Eveline Gomes Nave, a portuguesa anti-nazi que viveu um amor entre Salazar e De Gaulle /premium

19 Abril 2019

As histórias de portugueses desconhecidos que lutaram contra o nazismo fazem o livro "A Sombra dos Heróis", de José Manuel Barata-Feyo. O Observador faz a publicação de um excerto.

No início do livro é feito um aviso fundamental: “A Sombra dos Heróis” não é um romance nem mais uma história da Resistência em França contra a ocupação nazi. Ele é antes um documento histórico onde centenas de resistentes portugueses foram agrupados de acordo com a sua participação em determinados acontecimentos relevantes ou porque tiveram um destino comum ou ainda porque pertenceram à mesma organização ou ao mesmo grupo etário ou, finalmente, porque tiveram uma actuação singular e excepcional.

José Manuel Barata-Feyo assina um conjunto de histórias verdadeiras sobre portugueses que tiveram um papel activo na resistência anti-nazi que na Europa tentava travar o avanço dos nacional-socialistas e, ao mesmo tempo, colaborava como podia na luta pela vitória aliada na Segunda Guerra Mundial.

O Observador faz a publicação de um excerto, o capítulo que conta a história de Eveline Gomes Nave, a portuguesa que em vez de fugir para os EUA, via Lisboa, procurou a melhor maneira de seguir para o Norte de África, para continuar a lutar pela libertação da França.

“A Sombra dos Heróis: a história desconhecida dos resistentes portugueses que lutaram contra o nazismo” (Clube do Autor), de José Manuel Barata-Feyo, já está disponível nas livrarias

“Para os que fugiam às perseguições de Hitler levadas a cabo em toda a Europa ocupada pelos exércitos nazis, a América simbolizava o paraíso e Portugal era a antecâmara e a porta de entrada nele. Chegar a Lisboa era o sonho – imortalizado no célebre filme Casablanca – dos judeus e dos perseguidos políticos. Capital de um país neutro, Lisboa funcionou durante toda a guerra como uma placa giratória para esses refugiados e para outros tantos agentes secretos ao serviço das potências envolvidas no conflito.

Uma faceta menos conhecida da Lisboa desses tempos prende-se com os homens e mulheres que chegavam a Portugal não com o objectivo de alcançar os Estados Unidos, mas sim para tentarem chegar à Grã-Bretanha ou à África do Norte, onde se concentravam os que pretendiam continuar a lutar contra a Alemanha e pela libertação da França. Uma dessas mulheres era a portuense Eveline Gomes Nave.

No dossier com a cota GR16P262161, há um documento redigido em portuguâs que chama a atenção pelo inesperado: Administração Geral dos Correios, Telégrafos e Telefones, diz o cabeçalho que encima a palavra Telegrama, em letras garrafais. Nas costas, consta o nome do destinatário: gorlier mission francaise, e a morada, escrita segundo a norma francesa de colocar o número da porta antes da rua: 68 san domingo lisboa. É o telegrama n.o 95. O seu teor é bem enigmático:

«Senhor nave atravessara Madrid por volta 22 dezembro favor considerar presenca momentanea em Madrid sua mulher amizades, Alexandry.»

Tentamos saber quem é Alexandry, nome sem consonância portuguesa ou francesa, mas ele não volta a surgir em qualquer outro documento. Parece, então, um nome de código, hipótese admissível se considerarmos a data e o destinatário do telegrama: Estação Central (ilegível, mas talvez Correios) de Lisboa, 14 de Dezembro de 1943, em plena II Grande Guerra; quanto ao destinatário, sabe-se que Charles Gorlier é o cônsul da França Livre em Lisboa. O consulado, que funciona na embaixada britânica, faz parte da Missão Francesa, o equivalente à embaixada francesa que representa o governo de Vichy junto do governo português. Charles Gorlier virá a ser uma personagem central desta história e o grande protector de Evelina Gomes durante o seu longo «exílio» em Lisboa.

As outras referências servem apenas para adensar o enigma: no canto superior esquerdo, em letras ainda maiores que as utilizadas para a palavra «telegrama», está carimbada a palavra «madrid», embora mais em baixo apareça «barcelona» como destino – a menos que seja como estação remetente, caso em que a mensagem teria sido enviada de Barcelona para Lisboa, via Madrid.

Assim acaba o telegrama e começa, para efeitos deste livro, a muito invulgar história, mesmo em tempos de guerra, de Evelina ou Eveline Gomes, nascida no Porto a 13 de Dezembro de 1913, filha de Maria Isabel Gomes e de um pai nunca identificado, mas que a própria afirma ser francês numa carta que envia – nem mais nem menos – ao próprio general De Gaulle.

A 8 de Setembro apresenta-se na embaixada britânica, que na altura acolhia a representação diplomática da França Livre. Invoca a sua qualidade de francesa pelo casamento, explica como obteve e depois como e por que destruiu o passaporte português, e oferece-se como enfermeira voluntária para as Forças Femininas Francesas Livres.

A documentação não refere quando Evelina foi para França, nem porquê, nem se foi sozinha ou acompanhada. Mas sabe-se que é enfermeira, profissão que exerceu na Suíça, e que estava em Marselha, o grande porto mediterrânico francês, a 6 de Maio de 1933, dia em que, com 20 anos acabados de fazer, casa com Henry Roger Nave, montador mecânico. Nessa altura já estava grávida. A filha, Henriette Rose, viria a nascer no dia 8 de Setembro de 1933. Nas vésperas do casamento, quando a questão lhe é colocada, opta pela nacionalidade francesa.

A vida de Evelina poderia ter seguido o seu curso assaz banal, se a guerra não lhe tivesse batido à porta. Em Agosto de 1941, com os alemães solidamente implantados em França, Evelina pega na filha, então com sete anos, e junta-se ao cortejo de refugiados que procuram escapar à guerra, presume-se que com o acordo do marido. Com dificuldades para conseguir um passaporte francês, dirige-se ao consulado de Portugal em Marselha e, utilizando a sua identidade de solteira, consegue obter o tão almejado passaporte – que lhe garante entrada em Portugal, sem necessidade de visto (necessário, à época).

Evelina ainda não o pode saber, mas este passaporte português acabaria por estar na origem dos problemas que viria a ter em Lisboa e que duraram praticamente até ao fim da guerra.

Viaja com a filha, provavelmente de comboio, atravessando a Espanha saída da guerra civil. Chega a Lisboa no dia 28 de Agosto de 1941 e destrói o passaporte português. Adiante veremos porquê. A 8 de Setembro apresenta-se na embaixada britânica, que na altura acolhia a representação diplomática da França Livre. Invoca a sua qualidade de francesa pelo casamento, explica como obteve e depois como e por que destruiu o passaporte português, e oferece-se como enfermeira voluntária para as Forças Femininas Francesas Livres (FFFL). Enquanto aguarda uma resposta, começa a trabalhar no gabinete de propaganda da França Livre, na embaixada britânica.

Não contou com a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, a PVDE, antepassado da PIDE, que vigiava cuidadosamente as embaixadas estrangeiras, sobretudo as dos países beligerantes, em relação aos quais Salazar pretendia afirmar a neutralidade de Portugal. A PVDE referencia-a de imediato e quer saber quem é esta cara nova ao serviço dos franceses ou dos ingleses. Investigação feita, a PVDE descobre a história de Evelina e considera-a, para efeitos da estadia dela em Portugal, uma estrangeira sem documentos. Passa a ter de se apresentar três vezes por mês nas instalações da polícia, onde não é propriamente acarinhada.

Entretanto, Charles Gorlier tinha desencadeado o processo que, em teoria e como é normal, deve conduzir os britânicos a conceder um visto a Evelina para que possa ir para a Grã-Bretanha, alistar-se nas FFFL. A 12 de Setembro de 1941, manda para o estado-maior do 2.o Bureau, os serviços secretos militares da França Livre, em Londres, a ficha sinalética dela, onde assinala que se trata de «uma Voluntária Francesa».

«Seria muito conveniente que dessem um seguimento favorável ao compromisso desta Dama e lhe permitissem chegar a Inglaterra em companhia da sua lha, Henriette Rose, de 8 anos, visto que estão em Portugal numa situação difícil em relação à polícia portuguesa, que pode prendê-las em qualquer momento. Elas chegaram a Lisboa há uma semana, fugindo de França. O marido só espera por uma oportunidade para se juntar às FFL. As autoridades inglesas daqui estariam dispostas a enviá-la para Londres.»

Um dos muitos telegramas secretos trocados entre diplomatas e serviços de informação Aliados a propósito de Evelina Gomes Nave.

Em paralelo à informação enviada para as FFL em Londres, Charles Gorlier segue os procedimentos usuais e pede ao senhor Harper, do Passport Control Office da embaixada britânica em Lisboa que conceda um visto a Evelina.

Surpreendentemente, a resposta é negativa, como se deduz pelo facto de Evelina continuar em Lisboa e de novos pedidos de visto para ela continuarem a ser enviados pelos franceses aos ingleses.

Perante este desaire, seja por iniciativa própria ou por sugestão de Charles Gorlier, Eveline Nave escreve directamente ao general De Gaulle, a quem expõe o seu caso e pede ajuda:

Mon Général,

Parti de França em 1941, nas mesmas condições que todos os refugiados. Perante as dificuldades levantadas para me concederem um passaporte, sendo francesa, filha e mulher de franceses, mas nascida em Portugal, aproveitei esta circunstância para obter, em Marselha, onde habito, um passaporte português, acreditando que poderia assim ficar descansada. […]

Tenho uma lha de nove anos, que estava muito abatida quando chegámos a Lisboa: era uma consequência dos bombardeamentos e depois das privações, mas que agora está de perfeita saúde. […]

Com a esperança de…

E a esperança de Evelina é compensada. Muito ao seu jeito, sem se perder em considerações, o general De Gaulle envia de Londres, a 8 de Outubro de 1941, um telegrama secreto, via Foreign Office, para a Missão Francesa, ao cuidado embaixada britânica em Lisboa: «Mandem a senhora Nave para o Reino-Unido.»

Reconfortado pela ordem de De Gaulle, Charles Gornier renova o pedido de visto para Evelina. Contudo, numa carta endereçada ao senhor Gorlier, datada de 22 de Novembro de 1941, e enviada da Rua da Emenda, 37, 2.o, o British Passport Control Office em Lisboa escreve: «No que respeita ao pedido de visto para o Reino Unido [de Evelina Nave], lamento informá-lo que as autoridades em Londres não estão prontas para o aprovar.

Não estou, por conseguinte, em posição de poder visar o passaporte dela, como solicitado.»

O assunto só pode ser muito complicado para que os britânicos se oponham tão claramente aos desejos do general De Gaulle e se intrometam, pela negativa, numa questão que, em última análise, diz sobretudo respeito aos franceses.

Muitas hipóteses se levantam aqui, sendo que uma delas passa pela possibilidade de os britânicos terem informações comprometedoras sobre a lealdade de Evelina Nave – mas nesse caso, porque não comunicá-las aos franceses livres, seus aliados, que eram os primeiros interessados no assunto? Outra hipótese, menos rocambolesca, mas também plausível, é que a PVDE tenha dito aos britânicos que considerava Evelina uma cidadã portuguesa e que, sendo Portugal um país neutro, não era aceitável que ela saísse de Lisboa para ir oficialmente reforçar as FFFL, em Londres. Esta hipotética posição da PVDE poderá explicar-se pelo facto de querer agradar aos alemães, que nessa altura pareciam estar em vias de ganhar a guerra na Europa e que já sabiam muito bem quem era Evelina, onde trabalhava, a fazer o quê, e que era voluntária para os combater.

«Ela aparenta ser de confiança, mas quero ter a certeza, na medida em que parece saber muito sobre organizações POW (Prisoners Of War – Prisioneiros de Guerra) em França, e Londres interrogou-me sobre ela. Quero telegrafar-lhes tão depressa quanto possível [...]. Pode dizer-me, na volta, se a considera de confiança e que faz ela aqui exactamente?»

A recusa dos ingleses em conceder o visto a Evelina vai desencadear uma montanha de pedidos de informação sobre ela por parte dos franceses, perplexos, mas também desconfiados com a posição do governo inglês e, eventualmente, com algumas dúvidas sobre quem é, afinal, Evelina Nave.

Estamos agora em Dezembro de 1941. Evelina passa o seu primeiro Natal com a lha em Portugal. Chega Janeiro, depois Fevereiro, e as saudades do marido, por um lado e a pressão da PVDE, pelo outro, à mistura com algum desespero, levam-na a adoptar uma nova estratégia. Visto que não pode ir para a Grã-Bretanha, nem ficar em Portugal, pois regressará à França ocupada pelos alemães, com ou sem guerra!

Aconselhada por Charles Gorlier, apresenta-se no consulado francês em Lisboa, conta de novo a sua história e pede um passaporte que lhe permite voltar para casa. Com base nos elementos que ela lhe fornece, o cônsul, Milon de Peillon, envia uma nota «Confidencial», redigida em francês, rasurada e com erros de português ao director da PVDE. Sintetiza a história de Evelina e chega ao cerne da questão:

«[…] tenho a honra de lhe pedir que me diga qual o título de viagem que [Evelina] apresentou aos seus serviços, na fronteira e em Lisboa, quando entrou com as suas duas lhas [!] em território português. […] Na realidade, a senhora Nave está com uma grave doença nervosa, o que explica a sua atitude. Já estabeleci contacto com as autoridades administrativas francesas com vista a provocar o regresso dela para junto do marido, que reside em Marselha.»

Pelo seu lado, De Gaulle deve ter insistido na ida de Evelina para Londres, porque os britânicos sentem a necessidade de melhor fundamentar as razões que os levaram a recusar o dito visto.

A 30 de Março de 1942, o coronel Leslie, provavelmente dos serviços de informação britânicos em Lisboa, recebe uma nota «confidencial». O documento é uma simples meia folha de papel escrita à máquina, sem qualquer timbre ou alusão ao remetente, e termina com uma assinatura ilegível. Trata‐se de um pedido de informação sobre Evelina Nave. Depois de situar o caso dela, a nota continua:

«Ela aparenta ser de confiança, mas quero ter a certeza, na medida em que parece saber muito sobre organizações POW (Prisoners Of War – Prisioneiros de Guerra) em França, e Londres interrogou-me sobre ela. Quero telegrafar-lhes tão depressa quanto possível […]. Pode dizer-me, na volta, se a considera de confiança e que faz ela aqui exactamente?»

É a primeira vez que surge uma referência a contactos que Evelina terá com uma rede secreta que organiza a fuga de prisioneiros de guerra, presume‐se que em França.

O coronel Leslie considera o assunto suficientemente importante e urgente e responde no dia seguinte, numa nota em oito pontos, que resume as informações já conhecidas sobre Evelina Nave. No ponto 8, levanta uma ponta do véu: «Acho que o nosso PCO (Passport Control Office) não a reconhece como cidadã francesa e, por isso, recusa conceder‐lhe um visto para Inglaterra.»

Dúvidas inglesas e dúvidas dos franceses do general De Gaulle… Também eles querem saber mais sobre Evelina Gomes Nave. Apesar da sua aparente insignificância, a portuguesa preocupa manifestamente muita gente e suscita dúvidas, talvez naturais em tempo de guerra. Uma curta nota manuscrita, enviada não se sabe de onde e assinada apenas com iniciais que parecem corresponder a um «M» colado a um «L» – ML – chega à secretária do senhor Gorlier:

«Queira dar-me detalhes sobre a senhora Eveline Nave […]. Ela diz que ajuda a causa da FL (França Livre). É verdade? E é de confiança? Queira responder o mais depressa possível.»

Gorlier responde no mesmo dia. Repete a história de Evelina, mas acrescenta-lhe um ponto que explica a destruição do passaporte português: «[…] ao chegar aqui, aconselhada por várias pessoas que lhe fizeram notar que não estava numa situação regular, teve medo e queimou o passaporte. […] Não pode seguir para Inglaterra porque é considerada portuguesa.»

Esta informação e talvez outras obtidas junto de fontes diferentes parecem apaziguar as inquietações da França Livre, porque durante muito tempo não enviam para Lisboa mais nenhum pedido de esclarecimentos relativo a Evelina.

Há sete meses que Evelina está em Lisboa, e o ano de 1942, a par de 1943, serão de uma intensa troca de correspondência a seu respeito. Com a Europa a ferro e fogo e o eco dos canhões a chegar a Portugal − ainda que filtrado pela polícia política e a censura da ditadura − diplomatas e espiões da Grã-Bretanha, da França Livre e da Alemanha, mas também os agentes da PVDE, agitam‐se, discutem e divergem. Cartas, notas informativas e telegramas secretos circulam entre Lisboa, Londres, Madrid e a África do Norte. Quem é verdadeiramente Evelina Nave e o que fazer com ela e com a sua lha, Henriette, agora com 9 anos?

Charles Gorlier não tem dúvidas: deve seguir para Inglaterra, como manda De Gaulle. E se para isso é preciso «agitar» a França Livre, em Londres, como sugere ML, vamos lá a isso.

Ainda no mesmo dia, 9 de Abril de 1942, num papel pela primeira vez encabeçado com o carimbo f.f.l. lisbonne, segue para o chefe do serviço de Recrutamento, Concentração e Acolhimento − 4, Carlton Gardens, Londres − um ofício onde se adivinha um ligeiro tom intimidatório:

Tenho a honra de lhe pedir que faça as démarches necessárias junto dos serviços britânicos competentes para que sejam concedidos com toda a urgência os vistos necessários para a ida para Londres da senhora Nave, a enfermeira que me pediu para enviar para o Reino Unido no telegrama […].

Segue‐se uma vez mais a história de Evelina Nave, a que Gorlier acrescenta os últimos desenvolvimentos conhecidos:

Ela está agora numa situação regular, mas o cônsul de França, em sintonia com a polícia internacional portuguesa, comunicou‐lhe que deve regressar a França o mais depressa possível.

Seria verdadeiramente lamentável que, por causa de um atraso na concessão do visto para a Grã‐Bretanha, ela seja expulsa de Portugal e tenha de regressar a França […].

É natural que o chefe do serviço de recrutamento tenha feito passar o dossier de Evelina à frente dos múltiplos problemas que se imaginam numa situação de guerra, porque no dia 13 de Maio Charles Gorlier recebe mais uma carta do PCO em Portugal, com a assinatura ilegível do costume.

Assunto: Eveline Nave

Acabo de receber instruções de Londres de acordo com as quais a rejeição das facilidades precedentemente comunicada deve ser mantida.

O tom cordial e diplomático das primeiras missivas trocadas entre franceses e ingleses sobre Evelina desapareceu e foi substituído pelo tom seco e impessoal das notas de serviço.

Como dois lutadores cansados por vários rounds, Londres e Lisboa parecem esquecer-se da jovem luso-francesa e dedicar-se à guerra que continua a assolar a Europa e que, neste ano de 1942, vai sofrer evoluções decisivas, com a ruptura do Pacto Ribentrop-Molotov, a invasão da União Soviética pelos exércitos de Hitler e a entrada deste país na guerra, ao lado dos Aliados, aos quais tinham vindo juntar-se os Estados Unidos.

Evelina passa mais um Natal em Lisboa, e nove meses depois, a 19 de Janeiro de 1943, o dossier da jovem portuguesa volta a abrir-se para registar uma nova recusa britânica no que respeita à concessão do malfadado visto, uma vez mais pedido pelo incansável Charles Gorlier.

Se Londres e a Grã-Bretanha lhe estão vedadas, se a PVDE teima em que deve abandonar Portugal e se não pode regressar a Marselha, pois que vá para a África Equatorial francesa, mais exactamente para Brazzaville, no Congo francês. É para aí que Evelina Nave quer agora seguir, talvez por ter recebido informações segundo as quais também é para lá que vai o seu marido.

Escreve o PCO num curto texto que é um exemplo de secura diplomática: «Refiro-me à sua nota de 8 de Dezembro de 1942, no seguimento da qual pedi às minhas autoridades para reverem o caso da senhora Nave. Acabo de receber instruções de acordo com as quais a recusa do visto deve ser mantida.» Sem mais.

Charles Gorlier não se dá por vencido. Deve acreditar que se «agitar» adequadamente os franceses de Londres eles irão aumentar a pressão sobre os britânicos e que Evelina receberá o almejado visto. A 18 de Março de 1943 tenta de novo a sua sorte – a sorte de Evelina.

Desta vez a pretensão é mais modesta. Se Londres e a Grã-Bretanha lhe estão vedadas, se a PVDE teima em que deve abandonar Portugal e se não pode regressar a Marselha, pois que vá para a África Equatorial francesa, mais exactamente para Brazzaville, no Congo francês. É para aí que Evelina Nave quer agora seguir, talvez por ter recebido informações segundo as quais também é para lá que vai o seu marido.

Gorlier volta a dirigir-se ao chefe do recrutamento da França Livre, em Londres, recorda o longo historial de Evelina Nave e reclama mais uma intervenção junto do PCO de Lisboa para que lhe seja concedido um navycert (certificado de navegação), de modo a que possa enviá-la para Brazzaville. Enquanto o hipotético navycert não chega, os dias passam e a pequena Henriette não pode continuar sem ir à escola. Isso não é um problema, deve ter dito Charles Gorlier, que a 27 de Abril de 1943 escreve uma carta ao senhor Hourcade, director do Instituto Francês, Rua Santos-o-Velho, chamando a atenção dele para o caso de Henriette, que «gostaria de ser admitida gratuitamente na Escola Francesa», após as férias da Páscoa.

A resposta é inteiramente satisfatória, num tom a que não é porventura alheio o curso da guerra e o papel cada vez mais relevante do general De Gaulle, de modo que Gorlier rabisca num canto da missiva «Mandar carta amável para lhe agradecer».

No fim do Verão de 1943 faz dois anos que Evelina está em Portugal. A sorte da guerra começa a inclinar-se para o lado dos Aliados e, talvez por isso, as personagens deste folhetim tornam a ganhar vida.

A 21 de Setembro, Charles Gordier manda uma «Nota para o senhor Harper», do PCO em Lisboa, carta azeda onde já vai longe o tempo do «Meu Caro…» e outras fórmulas de delicadeza.

Acabo de ser informado pela Missão Francesa de que lhe pediu informações sobre a senhora Nave.

Não pude deixar de ficar muito surpreendido, porque os seus serviços não podem ignorar que a senhora Nave trabalha há dois anos na Delegação Francesa; ela passou várias vezes pelos vossos serviços para outros tantos interrogatórios.

Visto que a Delegação Francesa não deixou de existir, ela continua a tratar de todos os assuntos de que foi encarregue há três anos. Concordará que para todas as informações relacionadas com os voluntários, os seus serviços devem continuar a dirigir-se à minha Delegação e estou à sua inteira disposição para responder às suas perguntas sobre a senhora Nave.

Sobretudo porque, estando agora o senhor Nave em Espanha, de onde deve partir num próximo comboio de barcos rumo à África do Norte, seria agradável para mim poder enviar a sua mulher com ele.

A data e a assinatura.

Como se vê, o tom não é propriamente um exemplo de cortesia. As relações entre os aliados franceses e britânicos em Lisboa já estiveram manifestamente mais cor-de-rosa, pelo menos no que diz respeito a Evelina Nave.

A documentação não regista qualquer resposta dos ingleses, mas a carta de Gorlier revela um elemento novo. Já não se trata agora de enviar Evelina para Londres, nem do seu ingresso como voluntária nas FFFL, mas sim de o marido fazer metade do caminho para chegar à sua mulher e, juntos, partirem de Espanha para a África do Norte.

Partirá, enfim, não partirá?

O autor de “A Sombra dos Heróis”, José Manuel Barata-Feyo

Madrid envia para Lisboa, a 24 de Setembro de 1943, um telegrama secreto, em quatro pontos, sem qualquer referência. No ponto 3 lê-se que o remetente vai «tentar enviar Henry Nave para Lisboa pela linha belga».

No dia seguinte, o já volumoso dossier de Evelina Nave, «de passagem em Lisboa», acolhe um «relatório» feito por ela:

Em finais de Setembro do ano passado (1942), com a polícia portuguesa a colocar-me dificuldades e não podendo seguir para Londres, quis regressar a França; para tal, fui ao consulado de França pedir um visto; mas eles disseram‐me que tinha de fazer o pedido no consulado da Alemanha [estranha recomendação do cônsul francês, na medida em que as tropas alemãs só viriam a passar a linha de demarcação e a ocupar o sul da França em Novembro de 1942, dois meses depois do ocorrido em Lisboa].

Fui lá, mas depois de me terem perguntado de que vivia eu, deram-me a entender que sabiam que eu trabalhava na Embaixada Britânica, mas que estavam dispostos a deixar-me partir para França, e juntar-me ao meu marido, com uma condição: abandonar o meu trabalho na Embaixada e entrar ao serviço da Alemanha.

Devia ficar seis meses, à experiência e, se fosse bem devotada à causa da Alemanha, facilitariam então a minha viagem, para ir reencontrar o meu marido.

Todavia, deram-me oito dias para bem reflectir nas propostas deles e levar-lhes, após esses oito dias, a minha resposta sobre o que tinha decidido. Afastei para sempre a ideia de ir ter com o meu marido, sendo o preço a pagar por mim demasiado ignóbil.

Não se sabe para quem Evelina fez este relatório, nem por que razão o faz só mais de um ano depois de ter sido solicitada pela embaixada da Alemanha, mas é natural que tenha sido a pedido de Gorlier. Ao certo, sabe‐se apenas que é a vez de os alemães entrarem em cena, pelo menos de um modo claro, no que a ela diz respeito.

A 2 de Outubro, o bureau do adido militar da França Livre, em Lisboa, recebe uma carta do cônsul-geral de Sua Majestade, via Madrid, com o seguinte pedido (parece óbvio que os britânicos evitam contactar Gorlier directamente):

Um certo francês, Henry Nave, que está em liberdade provisória [?], declara que a sua mulher trabalhou na vossa Embaixada durante os últimos dois anos. Se bem percebemos, a mulher dele está pronta a pagar‐lhe a viagem até Portugal.

Não sabemos que chances terá ele de ficar em Portugal, com a sua mulher, e agradecemos que nos dê a sua opinião.

Ao que tudo indica, o adido militar envia esta carta a Charles Gorlier, pedindo‐lhe que «tenha a amabilidade de comunicar-me se tem alguma informação a este respeito». Henry Nave conseguiu, portanto, sair de Marselha e fugir da França ocupada, com ou sem a ajuda da rede que organizava a fuga dos prisioneiros de guerra, a mesma que Evelina disse que conhecia (declaração que pôs em polvorosa os serviços secretos britânicos e franceses). Mas alguma coisa deve ter corrido mal com as autoridades franquistas para ele estar agora em liberdade provisória.

Charles Gorlier responde no dia 5:

A senhora Nave está de facto empregada no meu serviço há dois anos.

Fui informado de que o marido dela, Henry Nave, deve ser enviado para a África do Norte, passando por Lisboa e a minha intenção é que ele seja acompanhado pela sua mulher, que assinou um pedido de alistamento nas Forças Francesas Combatentes logo a 12 de Setembro de 1941.

Pela primeira vez, Gorlier recebe uma resposta positiva dos ingleses no que respeita a Evelina. No dia 7 de Janeiro, Harper escreve a Gorlier, que apelida agora de cônsul de França em Lisboa: «Tenho a honra de informá-lo que não vejo inconveniente a que a senhora Nave se junte ao seu marido na África do Norte. Este bureau está por conseguinte pronto a conceder-lhe todas as facilidades necessárias.»

A vida do casal Nave não está fácil. Por alguma razão que a documentação não revela – possível falta de visto, pois que Evelina estava disposta a suportar as despesas da viagem –, Henry Nave não consegue vir para Portugal. Para tentar resolver o problema, Charles Gorlier envia, a 8 de Novembro, um telegrama cifrado para «Morton», na embaixada britânica de Madrid: «Seguimento da vossa carta de dia 7. Em função das dificuldades de saída de Lisboa da senhora Nave, teria a possibilidade de a enviar para aí, de onde poderia partir com o marido para a África do Norte. Telegrafem com urgência vossa concordância.»

A resposta de Morton chega dia 10, mas não é a desejada. Para começar, não responde a Charles Gorlier directamente, mas sim ao adido militar, que lhe reenvia uma cópia do telegrama: «Por favor não envie a senhora Nave para Espanha clandestinamente. É provável que não possam viajar juntos.»

E assim chegamos ao dia 14 de Dezembro e ao famoso telegrama enviado de Madrid. Alguém – mas quem? – que assina Alexandry, diz a Charles Gorlier que Henry Nave estará em Madrid no dia 22 e que enviem para lá a mulher dele.

E Evelina não vai. Nem ela para Espanha, nem o marido para Portugal. Uma vez mais, a jovem portuguesa vai passar o Natal em Lisboa, com a filha, agora com 10 anos já feitos.

O novo ano de 1944 vai começar com mais uma rajada de ofícios, cartas e telegramas secretos sobre a senhora Nave. A 1 de Janeiro, num belo papel timbrado com as armas reais, a embaixada britânica em Lisboa informa muito oficialmente o senhor du Chayla, delegado em Portugal do Conselho Francês de Libertação Nacional, do seguinte: «Recebemos um telegrama do nosso cônsul-geral em Barcelona, pedindo que o informássemos que Henry Nave partiu para a África do Norte num barco francês. Depreendemos, pelo telegrama, que tratará agora de enviar a senhora Nave para junto do marido dela, na África do Norte.»

A informação é transmitida a Charles Gorlier, que os britânicos continuam apostados em ignorar depois do raspanete que ele deu ao Sr. Harper. O representante de De Gaulle não perde tempo e a 4 de Janeiro volta a escrever ao PCO, num tom onde se adivinha uma pincelada de triunfo. Repete a nota enviada pela embaixada britânica e acrescenta: «Por conseguinte, ficar-lhe-ei muito grato se me disser que está disposto a conceder‐lhe o visto e o navycert que lhe permitirão chegar à África do Norte, na companhia da sua filha Henriette.»

Pela primeira vez, Gorlier recebe uma resposta positiva dos ingleses no que respeita a Evelina. No dia 7 de Janeiro, Harper escreve a Gorlier, que apelida agora de cônsul de França em Lisboa: «Tenho a honra de informá-lo que não vejo inconveniente a que a senhora Nave se junte ao seu marido na África do Norte. Este bureau está por conseguinte pronto a conceder-lhe todas as facilidades necessárias.»

Aleluia! Aparece finalmente uma luz ao fundo do túnel. A saga lusitana de Evelina Gomes Nave chega ao fim. Três anos e quatro meses depois de a «armadilha» lisboeta se ter fechado sobre ela e a sua filha Henriette, pode seguir viagem e juntar-se ao marido. No meio de tanto infortúnio, a história delas até acaba por ter um final feliz, ao contrário da regra geral naqueles tempos de guerra.

Mas, afinal, por que razão a obtenção de um simples visto para a Grã‐Bretanha – um entre tantos milhares – mobilizou tantos diplomatas e espiões em plena guerra?

Na última das três cartas sobre Evelina que Charles Gorlier envia para Argel, no dia 13 de Janeiro de 1944, aparece finalmente a explicação. Melhor dizendo, aparece uma explicação, plausível por certo, mas que ainda assim deixa em aberto outras hipóteses sobre a verdadeira identidade de Evelina, a jovem portuguesa que De Gaulle se dignou mandar ir para junto de si e que, para espanto dos serviços secretos da França Livre e da Grã‐Bretanha conhecia a existência de uma organização secreta que organizava a fuga de prisioneiros de guerra aliados para fora das zonas controladas pelos alemães.

A carta, a que Gorlier anexa oito documentos, resume de novo a longa história de Evelina, mas acrescenta‐lhe dois pontos. O primeiro é que Evelina foi ao consulado alemão, não só por sugestão do cônsul do governo francês, mas também com a concordância de Gorlier. O segundo ponto, decisivo, é que Gorlier «Soube mais tarde que uma carta anónima tinha sido enviada ao Passport Office, denunciando-a como tendo sido vista no Consulado alemão. Envio‐lhe este dossier para que não haja nenhum mal-entendido» no que respeita à lealdade de Evelina Gomes Nave. Fim…”

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

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