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FMI. Os "candidatos a candidato" que vão a votos sem Mário Centeno /premium

Centeno esteve na "shortlist", mas disse que (afinal) não vai a votos esta sexta-feira. Reserva, ainda assim, margem para ser um candidato de consenso. Para já, ficam na corrida outros quatro nomes.

Já ninguém arrisca dizer quanto tempo mais vai durar o impasse europeu para a escolha de um candidato à liderança do FMI. Pode estar por horas, ou não. Depois de ter falhado um acordo para apresentar um candidato único — e ao contrário do que se passou com a escolha de Christine Lagarde —, a União Europeia segue esta sexta-feira a via da votação, quando forem 7:00 em Lisboa. Mas já sem Mário Centeno, um dos nomes que tinha vindo a ser apontado.

Não só esteve na shortlist, como na tarde de quinta-feira, segundo a AFP, confirmou a sua intenção de ser um dos nomes a considerar. O ministro das Finanças português e presidente do Eurogrupo afastou-se do processo de votação porque, como explicou no Twitter, “quer ajudar a que exista um consenso”. Mas já lá vamos.

Os Estados-membros da UE querem fixar um nome consensual, como lembrou na quinta-feira o Financial Times, porque se apresentarem mais do que um nome arriscam-se a que os países emergentes tentem encontrar uma solução fora da Europa, rompendo com uma tradição inquebrável desde que as instituições de Bretton Woods foram criadas no pós-Segunda Guerra: ao FMI pertence uma liderança europeia, ao Banco Mundial um americano (que já foi escolhido em abril).

Os votos de cada ministro das Finanças (ou da Economia, conforme a designação que adota cada país) seguem por email na manhã de sexta-feira e vão permitir eleger o candidato se conseguirem atingir uma maioria qualificada — que na versão europeia significa uma aritmética que cruza 55% dos Estados e 65% da população europeia. Caso não resulte à primeira, seguem-se rondas adicionais. O FT admite que após a primeira ronda, passem à fase decisiva os dois candidatos mais votados. Seria então um despique a dois.

Centeno diz que não desiste de ser candidato ao FMI. Mas não vai a votos sexta-feira

Mário Centeno está, portanto, fora da votação. Mas não da corrida ao FMI. O ministro português entende que a votação de sexta-feira “não contribui para encontrar um consenso”. Se não sair uma maioria qualificada, a UE tem de decidir o que quer fazer: ou os ministros europeus avançam para uma nova ronda – eventualmente noutros moldes – ou regressam à escolha do nome com uma solução negociada, caso em que Mário Centeno poderia estar disponível para aceitar a nomeação europeia.

Para já, e salvo alterações ou revelações de última hora, são candidatos esta sexta-feira Nadia Calviño (ministra da Economia espanhola), Jeroen Dijsselbloem (ex-ministro das Finanças da Holanda e ex-presidente do Eurogrupo), a búlgara Kristalina Georgieva (diretora executiva no Banco Mundial) e Olli Rehn (governador do Banco da Finlândia).

De acordo com o FT, o objetivo de França ao propor uma votação formal aos cinco candidatos seria a de fazer desistir algum ou alguns deles. Numa primeira fase tal não aconteceu, mas exatamente às 20h01 (hora de Lisboa) Centeno saiu das votações, mantendo, no entanto, espaço para outros formatos de escolha. Quem são, de onde vêm e qual o percurso dos candidatos que ainda podem ir a votos?

Jeroen Dijsselbloem

o controverso holandês que ofendeu os países do Sul

A seguir a Mário Centeno, é provavelmente o candidato mais conhecido dos portugueses, embora não necessariamente pelas melhores razões. O holandês Jeroen Dijsselbloem coordenou os ministros das Finanças europeus na segunda fase da crise das dívidas soberanas e ficaria conhecido sobretudo pela célebre frase sobre mulheres e álcool.

AFP/Getty Images

“Como social-democrata, considero a solidariedade um valor extremamente importante, mas também temos obrigações. Não se pode gastar todo o dinheiro em mulheres e álcool e, depois, pedir ajuda“, atirou o então presidente do Eurogrupo, em entrevista a um jornal alemão, numa possível alusão aos países do sul da Europa  que foram alvo de resgates por parte da UE, do FMI e do BCE.

Por essa razão, seria confrontado no Parlamento Europeu por alguns eurodeputados, que consideraram as declarações insultuosas, infelizes e mal-educadas. Mas Dijsselbloem recusou que fosse dirigido aos países do Sul, negou que fosse um insulto e, por isso, garantiu que não pediria desculpa.

“Não é suposto ficarem ofendidos”, disse Dijsselbloem, porque “não foi uma declaração sobre um qualquer país, mas sobre todos os países”. Recordou, aliás, que “a Holanda também falhou com o cumprimento das regras” orçamentais europeias.

“Não se pode gastar em mulheres e álcool e, depois, pedir ajuda”, diz presidente do Eurogrupo

Este episódio não favorece Dijsselbloem na corrida ao FMI, mas, aos 53 anos — talvez por ter o apoio da Alemanha — o candidato ainda era visto até há pouco tempo como um dos favoritos. O jornal americano Politico garantiu, no entanto, há cerca de 15 dias, que o antigo ministro perdeu terreno, depois de conversas informais de ministros das finanças e governadores de bancos centrais do G7 (que junta os países mais ricos do mundo). O Politico garantia então que Itália e Reino Unido estavam entre os países que o descartavam. E o Financial Times acrescenta que os países do Sul, incluindo Portugal e Espanha, nunca o aceitariam. O responsável holandês, segundo o jornal britânico, ainda tentou, fazendo esta semana um périplo por Madrid e Atenas.

Dijsselbloem foi deputado holandês durante mais de uma década, de 2000 a 2012, pelo Partido Trabalhista, tornando-se de seguida ministro das Finanças, até 2017. A partir de 2013, sucedeu a Jean-Claude Juncker como presidente do Eurogrupo, coordenando em plena crise as vontades dos ministros das Finanças da zona Euro.

A frase sobre mulheres e copos não favorece Dijsselbloem na corrida ao FMI, mas, aos 53 anos — talvez por ter o apoio da Alemanha — ainda era visto até há pouco tempo como um dos favoritos.

Para memória futura ficaram os acordos de resgate financeiro ao Chipre (2013) e à Grécia (o terceiro, em 2015, depois de meses de difíceis negociações com o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras). Mas Dijsselbloem também coordenou esforços na implementação da união bancária, que ainda está por completar. Um percurso que, segundo a agência Bloomberg, lhe garante créditos junto de vários responsáveis europeus.

Desde que o mandato terminou à frente do Eurogrupo (em janeiro de 2018, meses depois de ter saído do governo holandês), Dijsselbloem abandonou os grandes palcos. Em maio, tornou-se presidente de uma organização holandesa que investiga acidentes industriais (por exemplo, a queda do avião MH17, que foi abatido em 2014, na Ucrânia, matando mais de 300 pessoas).

Olli Rehn

o “terror” dos resgates

O perfil é discreto, mas a experiência europeia de Olli Rehn ao mais alto nível remonta já a 2004. Primeiro, foi comissário europeu para o Alargamento na UE, durante seis anos, até 2010 — supervisionando a entrada a Leste de 10 países de uma assentada, em 2004, e de outros dois em 2017.

OLIVIER HOSLET/EPA

No entanto, o cargo em que mais se notabilizou foi, logo de seguida, na pasta dos Assuntos Económicos e Monetários da Comissão de Durão Barroso. Nos momentos mais delicados da história da zona Euro — a crise que levou aos resgates financeiros da Troika — Olli Rehn foi um dos mais ferozes defensores da austeridade aplicada em Portugal, Grécia, Irlanda e Espanha. Aliás, o então comissário europeu chegou a sugerir o resgate a Teixeira dos Santos no verão de 2010, um antes da entrada da Troika, que juntou a Comissão Europeia ao Fundo Monetário Internacional e ao Banco Central Europeu.

Tamanho era o poder de Oli Rehn durante os resgates que, em 2013, o Nobel da Economia Paul Krugman usava um trocadilho para descrever um “Rehn of Terror”. Depois de a Comissão Europeia ter apresentado projeções económicas em que os países do sul da Europa, alvo de austeridade, viam agravadas as perspetivas de recessão — mais profunda e mais prolongada —, Krugman criticou o então comissário para os Assuntos Económicos e Monetários por argumentar que a consolidação orçamental tinha permitido restaurar a confiança dos mercados. Olli Rehn defendeu-se, acusando Krugman de deturpar o que tinha dito e de negar as evidências. E o Nobel ripostou de forma ainda mais violenta, escrevendo no New York Times sobre “as baratas da Comissão Europeia” —em que “ideias-barata” são um “equívoco com base no desconhecimento dos factos” que “tentamos afastar, mas que continuam a regressar”.

Tamanho era o poder de Oli Rehn durante os resgates que, em 2013, o Nobel da Economia Paul Krugman usava um trocadilho para descrever um “Rehn of Terror”

O responsável finlandês manteve-se fiel às suas ideias até ao fim, mesmo já depois de, em maio de 2014, Pedro Passos Coelho ter anunciado a saída limpa do resgate financeiro. Em junho desse ano,  Olli Rehn dizia ter “grande admiração pelas decisões difíceis que tiveram de ser tomadas, e pelos esforços feitos pelo povo português” desde 2011, mas avisava que “segurar e desenvolver estes feitos continuará a envolver decisões duras”.

Depois de sair da Comissão, Olli Rehn ainda passou pelo Parlamento Europeu (2014-2015) e teve a pasta da Economia no governo finlandês (2015-2016), antes de ser escolhido para governador do Banco da Finlândia, em 2016, cargo que ainda ocupa.

Nadia Calviño

a eurocrata que corre por fora

De todos os nomes na “shortlist” europeia, o de Nadia Calviño é aquele que mais facilmente aparece posto de parte para a escolha final. É um facto: de todos os “candidatos a candidato”, a ministra (em gestão) da Economia e Empresas de Espanha é a mais “low profile”. Não é incomum que a imprensa portuguesa a trate quase exclusivamente como ministra do governo PSOE de Pedro Sánchez. Mas Nadia Calviño (Corunha, 1968) tem um percurso académico e profissional (incluindo 12 anos nas instituições comunitárias) que vai muito além da passagem pelos conselhos de ministros em Madrid. Aliás, a designação “Ministra da Economia e Empresas” pode ser enganadora, já que é Calviño quem representa Espanha no Ecofin e no Eurogrupo e não a ministra das Finanças (Hacienda) espanhola, María Jesús Montero.

JULIEN WARNAND/EPA

Aliás, é ao trabalho que realizou em Bruxelas que mais a associam, graças às passagens pela Direção-Geral de Concorrência (onde foi subdiretora-geral entre 2006 e 2010) e pela Direção-Geral do Mercado Interno (também como subdiretora-geral). Durante o período da crise contribuiu para a elaboração de algumas das mais importantes normas para o setor bancário, escreve o El Español num perfil acerca da ministra da Economia espanhola.

O britânico Jonathan Faull, antigo número um de Calviño na Direção-Geral do Mercado Interno, sintetizou ao mesmo jornal a postura da espanhola: “É minuciosa, sabe escolher bem os seus colaboradores e dá-lhes margem de atuação. Além disso, assume sempre a responsabilidade última pelas suas decisões”.

Em maio de 2014 ascendeu ao cargo de Diretora-Geral do Orçamento da Comissão Europeia, que trata da programação financeira, orçamentos anuais e que fiscaliza o cumprimento das regras orçamentais europeias por parte dos Estado-membros.

Calviño tornou-se, assim, uma das espanholas de maior peso em Bruxelas. Foi por isso que o PSOE a foi buscar para ministra da Economia e Empresas em junho de 2018, na sequência da vitória sem maioria de Pedro Sánchez nas legislativas do país vizinho. E também por causa do seu pai, José María Calviño, um homem da velha guarda do PSOE, antigo diretor-geral da TVE, a televisão estatal espanhola nos tempos de Felipe González, e que foi chamado por Sánchez a conselheiro quando os socialistas estavam em guerra interna, em 2016.

França dá ao Reino Unido possibilidade de apresentar um candidato ao FMI

“Foi o PSOE que a ‘contratou’, mas ela, pelo menos em termos económicos, é mais liberal do que socialista”, indicou ao El Español um funcionário comunitário que trabalhou com Nadia Calviño. Não admira, por isso, que o Ciudadanos (centro-direita liberal) tenha tentado contar com ela. Até a propuseram para ser a governadora do Banco de Espanha.

Mesmo antes de seguir para Bruxelas, já depois de se casar (e agora com quatro filhos), Nadia Calviño tinha carreira nas instituições espanholas. Trabalhou no ministério da Economia e Finanças em 2004, com Pedro Solbes. Chegou a ser Diretora-Geral da Comissão Nacional de Concorrência de Espanha, entre 2004 e 2006. E eventualmente tem uma vantagem sobre os restantes candidatos, uma formação académica em duas áreas importantes no FMI: Ciências Económicas (licenciatura na Universidade Complutense de Madrid) e Direito (na UNED). O seu trajeto nas instituições europeias habilitaram-na a trabalhar em inglês e francês, além de ter um nível intermédio em alemão.

De todos os nomes na “shortlist” europeia, o de Nadia Calviño é aquele que mais facilmente aparece posto de parte para a escolha final.

Anthony Gardner, embaixador dos Estados Unidos junto da UE durante a administração Obama, “pinta” Nadia Calviño como uma mulher muito respeitada nas instituições em Bruxelas, “que conhece na perfeição”. E um outro funcionário europeu, também citado pelo jornal, deixa um aviso: as boas maneiras e o sorriso não rimam com fraqueza ou ingenuidade. “Depois é dura nas negociações, ao ponto de se tornar inflexível, mas sempre simpática. É uma mulher de poder, ambiciosa”.

Em maio, antes das eleições espanholas (que deram novamente a vitória ao PSOE, novamente sem maioria para formar governo com facilidade) Nadia Calviño foi nomeada presidente da Junta de Governadores do Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento (o BERD) durante o próximo ano, que acumula com o cargo de ministra (agora em gestão).

Kristalina Georgieva

a predileta de Paris

Número dois do Banco Mundial, onde desempenha a função de diretora-executiva desde 2017, a candidata búlgara tem a seu favor muitos e fortes argumentos, mas também um dos principais óbices: as regras do próprio FMI.

Vamos por partes. A carreira de Kristalina Georgieva (Sofia, 1953) mostra um longo percurso no Banco Mundial, para o qual entrou em 1993 como Economista Ambiental, tornando-se depois diretora para o Desenvolvimento Social e Ambiental da Ásia e da Região do Pacifico e mais tarde diretora com o pelouro da estratégia e políticas ambientais. Em 2004 foi nomeada para diretora para a Federação Russa, ficando baseada em Moscovo.

AFP/Getty Images

Mas foi no período entre 2007 e 2008 que Georgieva assumiu uma posição de maior destaque no Banco Mundial. Como diretora do Desenvolvimento Sustentável ficou como responsável última das políticas e operações de empréstimo para infraestruturas, desenvolvimento urbano e agricultura. Ou seja, supervisiona cerca de 60% de todas as operações de empréstimo do Banco Mundial. A partir daí foi apenas um pequeno passo até ao topo: vice-presidente entre 2008 e 2010 e secretária corporativa, servindo de interlocutora entre a gestão do Banco Mundial, o Conselho de Administração e os países “shareholders”. É apontada como uma das personalidades chave nas reformas de governance do Banco Mundial na sequência da crise financeira de 2008.

Em 2010 entrou nos palcos principais das instituições europeias. Primeiro como Comissária para a Cooperação Internacional e depois na pasta da Ajuda Humanitária e Resposta às Crises, no consulado de Durão Barroso à frente da Comissão. A partir de 2014, já com Jean-Claude Juncker a liderar os destinos do executivo comunitário, Kristalina Georgieva ascendeu a vice-presidente, com o pelouro do Orçamento e dos Recursos Humanos. Ou seja, era responsável pelo orçamento europeu (de 161 mil milhões de euros) e pelos 33 mil funcionários comunitários espalhados por todo o mundo.

Percurso não lhe falta. Também não lhe parece faltar apoio, ainda que não oficial. Segundo a imprensa especializada europeia e norte-americana, do país que tem coordenado os esforços para que a União Europeia apresente um nome consensual e forte à votação no FMI: França. Paris parece apostar na cartada geográfica: Georgieva provém da Europa de Leste, relativamente neutra face à guerra surda entre o Norte da Europa (que quer Djilsselbloem ou Rehn) e o Sul (que rejeita qualquer um deles).

A candidata búlgara tem a seu favor muitos e fortes argumentos, mas também um dos principais óbices: as regras do próprio FMI.

O Leste da Europa também ficou de fora da recente partilha dos principais cargos comunitários. Os países fundadores da UE dividiram entre eles o BCE (Christine Lagarde, França); a presidência da Comissão Europeia (Ursula von der Leyen, Alemanha), a presidência do Conselho Europeu (Charles Michel, Bélgica) e a presidência do Parlamento Europeu (David Sassoli, Itália, na primeira fase, e o alemão Manfred Weber no final da legislatura).

Doutorada em Ciências Económicas e com um mestrado em Economia Política e Sociologia, Kristalina tem contra si a idade. A 13 de agosto completa 66 anos. As regras do FMI são claras: à altura da entrada em funções um diretor-geral do FMI tem de ter menos do que 65 anos. E não pode permanecer em funções para lá dos 70. Ou seja, as regras e os estatutos do FMI teriam de mudar para que Georgieva (que chegou a concorrer (perdendo) contra António Guterres no cargo de secretária-geral da ONU) ascendesse à liderança do fundo.

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