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Fazer exercício de manhã ajuda a diminuir os níveis de estrogénios, uma fator de risco para o cancro da mama

Getty Images/iStockphoto

Fazer exercício de manhã ajuda a diminuir os níveis de estrogénios, uma fator de risco para o cancro da mama

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Fazer exercício físico reduz o risco de cancro. E se for de manhã, melhor /premium

Os cientistas somaram os benefícios do exercício físico aos risco do trabalho noturno para perceber se a hora da atividade física tem efeito nos resultados. Parece que sim — e a culpa é das hormonas.

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Ela prefere correr de manhã, bem cedo, antes de dar início ao longo dia de trabalho. Ele escolhe correr à noite, quando tem tudo despachado e pode usufruir de um momento só seu, sem estar preocupado com o horário da próxima reunião. Correm por prazer e — talvez sem saberem — também estão a contribuir para reduzir o risco de terem cancro.

A atividade física é benéfica para a saúde só por si, mas e se a hora a que é realizada tiver efeito no resultado final? Essa foi a questão colocada pela equipa de Manolis Kogevinas, diretor científico no Instituto de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal). Logo pela manhã é o melhor, segundo os dados recolhidos pela equipa de investigadores, embora os homens também beneficiem do exercício físico ao fim do dia.

E, se é daquelas pessoas que funcionam melhor à tarde ou à noite, fique a saber que os benefícios de fazer exercício físico de manhã parecem ser ainda maiores para si do que para aqueles que já são matutinos por natureza — pelo menos, em relação ao cancro da mama e da próstata.

A justificação pode estar na produção de hormonas — incluindo para os homens que beneficiam do exercício ao fim da tarde —, produção essa que varia ao longo do dia e é afetada pela atividade física e pelas perturbações do relógio biológico (ritmo circadiano), como trabalhar à noite ou por turnos.

O seu relógio biológico anda fora de horas? Acerte-o se quer prevenir doenças

“Sabemos que a atividade física é importante. Sabemos que a perturbação do ritmo circadiano é importante. E decidimos juntá-los”, explicou ao Observador Manolis Kogevinas, coordenador do estudo. Antes deste trabalho, não existiam dados que permitissem associar atividade física, perturbação do ritmo circadiano e cancro em humanos, acrescentou ainda o investigador que se tem dedicado ao estudo da influência dos fatores ambientais e ocupacionais no desenvolvimento de algumas doenças, uma delas o cancro.

A atividade física controla a produção de hormonas

A associação entre o exercício físico e a redução do risco de desenvolver cancro da mama já era conhecida: uma meta-análise recente (que juntou vários estudos para chegar a uma conclusão mais robusta) verificou que a redução desse risco podia chegar aos 20%, escreve a equipa de Manolis Kogevinas no artigo publicado na revista científica International Journal of Cancer. No caso do cancro da próstata não existem dados tão evidentes, mas tudo aponta para que uma vida fisicamente ativa também contribua para reduzir a probabilidade de se desenvolver este tipo de doença.

Manolis Kogevinas têm-se dedicado ao estudo da influência dos fatores ambientais e ocupacionais no desenvolvimento de algumas doenças, como o cancro — ISGlobal

ISGlobal

Por outro lado, a perturbação dos ritmos circadianos — ou seja, quando se troca as voltas aos ponteiros do relógio interno — aumenta o risco de desenvolver cancro. Um exemplo muito claro disto acontece com quem faz trabalho noturno: a falta de luz natural diz ao corpo que já pode começar a desligar e produzir as hormonas da noite, mas a exposição à luz artificial, as refeições durante a noite e a atividade física, ainda que motivada pela função profissional, durante essas horas dão ao organismo uma mensagem completamente diferente.

A produção de melatonina, a hormona do sono, fica completamente desregulada quando se perturba o relógio biológico e os efeitos vão muito além da capacidade de dormir bem: a Agência Internacional para a Investigação em Cancro, da Organização Mundial de Saúde, classificou mesmo o trabalho por turnos que implique perturbações do ritmo circadiano como provavelmente cancerígeno para humanos.

Trabalhar por turnos aumenta o risco de morte prematura

Partindo da proteção que a atividade física pode trazer em relação ao desenvolvimento de cancro e nos riscos acrescidos de comer, dormir e manter atividade fora de horas, a equipa de Barcelona decidiu olhar para variações mais pequenas, como as diferentes horas da atividade física mais intensa, em vez da perturbação mais evidente que é trocar os dias pelas noite nos trabalhadores noturnos. Por enquanto, só podem dizer que momentos do dia parecem estar associados aos maiores benefícios — das 8 às 10 horas da manhã —, mas já têm pistas em relação ao motivo: a tal produção de hormonas.

“Pensamos que [o motivo] será hormonal, logo não há razão para acharmos que vai funcionar da mesma forma nos homens e nas mulheres.”
Manolis Kogevinas, diretor científico no Instituto de Saúde Global de Barcelona

Por um lado, os estrogénios, que regulam o ciclo menstrual, estão associados a um aumento do risco de cancro da mama quando em níveis muito altos. Por outro, a atividade física faz diminuir os níveis de estrogénios. Se por aqui já se pode começar a perceber o porquê dos potenciais benefícios do exercício, a ideia torna-se ainda mais clara quando se conhece o pico de produção do estradiol (um dos principais estrogénios): por volta das 7 horas — por isso o maior efeito protetor está associado a quem tem mais atividade física logo pela manhã.

A ideia de que os benefícios podem estar associados ao controlo dos níveis de hormonas (ainda que não exclusivamente) torna-se mais evidente quando se verifica o caso dos cancros triplo negativos (os que não são afetados pelos níveis das hormonas). Nestes não há diferença entre o momento do dia em que se pratica a atividade física, ou seja, nestes casos o exercício de manhã não mostrou ser mais benéfico do que se fosse feito à tarde.

Nos homens, a justificação não estará nos estrogénios, produzidos em muito menor quantidade, mas, potencialmente, na melatonina. Uma equipa de investigadores no Japão verificou que quando os homens realizavam exercício físico ao final do dia, a quantidade de melatonina no organismo só começava a descer mais tarde. Tendo em conta que a melatonina também é conhecida por ter um efeito anticarcinogénio, pode estar aí uma parte da explicação para os homens terem mais benefícios na redução do risco de cancro quando têm uma atividade física mais intensa entre as 19 e as 23 horas.

Nas mulheres, a melatonina reduz os níveis de estrogénio. Se houver menos produção de melatonina, haverá mais estrogénios e um maior risco de cancro da mama

Getty Images/iStockphoto

Mas, por enquanto, tudo isto são hipóteses. O caminho agora é conhecer os ciclos diários das hormonas e perceber como é que afetam o desenvolvimento do cancro. “Depois seremos capazes de entender melhor se o momento em que se pratica exercício físico tem efeitos diferentes nos homens e mulheres”, diz Manolis Kogevinas.

Com mais dados era possível ter mais respostas

Por atividade física, não pense que foram considerados apenas os desportos que exigem um esforço intenso. Aqui, também se incluíram atividades menos exigentes como andar — que foi a atividade mais vezes reportada (47,6%) —, nadar, fazer jardinagem ou até cumprir as atividades domésticas mais comuns. O que interessava era que essa atividade tivesse sido realizada de forma contínua, pelo menos, ao longo de seis meses e que a frequência e intensidade atingissem o nível mínimo definido pelos investigadores.

Os cientistas verificaram também que nadar e andar de bicicleta eram atividades mais frequentes em quem estava mais ativo logo pela manhã, enquanto as caminhadas e outras atividades mais ligeiras eram mais frequentes em quem as praticava depois das 10 horas. Já ir ao ginásio, jogar futebol ou ténis bem como outras atividades de intensidade moderada eram mais frequentes nas pessoas mais ativas à noite. E por aqui começaram a perceber que as pessoas são diferentes e têm hábitos diferentes, por isso os investigadores tiveram de ter em consideração outras variáveis que podiam influenciar os resultados, como a idade, a condição social ou a obesidade, e tentar eliminar esta influência com métodos estatísticos.

Mas é claro que este trabalho tem limitações, como reconheceu o seu coordenador. “Às vezes é muito difícil incluir todas as diferenças entre alguém que faz exercício físico todas as manhãs e alguém que não faz exercício de todo ou mesmo quem faz exercício em horários diferentes durante o dia”, diz Manolis Kogevinas. Estudar humanos é mais difícil do que estudar ratos no laboratório, admitiu, mas a vantagem é mesmo essa: fazer um trabalho com humanos, porque nem todos os resultados com ratos dão para extrapolar. “Acho que chegámos a uma hipótese interessante e fomos extremamente cautelosos com a interpretação.” Acima de tudo, o investigador ressalvou que não havia trabalhos deste tipo e que este é um primeiro passo. O ideal era replicar o estudo e estendê-lo a outros países, disse.

“Não testámos cinco mil coisas e reportámos apenas uma. Isto foi exatamente o que testámos desde o princípio, era a nossa hipótese.”
Manolis Kogevinas, diretor científico no Instituto de Saúde Global de Barcelona

Além da vantagem de ser um estudo feito com dados de pessoas, está o facto de não ter sido feito com um conjunto limitado de indivíduos, numa experiência controlada de laboratório, mas usando uma base de dados clínicos da população espanhola especialmente vocacionada para o estudo do cancro. Na análise foram incluídos 781 mulheres com cancro da mama e 504 homens com cancro da próstata, mais 865 mulheres e 645 homens sem este tipo de cancros para servirem de grupo de controlo com os quais se pudesse comparar os efeitos. Os dados das 10 regiões espanholas usadas reportam a 2008-2013 e incluem informação de pessoas entre os 20 e os 85 anos.

As limitações recaem sobretudo no facto de a base de dados ter algumas informações em falta, de na maior parte dos casos estudados a atividade física ser pouco intensa e de não ter sido possível incluir os efeitos da alimentação ou dos padrões de sono (que se sabe influenciarem o risco de cancro e poderem ser influenciados pelo exercício físico). Outro aspeto em falta foi a atividade física ocupacional, como no emprego, tendo apenas sido considerada a atividade física doméstica e recreacional, o que pode ter condicionado os resultados.

Partindo da hipótese de que a atividade física condiciona a produção de hormonas e que assim se reduziria o risco de cancro, há outras variáveis que a equipa do ISGlobal (financiado pela Fundação la Caixa) não teve oportunidade de estudar, como a variação da frequência e intensidade da atividade física ao longo da vida ou as diferenças na produção de hormonas consoante a idade. “Não tínhamos informação suficiente para isso”, explicou Manolis Kogevinas, sobre o estudo cujos dados se reportam ao passado. “Se tivéssemos mais informação, poderíamos ter feito mais análises, mas tivemos o cuidado de não especular.”

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Para conseguir um conjunto de dados mais próximo do ideal, o estudo teria de ser preparado primeiro e os dados recolhidos no futuro, com objetivos pré-definidos e com as pessoas a serem acompanhadas ao longo do tempo. Mas isso requer mais financiamento. Manolis Kogevinas gostaria de fazer um trabalho com mais pessoas, em mais países, avaliando a alimentação e medindo a atividade física com sensores para depois ver os efeitos na obesidade, diabetes, síndrome metabólico, cancro ou outras doenças. “Isto é realizável, mas terei de arranjar o dinheiro para o conseguir.”

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