Exemplo ou figura extraordinária? Portugueses bem sucedidos descrevem o seu Presidente

Seis portugueses bem sucedidos dizem ao Observador o que querem do Presidente. Um galerista, uma empresária, um atleta, um médico e dois físicos descrevem a figura número um do Estado português.

Honesto, responsável, experiente, independente e que diga o que pensa. É assim que várias pessoas que são um exemplo nas suas áreas, do desporto à cultura, imaginam o próximo ou a próxima Presidente da República. Mas, como representante da nação, deve ser o melhor e o que mais orgulhe todos os portugueses?

“Ninguém deve ser visto como um exemplo. Até os santos podem cometer erros. Alguém que eu consideraria uma figura exemplar na política americana é Jimmy Carter e eu considero que ele foi um desastre como Presidente”, afirma ao Observador António Homem, dono da galeria Sonnabend e há muitos anos radicado em Nova Iorque. O galerista, que gere uma das maiores coleções de arte pop do mundo e que terá brevemente a sua coleção exposta em Serralves, afirma que mais importante que ser um exemplo, é que o Presidente não aja de acordo com partidos políticos e seja “razoável” e “pragmático”.

António Homem

António Homem esteve em Portugal em janeiro do ano passado, aquando a exposição da Sonnabend na Fundação Arpad Szennes – Vieira da Silva.

Alguém “honesto” e com “experiência na política” são as exigências de Marcos Freitas, vice-campeão europeu de ténis de mesa. O jogador, que treina fora de Portugal, considera que o chefe de Estado não tem de ser um exemplo, mas que tem de ter a responsabilidade e a postura de alguém que representa a nação. “É preciso que seja uma pessoa com muita energia”, indica o atleta ao Observador.

Carlos Fiolhais, professor Catedrático no Departamento de Física da Universidade de Coimbra, diz que o Presidente é um cidadão como os outros, mas também um exemplo, já que é “um cidadão para o qual todos os outros olham”. “Deve por isso ser exemplo naquilo que faz e naquilo que diz. E o que faz deve corresponder aquilo que diz”, considera o físico. Sobre as características de um Presidente, Fiolhais indica que “é um árbitro do sistema político” e que “tem de ser absolutamente isento”.

Carlos Fiolhais

Carlos Fiolhais, professor catedrático, afirma que os cidadãos olham para o que o Presidente faz.

Também Cristina Fonseca, co-fundadora da Talk Desk e que figura na lista de “30 under 30” da Forbes, considera que o Presidente deve ser um exemplo, mas com limitações. “Deve obviamente ser um exemplo mas isso não invalida que não seja um cidadão comum”, diz ao Observador a empreendedora cuja empresa só no ano passado arrecadou quase 20 milhões de euros. Quanto ao perfil do próximo ou da próxima ocupante de Belém, Cristina Fonseca indica que “visão de futuro” e “promoção de consenso político”, são essenciais.

Sobre o perfil do Presidente, Gentil Martins, um dos mais reputados cirurgiões pediátricos portugueses, considera que deve ser consequente com aquilo que pensa e agir “sempre” de acordo com a sua consciência. “É importante que respeite também as decisões da Assembleia da República. Claro que é essencial que também lute contra a corrupção”, afirmou o médico.

Já o físico João Magueijo, que é professor da Imperial College, em Londres, considera que qualquer debate sobre a figura do Presidente é uma discussão puramente estética. “Ao contrário de sistemas políticos como o brasileiro ou o americano, o presidente em Portugal é uma figura largamente decorativa, como a rainha de Inglaterra”, afirma o físico. Opinando sobre os Presidentes em exercício até agora, o cientista radicado no Reino Unido há vários anos, considera que “os nossos régulos têm feito uma triste figura, especialmente o último”.

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João Magueijo, físico radicada no Reino Unido, considera que tos Presidentes, em geral, têm feito uma “triste figura”.

"O Presidente, sendo um cidadão como os outros, é um cidadão para o qual todos os outros olham. Deve por isso ser exemplo naquilo que faz e naquilo que diz. E o que faz deve
corresponder aquilo que diz"
Carlos Fiolhais, professor catedrático de Física

Novo Presidente, novas causas

Marcos Freitas considera que há necessidade de mais apoio para o desporto profissional em Portugal e que essa poderia ser uma das causas do próximo Presidente. “Muitas vezes parece que só interessa o futebol e é essencial apoiar outras modalidades que também dão prestígio a Portugal no estrangeiro”, refere o mesatenista, esperando ainda que o próximo Presidente esteja disposto a “melhorar a vida dos portugueses”, dentro dos seus poderes.

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Marcos Freitas defende que há falta de apoio para o desporto profissional e que o Presidente pode ter uma posição nesta questão.

António Homem, apesar de estar geograficamente afastado de Portugal, está atento a alguns episódios do mundo da arte em Portugal. Considera que teria sido “mais inteligente” vender a coleção de quadros Miró, que resultou da nacionalização do BPN, já que na sua opinião se trata de “uma coleção sem importância” e tentar adquirir a coleção Berardo, atualmente em exposição no CCB. “Isso permitiria criar uma situação artística mais favorável em Portugal”, afirma o herdeiro da coleção Sonnabend.

Cristina Fonseca também tem ideias bastante concretas sobre a necessidade do papel do Presidente da República nas áreas do empreendedorismo, economia e tecnologia. “Precisamos de iniciar e manter um ciclo positivo em que e a economia e as relações externas do país se incentivam mutuamente para melhorarmos a imagem de Portugal e promovermos o que de melhor temos por cá”, sugere a engenheira, concluindo que é importante que o país não ignore “as mudanças mais recentes no mundo” e “o papel que a tecnologia tem nesta nova era”.

Cristina Fonseca

Cristina Fonseca é co-fundadora da Talk Desk, uma empresa que só no ano passado angariou quase 20 milhões de euros de investimento.

Carlos Fiolhais quer um Presidente que “ajude a revalorizar a ciência em Portugal”. “O sistema de ciência passou por um processo destruidor no último mandato de Cavaco e Silva, sem que este tenha tido o mínimo gesto de ajuda à ciência. Agora é preciso fazer voltar a ciência a crescer”, defende o físico, indicando que é “indispensável o alargamento da cultura científica entre a população”.

Lançamento do livro de memórias de António Gentil Martins

Gentil Martins no lançamento do livro “Ser bom aluno não chega”, lançado em 2014, em conjunto com a jornalista Marta F. Reis (à direita) e apresentado por Adriano Moreira (à esquerda).

Gentil Martins defende que o Presidente não tem de intervir diretamente em nenhuma área específica, incluindo a saúde. “Precisa ter uma posição global sobre tudo que se passa no país, mantendo sempre a sua posição como chefe de Estado”, considera o médico.

"Precisamos de iniciar e manter um ciclo positivo em que e a economia e as relações externas do país se incentivam mutuamente para melhorarmos a imagem de Portugal e promovermos o que de melhor temos por cá"
Cristina Fonseca, engenheira e co-fundadora da TalkDesk

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