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ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

Filipe Melo: "Quando isto começou, a última coisa que me apetecia era tocar piano" /premium

Nesta quarentena, Filipe Melo já aprendeu a fazer um bom arroz, lançou uma curta-metragem no Youtube e toca piano para milhares, via smartphone. Nesta entrevista explica porquê e fala-nos de gatos.

Será que os gatos percebem o que se está a passar? Pode um pianista perder a vontade de tocar piano no meio de uma pandemia? E como se lida com a ideia de não poder abraçar o pai, que acaba de fazer 80 anos? Filipe Melo é um tipo reservado, e reserva quase sempre para si todos estes dilemas. Conhecemo-lo das bandas desenhadas, que faz ao lado de Juan Cavia, como “Comer/Beber” ou “As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy”. Agora, acaba de disponibilizar a sua curta-metragem, “Sleepwalk”, que rodou durante uma semana aos Estados Unidos e que foi mencionada na “Short of the Week”, uma plataforma internacional de curtas-metragens.

Mas onde o podemos encontrar, com mais regularidade, é sentado ao piano, com luz no mínimo, a tocar para Bruno Nogueira, enquanto o humorista bebe um copo de vinho. Com ele, têm estado milhares de internautas. Uma espécie de missa ao domingo, com um padre, de corpo dormente, onde o pianista julgava que nunca se iria encontrar. Quando tudo isto acalmar, Filipe Melo surgirá com uma nova banda desenhada, desta vez com uma história pessoal. Mas essa também tem sido um pouco a sua vida: ora por acidente, ora por talento. Nem que seja a fazer arroz cozido.

[a curta de Filipe Melo, “Sleepwalk”]

Falámos há pouco tempo sobre o isolamento dos artistas. Da quebra das rotinas, de não ir ao cinema, de dar aulas em casa. Já está mais habituado à ideia?
Já passei os vários estágios da dor. A minha vida tem sido bastante semelhante à da maioria de portugueses, com a diferença de que já ando nisto há ano e meio. Sempre que posso estou metido em casa. Tento ter uma variedade de coisas para fazer. Finalmente não me sinto mal por fazer coisas que dantes me faziam sentir preguiçoso.

Por exemplo?
Agarrar em caixas de DVDs que estava para ver há imenso tempo. Com tudo isto, percebemos o que gostamos realmente de fazer e não o que temos de fazer. Estamos a viver uma altura muito dramática, e qualquer coisa que se diga nunca vai compensar o horrível que é. Mas há, de facto, coisas boas: damos prioridades às coisas importantes e aprendemos a fazer coisas que nunca faríamos numa rotina normal. Pela primeira vez cozi arroz na minha vida,  e isso é muito triste.

Correu bem?
Correu muito bem, estou muito orgulhoso. E fiz puré de batata doce. Toda a gente faz, mas para mim é um triunfo absoluto.

Arroz não é assim tão fácil de fazer.
Não quero que isto pareça que, de repente, sou um aristocrata com pessoas a cozinhar para mim. É que sempre me tratei mal a nível alimentar. Agora tenho a hipótese de aprender algo novo. Outra coisa, mais nerd: tirei um dia inteiro para ver harmonias do Bach. Soa muito intelectual, mas é muito divertido e didático.

Sim, deduzo que a vida normal de pianista  não dê, por vezes, tempo para parar e ouvir música.
Pois, claro. E depois também há outra coisa importante: uma pessoa apercebe-se que consegue viver com menos dinheiro. Por um lado, é triste, porque quer dizer que estamos sem trabalho. Por outro, ajuda-nos a perceber que não temos de aceitar tudo.

Há assim uma espécie de poupança.
No meu caso, estou a aprender muito sobre gestão de dinheiro, economia pessoal. A nível mundial fica a ideia de como é que podemos viver neste planeta sem estragar isto tudo. Parecia uma autoestrada em hora de ponta, estava demasiado caótico. Se calhar dá para pensar um pouco. Eu faço-o à pequena escala, ter uma vida melhor depois disto.

"Quando tudo isto começou, a última coisa que me apetecia era tocar piano. Não me apetecia nada. Sentia que não havia propósito, que era a coisa mais inútil do mundo. E disse ao Bruno [Nogueira] que não tinha a certeza que queria entrar [nos vídeos em direto que o humorista e ator faz no Instagram], mas ele puxou por mim e, de um dia para o outro, fui recebendo mensagens de pessoas a agradecer."

O Filipe tem estado nos lives de Instagram do Bruno Nogueira a tocar piano, que conta com milhares de espectadores online. Daquilo que vai vendo ou das mensagens que lhe enviam, as pessoas estão mais stressadas?  Será que vão aprender alguma coisa, como diz? Ou esse efeito quase religioso, do fiel que vai ouvir o padre à hora X, de experiência em comunhão, vai terminar quando a pandemia passar?
Parecendo que não, sou uma pessoa muito reservada. E aquilo que foi aparecendo, dando-me visibilidade, aconteceu por acidente, graças ao Bruno Nogueira e ao Nuno Markl. Jurei que nunca pisaria um palco sem ser para tocar. E, de repente, estou a fazer a “Nêspera no Cu” no Coliseu de Lisboa. É insólito para mim. É um pouco o que se passa nos lives. Quando tudo isto começou, a última coisa que me apetecia era tocar piano. Não me apetecia nada. Sentia que não havia propósito, que era a coisa mais inútil do mundo. E disse ao Bruno que não tinha a certeza que queria entrar, mas ele puxou por mim e, de um dia para o outro, fui recebendo mensagens de pessoas a agradecer. E isso fez com que os lives tenham tido um papel importante para mim. A música ajuda as pessoas como me ajuda a mim.

Tem um efeito de atenuar a ansiedade ou o sofrimento.
Em mim, sim. Quando estou com a neura, vejo um filme ou ouço um disco. Nunca tinha pensado que, enquanto músico, podia ter esse efeito noutra pessoa. E isto é um pouco estúpido, porque a música, para o bem ou para o mal, é a minha profissão.

Foi preciso a quarentena, longe dos palcos, para ter essa perceção.
Sim, só que normalmente nos concertos estou numa pilha de nervos tão grande, que o meu único desejo é sair dali rapidamente e ir para casa. Esta quarentena acaba por ser uma fase tão estranha, mas também de aprendizagem para mim. Sobre o significado da música e o prazer que retiro disso. Tem-me ajudado a sair da cama e ir até ao piano.

Quando diz que não lhe apetecia ir para o piano era porquê? Porque não há ninguém do outro lado para bater palmas ou ouvir?
Não achei que acrescentasse grande coisa. Sentia que não tinha um papel útil, que agora não era uma profissão ou um passatempo. Um sentimento de profunda tristeza. E depois está a acontecer outra coisa: as pessoas estão mais simpáticas. Se calhar é impressão minha, mas acho que não. O que não deixa de ser uma contradição.

Quanto menos contacto, mais proximidade, é isso. Meio estranho…
Mas não reparou nisso?

Mais ou menos. Das primeiras vezes, no supermercado, pareceu-me haver ali algum egoísmo. Agora acho que as pessoas estão a respeitar mais as regras. Mais tranquilidade. E mais cumprimentos entre vizinhos, talvez. Nem que seja um aceno de manhã. Estamos mais atentos a alguns detalhes.
É isso. Estamos a tomar essa consciência. É pena é ser preciso uma catástrofe destas.

Imagens da curta-metragem "Sleepwalk"; de Filipe Melo

No filme “Mulherzinhas”, há uma personagem feminina que toca piano. Numa das cenas, ela, muito a medo, entra numa casa, repara no piano e decide tocar. O Filipe, portanto, não tem sempre essa atração.
Diria que gosto mesmo de música, mas não tenho a disciplina, gostava de ter mais. Aquela ideia do pianista clássico, não é para mim. Não sou disciplinado.

Voltemos à primeira pergunta. A rotina de ir ao cinema está a fazer-lhe muita falta? Há muitos filmes agora disponíveis em streaming, mas não é a mesma coisa. E vi nas suas stories do Instagram que anda a partilhar filmes asiáticos.
Ando a adiar caixas de filmes há muito tempo. Vou despachar outra vez a caixa do Tarkovsky, mas é preciso algum caparro para ver numa quarentena. Não é propriamente os irmãos Marx. Tenho um hábito há quinze ou vinte anos de ir todos os domingos ao cinema, com um grupo de amigos. Sinto falta disso. Ver filmes em casa é um plano D. Já tentámos ver filmes online em conjunto, mas não é igual. Tenho saudades do cinema.

Até do som das pipocas?
Sim, não me chateia nada. Agora ainda vou gostar mais, aquele som que outrora era horrível agora é música.

E agora, o que anda a ver? Há quem seja atraído por séries sobre o tema, como aquela sobre pandemias da Netflix. E o Filipe?
Estou a ver o “Tiger King”. Ainda só vi o primeiro episódio. Estou a ver ao mesmo tempo que vejo o “Better Call Saul”.

“Tiger King”: sexo, drogas e tigres num documentário impossível mas verdadeiro

Só vi três episódios da série dos tigres. Aqui é um pouco o inverso do que estávamos a falar há pouco, das pessoas se terem tornado mais simpáticas. No “Tiger King” descobrimos que as pessoas ainda são mais loucas do que esperávamos. Que há por aí “universos paralelos” que desconhecemos.
Claro, não tenho dúvida sobre isso.

Mantendo a conversa na América, falemos de “Sleepwalk”, a sua curta metragem que agora está disponível no Youtube. Apanhei um comentário que achei interessante: “nunca na vida pensava que tinha sido um português a fazer esta obra de arte”.
[ri-se] É meio carinhoso e mau. Tenho muito orgulho em ser português mas sou um marciano. As pessoas não iam identificar esta curta com algo português. Tinham visto o meu filme, o “I’ll See You in My Dreams” (2003), há muito tempo, e agora isto. É agridoce, de facto. Mas, esta curta teve mesmo de ser feita lá. A história pedia.

Como é que foi filmar este projecto de 14 minutos, nos Estados Unidos? Foi tão contemplativo como a própria curta-metragem?
Foi uma tempestade perfeita que se gerou. Fiz uma banda desenhada, com o Juan Cavia, a Comer/Beber, e usamos uma das histórias. Para desenhar uma das sequências, o Juan baseou-se numa imagem que viu na internet, de um diner, porque nunca tinha estado lá. O livro chegou às mãos de um amigo argentino dele, que é diretor de fotografia em Los Angeles. Ele viu o livro e disse que o sítio que o Juan desenhou ficava perto da sua casa. Mais: que arranjava uma equipa e que, num fim de semana, fazíamos tudo à borla. Problema? Não é tudo à borla, claro.

“Comer/Beber”. Champagne e tarte de maçã dão tragédias felizes em banda desenhada

“Não há almoços grátis”.
Exato. Não foi aquela ideia de ir para Hollywood fazer um filme, não podia ser mais independente do que isto. Depois, a minha produtora, Sandra Faria, trabalha para uma empresa, a Força de Produção, que produz teatro, e trabalhámos no “Deixem o Pimba em Paz”. Disse-me que acreditava no projeto e para avançarmos. Expliquei-lhe que não havia forma nenhuma de recuperar o dinheiro. Disse-me que o dinheiro chegaria de outras maneiras. A Gulbenkian também ajudou um pouco. Foi assim.

E esteve sempre lá?
Sim, demorou sete dias. Cinco dias de pré-produção, dois dias de rodagem. Os atores são todos norte-americanos mas só o protagonista é que é profissional, os outros têm outras profissões. A senhora que está no alpendre, por exemplo, é uma das vítimas do Michael Meyers no filme original do “Halloween”. É gente que anda há anos e anos a fazer pequenos papéis em filmes. O protagonista ia fazer de pai do Keanu Reeves na mesma altura que estava a gravar connosco, logo não podia gravar um dia extra. E disse que mal falava nesse filme. Era verdade, não vi o filme, mas vi aqui o cartaz no El Corte Inglés. Não é à toa que as pessoas dizem sempre que quem quer uma carreira nos filmes, deve ir para Hollywood. O tempo é perfeito para se filmar, há atores ótimos a trabalhar em restaurantes. É um luxo. É como querer aprender jazz: vai para Nova Iorque. Estão lá os melhores músicos a tocar por cinquenta dólares.

"Para muita gente a BD é só o universo da Marvel ou da DC. Se há algum tipo de missão que  tenho é a de alertar para essa variedade, para atenuar as diferenças entre um bom livro de banda desenhada e um bom livro normal, de literatura ou poesia. Têm de ser tratados como livros."

E nestes tempos, vai mantendo contacto com quem está nos Estados Unidos ou noutros países, de pessoas com quem já trabalhou?
Sim, temos uma “comunidade” no Whatsapp. Por falar nisso, esta semana fomos aceites no Short of The Week [plataforma que disponibiliza e promove curtas-metragens de autores emergentes]. Quando estava a preencher o formulário, percebi que não existia Portugal.

Como é possível?
Pois, não sei. Tive de escrever nas notas. Acho que a explicação é que como o circuito de curtas-metragens é fechado, há quem prefira colocá-las a circular nos festivais, e não que sejam vistas em grande escala. O cinema português é incrível, visto em todo o mundo, se calhar os canais de distribuição é que têm de ser revistos.

O que significa estar no Short of The Week?
Não há dinheiro. Mas há exposição, as pessoas veem, é a melhor paga que há. Quer dizer, quase. O melhor era um chorrilho de dinheiro. Nos festivais, por exemplo, uma pessoa é aceite num, leva tampa em dez. Portanto, nestas coisas é celebrar e celebrar.

Em “Sleepwalk”, há uma ideia forte entre uma tarte de maçã e uma relação entre duas pessoas. Que é um pouco o que está presente na BD, também, com outras histórias: a relação dos objetos e das memórias que nos trazem. Isso acontece-lhe?
Os asiáticos é que dizem que devemos estimular e procurar o contacto com brinquedos antigos e fotografias velhas nossas. Para estarmos em contacto com uma série de emoções com as quais habitualmente não lidamos, porque temos tendência a bloquear. Acontece-me isso quando olho para álbuns de fotografia antigos, aparece um aperto. Em relação à comida, não como carne há muitos anos, mas lembro-me que todos os fins de semana ia a um restaurante na [rua] Artilharia 1, comia sempre um esparguete com bolonhesa lá. E sei que se comesse outra vez, chorava baba e ranho, porque me leva a essa memória de quando tinha dez anos e estava com os meus pais. É pena que não vá comer esse prato outra vez. E isto apareceu na BD e na curta. E no filme “Ratatui”.

Em casa ainda não aconteceu, então. Bolonhesa não dá.
Não, ainda não, só vou no meu primeiro arroz. Só se for com atum talvez. Com objetos ainda não aconteceu. Só com uma fotografia do meu pai que partilhei nas redes sociais, que fez 80 anos há uns dias. Ele sempre me disse que tinha nascido quando os alemães tinham invadido Paris, mas era tanga. Fui confirmar à internet e estava com os meses desfasados.

[uma projeção de “Sleepwalk”, com comentários em direto de Filipe Melo e Nuno Markl:]

80 anos nesta altura, deve ser difícil.
Não pude dar-lhe um abraço, que merda de pandemia esta. Mas está seguro em casa, a “ser policiado”.

Este ano também vai lançar um grande projeto, uma banda desenhada com 300 páginas sobre dois pianistas. Fale-me disso. É engraçado porque este ano também vai sair o filme “Soul”, da Pixar, sobre um pianista de jazz.
Ah, sim esse, pensei que era outro, assustei-me. Já me aconteceu mais do que uma vez ter uma ideia, desenvolvê-la e alguém me dizer que viu um filme com uma ideia igual. Acontece a toda a gente que anda nesta vida.

Que história é esta? Há um cruzamento entre o Filipe, pianista, e o Filipe autor de banda desenhada.
Num livro deste género, desde o tempo que se começa a delinear o guião até ter o livro na mão, vão três anos, mais ou menos. Uma loucura. Mal nos lembramos do que aconteceu quando tudo começou. Mas houve algo determinante: primeiro, criar uma narrativa clássica, mas ao mesmo tempo, um pouco mais pessoal. E com o tom de filme épico italiano dos anos 70 e 80, que contam uma espécie de saga, acompanham a vida das pessoas desde a infância até à morte. Era um objetivo fazer isso. Inicialmente queríamos que fosse humorístico. Porque tanto eu como o Cavia tocamos piano, ele podia ser profissional, toca muito bem. A dada altura, começámos a gozar com uma capa de um disco de um pianista francês, o Samson François, que dizia “Poeta do Piano”. E os pianistas clássicos normalmente têm capas muito pirosas. Então começámos a pensar numa história à volta daquela capa. Por um lado, temos uma figura inspirada nos músicos um pouco azeiteiros como o Richard Clayderman ou o André Rieu. Depois, temos o Glenn Gould ou o Keith Jarrett, que são tipos brilhantes mas que têm um problema mental sério. E queríamos explorar o contraste entre os dois, uma rivalidade clássica. Mas, na verdade, é uma história muito pessoal. E foi a primeira vez que o Juan disse que gostou de um argumento meu.

Mas se com “Os Vampiros” ou com a saga do “As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy” houve sucesso, e o Juan Cavia não o elogiou, agora pode ser mau presságio.
[ri-se] Espero que não. Alguma coisa que é certa: temos vindo a evoluir.

“Os Vampiros”: redesenhar uma história da Guerra Colonial

Então a história já está feita. O que falta?
Faltam 50 páginas. De 300, não está nada mal. Estou ansioso por partilhar essa história, enquanto me identifico com ela.

O Filipe é um pouco um “ativista” da banda desenhada, quer sempre virar a atenção para este género. Tem havido uma evolução do público?
As pessoas confundem muito as coisas. Para muita gente a BD é só o universo da Marvel ou da DC. Se há algum tipo de missão que  tenho é a de alertar para essa variedade, para atenuar as diferenças entre um bom livro de banda desenhada e um bom livro normal, de literatura ou poesia. Têm de ser tratados como livros. O circuito é demasiado fechado.

Entendo. Houve uma banda desenhada que li no verão passado, Os Maus, que me desconcertou bastante.
É uma obra prima, está ao nível das grandes obras primas da literatura. E se calhar há quem não a leia porque pensa que é bonecada, e isso é redutor. É claro que o próprio mercado editorial não está preparado para o que se está a passar agora. As pessoas não estão habituadas a ler um livro online, em PDF ou em formato e-book. Não estou preparado e gostava de estar. Mas para isso é preciso que o mercado me acompanhe. Não me importava de libertar o livro, só que não é fácil.

As editoras estão a registar quebras neste momento.
É uma boa altura para se reinventarem.

"[os gatos de Filipe Melo percebem que estamos no meio de uma pandemia?] Não sei, a cabeça deles é um mistério total. A verdade é que os gatos vivem em quarentena."

Uma última pergunta: os seus gatos já estão fartos de si?
Espere, vou-lhe mandar uma fotografia

[Filipe Melo interrompe a entrevista para mostrar um dos seus gatos, o Simba, a apanhar sol à janela].

Sol, claro. Os meus gatos agora praticam algum distanciamento social do seu próprio dono.
A sério? Que estranho. Tem comprado paté?

Uma vez por semana.
Só? Eu dou mais vezes, claro, nesta fase de pandemia, como é que eles lutam contra isto? Dou-lhes paté e outras guloseimas. Quer que eu lhe mostre uma coisa?

[trocamos para FaceTime com vídeo]

Está preparado?

Sim.
Um segundo, vai valer a pena… O que é que vê?

Uma sala vazia.
Muito bem.

[Neste momento, vemos um vídeo dos dois gatos, já com o Mufasa na sala. Filipe Melo grita “paté”, e vemos os felinos a dirigirem-se para junto do pianista]

Não acredito, isso só acontece com os cães.
Não queria ter de o demonstrar. E agora obviamente que, depois disto, tenho de dar alguma coisa. É algo que não acontecia antes.

Os meus só reagem ao som do enlatado, mas é mesmo só uma vez por semana. Tenho medo que fiquem mais gordos.
[ri-se] Percebo. Eu sei que gostam muito, tenho dado mais nesta fase. Mas adoro a ideia dos seus gatos irem para longe do dono.

E será que percebem que estamos de quarentena, no meio de uma pandemia?
Não sei, a cabeça deles é um mistério total. A verdade é que os gatos vivem em quarentena.

São os nossos prisioneiros, no fundo.
Coitadinhos, vou soltar os prisioneiros…

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