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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Farid, Dorian e como os Jogos também podem ser para dois refugiados que fintaram o destino em Portugal /premium

Farid tornou-se Walizadeh na prisão. Tinha medo de lobos e talibãs, agora estuda arquitetura. Dorian, órfão, quer ser como Obikwelu. A história de dois refugiados em Portugal que sonham com os Jogos.

“O meu nome é Farid Walizadeh. Foi eu que escolhi o apelido, na prisão”. Tinha nove anos.

A história de Farid tem muitos episódios assim. De alguém deixado à sua sorte, que se teve de desenvencilhar sozinho e encontrar um caminho. No ponto em que nos encontramos tem 23 anos, vive em Portugal, está a tirar o curso de Arquitetura, é pugilista e um dos candidatos a integrar a equipa olímpica de refugiados nos Jogos de Tóquio.

Mas comecemos do início. Nasceu no Afeganistão. Com um ano ficou órfão de pai. A mãe teve de fugir e não podia levá-lo com ela. Entregou-o a uma família amiga. Quando a mãe adotiva morreu, o padrasto pagou a um grupo de traficantes para levarem Farid para fora do país. Demorou dois anos a chegar à Turquia. A meio caminho, ficou sozinho, nas montanhas do Paquistão.

[Ouça aqui na íntegra a reportagem na íntegra da Rádio Observador]

Refugiados olímpicos. “Mais perto de Deus”

Chegou ao destino com uma mochila cheia de droga. Aos nove anos, foi preso. Só falava persa. E foi aí que precisou de escolher o nome dele. “No meu país, não usamos apelido. Por exemplo, ‘Farid é filho de’… e usam o nome do pai. Eu não sabia”. Escolheu Walizadeh. “Em persa, é uma pessoa que fica perto de Deus”.

Farid não é religioso. Ao longo da tarde, durante o treino, vai até brincar com isso ao som de “Hallelujah” de Leonard Cohen. A escolha da playlist é do treinador, mas ele não se importa. Dá-lhe ritmo para dar uns murros no saco. Libertar a tensão, os traumas.

“O meu nome é Farid Walizadeh. Foi eu que escolhi o apelido, na prisão”. Tinha nove anos

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Estamos na Academia de Boxe de Paulo Seco, no Casal Ventoso. Às 17h, Farid cumpre o segundo treino. São dois por dia, hora e meia cada um, seis dias por semana. Rodeado de fotografias de antigos campeões, num ginásio que parece saído dos filmes do Rocky, começa a rotina diária. Primeiro, salta à corda. Depois, treina com bola. Atira socos no ar em passadas curtas e rápidas.

O treinador vai puxando por ele. “Tens de ouvir o golpe!”, grita Paulo Seco. No ringue, Farid com as velhas luvas, já remendadas, vai dando socos nas mãos do treinador. Os dois vão rodando, trocando de posição, como numa coreografia. Três minutos de luta e toca o alarme do contador. Um minuto de descanso; volta a tocar o alarme e há um minuto para recuperar. E volta ao início. Vai ser assim, a próxima hora e meia.

“Não consigo abrir-me para outras pessoas. No boxe, não precisas de falar”

Farid vai contando a história de como ali chegou. A travessia das montanhas, o isolamento, as tentativas falhadas no Mediterrâneo, a prisão onde “levava muita porrada”, a forma como descobriu as artes marciais para aprender a defender-se, o passaporte esquisito, o campo de refugiados na Turquia, o sonho da Europa.

A porta abriu-se quando recebeu apoio do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. Farid fez o pedido de estatuto de refugiado e através do programa de recolocação de menores desacompanhados chegou a Portugal. Não fazia ideia de onde era, nem sequer que fazia parte da Europa. Português, só Cristiano Ronaldo. Mas deu o salto.

Em 2012, com 15 anos, aterrou sozinho em Lisboa. “Lá do alto, no avião, a cidade parecia Istambul. Tem um rio, como o Bósforo e uma ponte… Disse: ‘Estamos a dar a volta a Istambul!’ Pensei mesmo isso!”.

Farid não é religioso. Ao longo da tarde, durante o treino, vai até brincar com isso ao som de “Hallelujah” de Leonard Cohen.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

No aeroporto, foi recebido pelo Centro Português de Refugiados e foi instalado no Centro de Acolhimento da Bela Vista. “Passei um ano no centro de detenção, depois passei para o centro de educação. Passei a minha vida nos centros. Centro de educação, centro de refugiados, agora centro de alto rendimento…”. A esse propósito, Portugal recebeu 1.674 refugiados ao abrigo dos programas de Recolocação e Reinstalação da União Europeia.

Não perdeu o sentido de humor. Mesmo a recordar esses primeiros tempos em Portugal fechado no quarto, sem conhecer ninguém e nem sequer falar português. Um mês depois, ganhou coragem e foi procurar refúgio naquilo que no passado o salvou: o desporto. Começou a praticar boxe.

"O boxe é uma grande terapia. Já fui a muitos psicólogos e não funcionou para mim porque não consigo abrir-me para outras pessoas. No boxe, não precisas de falar. É bater, cansares-te fisicamente e psicologicamente mandar a raiva para fora. Se tens demasiada raiva dentro ou medo ou dor, gritas a bater no saco. E não tens de justificar a ninguém porque é que estás a gritar..."

“Consegues mandar a raiva para o saco e está tudo bem. O boxe é uma grande terapia. Já fui a muitos psicólogos e não funcionou para mim porque não consigo abrir-me para outras pessoas. No boxe, não precisas de falar. É bater, cansares-te fisicamente e psicologicamente mandar a raiva para fora. Se tens demasiada raiva dentro ou medo ou dor, gritas a bater no saco. E não tens de justificar a ninguém porque é que estás a gritar…”.

Em seis meses, foi campeão da categoria de cadete. Mas estava longe de sonhar com os Jogos Olímpicos. Um dos obstáculos foi as lesões que acumulava. No ano passado, o Comité Olímpico de Portugal decidiu apostar nele. Ajudou-o a conseguir a operação ao joelho que precisava e candidatou-o ao Programa de Apoio aos Atletas Refugiados, financiado pelo Comité Olímpico Internacional.

Farid é um dos 49 atletas de 11 nacionalidades que faz parte deste plano que apoia a preparação para os Jogos Olímpicos. Têm ainda de passar por uma fase de apuramento para chegaram à equipa internacional que vai competir em Tóquio.

O treinador, Paulo Seco, limpava o suor a Farid constantemente durante o treino

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A primeira experiência aconteceu nos Jogos do Rio, em 2016. Em plena crise de refugiados, o Comité Olímpico Internacional assumiu uma posição. Numa decisão inédita, criou uma equipa com atletas de diferentes nacionalidades: dez homens e mulheres, vindos Sudão do Sul, da Síria, da República Democrática do Congo e da Etiópia tornaram-se o símbolo de esperança para 65 milhões de refugiados em tudo o mundo.

Farid leva muito a sério o peso da responsabilidade. A pandemia pode ter atrasado este sonho mas, por outro lado, deu-lhe mais um ano para treinar e tornar-se melhor no boxe. Peso-pluma. Categoria 57 kg.

A Arquitetura porque “destruir leva um minuto mas construir leva anos”

Chegar aos Jogos Olímpicos como pugilista é apenas um dos objetivos de Farid. Conjuga os treinos com a Faculdade, onde está a tirar Arquitetura. “Já vi tanta destruição. Quando vejo as notícias, no Afeganistão, na Síria, no Iraque ou em países africanos em guerra… Destruir leva um minuto, mas construir leva anos”, conta, “eu queria aprender a construir e criar coisas”.

Aos 23 anos, os sonhos são muitos. Farid gostava, por exemplo, de um dia ter nacionalidade portuguesa. O futuro passa por Portugal. Ter uma casa, cultivar árvores de fruto. E até já tem uma ideia de onde será: Coimbra. Conheceu a cidade numa das viagens que faz todos os anos a pé. Já foi até Sagres, junto à costa. Num outro ano, seguiu pelos Caminhos de Santiago. “Gostei mais do Norte. O pessoal é muito simpático, fizeram-me sentir bem-vindo e também gostei no tempo”.

"Sempre tive medo quando saí do Afeganistão. Medo da polícia, dos lobos, dos talibãs, das fronteiras... Aqui não tenho nenhum stress! Quando me apetece, posso dormir no meu saco-cama onde quero. E se me apetece andar, ando; de dia ou de noite. Não tenha medo que alguém me vá matar"

Farid diz Norte porque Coimbra é a Norte de Lisboa. Na verdade, é mais um Centro para juntar à vida dele. Mas ainda lhe falta conhecer muito Portugal. No final de Agosto, sai para mais uma viagem. Desta vez, vai andar junto à fronteira com Espanha. Sempre a pé.

“Sentes uma liberdade… Sempre tive medo quando saí do Afeganistão. Medo da polícia, dos lobos, dos talibãs, das fronteiras… Aqui não tenho nenhum stress! Quando me apetece, posso dormir no meu saco-cama onde quero. E se me apetece andar, ando, de dia ou de noite. Não tenha medo que alguém me vá matar. E depois, é uma coisa mais espiritual e pessoal. Sinto-me mais livre, sinto mais a natureza”. E serve para pôr as ideias em dia? “Se tiveres coragem”.

Aos 23 anos, os sonhos são muitos. Farid gostava, por exemplo, de um dia ter nacionalidade portuguesa

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Dorian Keletela, a República Democrático do Congo e o exemplo Obikwelu

Nas pistas de atletismo do Centro de Alto Rendimento do Jamor, cumpre-se mais um dia de treino. É quase meio-dia. O sol vai alto, queima a pele. Mas vida de atleta é assim mesmo.

“Pronto!”. À voz do treinador João Abrantes, Dorian Keletela assume posição: pé esquerdo à dianteira, encaixado no bloco de partida; joelho direito no chão. O corpo desequilibra-se para a frente. Mãos alinhadas, polegares para dentro.

“Hey!”. Dorian arranca. Uma vez. E outra. E outra. O treinador vai dando indicações. Às vezes, aplaude; outras, critica, aponta falhas, aperta com os atletas. Não pode vacilar. Dorian luta por um lugar na equipa de Atletas Refugiados que, pela segunda vez na história, vai competir nos Jogos Olímpicos.

Dorian Keletela nasceu na República Democrático do Congo

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Em 2016, Dorian Keletela assistiu aos Jogos do Rio já em Portugal. Tinha acabado de chegar, com 17 anos, vindo da República Democrática do Congo. Foi no Centro de Refugiados na Bela Vista que, através da televisão, viu aquela equipa sem bandeira entrar no Estádio do Maracanã sob um mar de aplausos. Nessa altura, imaginou que um dia podia ser ele? “Nunca!… Nunca…”, repete a rir.

Há quatro anos, Dorian teve de deixar a República Democrática do Congo. Órfão de pais, vivia com a tia, que fazia parte da oposição ao governo congolês. A instabilidade política no país fez com que pedisse proteção. O destino era a Europa. Veio parar a Portugal sozinho, um país do qual só conhecia os clubes de futebol grandes: Benfica, Sporting, FC Porto.

Sem falar português ou inglês, a adaptação foi difícil. E o Desporto foi a forma que arranjou para tornar o processo mais leve. “No centro de acolhimento de refugiados, pedi para começar a praticar desporto. Gosto de correr. Eles contactaram o atletismo do Sporting para começar a treinar lá”.

“Hey!”. Dorian arranca. Uma vez. E outra. E outra. O treinador vai dando indicações.

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Na escola, quando vivia no Congo, fazia atletismo, mas longe de achar que podia ser um dia um profissional. Com o emblema dos leões, foi crescendo como velocista. Primeiro, às mãos do professor Rui Norte. Hoje, com João Abrantes, treinador da Federação, homem com pulso firme que não deixa o sonho cair.

A timidez de Dorian é disfarçada com um sorriso. Ainda se debate com a língua, mas esforça-se para falar. E mesmo aliciado para falar francês, se se sentir mais à vontade, ele resiste. “O português é muito difícil. Aqui, tem de se dizer ‘Bom Dia’, ‘Boa Tarde’… Lá não mudava”.

Variantes que ainda não entende bem. Para semana, vai começar um curso de Português. E depois, treinar, treinar, treinar. É preciso recuperar a forma. A pandemia pregou-lhe uma rasteira.

"Francis Obikwelu inspira-me muito. Ele passou momentos difíceis e foi medalhado olímpico. É especial"

Foi complicado. Treinar na rua para manter a forma… Estava no bom caminho mas depois de dois meses parado, para voltar, é complicado. Tenho de continuar a treinar e fazer boas marcas nas competições para recuperar o tempo perdido”.

Conseguir boas marcas é essencial para ser apurado para a equipa de refugiados nos Jogos Olímpicos de Tóquio, marcados para daqui a um ano. Se for um dos escolhidos, Dorian vai carregar um outro peso. “É stressante. Não posso ir lá só para participar; é para competir, dar o melhor. Para dar esperança a outras pessoas e mostrar que tudo é possível na vida. A vida não é fácil; tens de acreditar no teu sonho e continuar a lutar”.

Nos horizontes, está a possibilidade de um dia correr com a bandeira portuguesa. “Estou a viver aqui. Portugal agora é o meu país”, assegura. E Dorian tem referências: Francis Obikwelu. “Inspira-me muito. Ele passou momentos difíceis e foi medalhado olímpico. É especial”, realça.

Francis Obikwelu, o homem mais rápido da história da velocidade portuguesa.O nigeriano que o país adoptou. Talvez um dia, Dorian seja conhecido como o Obikwelu luso-congolês. Ou melhor ainda. Talvez fique na história do Desporto nacional como Dorian Keletela.

"Francis Obikwelu inspira-me muito. Ele passou momentos difíceis e foi medalhado olímpico", diz Dorian.

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Dez atletas, zero medalhas, uma mensagem

Desde 1992, o Comité Olímpico permite que atletas sem bandeira possam competir em situações extraordinárias. Nos Jogos de Barcelona, aconteceu com os atletas jugoslavos. E nessa edição, houve também uma equipa unificada, com doze países da antiga União Soviética.

Em Sidney, no rescaldo do referendo da independência de Timor-Leste, quatro atletas timorenses inauguraram a presença do país como participantes olímpicos independentes. Com o mesmo estatuto, nos Jogos de Londres e do Rio de Janeiro, lutaram pelo pódio atletas das antigas Antilhas Holandesas e do Sudão do Sul. Mas nunca como uma equipa.

A crise de refugiados de 2015 chocou o mundo e em 2016 o Comité Olímpico Internacional tomou uma posição – atletas de diferentes nacionalidades, que foram obrigados a sair dos países de origem, podiam participar nos Jogos como equipa. A bandeira, seria a do próprio Comité.

Dois nadadores sírios, dois judocas da República Democrática do Congo, um maratonista da Etiópia e cinco corredores de meia-distância do Sudão do Sul lutaram por um lugar no pódio nos Jogos do 2016. Não trouxeram medalhas, mas a mensagem ficou lá.

Dois nadadores sírios, dois judocas da República Democrática do Congo, um maratonista da Etiópia e cinco corredores de meia-distância do Sudão do Sul lutaram por um lugar no pódio.

Não trouxeram medalhas, mas a mensagem ficou lá. Há dois anos, na preparação para os Jogos de Tóquio, o Comité Olímpico Internacional confirmou que em 2020 a equipa de refugiados voltaria a competir.

“Num mundo ideal, não precisaríamos de ter uma equipa de refugiados nos Jogos Olímpicos, mas, infelizmente, as razões pelas quais criamos uma equipa olímpica de refugiados antes dos Jogos Olímpicos Rio 2016 continuam a persistir”, explicava na altura Thomas Bach, presidente do COI.

O Programa de Apoio a Refugiados, financiado pelo Comité Olímpico Internacional, integra 49 atletas que vivem em 11 países diferentes. Dorian e Farid são os participantes que se preparam em Portugal para conseguir uma vaga na equipa olímpica de refugiados.

A equipa de refugiados nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro em 2016

AFP via Getty Images

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