Facebook. Mãe, pai… precisamos de falar

21 Janeiro 2016732

Mil jovens portugueses falaram sobre privacidade no Facebook num estudo feito em Portugal. O Observador foi a reboque e ouviu conselhos de 5 adolescentes para os pais. Está na hora de os ouvir.

Nenhuma conversa que tem como ponto de partida um seco “temos de falar” é fácil. Em inglês, o famoso “we need to talk” é bem mais sedutor, mas isto será em bom português. O objetivo? Evitar climas de guerra fria à mesa de jantar, rostos corados ou episódios embaraçosos. Ou seja, é uma espécie de “não me esperes na porta da escola, fica ao fundo da rua” da era digital. Este é um manual de boas maneiras, sobre e para os utilizadores das redes sociais, nomeadamente o Facebook. Estratégia para os pais? Bom, é engolir em seco, pegar num bloco de notas e fazer scroll down

Publicar fotografias dos filhos em pequenos é coisa para haver chatice. Se houver bónus — poses esquisitas, sem roupa, com óculos ou aparelho –, então boa sorte. Comentários de papás babados, a dizer coisas como “ahh, sais mesmo à tua mãe”, publicar artigos que deveriam ser do interesse do filho, ancorados por um “olha, é bom para ti”, também é provável que resulte numa ligeira azia. E aquela doce tentação de fazer likes nas fotografias dos amigos? Ui. Atenção aos pontapés na gramática, senhoras e senhores. “Não andem a cuscar”, aconselham os adolescentes ouvidos pelo Observador. E, já agora, uma novidade: há quem sugira que os viciados no Facebook… são os pais.

Publicar fotografias dos filhos em pequenos é coisa para haver chatice. Se houver bónus — poses esquisitas, sem roupa, com óculos ou aparelho –, então boa sorte. Comentários de papás babados, a dizer coisas como “ahh, sais mesmo à tua mãe”, publicar artigos que deveriam ser do interesse do filho, ancorados por um “olha, é bom para ti”, também é provável que resulte numa ligeira azia.

A rede social de Mark Zuckerberg tem qualquer coisa como 1500 milhões de utilizadores espalhados pelo mundo. Em outubro de 2015, quase cinco milhões de portugueses tinham conta no Facebook. É, por isso, todo um mundo novo nas ligações entre pais e filhos. Nem tudo é embaraço ou estorvo, pois há também espaço para conselhos, recomendações, hábitos e privacidades. E também, porque não, provas de confiança de parte a parte.

A rede social de Mark Zuckerberg tem qualquer coisa como 1500 milhões de utilizadores espalhados pelo mundo. Em outubro de 2015, quase cinco milhões de portugueses tinham conta no Facebook

Uma coisa de cada vez. Comecemos pela razão que fez o Observador desencantar cinco jovens para falar sobre a sua experiência nas redes sociais. O Facebook e a MiudosSegurosNa.Net, uma plataforma que visa garantir a segurança de crianças e adolescentes na internet, apresentaram esta quinta-feira uma campanha (“Pensa antes de Partilhar”) sobre os hábitos e desafios que os jovens enfrentam diariamente nessas águas que parecem sem limite — o objetivo passa também por servir de bússola, para orientar pais, filhos e educadores, sobre como melhorar a sua proteção e segurança.

Para tal, foram entrevistados mil jovens com idades entre os 14 e 18 anos. Os autores do estudo destacam o facto de 80% dos inquiridos terem já recorrido às ferramentas de privacidade para bloquear alguém; já 94% censura e acha incorreto que se publiquem fotografias negativas ou embaraçosas. Para casos mais problemáticos, onde o jovem se sente incomodado ou visado, 75% deles admitiu que pediria ajuda. Um dos jovens ouvidos pelo Observador (nomes fictícios) foi vítima de bullying no Facebook e a mãe foi chave nesse processo.

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De acordo com o estudo publicado esta quinta-feira, a internet é o meio de comunicação mais natural e recorrente entre os jovens. A quantidade de plataformas, aplicações, redes sociais, ajuda a explicar o fenómeno: as adolescentes inquiridas têm, em média, 3.6 contas em redes sociais, contra 2.9 dos rapazes. Oitenta e cinco por cento usa o telemóvel para o toma lá dá cá, mas também recorrem a computador e tablets. Conclusão: em média, os jovens entre os 14 e 18 anos usam 2.5 dispositivos.

Apenas metade dos mil entrevistados partilharia a sua password com alguém, sendo que os pais ganhariam no campeonato da confiança (54%), seguindo-se por melhor amigo/a (34%) e namorado/a (34%)

Quanto a privacidade, 80% dos inquiridos admite que já bloqueou alguém, tendência que se confirmou nas conversas entre o Observador e os cinco adolescentes. Apenas metade dos mil entrevistados partilharia a sua password com alguém, sendo que os pais ganhariam no campeonato da confiança (54%), seguidos pelo melhor amigo/a (34%) e pelo namorado/a (34%). Sessenta e um por cento das meninas já pediu que fossem apagadas fotografias ou conteúdos em que estejam inseridas, contra 41% dos rapazes, quem sabe menos preocupados com a imagem.

Em casos de abordagens menos simpáticas, casos realmente incómodos, o que fariam estes jovens? Setenta e cinco por cento deles pediria ajuda. No topo da lista voltam a surgir os pais (54%), seguidos por amigos (26%) e autoridades (24%). Uma coisa é certa para estes garotos: não é correto publicar fotografias más ou embaraçosas (considera 94% dos inquiridos), assim como não é de bom tom publicar sem pedir autorização a quem aparece (69%), mesmo que as fotografias sejam de alto gabarito.

Maria, 17 anos: “Faz-me um bocado confusão aquilo de meterem fotografias de quando somos bebés”

O tom e a articulação das palavras não fazem adivinhar a idade no bilhete de identidade. Do outro lado da linha está Maria, uma rapariga que começou a usar o Facebook aos 11 anos. “Na altura só nos podíamos inscrever com 13 anos, por isso lembro-me de ter metido outra data de nascimento”, recorda. Maria ganha à média do estudo, pois tem contas nas redes sociais Facebook, Instagram, Snapchat e Twitter.

Maria tem os pais no Facebook, que usam apenas um perfil, o da mãe. “No início houve apenas uma conversa sobre não meter fotos vergonhosas ou muitas publicações no meu mural”, conta. “E não meter também comentários nas fotografias como ‘ahh, sais à tua mãe’, ‘é bonita’, aquelas coisas de mães e pais… até dos avós! É quase a família toda com Facebook!”

"Faz-me um bocado confusão aquilo de fazerem comentários, de irem comentar fotos de amigos, fazerem publicações mais estranhas ou meterem fotografias de quando somos bebés. Aquelas coisas esquisitas..."
Maria, 17 anos

Há pais que usam também esta ferramenta para deixar recados, o que faz adivinhar algum desconforto alheio. “Quando eu era mais nova, às vezes, a minha mãe deixava [no meu mural] artigos sobre limpar a casa e dizia ‘devias começar a fazer também assim’. Agora já não faz tanto. Publica na mesma, mas não desse género”, conta.

E situações que façam comichão, há? “Faz-me um bocado confusão aquilo de fazerem comentários, de irem comentar fotos de amigos, fazerem publicações mais estranhas ou meterem fotografias de quando somos bebés. Aquelas coisas esquisitas…”, revela, com um fair play e boa disposição assinaláveis. “Adicionar amigos não há problema, desde que não publiquem coisas nos Facebooks deles ou haja conversas e coisas estranhas.” As linhas vermelhas, não há volta a dar, posicionam-se junto às coisas estranhas e esquisitas.

Vamos a conselhos, mães e pais? “Não façam comentários. Não andem a cuscar e quando chega a hora de jantar digam ‘então aquilo que publicaste no Facebook e tal…’, não vale a pena. E não façam comentários nos Facebooks dos amigos”.

Francisca, 15 anos: “Não há conselhos que possa dar, eles usam o Facebook muito mais do que eu”

Esta jovem nem é fã de Facebook, já desativou a conta e voltou a criar outra, porque a dinâmica escolar assim o exigiu. Francisca prefere Twitter, Instagram, Snapchat e Tumblr. “Quando criei a minha primeira conta no Facebook, a minha mãe não concordava muito com isso, porque na altura ela não sabia como funcionava. O meu pai não se importava”, conta. Um vírus levou-a a apagar a conta: “Enviava mensagens automáticas como se fosse eu para muita gente, com o link do vírus. Foi aí que me passei e desativei a conta.” Agora, diz, vai lá apenas para dar um olho às modas: “A cusquice fala mais alto. E, como agora se veem muitos vídeos de experiências sociais, é mais interessante.”

“A cusquice fala mais alto. E, como agora se veem muitos vídeos de experiências sociais, é mais interessante”

Quanto a publicações e definições de privacidade, admite que já teve o seu momento ‘whaaat?’. “As fotos na minha outra conta não são nada de embaraçoso, mas são daquelas coisas que dão vontade de rir e pensar ‘o que raios tinha eu na cabeça?!’. Sempre fui uma pessoa muito fechada relativamente ao Facebook, portanto tenho a sorte de não ter muita coisa para me arrepender”, admite. Francisca disse ainda ao Observador que não permite ser identificada em publicações que todo o público da rede social tenha acesso, embora admita que deixa “amigos de amigos” verem essas publicações. Ou seja, um universo que ela desconhecerá, naturalmente.

Os pais não a envergonham, nadica de nada, quiçá a lógica seja ao contrário. “Não há conselhos que possa dar, eles usam o Facebook muito mais do que eu, e têm uma ideia maior de como as coisas funcionam por aqueles lados”, diz. E garante: “Era capaz de dar a minha password aos meus pais, confio plenamente neles, mas tenho a certeza que eles não lhe dariam uso algum.”

Miguel, 18 anos: “Parem de usar reticências em tudo o que dizem!”

Com contas no Instagram, Snapchat, Pinterest, este rapaz de 18 anos já usa o Facebook desde 2012. Miguel tem as ideias bem definidas quanto ao que os pais não devem fazer, e os pontapés na gramática será o que mais lhe custa.  “Tenho a minha mãe no Facebook, o meu pai não tem conta nessa rede social. Somos bastantes próximos por isso não houve problema qualquer.” A password da conta partilhá-la-ia com os pais ou com o melhor amigo.

Miguel nunca publicou fotografias embaraçosas, mas já foi objeto e alvo do mesmo. “Foi no gozo, até era bastante engraçado”, admite. “Nunca tive problemas a não ser conversas pessoais desagradáveis no Facebook Messenger. Quando tenho comentários desagradáveis, procuro perceber a razão para tal e remediar, se o caso for muito grave, aí peço ajuda.” E recorda um episódio menos simpático: “Bloqueei uma rapariga que é prima do meu melhor amigo. Ela mandava-me 20 mensagens por dia e era bastante incómodo”.

É que este rapaz prefere o Facebook para acompanhar a vida de algumas pessoas e “ver coisas engraçadas como vines“. “Tenho cuidado com quem aceito como amigo, aceito apenas quem conheço. Defino as minhas publicações apenas para os meus amigos verem. Não tenho problemas em ser marcado nas publicações deles. Se forem ofensivas, aí sim, há problemas.”

"Corrijam o vosso português, usem a pontuação como deve ser. Não comentem as fotos dos vossos filhos, pode ser embaraçoso para eles. Não sejam viciados nesta rede social. Não partilhem tudo e mais alguma..."
Miguel, 18 anos

Se os pais ainda têm unhas para roer ao terceiro adolescente desta lengalenga, chegou a parte do outro lado da moeda. “Os meus pais não me envergonham, quando muito sou eu que os envergonho!” Bom, isto correu bem. E haverá algum dark side, ao estilo “Guerra das Estrelas”?

“Os pais não têm cuidado algum com a escrita, têm um português mau, não têm cuidado com a pontuação”, arranca. “Conselhos? Corrijam o vosso português, usem a pontuação como deve ser. Não comentem as fotos dos vossos filhos, pode ser embaraçoso para eles. Não sejam viciados nesta rede social. Não partilhem tudo e mais alguma coisa porque a certa altura fica demasiado amontoado. Parem de usar reticências em tudo o que dizem!” Okay

Marta, 17 anos: “Veem-se muitos casos de bullying no Facebook, muitos mesmo”

Tinha 12 anos e o processo foi simples: “Disse à minha mãe que queria uma conta, e ela ajudou-me a criar a conta. Ela disse-me para ter cuidado com quem falava, já tinha havido essa conversa”, conta. Marta tem contas no Facebook, Instagram, Twitter, Tumblr e Snapchat.

Esta adolescente tem os dois pais no Facebook, mas apenas um deles lhe dá dores de cabeça. “O meu pai não faz nada, não mete gostos, não manda mensagens, não faz nada. A minha mãe mete coisas que não sou apaixonada no meu perfil, como publicações de maquilhagem… e eu digo ‘eu não quero saber disso!!'”, diz, com os decibéis mais alterados, talvez para a mãe ouvir.

Os risos e o tom mais leve desapareceram quando referiu o caso de bullying de que foi vítima nesta rede social. “Foi no nono ano. O grupo [no Facebook] era da minha turma, servia para discutir trabalhos. Depois uma rapariga falou mal de mim, atacou-me verbalmente, com asneiras”, lembra. “Disse-lhe que não devia fazer isso, os outros viram e não fizeram nada. A minha mãe acabaria por descobrir, por me ver triste, foi comigo à professora, que falou depois com a rapariga.”

Agora o caso já não a afeta muito, mas diz que essas histórias são recorrentes. “Agora tenho mais cuidado com grupos. Quando vejo alguém a sofrer o mesmo, tento defender. Sei que é mau estar naquela posição. Veem-se muitos casos desses, muitos mesmo. Normalmente é o elo mais fraco, ou porque fala menos, ou porque é quem está mais de parte”, esclarece.

"Agora tenho mais cuidado com grupos. Quando vejo alguém a sofrer o mesmo, tento defender. Sei que é mau estar naquela posição. Veem-se muitos casos de bullying, muitos mesmo. Normalmente é o elo mais fraco, ou porque fala menos, ou porque é quem está mais de parte"
Marta, 17 anos

As cautelas de Marta estendem-se às fotografias. “Tenho cuidado em não mostrar certas partes do corpo, em não falar com pessoas que não conheço, tenho de conhecer ao vivo primeiro.” A adolescente admite ainda que já alterou as definições de privacidade, para que apenas amigos possam ver o que publica.

E conselhos para os pais, que se encontram meio enrolados neste tsunami tecnológico? “Não coloquem fotografias de quando os filhos são mais novos. Seja porque fomos mais gordinhos, ou tínhamos aparelho, ou havia algo que não nos sentíamos bem. Os pais podiam perguntar. Já me aconteceu, sim. Tinha ar de criança, usava óculos… não foi muito agradável”, alerta.

“Não se apeguem muito ao Facebook, vivam as coisas, com as pessoas. Vejo isso um bocadinho: os pais chegam a casa, fazem jantar, vão ao computador ver as notificações, jogar o Candy Crush. Podiam passar esse tempo com os filhos, a falar como correu o dia na escola”

Há mais? Ora essa: “Não cusquem os vossos filhos. O meu pai já me perguntou uma vez sobre uma foto com um rapaz: ‘entããããão quem é o rapazinho?…’. Fiquei sem saber o que dizer, porque nem tenho boa ligação com ele. Com a minha mãe diria que ‘é o António ali da esquina’ ou assim, sem problema. Fiquei um bocado nervosa.”

Ato III: “Não se apeguem muito ao Facebook, vivam as coisas, com as pessoas. Vejo isso um bocadinho: os pais chegam a casa, fazem jantar, vão ao computador ver as notificações, jogar o Candy Crush. Podiam passar esse tempo com os filhos, a falar como correu o dia na escola.” Mas isso não é o que acontece normalmente ao contrário? “Sim, também. Acontece muito…”

Ana, 17 anos: “A melhor forma de usarem as redes sociais é confiarem nos filhos”

Com contas no Twitter, Tumblr e Pinterest, Ana usa o Facebook desde o sétimo ano, pois “toda a gente estava a criar”. Esta adolescente também conta com os pais na lista de amigos, algo que é pacífico. “Simplesmente adicionei-os, sinto que não tenho nada a esconder e que não há necessidade para tal coisa”, garante.

E o que fazem eles? “Geralmente mandam-me publicações de animais para ver, mas por mensagens. O resto das publicações ou dão gosto ou ignoram, também não me preocupo com isso e até brinco a dizer ‘aaah, achas bem não meteres like nas fotos das paisagens que tiro?'” Curiosamente, a única coisa que desassossega Ana não é os pais navegarem no mesmo oceano 2.0 que ela, mas sim o facto de eles verem os vídeos do Facebook “muito alto na sala”.

Ana usa pouco o Facebook. “Partilho vídeos que gosto ou ponho fotos que tiro, já que gosto de fotografia. Não costumo falar com muita gente. Quanto a privacidade, tenho aquilo definido só para amigos, e apenas sou marcada em publicações se aprovar.” Apesar de usar pouco a rede social, há sempre aqueles momentos que oferecem pele de galinha: “Quando vejo o que publiquei há uns anos, há coisas que apago porque são bastante embaraçosas.” Ana também opta por denunciar posts que não gosta.

"Nunca bloqueei ninguém, mas já eliminei amizades, pois não gosto de ter no meu feed pessoas com preconceitos, racistas, homofóbicos, ou que sejam apenas estúpidos"
Ana, 17 anos

E bullying? “Creio que sim, há muita gente que sofre bullying em qualquer rede social. Quer seja através de comentários de fotos, posts ou por mensagem. Há sempre alguém que gosta de gozar e criar confusão”, admite. E garante: “Nunca bloqueei ninguém, mas já eliminei amizades, pois não gosto de ter no meu feed pessoas com preconceitos, racistas, homofóbicos, ou que sejam apenas estúpidos.”

Para os pais, aqui segue a sabedoria do alto dos seus 17 anos: “Acho que a melhor forma de usarem as redes sociais é confiarem nos filhos e, se virem algo estranho, falar com eles, mas sem pressionar. Também não devem comentar fotos com comentários como ‘estás tão linda filha, beijinhos’, quase em formato de carta. Toda a gente acha isso estranho, especialmente quando vem de familiares. Os pais devem também mostrar aos filhos quando publicam fotos deles, para não ser uma surpresa desagradável.”

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