróis, de Thomas Carlyle, em que o autor reúne uma série deles. O ataque é feroz e vem de muitos lados: para os seus detractores, o livro de Carlyle era o mais acabado exemplo de uma história desactualizada – centrada em homens extraordinários e não no homem comum, a mitificar os seus feitos e a olhá-los mais como hagiógrafo do que historiador.

Ora, a acusação, embora verdadeira, é também injusta. Isto porque Carlyle não quer fazer uma História no sentido tradicional do termo. Ele explica que cada época tem o seu tipo de herói, alguém que personifica as virtudes que se glorificam num tempo e ataca os males que se consideram mais nefastos. Nun’Álvares pode ser o herói da Restauração, por se encontrar nele o mesmo tipo de resposta que os Conjurados desejavam dar ao domínio filipino, e não dizer grande coisa à República, apostada em purgar a sociedade de heróis pios.

Estátua do Marquês de Pombal

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Os heróis têm, assim, um duplo património: não só os feitos, mas a sua recepção num tempo que os admirou especialmente. Uma estátua ao Marquês de Pombal diz tanto sobre ele como sobre quem a construiu. Da mesma forma, o pedido de remoção de uma estátua é também reflexo de um tempo. Conseguimos perceber que não é apenas o Padre António Vieira ou o General Lee que estão em causa; há um modo de olhar para a História e para os seus heróis que é completamente diferente daquele que erigiu muitas das estátuas. Uma adequação entre os heróis do nosso tempo e a estatuária do país exigiria, assim, uma devastação quase completa do património. Não bastaria descer as agora malvadas figuras das suas peanhas; seria preciso tirar nomes a ruas, secar jardins, desbaratar museus e descalcetar avenidas. O trabalho é hercúleo, pelo que não nos coibimos de ajudar. Esboçámos um pequeno guia de alvos prioritários – à luz do pensamento esclarecido, claro –, que obrigaria a câmara de Lisboa a um novo ciclo de obras. Começadas agora, talvez estivessem prontas a tempo das próximas eleições.

Os que já não existem

Há uns anos, quando se tiraram os brasões florais da praça do Império, José Sá Fernandes explicou avisadamente que não fazia sentido gastar dinheiro a recuperar “símbolos que já não existem”. Filosoficamente, a frase dá que pensar. Que uma pessoa já não exista, percebemo-lo. Que um jardim já não exista, ou que um rio tenha secado, ou que um império tenha sucumbido às mãos de adversários, conseguimos perceber. Até percebemos que um símbolo não exista, mas não percebemos que deixe de existir. Isto é, pode não haver símbolo do clube onomástico das Cátias; mas se algum dia se desenhou um símbolo do clube onomástico das Cátias, pode desabar tudo menos o símbolo.

Se não existir é critério para ser privado do pecúlio camarário, podemos acabar com as estátuas de Lisboa (e não só, claro). Já o Santo António não existe há muito tempo, já Sá Carneiro faz companhia a Afonso de Albuquerque, já Camões se finou há uns séculos.

Pode perecer o clube, podem já estar enterradas todas as Cátias, até pode não haver semiólogo algum no mundo capaz de decifrar aquele símbolo, mas é próprio do símbolo não deixar de existir. De cada vez que alguém dobre o “C” estilizado à maneira do clube, lá estará o símbolo, a evocar uma coisa que pode, essa sim, já ter deixado de existir. As cidades podem não se sentir representadas pela heráldica de antanho, mas o símbolo, mesmo abandonado, resiste.

A frase, porém, além de filosoficamente revolucionária, é libertadora. Se não existir é critério para ser privado do pecúlio camarário, podemos acabar com as estátuas de Lisboa (e não só, claro). Já o Santo António não existe há muito tempo, já Sá Carneiro faz companhia a Afonso de Albuquerque, já Camões se finou há uns séculos. Habitamos uma ascética e despojada capital jansenista, também sem torre de Belém, que à falta de barcos para despedir é igualmente um “símbolo que já não existe”. Se a solução parecer demasiado radical, deitem-se por terra apenas as estátuas da praça do Império. Quando se perceber que as pessoas morrem mas os símbolos não, talvez se possam substituir as estátuas pelos brasões florais.

Os maus da fita

Os mais ingénuos poderiam pensar que, tão pronta que está a iconoclastia para apontar defeitos às mais venerandas figuras, seria matéria apenas para os mais altos caracteres de uma nação. Ora, até nesta nobre actividade há algumas personalidades menos virtuosas; é em atenção a alguns desses, os mais preguiçosos, que propomos uma acção menos complicada. Em vez de se afadigarem a carregar estátuas para um baú das vergonhas históricas, os mais lassos podem simplesmente tirar as placas toponímicas de ruas menos recomendáveis. Requer alguma pesquisa, já que a Primeira República se empenhou numa substituição de nomes de ruas em larga escala. As mais óbvias já foram, assim, substituídas por glórias cívicas como o Sr. Elias Garcia.

O poeta António Ribeiro Chiado

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Com boa-vontade e exigência, porém, ainda se conseguem aplicar uns certos correctivos. O primeiro alvo pode ser o duque de Palmela. Embora o liberalismo lhe deva muito, a causa feminina devia expungi-lo da toponímia lisboeta. É que o duque de Palmela, não satisfeito com as honras recebidas pela sua carreira política, ainda queria aumentar o património familiar. Para isso, decidiu casar o seu filho com a herdeira do Conde da Póvoa. Palmela sabia ser ganancioso – a fortuna do Conde da Póvoa era maior do que a despesa e a receita do Estado Português juntas; acontece, todavia, que a família da herdeira se opunha ao casamento, coisa ainda mais importante porquanto a pobre rapariga tinha à roda de dez anos.

O heróico duque não hesitou em raptá-la e mantê-la cativa em sua casa até que a família autorizasse o casamento. Claro que a vida privada não tem a dimensão da glória pública; no entanto, já que é o próprio Palmela que compara os trabalhos de tamanha perfídia à “luta para a restauração da rainha”, podemos fazer a conta. Se a glória do liberalismo é semelhante à vergonha do casamento do filho, não se superioriza o crédito ao descrédito: talvez lhe possam tirar a rua.

A menos que haja ruas desconhecidas dedicadas aos exíguos defensores da monarquia a 5 de Outubro, a menos que se homenageiem os carcereiros de Gomes Freire, não percebemos porque é que o Almirante merece tantas e tão largas avenidas.

Há outro caso, porém, em que as acções nefastas são em muito superiores às façanhas admiráveis. Falamos do precipitado Almirante Reis, Rei, de facto, da toponímia nacional. O bom Cândido dos Reis seria a cabeça da sublevação republicana na marinha; acontece que, pelos vistos, a sua capacidade de leitura política não estava ao nível das suas faculdades marciais e o Almirante, pressentindo a derrota, suicidou-se. Não tem uma ofensiva brilhante, um intrépido fogo contra a resistência, um cerco aflitivo; visto positivamente, Cândido dos Reis apenas matou um alto agente da República. E, a menos que haja ruas desconhecidas dedicadas aos exíguos defensores da monarquia a 5 de Outubro, a menos que se homenageiem os carcereiros de Gomes Freire, não percebemos porque é que o Almirante merece tantas e tão largas avenidas.

Os republicanos e os insultuosos

A República, aliás, tem escapado injustificadamente à atenção da iconoclastia. Ao pé de Teófilo Braga, o pretenso racismo de Vieira é mais pequeno do que os índios que lhe guardam a estátua. Não são apenas os estudos sobre a raça portuguesa; é o seu entendimento de raça, num sentido biológico, no pleno espírito positivista do seu século. Nisto, aliás, é seguidor de Oliveira Martins, o apóstolo pátrio de Gobineau, que não hesita em hierarquizar raças e em defender as suas diferenças biológicas. Iconoclasta que leia As Raças Humanas e a Civilização Primitiva e não corra a desfazer com as próprias mãos a estátua que Oliveira Martins tem na Avenida da Liberdade, bem pode duvidar da honestidade das suas convicções. Sorte a de Teófilo Braga, que tem menos a perder. Mesmo que fique sem o seu jardim, quem é que conhece o jardim da Parada por jardim Teófilo Braga?

Bolívar na Avenida da Liberdade

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O Chiado, pela concentração de homenagens insultuosas, também merece uma referência. A má consciência já deu ao escravo de Camões a Rua Jau, em Alcântara; a reparação, porém, devia ser mais séria e tirar a Camões o seu pedestal. De caminho, retirava-se também Pessoa da Brasileira: ali sentado, como se nem aguentasse o peso da consciência sobre as pernas por ter elogiado Sidónio Pais. É certo que Pessoa tem uma multidão de advogados prontos para encontrarem atenuantes para este lapso; uma verdadeira ética reparadora não se deixa, contudo, impressionar pelas circunstâncias. Não contente, Pessoa relapsa e aceita um prémio do SNI, prova irrefutável de conivência; deve cair e, dos dois lados da A5, como dois pilares para o arco da infâmia, Almada Negreiros e Duarte Pacheco.

Qualquer pessoa de bom-senso percebe que todos eles são homenageados pela obra, independentemente das suas opções políticas ou mesmo morais; e é isto mesmo que torna os protestos contra as estátuas mais curioso. Acham os mais acirrados que a homenagem só é devida a quem, além da sua obra excepcional, apresenta um cardápio político e moral impoluto, ou acham que as más opções contaminam a obra. Vieira pode ser um bom escritor mas não pode ser homenageado enquanto escritor por ser um pérfido colonizador, ou deixa de ser um bom escritor por ser um “escravagista”? É difícil saber, e as duas opções são igualmente perigosas. Num dos casos, ficamos com um país cheio de peanhas elevadas ao vácuo; no outro, explodimos a Rocha do Conde de Óbidos e a metade das estradas de Portugal que Cavaco não construiu – tudo porque as obras de Almada e Duarte Pacheco estão contaminadas pela sua visão política.

Os que erraram muito e os que erraram pouco

Seria preciso, também, definir a dimensão do lapso. Atendendo às proporções, o libelo de Pessoa, na sua obra de média dimensão, é comparável ao livro de Oliveira Martins, um entre tantos? Em Cesário Verde bastaria uma frase, enquanto um escritor tão prolixo como Costa Brochado teria de escrever uma autêntica biblioteca pecaminosa, ou a falta é igual para todos e sem possibilidade de remissão?

A iconoclastia é um campo paludoso; alguns heróis, mais matreiros, tentam disfarçar as suas impurezas psicológicas com uma pátina de ilustração que pode enganar os mais incautos. O caso do Marquês de Pombal é o mais flagrante.

A passagem pelo Chiado, porém podia ser aproveitada para destruir a estátua do próprio do Chiado. Não que o autor das “Parvoíces”, coitado, tenha pecadilhos que o desmereçam; acontece que a zona foi nomeada em função de um Chiado que por lá vivia, julgando-se que seria o próprio António Ribeiro Chiado. Já pregada a placa e plantada a estátua, descobriu-se que o Chiado que lá vivia era outro que não o homenageado. Era bom que a fúria destruidora, já que corrige tanta coisa, pelo menos corrigisse o que está errado.

A iconoclastia é um campo paludoso; alguns heróis, mais matreiros, tentam disfarçar as suas impurezas psicológicas com uma pátina de ilustração que pode enganar os mais incautos. O caso do Marquês de Pombal é o mais flagrante; a expulsão dos Jesuítas parece uma manobra premeditada para obnubilar o juízo da História sobre a sua férrea tirania; o caso de Bocage, porém, não é melhor. Quem lê as suas poesias eróticas, quem conhece os seus problemas com o Intendente Pina Manique, quem lê a Pavorosa Ilusão de Eternidade, não deixa de se espantar com um poeta que desafia as convenções, enfrenta os poderosos e implode o moralismo. É, porém, um vate que faz das suas fraquezas as suas forças. Os interessados que pesquisem as idades das suas Marílias e Ritálias e num instante desaparece o seu rosto do símbolo do Nicola.

Os que cumprem as regras (ou não)

A estatuária também está subordinada àquelas que Carl Schmitt definiu como as regras da política. Todas as pessoas, como todos os heróis, têm múltiplas facetas; o que determina o seu carácter político é a capacidade de uma subordinar as outras. Se a economia é capaz de provocar guerra e a religião já não, é a economia o principal vector político; olhar para a estátua de um escritor, ou de um político, ou de um professor, em função da sua maneira de ver minorias é também significativo quanto à importância política que a sua protecção tem no mundo contemporâneo.

O memorial a Almada Negreiros à entrada em Lisboa

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Quem quiser pegar num maço e num cinzel, que se entretenha a desfazer todas as estátuas e ruas e jardins; não desfaça, apenas, o Museu Leite de Vasconcelos. Não pelas suas qualidades, mas pelos seus defeitos. É que, apesar de todo o seu brilho de investigador, da inteligência mais observadora de que há memória, do trabalho incansável, e da sua incomparável cultura, Leite de Vasconcelos tinha pouco cuidado com o património: era capaz de rasgar livros antigos, tirar páginas, riscá-las e sublinhá-las sem pudor. Conservem-no sossegado, portanto: talvez alguém se lembre que um destruidor de património pode, ainda assim, ser homenageado.

Carlos Maria Bobone é licenciado em filosofia

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