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HENRIQUES DA CUNHA/AFP/Getty Images

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Final da Taça de Portugal. Rui Vitória escreveu o livro. Pedro Martins tirou cábulas?

Rui Vitória conquistou a única Taça do V. Guimarães contra o Benfica em 2013. Escreveu um livro, explicou o triunfo ao pormenor e hoje está do outro lado. O que deve Pedro Martins aproveitar e evitar?

Era um exercício complicado mas teve um resultado de tal forma conseguido que ainda hoje é falado: quando ainda era treinador do V. Guimarães, Rui Vitória, que sempre foi um homem agarrado aos estudos (e professor de Educação Física), aceitou o jogo proposto pela sua editora e adaptou os ensinamentos de Sun Tzu, o mais conhecido e citado general filósofo chinês, à sua área de atividade. Lendo aquelas 128 páginas com atenção percebe-se quem é e para onde quer ir o técnico bicampeão no Benfica. E, já agora, como ganhou uma Taça de Portugal ao Benfica.

Nesse livro, entre muitos outros temas, Vitória aborda cinco pontos em específico que contribuíram para a primeira vitória de sempre (e única) do V. Guimarães na prova: a chegada ao estádio, os momentos que antecederam a entrada em campo, a melhor forma para motivar o plantel na palestra, a preparação tática do jogo e o discurso ao intervalo. Na conferência de imprensa de antevisão à final da Taça, o agora técnico do Benfica negou qualquer hipótese dessas ideias serem utilizadas agora pelo seu homólogo, Pedro Martins. E explicou, numa ideia: o contexto é diferente. Mas será que dá para aproveitar qualquer coisa dessa fórmula de sucesso?

Deve o V. Guimarães atrasar a chegada? Não é obrigatório

“Tínhamos tudo controlado. Inclusive o autocarro do V. Guimarães parou, a caminho do estádio, numa estação de serviço, não para abastecer mas apenas para queimar tempo e chegar ao estádio depois do nosso adversário, esperando que o fogo da receção se extinguisse. Se tivéssemos chegado antes do Benfica, teríamos encontrado os adeptos encarnados, à espera da sua equipa, provavelmente ao rubro e enfurecidos, o que teria tido um efeito muito negativo nos nossos jogadores. Assim, deixámos o Benfica ir à frente, a sua claque recebeu-os e dispersou. E, quando chegámos, o ambiente estava mais calmo. Evitámos que os nossos jogadores sentissem o excesso da pressão dos adeptos adversários. À nossa espera, estavam vários adeptos do V. Guimarães, numa moldura humana bastante mais agradável para nós.”, Rui Vitória em ‘A Arte da Guerra para Treinadores’

Deve ser uma das ideias mais repetidas no futebol. Sobretudo com as equipas e os treinadores que enxotam sempre as culpas para outros. “O jogo foi decidido nos detalhes”, “Não fomos felizes por pormenores”, etc. Quem nunca ouviu este discurso riscado? Mas os detalhes, os pormenores, tudo isso pode de facto contar. Dentro e fora de campo.

Se Rui Vitória teve a preocupação de, na final de 2013, atrasar a chegada do autocarro do V. Guimarães ao Jamor para fugir à receção dos adeptos do Benfica, que ficarão na zona mais próxima aos balneários de novo, quando vissem os jogadores encarnados, Pedro Martins volta a ter exatamente o mesmo cenário a nível de colocação de falanges de apoio. Pode seguir esse caminho, pode simplesmente ignorá-lo. O que mudou? O contexto.

É que, em 2013, as águias vinham de uma ponta final de época desastrada que lhes custou o Campeonato e a Liga Europa. A Taça de Portugal era assim uma espécie de tábua de salvação. Não era mais um troféu, era “o” troféu que poderia limpar as duas semanas anteriores. Agora não: o Benfica está fortíssimo, muito motivado com a vitória na Primeira Liga que valeu o histórico tetra e são os próprios responsáveis que tentam acalmar os adeptos para nunca se perder a humildade. Mas quando se fala em tetra, surge a palavra penta. E se falamos de 36, escreve-se rumo ao 37. E o adversário pode aproveitar essa onda, tal como o V. Setúbal de José Rachão conseguiu fazer em 2005.

HUGO AMARAL/OBSERVADOR

Motivar com vídeos antes do início do jogo? Sim, sempre

“Preparámos um vídeo surpresa para os nossos jogadores com mensagens de ânimo enviadas pelos seus familiares. Montámos um ecrã na cabine, passámos o vídeo, sem eles estarem à espera, minutos antes de entrarem em campo. Os jogadores viram mensagens de apoio e motivação, enviadas com carinho pelos filhos, mulheres, pais, amigos. Claro que a emoção que ali se gerou foi poderosíssima. Alguns jogadores ficaram com lágrimas nos olhos, outros excecionalmente motivados e orgulhosos, mas todos, absolutamente todos, tinham sido tocados por aquela onda de energia. A energia era tanta que se tivéssemos soltado os jogadores para o campo naquele momento provavelmente teriam destroçado o adversário, como touros enraivecidos, de forma pouco racional.”, Rui Vitória em ‘A Arte da Guerra para Treinadores’

São raras as equipas que não utilizam vídeos motivacionais nas palestras ou nos momentos que antecedem um jogo. E são raros os vídeos que não conseguem mexer com o estado emocional de um grupo. O que varia, isso sim, são as imagens que são apresentadas. Rui Vitória, ao passar testemunhos de familiares e amigos de jogadores, tocou no coração dos jogadores, naquele pedaço mais fundo que fará de nós sempre humanos na era das tecnologias.

Filmes como o Gladiador ou 300 foram utilizados por vários treinadores nacionais e europeus antes de encontros importantes. Depois temos as produções “caseiras”, com montagem de imagens de conquistas anteriores ao longo da temporada ou da festa dos adversários mais diretos para motivar tendo em vista futuros compromissos. Desde que se perceba a sensibilidade do grupo, tudo serve, tudo funciona, tudo acaba por dar um “reforço” extra. E nem precisa de ser vídeo: um treinador dos grandes puxava pelos jogadores colando recortes de jornais pelo balneário.

No caso do V. Guimarães, existe um elo de ligação que mais nenhuma equipa fora grandes tem tão vincada – a proximidade com os adeptos. Um exemplo paradigmático: na última jornada da Primeira Liga, mesmo após perderem com o Feirense por 1-0, os jogadores e restante estrutura juntaram-se em frente ao topo onde se colocam as claques vimaranenses para uma saudação semelhante com a que os atletas da Islândia faziam no Europeu.

A simbologia da Taça para o V. Guimarães? Sim, mas “retocado”

“Era a primeira vez em 90 anos e seis finais que o V. Guimarães chegava à final da Taça de Portugal com possibilidade de ganhar. Não sabíamos quando voltaríamos a ter uma ocasião semelhante. Não sabíamos se iríamos chegar a outra final. Portanto, era uma oportunidade de ouro, um momento único que devíamos desfrutar a cada segundo, e que era nossa obrigação agarrar com unhas e dentes. Foi assim que olhámos para o jogo.”, Rui Vitória em ‘A Arte da Guerra para Treinadores’

Rui Vitória jogou as fichas todas num ponto fundamental para alavancar a ambição de uma equipa: atingir aquilo que mais nenhum jogador, treinador ou presidente tinham alcançado pelo V. Guimarães. E conseguiu. A esse propósito, digamos que esgotou o stock. Mas há outras formas de abordar o mesmo ponto por diferentes ângulos.

Vejamos. Sabe quantos jogadores conquistaram já a Taça de Portugal pelos vimaranenses? Um, Douglas. Ainda se recorda da forma como a equipa chegou à final? A perder 3-1 em Chaves na segunda mão, com o guarda-redes brasileiro a defender um penálti num dos últimos lances do encontro. Sabe quantas épocas o clube teve melhores do que esta a nível de Primeira Liga? Quatro, quando ficou na terceira posição em 1969, 1987, 1998 e 2008. E em nenhuma delas conseguiu chegar ao palco mais emblemático do futebol nacional.

Mas existem mais pontos para abordar a importância da conquista da Taça de Portugal pelo V. Guimarães. A começar, por exemplo, pelo projeto iniciado por Júlio Mendes, que foi recuperando o clube com o máximo rigor financeiro até ter a estabilidade necessária para poder ir formando grupos melhores. Depois, os minhotos passariam a ser a única formação extra grandes a vencer duas vezes a competição no século XXI. Por fim, e como as rivalidades acabam sempre por contar, o triunfo permitiria igualar os troféus do Sp. Braga, passando então a ficar apenas atrás de Benfica (25), FC Porto (16), Sporting (16), Boavista (cinco), Belenenses (três) e V. Setúbal (três).

FRANCISCO LEONG/AFP/Getty Images

Preparar o jogo em todos os cenários possíveis? Sim, claro

“Feito o enquadramento estratégico, demos início à preparação da final. E foi aí, antevendo os cenários que poderiam apresentar-se, que se começou a ganhar: contexto de vitória, possibilidade de estar a perder, eventualidade de estar a jogar com menos um jogador. Foram seis soluções muito claras para aquilo que o jogo viesse a dar. Optámos por abrir totalmente o jogo e preparar a equipa para esses possíveis cenários. Acho que foi um dos aspetos mais importantes desta vitória. Uma equipa poderá seguir mais tranquilamente em frente, mesmo em desvantagem, se tiver presente que essa era uma das hipóteses plausíveis e que, ainda assim, fazendo o seu jogo, mantendo o seu rumo, é possível dar a volta ao resultado e ganhar.”, Rui Vitória em ‘A Arte da Guerra para Treinadores’

É uma das coisas mais “normais” num intervalo de uma partida de futebol ao intervalo: se uma equipa estiver a perder por 1-0 ou 2-0, o treinador aproxima-se do quadro e desenha novos sistemas e até modelos de jogo para, caso a equipa não consiga empatar ou reduzir a desvantagem, arriscar um pouco mais de outra forma. De quando em vez ainda vemos aqueles papelinhos que andam de mão em mão até que todos percebam onde têm de estar, mas nestes casos bastam umas sinaléticas do elemento acabado de entrar para todos saberem a mensagem.

Quando Rui Vitória preparou a final com o Benfica em 2013, admitiu seis cenários possíveis, incluindo um que colocava o V. Guimarães a perder. O que aconteceu, até Soudani e Ricardo virarem o jogo em dois minutos. No entender do técnico, porque os jogadores estavam cientes da possibilidade de poderem começar atrás.

O recente encontro na Luz entre Benfica e V. Guimarães, que valeu o tetracampeonato aos encarnados, é um bom exemplo disso mesmo: após sofrerem o primeiro golo muito cedo, os minhotos “partiram-se” em termos defensivos, abrindo autênticas autoestradas que os visitados aproveitaram da melhor forma. Mentalmente, não houve força para reagir à adversidade; taticamente, não houve destreza para reposicionar peças sem mexer no xadrez. Num jogo de tensão (positiva) máxima, e com níveis de intensidade altos, prever tudo é o princípio para não acabar sem nada.

https://www.youtube.com/watch?v=3JlVnmUuAp8

Repetir o discurso ao intervalo para os jogadores? Não, nunca

“Senti que eles não sabiam bem a que nível tinham estado. ‘Se tínhamos feito aquilo que estava combinado como estamos a perder?’ Foi isto que passou pela cabeça de muitos deles. Comecei por dar feedback no sentido de os situar em termos de rendimento. Tinham feito o que lhes tinha pedido, por isso, se estivessem tranquilos não haveria muito a apontar. Em seguida, disse-lhes que para aquela segunda parte só exigiria que continuassem a fazer o mesmo. Não era nada que não tivéssemos abordado, logo, havia que continuar porque ia tudo dar certo. Além disso eles sabiam que ainda havia ‘cartadas para jogar'”, Rui Vitória em ‘A Arte da Guerra para Treinadores’

A forma como Gaitán inaugurou o marcador na final da Taça de 2013 jogou muito a favor do técnico do V. Guimarães, Rui Vitória. E porquê? Porque se não fosse uma bola que bateu no argentino e se encaminhou para a baliza e os encarnados nem tinham criado assim tanto perigo que justificasse outro resultado que não o 0-0.

Ainda assim, cair na previsibilidade num discurso ao intervalo para os próprios jogadores é meio caminho andado para não conseguir mudar nada nesses menos de 15 minutos. E não há espaço para ensaios, é tudo de improviso. Às vezes, como já aconteceu, o silêncio é a palestra mais ensurdecedora nos ouvidos de um grupo de trabalho.

Na presente temporada, Pedro Martins tem conseguido melhorar as coisas ao intervalo nos jogos contra os grandes: arrancou dois empates com o Sporting (3-3, após ter estado a perder 3-0, e 1-1) e perdeu com Benfica e FC Porto tendo na etapa complementar o melhor período no encontro. Após sete vitórias consecutivas no Campeonato, que terminaram com os desaires frente a Benfica e Feirense, percebeu-se que a cabeça dos vimaranenses já estava focada na final da Taça de Portugal. E o técnico dos minhotos deverá ter material para, em caso de triunfo, fazer o seu livro.

OCTAVIO PASSOS/LUSA

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